segunda-feira, 7 de maio de 2018

L.A. goodbye

Quarta-feira, 2 de maio. Estamos sendo atendidos pela Mariana, secretária do fotógrafo Marcelo Oliveira. Aqui viemos para o ensaio do dia das mães. Enquanto Débora concentra-se em escolher as melhores fotos e Miguel e Alice brincam com as bolachinhas no aparador próximo à entrada, ouço uma música no rádio que me chama a atenção. É uma música antiga, aparentemente da década de 70. É uma das boas que eu ainda não tenho. Tento concentrar-me e entender partes da música para, depois, procurar no google, mas o baixo volume não facilita minha tarefa...

Sábado, 5 de maio. Estou em frente ao computador, procurando a música que ouvi três dias atrás. Como farei para descobri-la? “Deve ser do Secret Service”. Como se fosse um sopro divino, busco no google as melhores músicas do Secret Service. Lá encontro a música que procurava: “Oh, Susie”. Satisfeito, procuro por outras canções da banda enquanto baixo esta para o notebook. De repente, meu coração começa a bater mais forte. Encontro uma música que me parece familiar, mas da qual não sentia falta até então. Começo a ouvi-la. Chama-se “L.A. goodbye”. Sinto um aperto no coração. Fecho os olhos. Enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto, vejo-me sentado no degrau da varanda da casa dos meus pais, em novembro de 1982. Mudamo-nos há poucos dias de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra-SP. No rádio da mamãe, onde até poucos dias atrás só ouvia o jumentinho no programa matinal do Zé Betio, ouço uma música em inglês que não sei o que significa. Deito-me no chão vermelho encerado, de barriga para cima, e trago o rádio próximo ao meu ouvido. Olho para o telhado da varanda, com as pernas cruzadas e trago o punho até a testa. Com os olhos rasos em lágrimas, fico lembrando dos anos felizesque vivemos em Quirinópolis. Anos que não voltam mais. A música então termina. Sento-me e olho ao meu redor. Chama a atenção a samambaia no canto da varanda, plantada em uma lata de 20 L que me parece ser de tinta. Há algo escrito nela, mas ainda não sei ler... Passados 36 anos, essa música agora me faz lembrar daquele momento. Talvez eu a ouça daqui a algumas décadas e volte a chorar novamente como agora. Um choro de saudade das pessoas que partiram, dos meus avós paternos, dos meus tios, tios avós... Saudade não do que eu era, mas do que era o mundo naquela época ou, pelo menos, da forma como eu o via. Hoje me sinto próximo do fim de tudo: meus pais envelhecendo, meus avós já velhos, meus filhos crescendo. Em pouco tempo nada restará daqueles anos, apenas lembranças. E com minhas lembranças eu terei que viver sozinho. Se tiver sorte, alguém pode até ouvi-las, mas não mais terei ninguém para compartilhá-las.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Cartas sobre a infância de Miguel e Alice - parte 1

Queridos Miguel e Alice,
Muito em breve vocês serão capazes de ler e entender essas palavras, mas ainda vão levar muito tempo para que vocês entendam a carga de sentimentos que elas carregam. Não é fácil pra mim escrevê-las, não apenas pelo tempo – que hoje se tornou escasso e precioso – mas também porque sempre que escrevo, eu me desfaço em lágrimas.
Ainda carrego comigo as doces lembranças de minha infância em Quirinópolis-GO e várias da época de colégio. Essas lembranças, espero eu, vão acompanhar-me enquanto eu tiver sanidade. É claro que os detalhes vão se apagando com o tempo, e é por isso que tenho urgência em escrever sobre elas e, principalmente, sobre vocês. Minhas lembranças são parte de mim, mas as lembranças sobre esses dias que eu puder registrar aqui são parte da história de vocês. É bem provável que vocês não se lembrem mais delas quando lerem essas palavras, por isso eu tentarei registrar algumas.
Miguel, você é um menino muito calmo, tranquilo e educado. Por causa disso, as pessoas gostam de estar ao seu lado. Ao contrário da maioria dos seus colegas, que são agitados – muitos chegam a parecer hiperativos – você é, como dizemos, “de boa”. Até a idade que você tem hoje, prestes a completar 7 anos, houve muitas fases marcantes e a maioria delas conseguimos registrar em fotos. Mas há outras que não estão nas fotos. Por exemplo, houve uma época em que você guardava “caixinhas”. Sempre que achava uma caixinha, você ficava encantado e levava pra casa. Elas acabaram formando um amontoado de “caixinhas” – algumas nem tão pequenas como o nome sugere – ao lado do guarda-roupas, no quarto que você divide (ainda hoje, mas provavelmente não mais quando ler essas palavras...). Eu me via em você quando fazia isso e nunca o recriminei. Porém, houve um momento em que o volume de caixas tornou-se grande demais para o tamanho do quarto e eu tive, a pedido de sua mãe, que me “desfazer” de várias caixas. No entanto, sempre respeitei o seu espaço – é algo que, espero, você tenha aprendido a fazer também – e tudo o que acabei descartando foi com o seu consentimento. Restou apenas uma caixa, onde deixamos as coisas principais – sua carteira com o seu “dinheirinho”, as calculadoras que você trouxe da casa do vovô Tião, seus adesivos do Pokemon... Enfim, lá deixamos as suas “coisinhas”. Houve também uma fase em que você passou a ficar bastante tempo no escritório, usando o notebook que eu deixei aqui em casa pra você assistir vídeos no Youtube. Aos poucos você “personalizou” também o escritório e trouxe suas “coisinhas”, incluindo dois pintinhos amarelos – segundo você, pai e filho. Houve também uma época em que você se dispôs a desenhar. Criamos então a “caixinha dos desenhos especiais”, onde deixamos guardados os seus desenhos mais bem feitos. Não podemos nos esquecer da fase dos Pokemons. Houve, inclusive, até uma caixa azul que compramos pra você colocar todos os seus Pokemons. Enfim, chegou a fase do vídeo game e agora você passa a maior parte do tempo jogando Lego Movie em seu Playstation 4, que é, nesta data, de última geração. Embora eu não jogue muito este joguinho com você, eu assisti ao filme e conheço todos os personagens. Assim, sempre que chego e você está jogando, solto uma frase do filme – “Cadê minhas caaaaaalças?” ou “Oi, eu sou o Batman” ou, ainda, faço o “rosnado” daquela senhora que cria os gatos. Você solta um sorriso tímido e diz: “Meu Deus do céu...” Mas o que gosto mesmo é de quando jogamos algum jogo que não seja eletrônico, como Combate, Jogo da Vida e Banco Imobiliário – que, aliás, eu costumava jogar na minha infância. No Combate, eu sempre te mostro a minha estratégia pra que você entenda a forma de dispor as peças no tabuleiro. Quero que você entenda e ganhe de mim – eu não me importo; vou é ficar orgulhoso! Já no jogo da vida o que você mais gosta é do momento em que você tem filhos. Você gosta dele e do Banco Imobilário porque neles é preciso manejar dinheiro – algo que, de coração, eu espero que você saiba fazer quando crescer.

Alice, você é uma princesinha incrivelmente irresistível! Sua personalidade é bem diferente da do Miguel. Você é um pouco mais “agitada” que ele, tem uma energia que é admirável. Eu até te apelidei de “Pirulita”. Você é mais falante e desde pequena brinca sozinha com suas bonecas. A primeira fase foi com as bonecas “bebê”. Nesta fase você trouxe da casa da vovó Carminha todas as bonecas que se pareciam com bebês. Então você percebeu que faltava um carrinho para elas. Algum tempo depois, você descobriu que precisava cozinhar para elas, então vieram os fogões, a pia e a geladeira. Por fim, veio a casa inteira, mas não uma casa de bonecas. Você passou a adorar as bonecas Polly e a dedicar horas na varanda brincando com suas Polly. Por fim, vieram as bonecas LoL, que apensar de pequenas, custam um dinheiro considerável. Durante um bom tempo você tomava banho na banheira com suas bonecas “sereias” e outro monte de bonecas. Mas a banheira passou a ocupar muito espaço e acabamos tendo que tirar a banheira de lá. Assim como fiz com o Miguel, eu fiz a retirada de suas “coisinhas” do banheiro com o seu consentimento. Quanto aos desenhos, você entrou na fase de desenhar coisas. Por mais simples que sejam, eu também adoro guarda-las na caixinha de desenhos especiais. Quando eu te disse que guardamos esses desenhos para o papai se lembrar de vocês quando estiver velhinho, você respondeu: “Então eu vou fazer muitos desenhos pra o senhor sentir muita saudade de mim”. E com certeza sentirei.
Vocês são, simplesmente, demais! Já sinto muita saudade de vocês e sentirei ainda mais à medida que o tempo for passando. Por mais estranho que isso pareça agora, eu acredito que vocês também sentirão saudade de mim. Penso assim porque eu sinto uma saudade enorme do vovô, da época em que eu era criança lá e passava o dia todo com ele. Choro quando penso que aquele vovô, jovem e forte, só existe nas minhas lembranças. Olha que ironia do destino: quando vocês lerem e entenderem essas palavras, o papai que as escreveu só existirá nas lembranças de vocês. Quando olharem para o lado e tiverem a sorte de lá encontrarem, verão que envelheci e, então, entenderão a saudade que sinto do meu "papai"... 
Por falar em vovô Altair, esta semana foi bem difícil para mim, pois tive a certeza de que o peso dos anos está sendo fatal sobre ele. Eu e a madrinha compramos um aparelho para converter a TV LCD em SmarTV. Seu vovô clicou em um botão que fez com que tudo desaparecesse. Consegui contornar, mas seu vovô ficou nervoso. Aí percebi que ele está velhinho e cansado. Está chegando a hora de eu retribuir, de fato, tudo o que ele fez por mim. Eu espero que vocês, caso seja necessário, façam o mesmo por mim e pela sua mamãe. Vocês não ganharão absolutamente nada por isso! Pelo contrário: vocês estarão pagando uma dívida de gratidão. É o que estou tentando fazer. 
Já é quase meia noite. Agora preciso dormir. Miguel está no sofá; até agora há pouco vou levá-lo pra cama. Alice está na casa do vovó. Quis dormir lá hoje com seu "look" roqueira-metaleira. 
Amo muito vocês!
Com muito amor,
Papai

domingo, 11 de março de 2018

Dia das mulheres 1988 versus 2018

8 de março de 1988. São 17 h. A aula de Educação Física terminou agora há pouco e estou chegando em casa. Meu short azul e minha camisa branca do uniforme estão banhados em suor. Meu ki-chute está repleto dos “timbetes” da grama onde jogamos “bola”. O céu está nublado, mas sei que não vai chover, pois não há nuvens cinzentas. Quando chego ao alpendre, dois cheiros me chamam a atenção: o da cera que a mamãe passou no chão da sala e o aroma delicioso do pão que ela acabou de tirar do forno. Mamãe está com um pano de pratos sobre o ombro, e com eles limpa o suor da testa. “Oi, filho! Pode ir tomar banho, sua roupa já está no banheiro”, diz ela, visivelmente exausta. “Não vai fazer xixi fora do vaso, hein! Eu acabei de lavar o banheiro!”

8 de março de 2018. Após 30 anos, ainda posso reviver esta cena sempre que fecho os olhos. Ao abri-los, via de regra, estão cheios de lágrimas. Mais que uma doce lembrança da infância, esta cena traz também um retrato da mulher daquela época, que se dedicava exclusivamente aos papéis de mãe e de esposa-dona de casa. Ao longo das três décadas que se passaram, o perfil da mulher mudou radicalmente. A mulher “dona de casa“ ganhou independência e tornou-se multitarefas. Hoje tem que conciliar o papel de mãe e de esposa com o mercado de trabalho, onde conquistou seu espaço com muita luta. Elas são mais vaidosas, mais elegantes, são mais instruídas, possuem perfis em redes sociais. Além disso, cuidam dos filhos, ajudam-nos nas tarefas da escola e os levam aos diversos compromissos (inglês, natação, música, futebol, judô etc.). Além disso, cozinham, fazem faxina, lavam e passam roupas. E, pasmem, conciliam tudo isso com o trabalho, que consomem a maior parte de seu tempo e, principalmente, de suas energias. Hoje em dia, muitas mulheres são tão “aguerridas” que acabam renunciando ao papel de mãe para se dedicarem à carreira. Algumas, inclusive, renunciam até ao papel de esposa. É inegável que a mulher de hoje é muito mais dinâmica e arrojada que a de 30 anos atrás. São dignas de respeito e admiração por tudo o que são e por serem tantas mulheres em uma só. Mas é realmente uma pena que as lembranças do cheiro de pães saindo do forno estejam se tornando ultrapassadas. 

sábado, 3 de março de 2018

Minhas lembranças da infância e eu...


Às vezes, quando fecho os olhos, ainda me sinto na cozinha da casa de chão de tijolos onde morávamos em Qurinópolis-GO. Sinto o cheiro dos pães que a mamãe colocou para assar no forno. À esquerda, avisto a dispensa, com a enorme bacia de alumínio onde tomamos banho. À esquerda está a varanda, onde, debaixo do banco, repousa o meu cachorro Branco. Dou meia volta, subo o degrau e ganho a sala. Lá está a pequena televisão branca, que funciona à bateria, mas nunca capturou sinal de nenhum canal. À direita, o quarto onde dormirmos – papai, mamãe, minha irmãzinha e eu. À esquerda, o quarto de hóspedes (que nunca aparecem, pois raramente recebemos visitas!), onde a mamãe costura em sua máquina e onde passo boa parte do tempo, escondido debaixo da bancada de sua máquina. É como se eu ainda tivesse quatro anos e aguardasse ansiosamente o pôr do sol para, depois de tomar banho, ir correndo abrir a porteira para o papai, que chegava da roça de trator, e abraça-lo. Não era uma vida fácil para meus pais. Minha mãe tinha que tirar água da cisterna para tomarmos banho. Papai trabalhava em meio à poeira e, por sofrer de rinite alérgica, vivia à base de remédios que o fizeram engordar. À noite, quando escurecia, dependíamos de lamparinas e de lampião. Tudo ficava escuro! Ouvíamos apenas o barulho dos morcegos se ajeitando nos caibros do telhado. Não tinha crianças pra eu brincar, mas eu tinha o quintal, as bananeiras, as plantações de milho por onde eu andava tranquilamente sentindo-me como um “gigante”. Havia a barraca de lona que o papai construiu para mim e as bananeiras, onde eu me escondia enquanto brincava de “guerrinha” com um inimigo que só existia em minha imaginação. Isso sem falar do meu trator e dos vários caminhões de madeira que o vovô Mila construiu pra mim. Por que as lembranças daquele lugar onde vivi até os cinco anos parecem estar tão vivas e tantas outras, mais recentes e não menos especiais, parecem ter sido apagadas? Não é que essas lembranças me incomodem; é que tê-las comigo e saber que vivi aqueles anos tão especiais me encantam e me fazem ter uma gratidão para com meus pais, em cujos braços eu encontrava o lugar mais seguro do mundo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Vida após a morte (?)

     Existem pessoas que não creem em vida após a morte. Não acreditam na existência de deuses, anjos, santos, espíritos e entidades, muito menos em ressurreição ou reencarnação. Estão convictas de que tudo se acaba quando morremos e que o que vemos e tocamos enquanto estamos "vivos" é só o que existe. Para essas pessoas, não existem outras dimensões, pois estas não podem ser detectadas por nenhum de nossos cinco sentidos. Há uma razão bem simples para isso: os homens entendem mais da morte – há inúmeras evidências físicas, como a parada do batimento cardíaco e a falência dos órgãos - do que da vida (De onde viemos? Como se originou o big bang? E por que estamos aqui?). Sabem como causar a morte de várias formas, mas sabem muito pouco como gerar a vida e muito menos como vive-la. Como então acreditar que existe “algo” após o fim? Talvez a morte seja, por si só, a maior prova de que estamos todos equivocados ao nos limitarmos ao universo físico. Ao fechar os olhos, podemos sentir o cheiro daquele ente querido que já partiu, ou mesmo o calor do seu abraço nos envolvendo. É possível ouvir a voz ou a gargalhada daquele seu tio querido, sentir o cheiro da comida na cozinha sendo preparada por aquela tia querida, o beijo molhado de sua avó ou até a tosse de seu avô enquanto fuma seu cigarro. E é praticamente impossível não se alegrar por ter vivido bons momentos com eles ou não se entristecer por não tê-los aproveitado o suficiente. Em ambos os casos, é difícil segurar as lágrimas. Como explicar este "fenômeno"? São apenas memórias que ficam gravadas no seu subconsciente? É uma reação involuntária do corpo para simular uma situação de conforto? Infelizmente não tenho uma resposta que seja a prova irrefutável para aqueles que não acreditam. Eu apenas sinto que aqueles que partiram estarão sempre próximos e vivos em minhas lembranças, provocando em mim uma saudade intensa demais para qualquer ciência tentar explicar...


domingo, 17 de setembro de 2017

Uma razão para (alguém) continuar

No início deste mês retornei às quadras, não mais para o querido futsal, mas para o voleibol, que eu havia abandonado no final da puberdade. Passei a fazer parte de uma turma bastante heterogênea, em que alguns jogam muito bem e outros são iniciantes. O que sempre apreciei nos esportes coletivos são as amizades que acabam se construindo, e independente do meu desempenho em quadra, creio que tenho me saído bem neste “fundamento”. Durante a semana, nos treinos na academia, um jovem rapaz da turma sempre vinha me cumprimentar. Em todas as ocasiões, ele insistia que não ia aparecer mais nos treinos porque jogava “muito mal”. Para motivá-lo, expliquei-lhe que alguns eram realmente mais experientes, mas que estávamos todos no mesmo barco. Pois bem. Na última sexta-feira acabei-me acidentando nos treinos na quadra durante uma queda e meu ombro deslocou-se. Há tempos não sentia uma dor tão terrível! Fiquei caído no chão, gemendo, com meu ombro fora do lugar. Senti então alguém me posicionando com as costas no chão e me pedindo para esticar o braço. “Ele é bombeiro civil, confie nele!”, disse um colega. De repente, meu ombro retornou à sua posição de origem e, do nada, a dor se foi. Quando olhei o anjo de guarda que havia me ajudado, eis a surpresa: ali estava o jovem rapaz que tanto insisti para vir jogar conosco... 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O fantasma do Hotel Pestana


Em 2004, a Reunião Anual da SBQ foi realizada em Salvador, juntamente com o Congresso Latino-americano de Química. Dentre as várias lembranças daquele congresso estão os passeios de escuna com os colegas da área de Química de Produtos Naturais e com o saudoso prof. Luiz Fernando da Silva Júnior, mas o “causo” do fantasma do Hotel Pestana foi certamente o mais marcante. O “causo” envolveu o prof. Norberto Peporine Lopes (Betão), naquela época em seus primeiros anos de carreira, os professores Leonardo Gobbo Neto (Gobbo) e Vanessa Leiria Campo, então colegas de pós-graduação, e os icônicos amigos Humberto Sakamoto e Michel David dos Santos.
Ao final do segundo dia de congresso, nosso colega Nilton Arakawa, que na época tocava em uma banda de rock, muniu-se de seu violão e reuniu professores e alunos da USP de Ribeirão Preto para um “happy hour” no saguão do Hotel Pestana, onde estávamos hospedados. Após algumas horas de um bate papo agradável e de muitas risadas, perdi minha batalha contra o sono e decidi sair de cena. Despedi-me de todos e disse que estava subindo para descansar no apartamento que dividia com o Sakamoto. Ao ver-me saindo, Betão não se conteve: “Miller, tome cuidado, hein? Dizem que este hotel é mal assombrado”. Sem levá-lo muito a sério, apenas balancei a cabeça e segui para o apartamento.
Algumas horas depois – não sei exatamente quantas - já em sono profundo, senti uma luz acesa me incomodando. Meio bêbado de sono, olhei para o lado e vi Sakamoto deitado em sua cama, acordado. A porta estava aberta e a luz que me incomodava vinha do corredor. De repente, ouvi alguém chamando meu nome:
-  “Miiiiiiller! Miiiiiiiller!”
Virei-me na cama e balbuciei:
- Sakamoto, pelo amor de Deus, estou morrendo de sono. Amanhã a gente conversa. E feche a porta, por favor!
- Hum? Mas eu não falei nada!”, respondeu prontamente.
- Miller, Miller! – disse a voz, que agora parecia se aproximar.
- Se não foi você, então quem foi?
Quando me virei novamente na cama, agora em direção à porta, vi uma criatura vestida de branco vindo em minha direção, chamando meu nome.
- Miiiiiller, Miiiiiller!
- Sakamoto, que porra é essa?
- Hum? Mas eu não estou vendo nada...
Por um milésimo de segundo, ainda sonolento, senti um frio na barriga enquanto aquele “fantasma” se aproximava de mim, com os braços levantados. Após a adrenalina tomar conta, percebi que se tratava de alguém trajando um lençol branco querendo assustar-me. Dei um salto da cama e coloquei-me de pé
- Miller? Miller, né? Peraí que eu vou te mostrar o Miller...
Armado com o enorme canudo verde de papelão onde estava acomodado o meu pôster e parti para cima do “fantasminha”, desferindo golpes nas costas, nos braços e nas pernas. Acuado, o fantasminha deu meia volta e saiu pela porta, correndo pelos corredores do Pestana, enquanto eu o perseguia. Quando passei pela porta no encalço do fantasma, deparei-me com Betão, Gobbo e Michel se contorcendo em gargalhadas. Após uns 15 metros de perseguição e vários golpes desferidos com o canudo, que já estava todo deformado, desisti do fantasminha e voltei para acertar as contas com os mentores da brincadeira. Já com dores no abdômen e com lágrimas nos olhos de tanto rirem, os três pareciam anestesiados e pouco se importaram com os meus golpes.
- Seus filhos da mãe! - disse a eles, dando meia volta e fechando a porta.
No dia seguinte, o episódio do fantasma do Pestana foi o assunto do café da manhã,. Todos riram muito, inclusive eu. No entanto, uma coisa ainda me intrigava: quem o Betão teria convencido a se vestir de fantasma?
- Você jamais saberá. Prometi não contar – disse ele, nutrindo ainda mais minha curiosidade.
Quando estávamos quase terminando o café da manhã, Vanessa aproximou-se e juntou-se a nós. Estava séria. Notei que seus braços estavam cheios de hematomas.
- Meu Deus, Vanessa, o que aconteceu? Você caiu?
Ela olha para o Betão, que se segura pra não rir, e me lança um olhar de raiva.
- Caí, sim... Caí em uma brincadeira...
E assim descobri a identidade do fantasma do Hotel Pestana, que provavelmente nunca mais assombrou ninguém...