sábado, 5 de agosto de 2017

Saudade do papai

Tenho andado muito reflexivo nas últimas duas semanas. Tudo começou quando o pai de um grande amigo meu faleceu. Estive no velório e presenciei a dor de cada familiar. Em certo momento, ele se levantou para despedir-se dele. Colocou sua mão sobre as mãos de seu pai, passou a mão pelo rosto dele e o beijou após dizer alguma coisa em voz baixa. Foi então que me vi nele. Imaginei-me no mesmo momento de perda. Senti uma tristeza horrível, certamente a mesma que meu amigo estava sentindo naquele momento. Sentei-me e, de óculos e boné, escondi o rosto entre as mãos e chorei.
Desde então não tenho mais sido o mesmo. A ideia de o mundo que conheço acabar me assombra. Sei que vou perder meu pai um dia, mas ter a sensação de que esses dias terríveis estão cada vez mais próximos me deixa totalmente sem rumo.
Meu pai costuma dizer que a cada dia morremos um pouco. Nunca gostei de ouvi-lo dizer isso. Na verdade, nunca gostei de ouvi-lo falar em morte. Eu sei que ele quis dizer que a cada dia envelhecemos e o dia de nossa morte se aproxima, mas outra interpretação assombrosa me veio à mente: a cada dia nós morremos, de fato! A pessoa que fomos ontem já não existe mais. Hoje, ao acordarmos, somos pessoas um pouco diferentes das que fomos ontem. Quando nos recordamos de nossa infância, estamos nos lembrando de alguém que não existe mais. Os pais e avós, aqueles com quem brincávamos e que nos protegiam quando crianças, vivem agora apenas em nossas lembranças. Podemos até visita-los, dar atenção, abraça-los, amá-los com todo o coração, mas não são mais os mesmos. Da mesma forma, não somos mais as crianças doces e cheirando a sabonete que éramos. Crescemos, tornamo-nos adultos. Eles envelheceram, perderam suas forças e, muitas vezes, a razão de sorrir e de viver. No entanto, é a lembrança das pessoas que fomos, e não das que somos hoje, que mantêm viva a relação entre pais e filhos, avôs e netos, filhos e sobrinhos e de irmãos.

Dias após a morte de seu pai, esse amigo que mencionei desabafou dizendo que as lembranças mais fortes de seu que lhe vêm à mente são as de quando ele era criança. Entre lágrimas, lembrei-me de uma foto de meu pai, de décadas atrás, que meu primo Polaco postou no facebook. Era uma foto tirada enquanto trabalhavam na colheita. Nela meu pai aparecia forte e sorrindo, como poucas vezes o vi. Aquela foto foi a materialização da forma como me lembro dele. Hoje ele está aposentado, e ao invés de viajar o Brasil na boleia de seu caminhão Mercedes Benz 2013 amarelo, passa o dia em casa, ora no quintal, ora na cozinha, ora na sala, ora na televisão. Mas naquele corpo, hoje envelhecido e enfraquecido, ainda vive o meu melhor amigo, o meu companheiro de jornada. Não é mais o homem mais forte do mundo, mas é ele o homem que um dia achei ser o mais forte do mundo e do qual tanto me orgulho. Eu o vejo todos os dias, o abraço todos os dias, mas ainda assim sinto saudade do meu "papai"... Quando ele partir, que Deus me ajude a não morrer de saudade e de tristeza. 


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Carta para meus filhos

Queridos Miguel e Alice,
      As férias de 2017 estão sendo particularmente especiais. Vocês estão no auge de suas respectivas fofuras. Não acredito que vocês se tornem mais fofos do que são. Por isso, preciso aproveitar esses momentos ao lado de vocês. 
      Alice adora brincar de Lego. Às vezes gruda em minha perna e ali permanece enquanto eu ando. Então eu a chamo de "preguicinha". Também gosta que eu a pegue nos braços como se fosse bebê. Então eu a chamo de "meu pacotinho". E.la adora! Alice também convida papai, mamãe e Miguel para a "festa do chá", onde todas as bonecas participam. A varanda vira uma bagunça! Como é encantador vê-la brincando e conversando com as bonecas. Como fala bem - usa todos os "s" com muito mais segurança que o papai! - e, meu Deus, como é criativa! Você passa horas brincando sozinha com as bonecas, conversando. É simplesmente encantadora!
      Miguel adora desenhar. Comprei-lhe uma prancheta para fixar as folhas onde desenha. Também comprei um caderno de desenho. No canto de seu quarto há inúmeras caixas onde ele guarda suas "coisinhas" - é assim que ele as chama. Parece o papai quando tinha a mesma idade! Mamãe diz pra eu reprendê-los, mas eu não o faço. É como se eu visse o mundo pelos seus olhos e, por isso, ficaria triste se meu pai me repreendesse. Ontem brincamos de Comandos em Ação com a coleção que foi do papai. Miguel amou! Diz que quer brincar mais de "soldadinho". Estamos aprendendo a andar de bicicleta. Hoje comprei pedais novos para sua bicicleta e retirei as rodinhas. Miguel ficou encantado quando conseguiu andar alguns metros aqui no quintal de casa. "Meu Deus do céu, mamãe! A senhora não vai acreditar no que eu fiz...", disse. Seus dois dentinhos da frente estão moles. Em breve eles cairão e ele ficará "banguelinha". Amanhã iremos soltar pipa.
      Estou tentando aproveitar ao máximo o tempo que tenho com vocês. Anos difíceis nos esperam - a vocês e a todos nós - por isso precisamos curtir esses momentos felizes. A vida passa tão rápido... Acabei de assistir a alguns episódios de "How I meet your mother". Nela o pai conversa com seus filhos e conta sobre o passado. É mais ou menos o que faço, agora com menos frequência, nesse "diário virtual" que vocês lerão algum dia. 
      São 23h. A mamãe de vocês foi dormir. Alice veio dormindo da casa da vovó. A madrinha e a Tata estão lá também. Miguel está aqui no chão do escritório assistindo "Detona Ralph" no celular enquanto escrevo essas palavras. Parei por um instante e fui buscar um travesseiro e o cobertor. Quando o cobri, Miguel me olhou e sorriu. Eu o beijei. São coisas simples das quais eu sentirei saudade. São momentos tão especiais que me fazem, mais uma vez, encher os olhos de lágrimas. 
     Desculpem, o pai de vocês anda muito sentimental. Talvez sejam as férias, período em que consigo algum tempo livre para respirar e refletir sobre a vida. Vejo então o quanto tudo é passageiro. Lembro do passado, dos tempos de colégio - certamente os mais felizes de minha adolescência. Estou me esforçando para passar para vocês o que de melhor eu tenho. Estou muito longe da perfeição, mas tê-los em minha vida me faz uma pessoa melhor em todos os sentidos. 
     Com amor,
     Papai

sexta-feira, 16 de junho de 2017

4.1!

Queridos Miguel e Alice,
Hoje o papai de vocês está completando 41 anos. Quando o vovô de vocês completou essa idade eu já tinha 17 anos e ia prestar vestibular no final daquele ano. Dá mais ou menos pra ter uma ideia de como o que estou vivendo aos 41 anos é bem diferente do que o vovô de vocês viveu. É bem provável que quando vocês completarem essa idade eu já terei partido ou, na melhor das hipóteses, serei um velhinho careca com artrite nos joelhos e hérnia de disco. Por isso, sinto necessidade de deixar registrado neste dia alguma mensagem para vocês sobre como o papai de vocês se sentia quando tinha essa idade. Ler essa mensagem talvez apenas os faça chorar, assim como estou com lágrimas nos olhos enquanto escrevo essas palavras.
São 1h24min. Vocês estão dormindo como dois anjinhos no quarto de vocês enquanto o filme Toy Story está passando pela enésima vez. Enquanto escrevo essas palavras vocês ainda são duas crianças adoráveis e educadas. Miguel é um menino calmo e educado, que adora desenhar e brincar com suas “caixinhas”. São tantos desenhos que eu comprei uma caixa para guarda-los – eu a batizei de “caixinha dos desenhos especiais”. Suas caixinhas ficam sobre a cama e com ela às vezes Miguel passa brincando bastante tempo. A mamãe fica maluca com essas caixinhas, que segundo ela deixam o quarto “zuado”. Já Alice adora suas “coisinhas”. É incrível (e extremamente encantador) a forma como ela brinca com suas bonecas (coloca-as de castigo, as despe, arranca suas pernas etc.). Existe nela uma energia e uma alegria especial. Quando me vê abraçando a mamãe, ela vem correndo e também se abraça, dizendo “Mamãe e papai, casa!” Vocês dois ficam lindos quando correm pela casa brincando um com o outro. Espero que essa harmonia persista ao longo de suas vidas. É algo que todos os pais desejam: que seus filhos se entendam. Por isso, deixo aqui um pedido: não deixe que o amor de vocês um pelo outro se enfraqueça com o passar dos anos e com a entrada de outras pessoas em suas vidas. Vocês são irmãos e este é o segundo elo mais forte que existe – o primeiro, obviamente, é o dos pais para com seus filhos.
Tenho procurado curti-los ao máximo, pois sei que em pouco tempo vocês serão adolescentes e, depois, adultos. A vida passa muito rápido! Sei, no entanto, que por mais que eu me esforce, estou falhando em alguns pontos. Miguel, por exemplo, ainda não sabe andar de bicicleta e eu sei que é culpa minha por não insistir tanto quanto o avô de vocês insistia comigo. Mas há momentos incríveis que passamos juntos. Alice adora que eu brinque de Lego e com suas Pollys. Quase todas as noites ela vai buscar-me no quarto e pede que eu vá me deitar ao lado dela. Então ela vira de lado, encosta sua cabecinha à minha e dorme. Ela adora assistir Trolls – ela chama de “Tóls”. Já Miguel adora brincar de guerrinha na varanda. Usamos as bolas de borracha que compramos por R$1,00 no mercado e nos escondemos atrás dos bancos da varanda. Então as jogamos um no outro como se fossem granadas. Alice às vezes participa, o que deixa tudo mais engraçado, pois enquanto Miguel tenta juntar o máximo de “granadas”, Alice as joga aos montes em minha direção. Miguel e eu também jogamos combate, damas e xadrez, mas às vezes temos que parar, pois ele começa a chorar quando perde. Eis, então, algumas palavras que deixo a vocês: não se deixem afligir pelas derrotas. Elas serão muito mais numerosas que as vitórias, mas se não conseguirem aprender com as derrotas, jamais conseguirão vencer. O maior aprendizado que as derrotas podem trazer é a humildade. Ninguém nasce humilde; humildade é fruto de suas experiências. É a humildade que nos faz valorizar a vitória e a ter o devido respeito por aqueles que não a alcançam. Vitórias são passageiras; por isso, espero que nunca se sintam maiores ou melhores que alguém quando estiverem atravessando um bom momento da vida de vocês. Sejam apenas alegres e felizes, mas jamais se sintam acima de ninguém. Por outro lado, não quero que se sintam inferiores a ninguém. Certamente vocês conhecerão muitas pessoas que irão tentar fazê-los sentirem-se dessa maneira e coloca-los para baixo. Conheci muitas pessoas que tentaram fazer isso comigo, e às vezes foram bem-sucedidas... Confesso que tenho uma dificuldade enorme para lidar com pessoas arrogantes. Talvez por isso elas surjam aos montes no meu caminho. Aconselho-lhes a serem pacientes e persistentes. Essas pessoas não permanecerão por muito tempo na vida de vocês se aprenderem a lidar com elas – se o fizerem, elas pelo menos deixarão de incomodá-los.
Um terceiro conselho e último conselho que deixarei antes de me ir descansar para aproveitar este dia: curtam os bons momentos e as boas pessoas, pois ambos são passageiros. Um dia a vida vai tirar as pessoas queridas da vida de vocês – vovô, vovó, biso, bisa talvez partam primeiro, mas não existe uma ordem! Curtam cada momento intensamente. Mesmo que eu tenha curtido ao máximo alguns momentos e algumas pessoas, sinto que nunca é o suficiente. Depois que elas partem, sempre fica a saudade e a amarga sensação de não termos curtido o quanto deveríamos.
É incrível como nos últimos anos – particularmente, desde que vocês nasceram – tenho me sentido um homem plenamente feliz. Não há nada em minha vida de que eu sinta falta – ainda que um pouco mais de harmonia entre os familiares seja bem-vinda, mas há coisas que não dependem apenas da gente. Não temos muito dinheiro, não vivemos em um sobrado, não temos piscina em casa nem viajamos para a Europa com frequência. Não é isso que nos traz felicidade! Felicidade é ter saúde e uma vida harmoniosa, um equilíbrio entre as tarefas profissionais e a família. Por isso, não sejam gananciosos demais ao ponto de deixarem a família em segundo plano. Ela vem sempre primeiro! Se eu trabalhasse para dar tudo o que vocês quiserem ou pedirem, eu certamente seria um estranho na vida de vocês. Porém, cuidado: se não tiverem ambição em suas vidas, se não tiverem algo por que lutar, vocês passarão por essa vida como zumbis e não terá deixado nenhuma marca positiva! Por isso, estudem, trabalhem e, sempre que puderem, divirtam-se! Mas não se esqueçam do que eu tentei lhes ensinar: as obrigações vêm sempre antes da diversão. O vovô de vocês sempre me dizia isso e, raras vezes, eu tentava fazer diferente – nunca acabou bem! Assim, se forem razoavelmente astutos, tentem não cometer o mesmo que o pai de vocês...
Preciso ir agora. Alice acabou de acordar me perguntando por que eu tirei o tapete do escritório e o coloquei na sala da varanda e, em seguida, pediu pra eu achar o controle e colocar, novamente, o “Tóls” pra ela assistir na televisão do quarto...
Despeço-me agora para estar ao lado de vocês...
Com muito amor,

Papai

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dia dos namorados

Por mais paisagens, lugares e pessoas que eu tivesse visto ou estudado, foi há 22 anos, quando nossos olhares se cruzaram pelo retrovisor do carro, que enxerguei pela primeira vez. Era como se meus olhos estivessem fechados por longos 19 anos. Apesar dos vários jardins que eu visitei até então, seu perfume foi a primeira (e mais marcante) fragrância que conheci. Comigo ele permaneceu por vários dias. Bastava fechar os olhos e respirar fundo para poder senti-lo, como se viesse até mim do outro lado da cidade. Até algumas semanas depois, quando toquei sua pele pela primeira vez, pétalas de rosas eram o que de mais macio meus dedos acreditavam existir. Após encontros e pequenos desencontros, sua voz encantadora, em sussurro, consentiu com um mero (e tão esperado...) “claro” que o meu coração começasse a bater. A existência, até então amarga, tornou-se a mais doce das experiências desde que meus lábios tocaram os seus. E você, de quem eu já havia arrancado vários sorrisos, fez com que a vida, enfim, me sorrisse de volta. Obrigado pelos 22 anos de vida e felicidade, minha eterna namorada!


sábado, 3 de junho de 2017

Quatro anos depois de um sonho

Faz exatamente quatro anos que iniciei minhas atividades no Departamento de Química da FFCLRP-USP. Na época, deixar a UNIFRAN, onde me graduei e trabalhei durante dez anos, e abrir mão do reconhecimento, da identificação com os alunos e de um ótimo salário não foi fácil. Foi uma mudança tão grande que ainda hoje me sinto dando os primeiros passos na carreira. Aqui conheci muitas pessoas; algumas conquistaram minha admiração, outras o meu respeito. Aprendi muito nesses últimos quatro anos, mas às vezes me assusto com o longo caminho que preciso percorrer. Então eu olho para trás e vejo o caminho que já percorri e as experiências já vivenciei. Percebo, assim, que trabalhar onde tanto almejei é apenas uma de tantas coisas boas que trago na bagagem. Em outras palavras, não foi aqui que encontrei minha felicidade; é aqui que permaneço feliz.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Miguel e seus desenhos

Dizem que muitas crianças expressam seus sentimentos através de desenhos. Eis o que Miguel expressou através de seus traços...


sábado, 27 de maio de 2017

O calendário

Hoje pela manhã notei que Miguel estava no quarto, sozinho, com a porta fechada. Achei estranho. Aproximei-me e vi que ele estava escondendo algo sob suas mãos. Pedi pra ver o que era, ele ficou com os olhos rasos em lágrimas e começou a tremer os lábios. Era um calendário que ele tinha usado pra brincar sem permissão. "Papai, eu estraguei, mas estou colocando de volta no lugar. Está faltando só o mês de fevereiro, mas eu arrumei. O senhor está bravo?" Não consegui dizer nada. Apenas o abracei, na tentativa de esconder que agora era eu quem estava chorando...