Sábado, Dezembro 05, 2009

Fragmentos de minha infância - parte 15

Quando me ouve dizer aquilo, o papai me olha com cara de bravo. Nunca vi ele me olhando desse jeito. Parece que está com ódio de mim. “Cala a boca, bunda suja!”. Ele nunca falou comigo desse jeito. O papai nunca falou comigo desse jeito! Mesmo assim, depois de falar isso, ele continua me olhando com cara de quem está com muita raiva. O homem continua conversando com ele ainda olha pra mim de vez em quando.

O papai e o homem que veio aqui pra ver o trator aos poucos vão se afastando. Fico parado no mesmo lugar, olhando para o chão. Acho que vou embora pra casa.

Sozinho, começo a caminhar pela estrada de terra. Ando um pouco e vejo o seu Dudu, nosso vizinho, passando de charrete. Ele ajeita seu chapéu de palha, dá uma tragada no cigarro e puxa as rédeas, fazendo a charrete parar. “Dadinho, vem cá!” Ele me chama e eu me aproximo da charrete. Então ele enfia a mão no bolso e tira dois saquinhos amarelos de fumo vazios. “Oba! Mais um pra coleção! Obrigado, seu Dudu!” Ele sabe que eu coleciono esses saquinhos. Gosto do cheiro e do barulhinho que o saquinho faz quando a gente aperta ele com as mãos. Também acho legal a foto do Luís Gonzaga que vem desenhada no meio de um quadrado amarelo do saquinho. Como o seu Dudu fuma muito, ele sempre guarda os saquinhos para mim.

O seu Dudu se ajeita na charrete, dá uma apertada na rédea e a égua começa a andar. “Seu Dudu, meu pai me chamou de bunda suja. Por quê? Eu não tenho a bunda suja!” Ele ri. “Seu pai deve ta nervoso, Dadinho. Deixa pra lá. Vai lá c’a sua mãe. Tchau!” Aos poucos a charrete dele vai ficando longe, até ele pegar a rodovia de terra e desaparecer.

Enquanto caminho pra casa, encontro um pedaço de corda de pano caído no chão. Está cheio de nós. “Nossa, uma corda! O papai gosta tanto de corda... Vou levar essa corda pra ele e deixar na frente de casa. Ele vai gostar! Aí eu digo que fui eu que achei e ele vai ficar menos bravo comigo...” Pego então a corda e vou andando arrastando ela pela estrada de terra.

Cruzo a estronca e chego em casa. Deixo a corda perto do banco, debaixo da árvore que faz sombra na porta da nossa casa. Procuro a mamãe. Ela está lavando roupa. Chego perto dela. “Ô, meu fiinho! Cê tai... E o papai, já acabou o negócio do trator?” Eu falo, triste. “Mamãe, o papai me chamou de bunda suja.” A mamãe ri. “Mas por que, fi?” Eu levanto os ombros e as mãos e faço cara de quem não sabe por quê.

Fico ali um tempão olhando a mamãe lavando roupa. A mamãe é muito corajosa. Tira água da cisterna e até tiro com a espingarda ela sabe dar. De vez em quando eu ajudo ela a tirar água da cisterna, mas tenho muito medo de cair lá dentro. Parece que é muito funda!

Ouço o barulho de um motor ligando. Não é o do trator. É o homem que está indo embora. Vejo então o homem abrindo a porteira e indo embora. Olho para o outro lado e vejo o papai vindo em minha direção com a corda nas mãos. Ele vem caminhando depressa e está com a corda enrolada na mão direita. Vou então correndo na direção dele. “Papai, o senhor viu a corda que eu achei?” Então ele me levanta pela orelha e caminha comigo em direção ao mato rasteiro perto de onde a mamãe está lavando roupa. Lá então ele me joga e eu caio deitado, chorando. “Bem do céu! O que cê vai fazê?”, grita a mamãe, agarrando no braço dele. “E você não entra no meio, não, porque senão vai sobrar pra você também!”

(continua...)

Sábado, Novembro 14, 2009

Fragmentos de minha infância - Parte 14

Julho de 1981 É inverno aqui em Quirinópolis-GO. O quintal está cheio de folhas secas. Às vezes tenho a impressão de que todas as folhas das árvores estão espalhadas pelo chão. Mesmo aqui na roça, sinto falta da cor verde. A cor amarelada de seca só traz tristeza.

Por falar em tristeza, estou sentindo que o papai anda muito triste. Ontem, enquanto a gente almoçava, ouvi ele dizer pra mamãe algo que precisava vender o trator Valmet que a gente tem. Às vezes eu o vejo triste quando vou com ele a um lugar perto de um banco. Parece que ele vai lá pra tirar dinheiro emprestado pra poder plantar milho e pagar os “peões” que trabalham para ele. Ele sempre sai triste de lá, mas a coisa parece que é muito séria. Ouvi até ele dizendo que vamos ter que nos mudar daqui e que ele vai ter que voltar a trabalhar com caminhão de novo. O pior de tudo é que ele disse algo sobre um problema sério no motor do trator. Não entendi se ele arrumou ou se ainda vai arrumar o trator. Acho que isso só vai tornar ainda mais difícil encontrar alguém pra comprá-lo...

Estou brincando, sozinho como sempre, sob a sombra da enorme árvore que fica aqui em frente de casa. Daqui avisto uma caminhonete se aproximando. Corro e chamo o papai. “É o homem que veio comprar o trator”, diz ele, um pouco mais animado. O papai fala alguma coisa pra ele, que então desce da caminhonete. Caminhando ao lado do papai, ele segue em direção à enorme mangueira. É debaixo dela que o papai guarda o Valmet que ele quer vender. Sigo atrás dos dois, sem entender muito bem o que os dois estão falando.

Chegamos até o trator. Eu me posiciono ao lado do papai, que começa falando que está com o trator já há alguns anos e que nunca teve problema com o trator. Fico prestando atenção pra ver, pela primeira vez, o papai fazer “negócio”. O rapaz então pergunta como está o motor do trator. “O motor do trator está novo!”, diz o papai, para minha surpresa. “Espera aí: será que estou entendendo bem? O papai está mentindo pra vender o trator? Meu grande herói está mentindo pra passar o rapaz para trás? Não acredito!”, penso comigo, enquanto o rapaz balança a cabeça, aparentemente satisfeito. Então eu resolvo perguntar para o papai: “Uai, papai... Mas o senhor não tinha dito que o motor do trator estava fundido????”

(continua...)

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Olhe à sua volta

Nesta semana estive em um congresso em São Pedro, Estado de São Paulo. O congresso abordava temas diversificados relacionados à área de Química de Produtos Naturais, e contou com a presença de vários pesquisadores estrangeiros. Ficamos em um hotel fazenda, eu e mais três amigos.

Congressos geralmente são ótimas ocasiões para reflexão, porém volto abatido da maioria deles por sempre achar que jamais chegarei ao nível científico dos palestrantes. Não é uma situação muito fácil de lidar, eu confesso. Porém, em um dos intervalos das palestras, eu e um de meus amigos resolvemos jogar tênis de mesa. Ele me dissera que fora campeão, e eu também. Mas isso faz 19 anos!

Começamos então a bater bola. Não foi preciso dizer que estava muito fora de forma – ou diria que desaprendi? Comecei então a me sentir velho, e a tristeza logo me ocorreu. Mas houve um momento que muito me marcou. Em uma de minhas cortadas, a bola foi longe (e sequer bateu na mesa...). Deixei a raquete sobre a mesa, apoiei os dois braços e, cansado, lamentei estar ficando velho. Eis então que olhei para uma mesa não muito longe de onde estávamos jogando e vi uma senhora cuidando de uma moça em uma cadeira de rodas. Era uma moça bonita, maquiada, porém com um olhar triste. Para conversar com sua suposta mãe, a moça utilizada uma placa que estava sobre a mesa. Ela não conseguia falar, apenas apontava com os dedos para cada letra e ia, letra por letra, construindo as frases. Seu olhar era triste e distante. Disseram-me durante o congresso que ela não nascera daquele jeito. Imagino que deve ter ocorrido algo muito grave pra ela ficar naquela condição.

Ao vê-la, senti-me mal agradecido por achar que estar envelhecendo é ruim. O corpo, naturalmente, já não responde como antes, mas continuo saudável e com todos os cinco sentidos perfeitos. Pra falar a verdade, estou até bem para alguém da minha idade. Respirei fundo, balancei a cabeça em sinal de positivo e, cheio de confiança, gritei para o meu amigo: “Vamos lá, manda essa bolinha aqui que eu vou te mostrar como joga tênis de mesa!”

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Amizades

A adolescência é um período repleto de dúvidas. O adolescente não sabe exatamente quem é nem tampouco quem vai ser. Fui um adolescente muito introspectivo e tímido. Vivia pra estudar e tirar as boas notas que o papai (graças a Deus) exigia, e para jogar futebol que a mamãe (graças a Deus) permitia. Conhecia muitas pessoas, a maioria elas da escola ou do clube onde brincava. Na época eu as classificava em três categorias: amigos, colegas e aqueles que “eu não ia com a cara”. Era fácil.

Hoje em dia as coisas são muito mais complexas. Hoje sou adulto e vivo entre “seres sociais”. Hoje em dia não dá mais pra distinguir quem é verdadeiramente amigo ou quem é inimigo. Digo “inimigo” porque hoje em dia algumas pessoas aproximam-se e dão o ombro pra ouvir um desabafo seu, para logo em breve usar aquilo a favor dela e contra você. Como ser “social”, hoje tenho que conviver com essas pessoas sem saber quem elas são... É como caminhar sobre ovos o tempo todo.

Hoje em dia não dá mais pra confiar em ninguém. As pessoas parecem ser mais más que antes. E se você teima em confiar nelas, por favor, seja cauteloso.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

De volta ao trabalho

Os dias que sucederam minha passagem ao hospital foram particularmente especiais. Foram momentos incríveis e intensos ao lado de minha família. Visitei minha avó quase todos os dias que pude e fui à casa de meus pais praticamente todos os dias. Visitei também meu sogro e minha sogra, por quem também tenho muito carinho. Curti todos eles com muita intensidade.

Passado o período de agradecimento, minha nova rotina de trabalho está sendo muito intensa. Há três dias tenho ido dormir às 3h da manhã, assim como eu fazia na época de graduação. A diferença é que agora sou 13 anos mais velho...

Tenho bebido muita água e procurado manter a calma diante de tudo o que tenho a fazer. O equilíbrio entre trabalhar e viver é o verdadeiro segredo de se viver bem. E não se desesperar, porque no final das contas, tudo acaba dando certo. Mesmo sabendo disso, viver é uma grande aventura, não acham?

Domingo, Outubro 04, 2009

Repensando a vida

Há quinze dias, neste mesmo horário em que escrevo este post, eu estava internado com terrível cólica renal. A dor iniciou-se às 5h30min, quando virei-me na cama. A princípio achei que fosse uma daquelas dores na coluna que tanto me incomodam de vez em quando. Levantei-me e fiz todos os alongamentos que estou acostumado a fazer, mas a dor só parecia aumentar. Senti então meu estômago revirar, então comi um pedaço de bolo. Minha esposa, ao ouvir meus gemidos, acordou preocupada e prontamente identificou que eu estava sofrendo de cólica renal. Imediatamente ela providenciou um remédio para os rins com um copo de leite. Eu os ingeri, mas o estômago recusou. Após o vômito, não tive outra alternativa: fui para o hospital, onde permaneci até as 14h da segunda-feira tomando medicamento para a dor passar e muito soro.

Um dos remédios que me receitaram para tirar a dor deixou-me completamente tonto. Entre as poucas cenas que me vêem à cabeça, a que mais me desperta a atenção é a lembrança de minha esposa pacientemente insistindo para que eu comesse. Digo “insistir” porque eu começava a mastigar a comida que ela trazia com o garfo até mim e logo em adormecia, sem mesmo ter terminado de mastigar. Uma outra lembrança marcante foi a voz de minha avó chorando ao telefone. Aquilo partiu-me o coração.

Dizem que de todo acontecimento ruim, temos que tirar um aprendizado. Pois bem. Esta passagem pelo hospital ensinou-me várias coisas. A primeira delas é que preciso ingerir mais água. Sem ela os exercícios físicos são inúteis. Aprendi também que é nos momentos difíceis que o amor verdadeiro entre homem e mulher se revela. Minha esposa esteve ao meu lado durante toda a minha “estadia” no hospital e cuidou de mim com imensos carinho e atenção. Isso apenas confirma o que eu já sabia: ela é um presente de Deus.

Percebi também que eu preciso dar mais atenção à minha família. Na verdade, tenho uma família imensa, mas quando uso a palavra “família” estou me referindo aos que verdadeiramente se preocupam comigo. Assim como nós distinguimos os amigos dos colegas, precisamos diferenciar a família dos entes familiares. Durante muito tempo isso fiquei muito incomodado com esta diferença, e às vezes ainda sofria com isso. Após minha passagem pelo hospital, aprendi que não tenho que me entristecer pelos entes familiares que não ligam para mim, mas sim alegrar-me por ter uma família que realmente se importa comigo.

Por último, e não menos importante, aprendi que o trabalho não pode ser sempre colocado à frente de tudo. Por mais que eu goste de fazer o que eu faço e por mais prazer que isto me dê, o mais importante é a família. E digo isso sabendo que minha família de verdade é bem pequena, e que em função da idade de meus avós, muito em breve irá tornar-se menor ainda. Minhas prioridades, portanto, mudaram. Acho que aprendi a lição.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Verdade nua e crua

No último domingo assisti ao filme “Verdade nua e crua”. Trata-se de uma comédia romântica sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Um dos protagonistas, interpretado por Gerard Butler, mais conhecido por seu papel de Rei Leônidas em “300”, é um homem que diz apenas sua verdade sobre as mulheres. Ele diz que homens jamais se apaixonarão pela simpatia das mulheres, e sim pela beleza de seus corpos. Sim, pois o que importa é a beleza física. A outra protagonista, obviamente uma mulher solteira à procura de seu “príncipe encantado”, conta com uma lista de requisitos que um homem deve ter para ser seu namorado. Em se tratando de uma comédia romântica, já deu pra sentir que os dois vão ficar juntos, mesmo sabendo que o outro é imperfeito. Tenho que admitir: o filme traz realmente algumas verdades contundentes. Homem e mulher, embora tenham direitos iguais perante a lei, estão se distanciando cada vez mais em seus objetivos. Não vou me iludir e dizer que “no meu tempo as coisas eram diferentes”. A questão é que a mulher alcançou independência financeira e agora tem condições de escolher as características que quiser em seu companheiro (e quem não tem?). O pobre coitado que pisar na bolsa, que se cuide! “A fila anda”, como elas costumam dizer. Por outro lado, os homens parecem amedrontados, cada vez mais ariscos. Temem cair em um compromisso sério. Talvez isso represente para eles perder a liberdade, ou melhor, ficar sob “liberdade assistida”. Procurar em um homem uma lista de atributos e definir se ele é a pessoa ideal é uma atitude um tanto cretina, pelo menos na minha opinião. Da mesma forma, olhar para uma mulher e nela enxergar apenas uma “fonte de sexo e de prazer” é um tanto que primitiva demais. Onde fica a paixão nessa história? Onde está a cumplicidade e a vontade de construir uma vida juntos? Só para estragar o prazer dos que vão assistir ao filme: no final, a protagonista pergunta para o protagonista por que ele está apaixonado por ela. Ele simplesmente responde: “Eu não faço a mínima idéia”. Muito simples: a paixão, aquele sentimento que faz o coração acelerar, as mãos ficarem suadas e os pensamentos ficarem confusos não pode ser racionalizado como uma equação matemática. Paixão é paixão. Eu garanto que o mundo seria um lugar melhor pra se viver se a paixão fosse vivida ao invés de ser explicada.