quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Reflexões

São 23h30min. Aqui no apartamento onde estamos, em Victoria, Canadá, todos dormem. Após terminar as correções em um artigo, estou aqui em frente ao monitor do laptop. Assim como minha mente viajava até aqui quando eu estava no Brasil, agora que estou aqui minha mente viaja de volta para lá. Sinto saudade imensa da minha família. Ao som de “A love so beautiful”, de Michael Bolton, perco-me entre lembranças de infância e me emociono. O menino que veio de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra, aos sete anos, sem saber escrever, agora aos 42, luta para se comunicar em inglês. Seu filho agora trava a mesma luta contra a língua aos mesmos sete anos. Queria estar abraçado às pessoas que tanto amo, aos meus amigos. Queria estar com todos em um churrasco para compartilhar com pessoas queridas tudo o que estou vivendo aqui. Queria que todos sentissem o que sinto quando vejo as lindas casas em meio a tanto verde. Sentir uma imagem é diferente de vê-la. Nenhuma lente de câmera fotográfica capta a grandeza de um momento como nossos olhos.
Mas tenho tido alguns pensamentos que tem me preocupado. São pensamentos que tenho procurado sufocar nos últimos anos, mas que agora têm se fortalecido e estão tentando me convencer a ficar por aqui. Sempre refutei esses pensamentos e deles me envergonhava, pois permanecer aqui sempre me pareceu abrir mão de quem eu realmente sou. Afinal de contas, as pessoas daqui não me conhecem. Não sabem de minha história e não se identificam com ela. São pessoas que vivem em uma realidade diferente. Além disso, e as pessoas que tanto amo? E os meus amigos? Como viver longe deles? Por outro lado, como conviver com tamanha saudade desta cidade após o meu retorno ao Brasil? Como me readaptar à violência e à corrupção?
Uma coisa é certa: estou ficando velho pra viver tamanhos platonismo e saudosismo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Aventuras no Canadá - Parte 4

Estamos em Victoria há pouco mais de um mês. Neste período, vivi algumas experiências incríveis, tanto no laboratório como nos diferentes lugares por onde passei. Mas há uma em particular que ainda me emociona todas as vezes que me lembro dela.
Logo na primeira que chegamos a Victoria, um amigo canadense convidou-nos para um churrasco em sua casa. Fiquei impressionado com a receptividade e a gentileza dele e de sua família. Todos foram atenciosos, pacientes e muito compreensivos com o nosso inglês, tanto para nos ouvirem como para controlar a velocidade do que falavam. O piso suspenso onde estávamos, de madeira, havia sido construído por ele próprio com a ajuda de seu pai, que mora longe e já não pode vir mais visita-lo por causa da idade. Conversamos sobre muitas coisas, inclusive sobre filhos. Ele é pai de três adolescentes.
Bem próximo de onde estávamos, no quintal, havia uma casa na árvore que ele havia construído. No fundo do quintal gramado havia uma enorme cama elástica. Naquele instante, fiquei imaginando o quanto seus filhos se divertiram naquele quintal. Pensei nos três, ainda crianças, brincando na casa da árvore ou naquele balanço, rolando na grama verde com o enorme e peludo cachorro ou mesmo fazendo acrobacias na cama elástica. Agora que seus filhos cresceram e estão em diferentes fases da adolescência, o imenso gramado, a casa na árvore, o balanço e a cama elástica são provavelmente uma fonte inesgotável de momentos inesquecíveis.
Enquanto tentava fugir deste saudosismo que sempre me acompanha, meu amigo olhou para Alice e disse, deixando nitidamente a saudade escapar: “Meninas nesta idade são a coisa mais doce do mundo”. Aquela frase tão simples e óbvia deixou-me mudo. Imediatamente, olhei para Miguel e Alice como personagens de um passado que vai me matar de saudade daqui a bem pouco tempo. Dei-me conta de que eles também serão adolescentes em um piscar de olhos e de que os próximos 12 meses, em especial, precisam ser bem aproveitados com eles. Senti um aperto no peito, meus olhos ficaram úmidos em lágrimas. Tentei disfarçar, mas não sei se funcionou.

Ironicamente, minha experiência mais marcante até o momento foi inesperada e silenciosa e não precisou do inglês para existir. Certamente, e seu impacto em minha vida foi bem maior que qualquer artigo científico que eu já tenha publicado.

domingo, 26 de agosto de 2018

Como era a vida sem celular

Durante meus anos de pós-graduação, entre 1999 e 2004, tive o grande prazer e o privilégio de ocupar um espaço na casa de pós-graduação 12, no campus da USP de Ribeirão Preto. Quando a noite caía, após o jantar no refeitório universitário, todos se reuniam na cozinha para conversar ou na sala para assistir algum programa (Tela Quente ou Arquivo X na segunda, Casseta e Planeta na terça e futebol na quarta). Compartilhávamos histórias de vida, ríamos e apoiávamo-nos uns aos outros. Em algumas ocasiões, fazíamos festas, algumas com karaokê. Para falar com nossas famílias, tínhamos que nos dirigir para o “orelhão” em frente da casa. Às vezes havia fila, em outras vezes os créditos do cartão acabavam antes de a ligação terminar. Quando alguém da família ligava para o telefone da casa, havia um enorme fio para que o telefone pudesse chegar a todos os quartos da casa. Caso alguém quisesse usar a internet à noite, era preciso fazê-lo em seu laboratório, já que na casa não havia internet.
Ao ler isso, alguns podem achar que era uma vida difícil por vivermos sem celular e sem internet. De fato, se tivéssemos celular naquela época ou se tivéssemos internet na casa, certamente nossa comunicação com nossos familiares teria sido mais eficiente e talvez tivéssemos produzido bem mais. Por outro lado, é possível que os laços de amizade que criamos não teriam sido tão fortes. Provavelmente teríamos passado as noites sem sair de nossos quartos, conversando pelo whatsapp ou navegando pela internet. Sala e cozinha permaneceriam vazios a maior parte do tempo, o que provavelmente deve ocorrer hoje em dia.
Sim, eu também adoro celular e a internet móvel e as maravilhas que eles são capazes de fazer. Por isso, é preciso deixar claro que não estou sendo saudosista e dizendo que aquela geração é melhor que essa. A única diferença é não tivemos oportunidade de desfrutar dessas tecnologias naquela época (pra vocês terem ideia, nós fazíamos uma vaquinha para pagar assinatura da Folha de São Paulo para podermos ficar por dentro das notícias!). O fato é que, desde que essas tecnologias surgiram, fomos dominados por elas e ficamos viciados, deixando de criar ou mesmo de fortalecer os relacionamentos com as pessoas que estão em nossa volta. Basta perceber, por exemplo, que as pessoas em filas ou em pontos de ônibus não mais se falam para passar o tempo. Para isso têm os celulares, que as mantêm com a cabeça inclinada, em uma posição que mostra como estão submissas à tecnologia que criaram.
Certa vez ouvi dizer que dar conselhos é uma forma de retirar o passado da lata de lixo, limpar as partes sujas e vendê-lo por um preço maior do que ele realmente vale. Ainda assim, deixarei um conselho a você e te desafio a segui-lo: quando estiver entre outras pessoas, só toque em seu telefone celular para atender a alguma ligação. Ao fazer isso, mesmo que você esteja cercado de pessoas, aposto que você vai se sentir perdido e solitário sem o seu grande amigo nas mãos. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Aventuras no Canadá - Parte 3

Sempre fiquei irritado por ver brasileiros que moram em países de primeiro mundo elogiando esses países e criticando o Brasil. Minha impressão era de que essas pessoas estavam querendo aparecer só por estarem morando “fora”. Após um mês aqui em Victoria, no Canadá, começo a entender um pouco mais essas pessoas – o que, no fundo, me deixa muito triste.
Para que você, caro leitor, não me interprete mal e ache que eu passei “para o lado negro da força”, farei algumas comparações entre o que tenho observado aqui e o que vivencio na cidade onde moro - São Joaquim da Barra, uma típica cidade do interior de São Paulo. Lá colocamos os lixos em sacos de lixo ou em saquinhos de supermercado. Achamos o máximo usar os saquinhos para este fim, pois temos a sensação  de estarmos dando uma aplicabilidade útil para elas. Para economizar espaço e reduzir o número de saquinhos usados, colocamos todo o lixo em um mesmo saco – papel, plástico, restos de comida, papel higiênico, vasilhames, vidro e alumínio. Quando deixamos o saco de lixo no chão para o lixeiro recolher, cachorros sentem o cheiro da comida no lixo e rasgam os sacos, espalhando os restos de comida e de lixo pela rua. Catadores de papelão ou de alumínio também rasgam os sacos à procura de caixas ou mesmo de latas de alumínio, tornando o serviço de coleta de lixo um caos. Aqui em Victoria existe coleta seletiva do lixo. Caixas de papel duro, alumínio e alguns tipos de plásticos são reciclados e, por isso, vão para lixeiras de cor azul. Os vasilhames de plástico e de alumínio vão para lixeiras preta, enquanto os restos de alimentos seguem em embalagens biodegradáveis para as lixeiras dos compostos, que tem cor verde. Essas lixeiras ficam em frente às casas de cada casa ou prédio.
Lá onde moro as pessoas não plantam mais árvores nas calçadas de suas casas, pois a sombra que elas fazem à noite pode facilitar a vida de assaltantes. Recentemente, muitas árvores vêm sendo cortadas por estarem envelhecendo e por representarem um perigo à rede elétrica. Consequentemente, o verde está desaparecendo aos poucos de nossa cidade. Os muros de nossas casas são altos – na média, uns três metros de altura – e nossos portões precisam ser reforçados para não serem arrombados. Muitas casas também possuem cerca elétrica e câmeras de vigilância. Aqui em Victoria há verde por todos os lados. A maior parte desse verde vem dos jardins das casas, que aqui ou não têm muros ou têm cercas de madeira de no máximo um metro. As pessoas se sentem seguras em suas casas ao ponto de deixarem bicicletas destrancadas no quintal ou na frente de suas casas, ou mesmo carros pernoitarem para fora das garagens.
Essas diferenças, você há de concordar, poderiam ser resolvidas não fosse a monstruosa discrepância na cultura dos dois povos. Viemos de uma colonização por exploração. Desde o início as pessoas que vieram ao Brasil tiveram como único intuito explorar nossas riquezas naturais. A herança desta exploração nos saiu muito caro: somos o povo da filosofia do “cada um por si”. Os brasileiros não disputam o direito de terem um pedaço de mesmo tamanho do bolo; eles lutam pra ter o maior pedaço possível, sem se importarem se alguém vai ficar insatisfeito ou se prejudicar com isso. Esta filosofia fez do brasileiro um povo essencialmente individualista, que não sabe pensar nem agir coletivamente. A velha mania de querer levar vantagem em tudo sempre predomina, desde a política até o cidadão comum. A maioria dos brasileiros também não sabe lidar corretamente com o que é público. “Que se dane, eu já usei”. Essa mentalidade equivocada é um dos grandes entraves para o avanço de nosso país.
Mas, afinal, o que o nosso país tem de bom? Na visão dos canadenses com quem conversei, o brasileiro é um povo acolhedor e alegre. Eles veem o Brasil como um verdadeiro paraíso tropical, com um clima quente e agradável. Muitos têm o sonho de conhecer o Brasil e não se conformam quando digo que ainda não visitei o Rio de Janeiro – de fato, ainda não o fiz por medo da violência. A imagem que eles têm do Brasil é muito positiva, provavelmente por não conhecerem os problemas que temos aí. No final das contas, é esta certamente a razão pela qual consigo enxergar as virtudes daqui ao invés dos problemas.

A este ponto, caro leitor, você certamente está se perguntando se eu moraria aqui em Victoria. Obviamente que sim! Agora se você quiser saber se eu me mudaria para cá, provavelmente não. Na verdade, eu sequer me mudaria de São Joaquim da Barra. Aqui em Victoria estou tendo uma experiência engrandecedora e única em termos pessoais e profissionais e, confesso, sei que sentirei uma saudade enorme daqui e das amizades que já comecei a construir aqui. Pois bem. É com esta saudade daqui que quero viver, não com a saudade que sinto agora. 

sábado, 18 de agosto de 2018

Aventuras no Canadá - Parte 2

Quando eu era criança, às vezes acordava e permanecia na cama. De lá ouvia papai e mamãe conversando na cozinha. Pareciam tristes. Quando me levantava, deparava-me com o papai na cabeceira da mesa, com o cotovelo apoiado na mesa e a mão na testa. À sua frente, várias duplicatas e contas a pagar. Cheques que ele havia dado e que seriam descontados sem ele ter dinheiro no banco. Eu permanecia quieto, triste por não poder fazer nada para ajudar. O mínimo que eu podia fazer era entender a realidade: nós apenas sobrevivíamos. Não passávamos fome, mas eu entendia que meus pais não tinham dinheiro para comprar um vídeo game, um vídeo cassete ou mesmo pagar um curso de inglês como os pais de alguns colegas tinham. O fato é que não ter tido os dois primeiros não fez nenhuma diferença em minha vida. Já o curso de inglês...
Em 1991, quando estava no primeiro ano do ensino médio, surgiu uma ótima oportunidade: por ser um dos melhores alunos de minha turma de colegial, ganhei uma bolsa de estudos para estudar durante um semestre no CCAA. A bolsa, no entanto, era apenas para as mensalidades. Meus pais tiveram que se desdobrar para pagar o material. Após o término da bolsa, tive que abandonar o curso.
Em 1999, quando ingressei no mestrado, comecei a entender que os anos seguintes não seriam nada fáceis. A maioria dos livros que eu pegava pra estudar eram em inglês. Como quase todas as palavras eram desconhecidas e eu não tinha computador e nem internet, eu procurava cada uma das palavras no dicionário e as anotava em uma folha. Após alguns dias, eu as digitava no computador de meu primo Frederico, colocava-as em ordem alfabética e as imprimia. Todas as vezes que eu precisava encontrar o significado de uma palavra, era lá que eu procurava primeiro. Se a palavra desejada não estava lá, procurava no dicionário e a adicionava, à mão. Aos poucos fui me familiarizando com as palavras mais comuns e em poucos meses era capaz de ler um artigo científico ou mesmo um livro sem precisar recorrer frequentemente ao dicionário.
Ao receber minha primeira bolsa de estudos, decidi enfim frequentar um curso de inglês. No entanto, eu sabia que não podia ficar perdendo tempo com cursos longos. Eu precisava mesmo era do básico. Foi em 2000 que encontrei o curso anual da British and American, em Ribeirão Preto. O curso tinha horário flexível, mas como eu precisava fazer os experimentos de meu projeto durante o dia, sempre agendava as aulas para o período noturno. Com isso, o caminho de volta até o ponto do ônibus que eu precisava pegar para voltar para o campus ficava bem mais perigoso, o que acabou fazendo com que eu desistisse do curso após seis meses.
Em 2002, já no doutorado, o prof. Norberto (Betão) recebeu em nosso laboratório o prof. Paul Gates, que tinha sido seu colega em Cambridge durante seu pós-doutoramento. Como eu continuava não falando nada em inglês, procurava evitar qualquer situação que me colocasse diante dele e que me forçasse a falar com ele para me poupar de constrangimentos. Eu me sentia muito frustrado, pois apesar de ser um bom aluno e soubesse escrever razoavelmente bem em inglês, não falava praticamente nada, ao contrário da maioria dos meus colegas de pós-graduação.
Bem, de nada adiantou minha fuga do prof. Paul Gates. Ele havia sido convidado para proferir uma palestra na reunião anual da Sociedade Brasileira de Química daquele ano. Quando meu orientador foi com ele mostrar o pôster do meu trabalho, ele prontamente identificou um erro grotesco: eu havia inserido dois gráficos iguais! Fiquei arrasado. Aquela falha era bem mais grave que a minha vergonha de falar inglês, já que atentava para um certo relapso de minha parte. Mas como fazer para consertar as coisas? Fui então pedir uma opinião para o Betão sobre o que eu deveria fazer para consertar aquele erro. A resposta dele não poderia ser mais aterrorizante: “Convide-o pra sair e tomar uma cerveja”. Fiquei em pânico. “Mas como vou fazer isso se eu não sei falar nada em inglês?”. A resposta dele já era esperada. “Te vira, caboclo.” Respirei fundo, tomei coragem e fui até o apartamento do prof. Paul. Não me lembro como, mas de alguma forma eu me comuniquei com ele e combinamos de sair à noite. E assim o fizemos. Há uma série de histórias engraçadas que surgiram a partir deste ponto, que narrarei em momento mais oportuno, mas o fato é apesar de minha dificuldade de entender e de me expressar em inglês, acabei desenvolvendo com o prof. Paul uma espécie de amizade. Meu problema com a língua inglesa, no entanto, persistia.
Meus esforços para falar em inglês foram retomados  em 2010, quando eu trabalhava na Unifran. Na época, procuramos John Bolissian, um professor britânico-canadense que morava em Franca, para termos algumas aulas de conversação. O resultado  não poderia ter sido mais frustrante para mim: Vladimir, que havia sido alfabetizado em inglês, falava como um nativo; Rodrigo tinha um vocabulário vasto e falava muito; Sérgio só balançava a cabeça e concordava e eu, vergonhosamente, só cochilava durante as aulas (que eram logo após o almoço). Permanecemos com as aulas durante três meses. Depois disso, eles decidiram parar. Então procurei John novamente e começamos a fazer aulas VIP de conversação. O resultado foi excelente: depois de algum tempo – frequentei aulas de conversação por quase dois anos e meio! – descobri que o meu maior problema não era saber falar; era a timidez! Após esse período, conseguia me expressar em inglês e até contar algumas histórias. No entanto, em meados de 2013, quando ingressei na USP, precisei parar com as aulas de conversação, já que a partir de então eu teria que me deslocar até Franca aos sábados exclusivamente para as aulas.
Você, caro leitor, deve estar se perguntando: por que narrei toda essa história? No momento em que escrevo estas palavras, encontro-me aqui em Victoria, na província canadense da Columbia Britânica, com minha esposa, meu filho de 7 anos e minha filha de 5. Após ler estas palavras, você certamente entende o que estamos passando por aqui. No entanto, aqueles que vêm conversar comigo não sabem que eu não cursei inglês na infância porque meus pais não podiam pagar. Para eles pouco importa que eu precisei abandonar o curso do CCAA por falta de dinheiro ou o da British and American por ter priorizado meu projeto de mestrado. Na verdade, ninguém se importa com a minha ou com a sua história. A maioria das pessoas se importa apenas com o que está acontecendo agora. Não querem ouvir sua história, pois acham um sinal de fraqueza buscar no passado explicações e justificativas para suas falhas e limitações de hoje. 

Eu estaria mentindo se dissesse que está sendo fácil. Não estaria sendo sincero dizendo que entendo tudo o que as pessoas falam por aqui e que estou falando fluentemente, sem pestanejar ou travar. Às vezes chego em casa triste, um pouco abatido, desanimado. Então lembro-me do quanto ansiei por estar aqui. Dou-me conta de que estar aqui com minha família é uma das maiores conquistas que já alcancei. Estar aqui é, ao mesmo tempo, a realização de um sonho e uma grande oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Eu poderia ter escolhido minha zona de conforto e lá ter permanecido seguro e pequeno. Ao invés disso, preferi me expor, colocar-me à prova, testar meus limites. Optei por enfrentar meus medos, lutar contra minha própria natureza, sem me importar com quão dolorido isso vai ser. Decidi cicatrizar feridas antigas, mesmo que para isso precise abrir outras.  Vim para descobrir quem realmente sou e para aqui tornar-me quem preciso ser. Vim de encontro ao meu destino, em busca do que sempre esteve reservado para mim. É aqui em Victoria que encontrarei, pouco a pouco, minha maior vitória.

sábado, 11 de agosto de 2018

Aventuras no Canadá - parte 1

Não há nenhuma palavra que possa ser dita ou escrita para descrever o que meus olhos têm visto ou o que tenho sentido nos últimos dias. É uma sensação estarrecedora estar aqui em Victoria, uma cidade linda e acolhedora, onde as coisas funcionam e onde as pessoas se respeitam. Outro dia, por exemplo, fomos a um parque aqui próximo ao apartamento onde estamos morando. O parque estava limpo e intacto, sem nada quebrado. Lembrei-me dos parques ao ar livre lá de São Joaquim da Barra, cidade onde moramos. Tanto a academia quanto os parques foram destruídos pela própria população. Em um dos parques até entortar os postes de eletricidade os vândalos entortaram. É de dar vergonha e revolta.
No mesmo dia, no mesmo parque, havia alguns sacolés (ou geladinhos, como são chamados em algumas regiões) no banco em que nos sentamos. Ao vê-los, Miguel quis saber o que eram (ou melhor, queria pegá-los na mão), mas eu o proibi. “Não toque no que não é seu sem permissão do dono”, disse a ele. “Mas, papai, a gente não sabe de quem é”, retrucou ele. “Sim, não sabemos. Mas temos certeza de que não é nosso. Então não toque!”. Pouco tempo depois surgiu um pai bravo com seu filho porque ele tinha perdido o que ele havia comprado. Eu me levantei e apontei para os sacolés: “São seus?” Ele veio, pegou os sacolés e me agradeceu. Não agi assim porque estou no Canadá. No Brasil eu teria feito a mesma coisa. Podemos até assimilar costumes e culturas diferentes, mas não é o fato de estar em outro país que muda a nossa essência.
As casas e as paisagens que vejo diariamente indo para a universidade são de tirar o fôlego. É como se eu estivesse em um cenário de filme durante a maior parte do percurso. São árvores altas, gramados bem cuidados e casas sem muros ou grades em volta. É algo bem diferente do Brasil. Algo que, para mim, parece irreal.
Hoje saí, pela primeira vez, com alguns colegas do laboratório. São jovens entre 20 e 30 anos. O que pude concluir é que há, de fato, uma diferença enorme entre a cultura brasileira e a cultura de outros países. A questão do toque físico, por exemplo, foi a que mais chamou atenção. Um colega relatou que seu pai nunca teve o costume de abraçá-lo. Outro disse que ele e sua mãe se abraçaram uma única vez na vida. Por mais impactante que isso pode aparecer para um brasileiro, é preciso entender que se trata de uma mera questão cultural. E ponto. Qualquer outra conclusão que se tirar a partir deste fato será fruto da comparação entre culturas muito diferentes e, portanto, é desnecessária e injusta. 
Quando nos despedimos, percebi o quanto é bom estar perto de pessoas queridas como eles. Lembrei-me dos meus familiares, da imensa saudade que tenho de abraçá-los e beijá-los. Senti falta de um abraço amigo, de tirar sarro de um amigo ou de rirmos até a barriga doer. A emoção de estar aqui, como mencionei, é incrível, mas, até o momento, essa saudade me impede de responder à pergunta que muitos ainda me fazem: “Você se mudaria para lá?”
Na volta para casa, vim refletindo sobre a vida enquanto pedalava. Lembrei-me de uma pessoa que me disse, certa vez, que eu precisava parar de olhar para o passado. Ao contrário dele, entendo que olhar para o passado é indispensável. Como disse Steve Jobs em sua famosa palestra no MIT, é olhando para o passado que você conecta os pontos. É olhando para trás que você consegue entender algumas coisas que você considerou que deram errado em certa época da vida. Ao fazer isso, você descobre que nada em sua vida deu errado, que tudo tinha um propósito. É olhando para trás que eu me lembro que estou vivendo os dias pelos quais tanto ansiei nos últimos cinco anos de minha vida. Apesar de um começo muito positivo, mantenho os pés no chão e ainda me mantenho cético quanto a tudo. Ainda assim, pensar que estou em um país onde se fala inglês e que eu estou me virando pra falar inglês sem nunca ter frequentado uma escola regularmente me deixa muito satisfeito.
Alguns dias antes da viagem para Victoria, uma pessoa por quem tive um dia certo apreço, disse-me, cheia de amargura e veneno, que eu precisava abandonar alguns "complexos". Seja lá o que ela chamou de "complexo", provavelmente ficou para trás na escada rolante do aeroporto de Guarulhos, onde caí acidentalmente e violentamente com as bagagens, que desciam escada abaixo enquanto eu era conduzido para cima, espremido, pela escada ainda em movimento. Mais que nos tornar fortes, as quedas nos fazem humildes. Elas nos mostram o valor de cada subida, por menor que ela seja, e nos ensina que coisas e sentimentos ruins devem ficar para trás em nossas jornadas. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Meus primeiros dias no Canadá - parte 5

As últimas vinte e quatro horas foram de grande aprendizado. Não me refiro a nenhum equipamento que eu tenha aprendido a operar na universidade ou a algum mecanismo de reação que eu tenha elucidado. Não, a vida é bem mais complexa – e às vezes bem mais encantadora – que isso.
Conforme eu havia mencionado anteriormente, viemos visitar o apartamento que foi anunciado em um site de Victoria chamado Craig List. Quem nos recebeu foi um homem já de cabelos grisalhos, na faixa dos 60 anos. Subimos ao apartamento e lá estava sua esposa nos aguardando. Ambos foram atenciosos, pacientes e muito educados conosco. Adoramos o apartamento! Antes de sair, preenchi um pré-contrato, que seria enviado para o dono do apartamento, um americano do estado da Califórnia. No final da tarde, enquanto aguardávamos no ponto de ônibus, o celular tocou. Era o dono do apartamento, falando diretamente da Califórnia. Foi uma conversa extremamente agradável. Ele tem negócios no Brasil. Falamos por quase 20 min. Após a conversa, fiquei de transferir o valor do primeiro aluguel, somado ao valor do seguro.
Cheguei em casa empolgado. No final da tarde, assim que pude, fiz uma transferência on-line para a conta do proprietário do apartamento. Para finalizar a transferência, eu precisava apenas passar a resposta para uma pergunta, que funcionava como se fosse uma senha. Foi então que me dei conta de que não sabia nada sobre o agente imobiliário que me apresentou a casa. Não tinha sequer seu celular! O dono da casa, obviamente, eu não conhecia. E se eles desaparecessem depois que eu fizesse a transferência? E se eu ligasse ou mandasse mensagem e o dono não mais atendesse? Eu estava a um passo de transferir a maior parte do meu dinheiro para alguém que poderia ser um grande golpista! Isso mesmo: e se tudo não se tratasse de um golpe? Enquanto essas ideias tomavam conta de minha mente e me deixavam desesperado, recebi dele uma mensagem pedindo a resposta para a pergunta secreta. E agora? Pensei alguns minutos. Eu estava em pânico! A única coisa que me ocorreu foi enviar uma mensagem e marcar de encontrar o agente no apartamento. Eu pegaria a chave com ele e, então, passaria para o dono da casa a resposta para a pergunta secreta. Enquanto eu escrevia a mensagem, o telefone tocou novamente. Era o agente imobiliário (corretor). Ele e o dono do apartamento provavelmente notaram quão reticente eu estava. Ele me tranquilizou e disse que entregaria a chave quando eu quisesse. “Pode ser amanhã?”, disse, na expectativa de pressioná-lo. “Claro! Passo aí pra pegar vocês e ajuda-los com as malas!” Tomei então coragem e expliquei que em meu país acontecem diariamente muitas falcatruas, que acabam deixando a gente meio ressabido. Ele entendeu e disse: “Você tem meu telefone. É só ligar quando precisar”. A esta altura, não me restava outra opção: mandei uma mensagem e passei a palavra-chave para o dono do apartamento. Minutos em seguida ele ligou-me. Agradeceu pela confiança e disse que o agente imobiliário iria ajudar-me com as malas.
Hoje pela manhã, fui ao Wallmart comprar uns adaptadores para os carregadores de nossos celulares. Na saída, acreditem, eu mesmo passei as mercadorias no leitor óptico e, em seguida, efetuei o pagamento e fui embora. Isso mesmo, não havia ninguém no caixa!
À tarde, fizemos as malas e organizamos o apartamento para nos mudarmos para o novo. Deixamos tudo nos devidos lugares, mais ou menos como estava quando chegamos. A dona do apartamento estava viajando. Enviei uma mensagem para ela e expliquei que íamos nos mudar hoje mesmo. Ao invés de vir correndo para saber se estávamos levando algum brinquedo ou toalha, ela disse que estava imensamente feliz em saber que conseguimos alugar um apartamento e disse pra eu deixar a chave no lugar que combinamos. Disse, por fim, que se até terça-feira o corretor imobiliário não viesse nos buscar, que seu marido o faria com prazer.
Conforme combinado, o corretor estacionou em frente de casa pontualmente às 15h10min. Levou-nos até o apartamento, ajudou-nos a descarregar as malas, deu dois presentinhos para Miguel e Alice e, por fim, mostrou-me como funcionam as coisas aqui no prédio.
Pois bem. O que aprendi nessas últimas vinte e quatro horas? Que existem pessoas em quem devemos confiar e que precisamos ser pessoas em quem outras podem confiar. Você, que está lendo estas palavras, deve estar se perguntando: “Caramba, mas você já não sabia disso?”. Sim, saber eu sabia, só que encontrar uma pessoa honesta em que você pode confiar sempre me pareceu coisa rara, ainda mais em um país como o Brasil. Hoje a minha desconfiança só me deixou envergonhado.

Amanhã veremos o dia nascer já no novo apartamento. Começaremos uma nova fase do período que vamos passar aqui em Victoria, Canada. As dificuldades continuarão existindo e com elas o aprendizado e a superação. Afinal, foi isso que viemos buscar aqui.a