sexta-feira, 16 de junho de 2017

4.1!

Queridos Miguel e Alice,
Hoje o papai de vocês está completando 41 anos. Quando o vovô de vocês completou essa idade eu já tinha 17 anos e ia prestar vestibular no final daquele ano. Dá mais ou menos pra ter uma ideia de como o que estou vivendo aos 41 anos é bem diferente do que o vovô de vocês viveu. É bem provável que quando vocês completarem essa idade eu já terei partido ou, na melhor das hipóteses, serei um velhinho careca com artrite nos joelhos e hérnia de disco. Por isso, sinto necessidade de deixar registrado neste dia alguma mensagem para vocês sobre como o papai de vocês se sentia quando tinha essa idade. Ler essa mensagem talvez apenas os faça chorar, assim como estou com lágrimas nos olhos enquanto escrevo essas palavras.
São 1h24min. Vocês estão dormindo como dois anjinhos no quarto de vocês enquanto o filme Toy Story está passando pela enésima vez. Enquanto escrevo essas palavras vocês ainda são duas crianças adoráveis e educadas. Miguel é um menino calmo e educado, que adora desenhar e brincar com suas “caixinhas”. São tantos desenhos que eu comprei uma caixa para guarda-los – eu a batizei de “caixinha dos desenhos especiais”. Suas caixinhas ficam sobre a cama e com ela às vezes Miguel passa brincando bastante tempo. A mamãe fica maluca com essas caixinhas, que segundo ela deixam o quarto “zuado”. Já Alice adora suas “coisinhas”. É incrível (e extremamente encantador) a forma como ela brinca com suas bonecas (coloca-as de castigo, as despe, arranca suas pernas etc.). Existe nela uma energia e uma alegria especial. Quando me vê abraçando a mamãe, ela vem correndo e também se abraça, dizendo “Mamãe e papai, casa!” Vocês dois ficam lindos quando correm pela casa brincando um com o outro. Espero que essa harmonia persista ao longo de suas vidas. É algo que todos os pais desejam: que seus filhos se entendam. Por isso, deixo aqui um pedido: não deixe que o amor de vocês um pelo outro se enfraqueça com o passar dos anos e com a entrada de outras pessoas em suas vidas. Vocês são irmãos e este é o segundo elo mais forte que existe – o primeiro, obviamente, é o dos pais para com seus filhos.
Tenho procurado curti-los ao máximo, pois sei que em pouco tempo vocês serão adolescentes e, depois, adultos. A vida passa muito rápido! Sei, no entanto, que por mais que eu me esforce, estou falhando em alguns pontos. Miguel, por exemplo, ainda não sabe andar de bicicleta e eu sei que é culpa minha por não insistir tanto quanto o avô de vocês insistia comigo. Mas há momentos incríveis que passamos juntos. Alice adora que eu brinque de Lego e com suas Pollys. Quase todas as noites ela vai buscar-me no quarto e pede que eu vá me deitar ao lado dela. Então ela vira de lado, encosta sua cabecinha à minha e dorme. Ela adora assistir Trolls – ela chama de “Tóls”. Já Miguel adora brincar de guerrinha na varanda. Usamos as bolas de borracha que compramos por R$1,00 no mercado e nos escondemos atrás dos bancos da varanda. Então as jogamos um no outro como se fossem granadas. Alice às vezes participa, o que deixa tudo mais engraçado, pois enquanto Miguel tenta juntar o máximo de “granadas”, Alice as joga aos montes em minha direção. Miguel e eu também jogamos combate, damas e xadrez, mas às vezes temos que parar, pois ele começa a chorar quando perde. Eis, então, algumas palavras que deixo a vocês: não se deixem afligir pelas derrotas. Elas serão muito mais numerosas que as vitórias, mas se não conseguirem aprender com as derrotas, jamais conseguirão vencer. O maior aprendizado que as derrotas podem trazer é a humildade. Ninguém nasce humilde; humildade é fruto de suas experiências. É a humildade que nos faz valorizar a vitória e a ter o devido respeito por aqueles que não a alcançam. Vitórias são passageiras; por isso, espero que nunca se sintam maiores ou melhores que alguém quando estiverem atravessando um bom momento da vida de vocês. Sejam apenas alegres e felizes, mas jamais se sintam acima de ninguém. Por outro lado, não quero que se sintam inferiores a ninguém. Certamente vocês conhecerão muitas pessoas que irão tentar fazê-los sentirem-se dessa maneira e coloca-los para baixo. Conheci muitas pessoas que tentaram fazer isso comigo, e às vezes foram bem-sucedidas... Confesso que tenho uma dificuldade enorme para lidar com pessoas arrogantes. Talvez por isso elas surjam aos montes no meu caminho. Aconselho-lhes a serem pacientes e persistentes. Essas pessoas não permanecerão por muito tempo na vida de vocês se aprenderem a lidar com elas – se o fizerem, elas pelo menos deixarão de incomodá-los.
Um terceiro conselho e último conselho que deixarei antes de me ir descansar para aproveitar este dia: curtam os bons momentos e as boas pessoas, pois ambos são passageiros. Um dia a vida vai tirar as pessoas queridas da vida de vocês – vovô, vovó, biso, bisa talvez partam primeiro, mas não existe uma ordem! Curtam cada momento intensamente. Mesmo que eu tenha curtido ao máximo alguns momentos e algumas pessoas, sinto que nunca é o suficiente. Depois que elas partem, sempre fica a saudade e a amarga sensação de não termos curtido o quanto deveríamos.
É incrível como nos últimos anos – particularmente, desde que vocês nasceram – tenho me sentido um homem plenamente feliz. Não há nada em minha vida de que eu sinta falta – ainda que um pouco mais de harmonia entre os familiares seja bem-vinda, mas há coisas que não dependem apenas da gente. Não temos muito dinheiro, não vivemos em um sobrado, não temos piscina em casa nem viajamos para a Europa com frequência. Não é isso que nos traz felicidade! Felicidade é ter saúde e uma vida harmoniosa, um equilíbrio entre as tarefas profissionais e a família. Por isso, não sejam gananciosos demais ao ponto de deixarem a família em segundo plano. Ela vem sempre primeiro! Se eu trabalhasse para dar tudo o que vocês quiserem ou pedirem, eu certamente seria um estranho na vida de vocês. Porém, cuidado: se não tiverem ambição em suas vidas, se não tiverem algo por que lutar, vocês passarão por essa vida como zumbis e não terá deixado nenhuma marca positiva! Por isso, estudem, trabalhem e, sempre que puderem, divirtam-se! Mas não se esqueçam do que eu tentei lhes ensinar: as obrigações vêm sempre antes da diversão. O vovô de vocês sempre me dizia isso e, raras vezes, eu tentava fazer diferente – nunca acabou bem! Assim, se forem razoavelmente astutos, tentem não cometer o mesmo que o pai de vocês...
Preciso ir agora. Alice acabou de acordar me perguntando por que eu tirei o tapete do escritório e o coloquei na sala da varanda e, em seguida, pediu pra eu achar o controle e colocar, novamente, o “Tóls” pra ela assistir na televisão do quarto...
Despeço-me agora para estar ao lado de vocês...
Com muito amor,

Papai

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Dia dos namorados

Por mais paisagens, lugares e pessoas que eu tivesse visto ou estudado, foi há 22 anos, quando nossos olhares se cruzaram pelo retrovisor do carro, que enxerguei pela primeira vez. Era como se meus olhos estivessem fechados por longos 19 anos. Apesar dos vários jardins que eu visitei até então, seu perfume foi a primeira (e mais marcante) fragrância que conheci. Comigo ele permaneceu por vários dias. Bastava fechar os olhos e respirar fundo para poder senti-lo, como se viesse até mim do outro lado da cidade. Até algumas semanas depois, quando toquei sua pele pela primeira vez, pétalas de rosas eram o que de mais macio meus dedos acreditavam existir. Após encontros e pequenos desencontros, sua voz encantadora, em sussurro, consentiu com um mero (e tão esperado...) “claro” que o meu coração começasse a bater. A existência, até então amarga, tornou-se a mais doce das experiências desde que meus lábios tocaram os seus. E você, de quem eu já havia arrancado vários sorrisos, fez com que a vida, enfim, me sorrisse de volta. Obrigado pelos 22 anos de vida e felicidade, minha eterna namorada!


sábado, 3 de junho de 2017

Quatro anos depois de um sonho

Faz exatamente quatro anos que iniciei minhas atividades no Departamento de Química da FFCLRP-USP. Na época, deixar a UNIFRAN, onde me graduei e trabalhei durante dez anos, e abrir mão do reconhecimento, da identificação com os alunos e de um ótimo salário não foi fácil. Foi uma mudança tão grande que ainda hoje me sinto dando os primeiros passos na carreira. Aqui conheci muitas pessoas; algumas conquistaram minha admiração, outras o meu respeito. Aprendi muito nesses últimos quatro anos, mas às vezes me assusto com o longo caminho que preciso percorrer. Então eu olho para trás e vejo o caminho que já percorri e as experiências já vivenciei. Percebo, assim, que trabalhar onde tanto almejei é apenas uma de tantas coisas boas que trago na bagagem. Em outras palavras, não foi aqui que encontrei minha felicidade; é aqui que permaneço feliz.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Miguel e seus desenhos

Dizem que muitas crianças expressam seus sentimentos através de desenhos. Eis o que Miguel expressou através de seus traços...


sábado, 27 de maio de 2017

O calendário

Hoje pela manhã notei que Miguel estava no quarto, sozinho, com a porta fechada. Achei estranho. Aproximei-me e vi que ele estava escondendo algo sob suas mãos. Pedi pra ver o que era, ele ficou com os olhos rasos em lágrimas e começou a tremer os lábios. Era um calendário que ele tinha usado pra brincar sem permissão. "Papai, eu estraguei, mas estou colocando de volta no lugar. Está faltando só o mês de fevereiro, mas eu arrumei. O senhor está bravo?" Não consegui dizer nada. Apenas o abracei, na tentativa de esconder que agora era eu quem estava chorando...


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sobre os políticos

Eu não odeio políticos, embora não possa dizer que por eles tenho algum tipo de admiração ou respeito. O que abomino são sujeitos que, ao invés de representarem aqueles que os elegeram, manipulam o sistema em função de seus interesses pessoais. Nesses o gene do egoísmo é dominante e o fenótipo da corrupção, cedo ou tarde, irá manifestar-se, independente se a pessoa for líder sindical ou neto de ex-presidente. Mas o que mais me preocupa é a possibilidade de haver, de fato, uma identificação da população com esses sujeitos que são eleitos e de eles realmente os estarem representando no poder. Espanta-me o fato de a maioria dos brasileiros votar não pensando no país, mas no que vão lucrar se o seu candidato for eleito - se puder participar do "clube", melhor ainda! No entanto, não me parece ser um problema só do nosso país - ainda que aqui isso seja quase cultural - e sim da humanidade. Como dizem, não precisamos deixar um mundo melhor para os nossos filhos; precisamos é deixar filhos melhores para o mundo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Woodpecker from the space?

1983. Eu havia acabado de mudar-me de Quirinópolis-GO para São Joaquim da Barra. Tudo ainda me parecia novo. Sentado no chão vermelho da varanda, que a mamãe fazia questão de manter sempre limpo e brilhante, eu me lembro de às vezes ficar horas ouvindo o rádio da mamãe – o mesmo que ouvíamos quando morávamos na fazenda. Na verdade, não posso dizer que eram realmente horas, pois quando se tem sete anos nossa noção do tempo é um pouco equivocada. Mas o fato é que certa vez eu ouvi uma música que me marcou bastante por eu ter achado engraçada. Chamavam-na de “melo do pica-pau”. Eu ri tanto quando a ouvi que depois de então sempre ficava esperando que ela tocasse novamente no rádio.

2016. Acabo de descobrir que a música que eu ouvi há 33 anos chamava-se “Woodpecker from the space”. Corro na internet, baixo sua versão mp3 e a gravo no tocador de mp3 do Miguel, que tem hoje quase a mesma idade que eu tinha. Suas risadas me deixam nostálgico e agradecido, não somente a Deus, mas também à genética...