segunda-feira, 25 de junho de 2018

Agora você entende o que é ser pai

Aos cinco anos eu era uma criança ingênua, assim como todas as crianças dessa idade devem ser. Via meu pai como um verdadeiro herói. Certa vez eu o ouvi dizer que havia consertado algo em um trator que tínhamos, acho que no motor. Não entendia como as coisas funcionavam, mas percebi que ele precisava vendê-lo. No dia seguinte, um homem veio comprar o trator. Como eu sempre vivia “colado” ao meu pai, acompanhei de perto a negociação. Em certo momento, ouvi meu pai dizendo: “O trator está bom, o motor é novinho”. Aquela frase me deixou encabulado, pois tive a impressão de que meu pai estava faltando com a verdade. “Uai, papai, o senhor não havia dito que o motor do trator estava fundido?” Então ele me lançou um olhar de ódio, como nunca havia me lançado. “Vai lá ficar com sua mãe”. Obediente, assim o fiz. Pouco tempo depois, enquanto conversava com minha mãe, ele surgiu, com uma corda cheio de nós nas mãos. Aquela surra, que na época eu não levei sem entender o motivo – meu pai sempre foi muito amoroso conosco - deixou marcas bem maiores que os largos vergões nas costas e na bunda. Cresci prometendo a mim mesmo que jamais encostaria um dedo sequer nos meus filhos, julgando desnecessária tamanha violência.

Era um sábado quando Miguel, na praça da cidade, começou a jogar fora os canudinhos da mesa onde sentamos para comer um cachorro quente. Ele os tirava e os jogava, um a um, no cesto de lixo. Ordenei que parasse; ele ignorou. Então abracei-o firmemente pelas costas e, segurando suas mãos, expliquei em seu ouvido as consequências de continuar agindo daquele jeito. Ele prometeu parar se o soltasse. Assim o fiz. Comprei-lhe um saco de batatas fritas e comecei a comer meu lanche. Ele sentou-se de frente para mim, olhou-me, sorriu, jogou o saco de batatas ainda cheio no chão e começou novamente a jogar os canudinhos no lixo. Sem alardes, peguei-o pela mão e imediatamente fomos para casa. Quando chegamos, encostei a porta do quarto e expliquei-lhe o que ele havia feito de errado. Falei-lhe da importância de cumprir o que dizemos que vamos fazer. Então lhe disse que eu havia lhe prometido uma surra se ele não parasse. Antes de iniciar a sessão de palmadas, expliquei-lhe por que estava apanhando. Quando terminei, olhei eu seus olhinhos úmidos em lágrimas e que transpareciam um medo que me era familiar e disse-lhe o quanto o amava. Expliquei-lhe também que se ele me desrespeitasse outra vez, teria que corrigi-lo novamente. Em seguida, segui para um canto da casa e chorei, arrasado. Uma parte de mim parecia ter morrido. Eu havia quebrado a promessa que havia feito a mim mesmo. Não dormi naquela noite. No dia seguinte, quando encontrei meu pai, abracei-o com força. Expliquei-lhe o que havia acontecido. Então ele colocou sua mão sobre meu ombro e disse: “Agora você sente o que eu senti depois de te dar aquela surra. Agora você entendeu o que é ser pai.”

Romantismo: morto ou em estágio terminal?

Cresci ouvindo meu pai narrando as serenatas que ele fazia para as moças que ele paquerava em sua juventude. Ele possuía (na verdade, ainda possui!) uma sonata – uma espécie de toca-discos em miniatura, movido à pilha, que podia ser transportado com facilidade. Ele parava com algum colega dele no portão da casa da “pretendente” – os muros das casas daquela época eram baixos – ligava a sonata e colocava uma música romântica na sonata até que a moça (ou o pai dela!) saísse ao portão ou abrisse a janela. Se a moça aparecesse, ganhava também um botão de rosa, na maioria das vezes surrupiado de algum jardim. Tudo para conquistar o coração da moça pretendida. Segundo ele conta, muitos namoros e casamentos foram iniciados por meio das sonatas daquela época. Quando adolescente, tentei seguir o exemplo de meu pai: escrevia versos apaixonados e os entregava com um botão de rosa para as minhas “pretendentes”. Havia apenas um pequeno detalhe: já haviam se passado mais de 20 anos desde que a sonata de meu pai havia tocado pela última vez na porta da casa de uma adolescente. Sim, os tempos haviam mudado. Eu pertencia a uma geração, mas eu não sabia que caminho seguir – melhor dizendo, eu não conseguia aceitar que eu tivesse que fazer o mesmo que os meus colegas faziam (entenda-se: consumir bebida alcoólica pra “ganhar coragem”!) para conquistar a atenção das moças de minha idade. Talvez na geração de meu pai eu fosse um “bom partido”, um “moço pra casar”, mas na adolescência de minha geração eu era visto apenas como um rapaz tímido e estudioso, escondido atrás de óculos enormes. Nas noites de sábado, com a luz apagada, colocava uma das várias fitas cassete que eu havia gravado da rádio no aparelho de som “três em um” (rádio, toca-fitas e toca-discos), selecionava uma música romântica, deitava no sofá da sala e ali ficava, por horas, com um vazio enorme no peito. Quando meus olhos a avistaram pela primeira vez, em meados dos anos 90, algo em mim mudou instantaneamente. Era como se eu tivesse a certeza de que minha esperava havia terminado. Dos seus olhos e do seu sorriso veio a luz que transformou o jovem tímido naquele rapaz que, inexplicavelmente, fez-te sorrir por horas seguidas. Acabamos nos apaixonando um pelo outro e o resto da história, aos poucos, estou contando para o Miguel. Na época em que ele estiver na adolescência, versos e rosas e a nossa história serão como contos de fadas, muito distantes de sua realidade. Haverá vários aplicativos como Tinder, Snapchat e tantos outros que hoje não apenas encurtam o caminho como também tornam mais superficiais e mais carnais as relações afetivas. Esses aplicativos certamente dificultarão a construção de relacionamentos baseados em sentimentos ao invés de sensações. Se ele vai sucumbir a esses aplicativos e seguir a maioria, sinceramente eu não sei. Mas assim como eu escolhi não beber nada alcoólico pra me sentir mais corajoso, eu espero que ele também faça a escolha correta. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

L.A. goodbye

Quarta-feira, 2 de maio. Estamos sendo atendidos pela Mariana, secretária do fotógrafo Marcelo Oliveira. Aqui viemos para o ensaio do dia das mães. Enquanto Débora concentra-se em escolher as melhores fotos e Miguel e Alice brincam com as bolachinhas no aparador próximo à entrada, ouço uma música no rádio que me chama a atenção. É uma música antiga, aparentemente da década de 70. É uma das boas que eu ainda não tenho. Tento concentrar-me e entender partes da música para, depois, procurar no google, mas o baixo volume não facilita minha tarefa...

Sábado, 5 de maio. Estou em frente ao computador, procurando a música que ouvi três dias atrás. Como farei para descobri-la? “Deve ser do Secret Service”. Como se fosse um sopro divino, busco no google as melhores músicas do Secret Service. Lá encontro a música que procurava: “Oh, Susie”. Satisfeito, procuro por outras canções da banda enquanto baixo esta para o notebook. De repente, meu coração começa a bater mais forte. Encontro uma música que me parece familiar, mas da qual não sentia falta até então. Começo a ouvi-la. Chama-se “L.A. goodbye”. Sinto um aperto no coração. Fecho os olhos. Enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto, vejo-me sentado no degrau da varanda da casa dos meus pais, em novembro de 1982. Mudamo-nos há poucos dias de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra-SP. No rádio da mamãe, onde até poucos dias atrás só ouvia o jumentinho no programa matinal do Zé Betio, ouço uma música em inglês que não sei o que significa. Deito-me no chão vermelho encerado, de barriga para cima, e trago o rádio próximo ao meu ouvido. Olho para o telhado da varanda, com as pernas cruzadas e trago o punho até a testa. Com os olhos rasos em lágrimas, fico lembrando dos anos felizesque vivemos em Quirinópolis. Anos que não voltam mais. A música então termina. Sento-me e olho ao meu redor. Chama a atenção a samambaia no canto da varanda, plantada em uma lata de 20 L que me parece ser de tinta. Há algo escrito nela, mas ainda não sei ler... Passados 36 anos, essa música agora me faz lembrar daquele momento. Talvez eu a ouça daqui a algumas décadas e volte a chorar novamente como agora. Um choro de saudade das pessoas que partiram, dos meus avós paternos, dos meus tios, tios avós... Saudade não do que eu era, mas do que era o mundo naquela época ou, pelo menos, da forma como eu o via. Hoje me sinto próximo do fim de tudo: meus pais envelhecendo, meus avós já velhos, meus filhos crescendo. Em pouco tempo nada restará daqueles anos, apenas lembranças. E com minhas lembranças eu terei que viver sozinho. Se tiver sorte, alguém pode até ouvi-las, mas não mais terei ninguém para compartilhá-las.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Cartas sobre a infância de Miguel e Alice - parte 1

Queridos Miguel e Alice,
Muito em breve vocês serão capazes de ler e entender essas palavras, mas ainda vão levar muito tempo para que vocês entendam a carga de sentimentos que elas carregam. Não é fácil pra mim escrevê-las, não apenas pelo tempo – que hoje se tornou escasso e precioso – mas também porque sempre que escrevo, eu me desfaço em lágrimas.
Ainda carrego comigo as doces lembranças de minha infância em Quirinópolis-GO e várias da época de colégio. Essas lembranças, espero eu, vão acompanhar-me enquanto eu tiver sanidade. É claro que os detalhes vão se apagando com o tempo, e é por isso que tenho urgência em escrever sobre elas e, principalmente, sobre vocês. Minhas lembranças são parte de mim, mas as lembranças sobre esses dias que eu puder registrar aqui são parte da história de vocês. É bem provável que vocês não se lembrem mais delas quando lerem essas palavras, por isso eu tentarei registrar algumas.
Miguel, você é um menino muito calmo, tranquilo e educado. Por causa disso, as pessoas gostam de estar ao seu lado. Ao contrário da maioria dos seus colegas, que são agitados – muitos chegam a parecer hiperativos – você é, como dizemos, “de boa”. Até a idade que você tem hoje, prestes a completar 7 anos, houve muitas fases marcantes e a maioria delas conseguimos registrar em fotos. Mas há outras que não estão nas fotos. Por exemplo, houve uma época em que você guardava “caixinhas”. Sempre que achava uma caixinha, você ficava encantado e levava pra casa. Elas acabaram formando um amontoado de “caixinhas” – algumas nem tão pequenas como o nome sugere – ao lado do guarda-roupas, no quarto que você divide (ainda hoje, mas provavelmente não mais quando ler essas palavras...). Eu me via em você quando fazia isso e nunca o recriminei. Porém, houve um momento em que o volume de caixas tornou-se grande demais para o tamanho do quarto e eu tive, a pedido de sua mãe, que me “desfazer” de várias caixas. No entanto, sempre respeitei o seu espaço – é algo que, espero, você tenha aprendido a fazer também – e tudo o que acabei descartando foi com o seu consentimento. Restou apenas uma caixa, onde deixamos as coisas principais – sua carteira com o seu “dinheirinho”, as calculadoras que você trouxe da casa do vovô Tião, seus adesivos do Pokemon... Enfim, lá deixamos as suas “coisinhas”. Houve também uma fase em que você passou a ficar bastante tempo no escritório, usando o notebook que eu deixei aqui em casa pra você assistir vídeos no Youtube. Aos poucos você “personalizou” também o escritório e trouxe suas “coisinhas”, incluindo dois pintinhos amarelos – segundo você, pai e filho. Houve também uma época em que você se dispôs a desenhar. Criamos então a “caixinha dos desenhos especiais”, onde deixamos guardados os seus desenhos mais bem feitos. Não podemos nos esquecer da fase dos Pokemons. Houve, inclusive, até uma caixa azul que compramos pra você colocar todos os seus Pokemons. Enfim, chegou a fase do vídeo game e agora você passa a maior parte do tempo jogando Lego Movie em seu Playstation 4, que é, nesta data, de última geração. Embora eu não jogue muito este joguinho com você, eu assisti ao filme e conheço todos os personagens. Assim, sempre que chego e você está jogando, solto uma frase do filme – “Cadê minhas caaaaaalças?” ou “Oi, eu sou o Batman” ou, ainda, faço o “rosnado” daquela senhora que cria os gatos. Você solta um sorriso tímido e diz: “Meu Deus do céu...” Mas o que gosto mesmo é de quando jogamos algum jogo que não seja eletrônico, como Combate, Jogo da Vida e Banco Imobiliário – que, aliás, eu costumava jogar na minha infância. No Combate, eu sempre te mostro a minha estratégia pra que você entenda a forma de dispor as peças no tabuleiro. Quero que você entenda e ganhe de mim – eu não me importo; vou é ficar orgulhoso! Já no jogo da vida o que você mais gosta é do momento em que você tem filhos. Você gosta dele e do Banco Imobilário porque neles é preciso manejar dinheiro – algo que, de coração, eu espero que você saiba fazer quando crescer.

Alice, você é uma princesinha incrivelmente irresistível! Sua personalidade é bem diferente da do Miguel. Você é um pouco mais “agitada” que ele, tem uma energia que é admirável. Eu até te apelidei de “Pirulita”. Você é mais falante e desde pequena brinca sozinha com suas bonecas. A primeira fase foi com as bonecas “bebê”. Nesta fase você trouxe da casa da vovó Carminha todas as bonecas que se pareciam com bebês. Então você percebeu que faltava um carrinho para elas. Algum tempo depois, você descobriu que precisava cozinhar para elas, então vieram os fogões, a pia e a geladeira. Por fim, veio a casa inteira, mas não uma casa de bonecas. Você passou a adorar as bonecas Polly e a dedicar horas na varanda brincando com suas Polly. Por fim, vieram as bonecas LoL, que apensar de pequenas, custam um dinheiro considerável. Durante um bom tempo você tomava banho na banheira com suas bonecas “sereias” e outro monte de bonecas. Mas a banheira passou a ocupar muito espaço e acabamos tendo que tirar a banheira de lá. Assim como fiz com o Miguel, eu fiz a retirada de suas “coisinhas” do banheiro com o seu consentimento. Quanto aos desenhos, você entrou na fase de desenhar coisas. Por mais simples que sejam, eu também adoro guarda-las na caixinha de desenhos especiais. Quando eu te disse que guardamos esses desenhos para o papai se lembrar de vocês quando estiver velhinho, você respondeu: “Então eu vou fazer muitos desenhos pra o senhor sentir muita saudade de mim”. E com certeza sentirei.
Vocês são, simplesmente, demais! Já sinto muita saudade de vocês e sentirei ainda mais à medida que o tempo for passando. Por mais estranho que isso pareça agora, eu acredito que vocês também sentirão saudade de mim. Penso assim porque eu sinto uma saudade enorme do vovô, da época em que eu era criança lá e passava o dia todo com ele. Choro quando penso que aquele vovô, jovem e forte, só existe nas minhas lembranças. Olha que ironia do destino: quando vocês lerem e entenderem essas palavras, o papai que as escreveu só existirá nas lembranças de vocês. Quando olharem para o lado e tiverem a sorte de lá encontrarem, verão que envelheci e, então, entenderão a saudade que sinto do meu "papai"... 
Por falar em vovô Altair, esta semana foi bem difícil para mim, pois tive a certeza de que o peso dos anos está sendo fatal sobre ele. Eu e a madrinha compramos um aparelho para converter a TV LCD em SmarTV. Seu vovô clicou em um botão que fez com que tudo desaparecesse. Consegui contornar, mas seu vovô ficou nervoso. Aí percebi que ele está velhinho e cansado. Está chegando a hora de eu retribuir, de fato, tudo o que ele fez por mim. Eu espero que vocês, caso seja necessário, façam o mesmo por mim e pela sua mamãe. Vocês não ganharão absolutamente nada por isso! Pelo contrário: vocês estarão pagando uma dívida de gratidão. É o que estou tentando fazer. 
Já é quase meia noite. Agora preciso dormir. Miguel está no sofá; até agora há pouco vou levá-lo pra cama. Alice está na casa do vovó. Quis dormir lá hoje com seu "look" roqueira-metaleira. 
Amo muito vocês!
Com muito amor,
Papai

domingo, 11 de março de 2018

Dia das mulheres 1988 versus 2018

8 de março de 1988. São 17 h. A aula de Educação Física terminou agora há pouco e estou chegando em casa. Meu short azul e minha camisa branca do uniforme estão banhados em suor. Meu ki-chute está repleto dos “timbetes” da grama onde jogamos “bola”. O céu está nublado, mas sei que não vai chover, pois não há nuvens cinzentas. Quando chego ao alpendre, dois cheiros me chamam a atenção: o da cera que a mamãe passou no chão da sala e o aroma delicioso do pão que ela acabou de tirar do forno. Mamãe está com um pano de pratos sobre o ombro, e com eles limpa o suor da testa. “Oi, filho! Pode ir tomar banho, sua roupa já está no banheiro”, diz ela, visivelmente exausta. “Não vai fazer xixi fora do vaso, hein! Eu acabei de lavar o banheiro!”

8 de março de 2018. Após 30 anos, ainda posso reviver esta cena sempre que fecho os olhos. Ao abri-los, via de regra, estão cheios de lágrimas. Mais que uma doce lembrança da infância, esta cena traz também um retrato da mulher daquela época, que se dedicava exclusivamente aos papéis de mãe e de esposa-dona de casa. Ao longo das três décadas que se passaram, o perfil da mulher mudou radicalmente. A mulher “dona de casa“ ganhou independência e tornou-se multitarefas. Hoje tem que conciliar o papel de mãe e de esposa com o mercado de trabalho, onde conquistou seu espaço com muita luta. Elas são mais vaidosas, mais elegantes, são mais instruídas, possuem perfis em redes sociais. Além disso, cuidam dos filhos, ajudam-nos nas tarefas da escola e os levam aos diversos compromissos (inglês, natação, música, futebol, judô etc.). Além disso, cozinham, fazem faxina, lavam e passam roupas. E, pasmem, conciliam tudo isso com o trabalho, que consomem a maior parte de seu tempo e, principalmente, de suas energias. Hoje em dia, muitas mulheres são tão “aguerridas” que acabam renunciando ao papel de mãe para se dedicarem à carreira. Algumas, inclusive, renunciam até ao papel de esposa. É inegável que a mulher de hoje é muito mais dinâmica e arrojada que a de 30 anos atrás. São dignas de respeito e admiração por tudo o que são e por serem tantas mulheres em uma só. Mas é realmente uma pena que as lembranças do cheiro de pães saindo do forno estejam se tornando ultrapassadas. 

sábado, 3 de março de 2018

Minhas lembranças da infância e eu...


Às vezes, quando fecho os olhos, ainda me sinto na cozinha da casa de chão de tijolos onde morávamos em Qurinópolis-GO. Sinto o cheiro dos pães que a mamãe colocou para assar no forno. À esquerda, avisto a dispensa, com a enorme bacia de alumínio onde tomamos banho. À esquerda está a varanda, onde, debaixo do banco, repousa o meu cachorro Branco. Dou meia volta, subo o degrau e ganho a sala. Lá está a pequena televisão branca, que funciona à bateria, mas nunca capturou sinal de nenhum canal. À direita, o quarto onde dormirmos – papai, mamãe, minha irmãzinha e eu. À esquerda, o quarto de hóspedes (que nunca aparecem, pois raramente recebemos visitas!), onde a mamãe costura em sua máquina e onde passo boa parte do tempo, escondido debaixo da bancada de sua máquina. É como se eu ainda tivesse quatro anos e aguardasse ansiosamente o pôr do sol para, depois de tomar banho, ir correndo abrir a porteira para o papai, que chegava da roça de trator, e abraça-lo. Não era uma vida fácil para meus pais. Minha mãe tinha que tirar água da cisterna para tomarmos banho. Papai trabalhava em meio à poeira e, por sofrer de rinite alérgica, vivia à base de remédios que o fizeram engordar. À noite, quando escurecia, dependíamos de lamparinas e de lampião. Tudo ficava escuro! Ouvíamos apenas o barulho dos morcegos se ajeitando nos caibros do telhado. Não tinha crianças pra eu brincar, mas eu tinha o quintal, as bananeiras, as plantações de milho por onde eu andava tranquilamente sentindo-me como um “gigante”. Havia a barraca de lona que o papai construiu para mim e as bananeiras, onde eu me escondia enquanto brincava de “guerrinha” com um inimigo que só existia em minha imaginação. Isso sem falar do meu trator e dos vários caminhões de madeira que o vovô Mila construiu pra mim. Por que as lembranças daquele lugar onde vivi até os cinco anos parecem estar tão vivas e tantas outras, mais recentes e não menos especiais, parecem ter sido apagadas? Não é que essas lembranças me incomodem; é que tê-las comigo e saber que vivi aqueles anos tão especiais me encantam e me fazem ter uma gratidão para com meus pais, em cujos braços eu encontrava o lugar mais seguro do mundo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Vida após a morte (?)

     Existem pessoas que não creem em vida após a morte. Não acreditam na existência de deuses, anjos, santos, espíritos e entidades, muito menos em ressurreição ou reencarnação. Estão convictas de que tudo se acaba quando morremos e que o que vemos e tocamos enquanto estamos "vivos" é só o que existe. Para essas pessoas, não existem outras dimensões, pois estas não podem ser detectadas por nenhum de nossos cinco sentidos. Há uma razão bem simples para isso: os homens entendem mais da morte – há inúmeras evidências físicas, como a parada do batimento cardíaco e a falência dos órgãos - do que da vida (De onde viemos? Como se originou o big bang? E por que estamos aqui?). Sabem como causar a morte de várias formas, mas sabem muito pouco como gerar a vida e muito menos como vive-la. Como então acreditar que existe “algo” após o fim? Talvez a morte seja, por si só, a maior prova de que estamos todos equivocados ao nos limitarmos ao universo físico. Ao fechar os olhos, podemos sentir o cheiro daquele ente querido que já partiu, ou mesmo o calor do seu abraço nos envolvendo. É possível ouvir a voz ou a gargalhada daquele seu tio querido, sentir o cheiro da comida na cozinha sendo preparada por aquela tia querida, o beijo molhado de sua avó ou até a tosse de seu avô enquanto fuma seu cigarro. E é praticamente impossível não se alegrar por ter vivido bons momentos com eles ou não se entristecer por não tê-los aproveitado o suficiente. Em ambos os casos, é difícil segurar as lágrimas. Como explicar este "fenômeno"? São apenas memórias que ficam gravadas no seu subconsciente? É uma reação involuntária do corpo para simular uma situação de conforto? Infelizmente não tenho uma resposta que seja a prova irrefutável para aqueles que não acreditam. Eu apenas sinto que aqueles que partiram estarão sempre próximos e vivos em minhas lembranças, provocando em mim uma saudade intensa demais para qualquer ciência tentar explicar...


domingo, 17 de setembro de 2017

Uma razão para (alguém) continuar

No início deste mês retornei às quadras, não mais para o querido futsal, mas para o voleibol, que eu havia abandonado no final da puberdade. Passei a fazer parte de uma turma bastante heterogênea, em que alguns jogam muito bem e outros são iniciantes. O que sempre apreciei nos esportes coletivos são as amizades que acabam se construindo, e independente do meu desempenho em quadra, creio que tenho me saído bem neste “fundamento”. Durante a semana, nos treinos na academia, um jovem rapaz da turma sempre vinha me cumprimentar. Em todas as ocasiões, ele insistia que não ia aparecer mais nos treinos porque jogava “muito mal”. Para motivá-lo, expliquei-lhe que alguns eram realmente mais experientes, mas que estávamos todos no mesmo barco. Pois bem. Na última sexta-feira acabei-me acidentando nos treinos na quadra durante uma queda e meu ombro deslocou-se. Há tempos não sentia uma dor tão terrível! Fiquei caído no chão, gemendo, com meu ombro fora do lugar. Senti então alguém me posicionando com as costas no chão e me pedindo para esticar o braço. “Ele é bombeiro civil, confie nele!”, disse um colega. De repente, meu ombro retornou à sua posição de origem e, do nada, a dor se foi. Quando olhei o anjo de guarda que havia me ajudado, eis a surpresa: ali estava o jovem rapaz que tanto insisti para vir jogar conosco...