sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Vida após a morte (?)

     Existem pessoas que não creem em vida após a morte. Não acreditam na existência de deuses, anjos, santos, espíritos e entidades, muito menos em ressurreição ou reencarnação. Estão convictas de que tudo se acaba quando morremos e que o que vemos e tocamos enquanto estamos "vivos" é só o que existe. Para essas pessoas, não existem outras dimensões, pois estas não podem ser detectadas por nenhum de nossos cinco sentidos. Há uma razão bem simples para isso: os homens entendem mais da morte – há inúmeras evidências físicas, como a parada do batimento cardíaco e a falência dos órgãos - do que da vida (De onde viemos? Como se originou o big bang? E por que estamos aqui?). Sabem como causar a morte de várias formas, mas sabem muito pouco como gerar a vida e muito menos como vive-la. Como então acreditar que existe “algo” após o fim? Talvez a morte seja, por si só, a maior prova de que estamos todos equivocados ao nos limitarmos ao universo físico. Ao fechar os olhos, podemos sentir o cheiro daquele ente querido que já partiu, ou mesmo o calor do seu abraço nos envolvendo. É possível ouvir a voz ou a gargalhada daquele seu tio querido, sentir o cheiro da comida na cozinha sendo preparada por aquela tia querida, o beijo molhado de sua avó ou até a tosse de seu avô enquanto fuma seu cigarro. E é praticamente impossível não se alegrar por ter vivido bons momentos com eles ou não se entristecer por não tê-los aproveitado o suficiente. Em ambos os casos, é difícil segurar as lágrimas. Como explicar este "fenômeno"? São apenas memórias que ficam gravadas no seu subconsciente? É uma reação involuntária do corpo para simular uma situação de conforto? Infelizmente não tenho uma resposta que seja a prova irrefutável para aqueles que não acreditam. Eu apenas sinto que aqueles que partiram estarão sempre próximos e vivos em minhas lembranças, provocando em mim uma saudade intensa demais para qualquer ciência tentar explicar...


domingo, 17 de setembro de 2017

Uma razão para (alguém) continuar

No início deste mês retornei às quadras, não mais para o querido futsal, mas para o voleibol, que eu havia abandonado no final da puberdade. Passei a fazer parte de uma turma bastante heterogênea, em que alguns jogam muito bem e outros são iniciantes. O que sempre apreciei nos esportes coletivos são as amizades que acabam se construindo, e independente do meu desempenho em quadra, creio que tenho me saído bem neste “fundamento”. Durante a semana, nos treinos na academia, um jovem rapaz da turma sempre vinha me cumprimentar. Em todas as ocasiões, ele insistia que não ia aparecer mais nos treinos porque jogava “muito mal”. Para motivá-lo, expliquei-lhe que alguns eram realmente mais experientes, mas que estávamos todos no mesmo barco. Pois bem. Na última sexta-feira acabei-me acidentando nos treinos na quadra durante uma queda e meu ombro deslocou-se. Há tempos não sentia uma dor tão terrível! Fiquei caído no chão, gemendo, com meu ombro fora do lugar. Senti então alguém me posicionando com as costas no chão e me pedindo para esticar o braço. “Ele é bombeiro civil, confie nele!”, disse um colega. De repente, meu ombro retornou à sua posição de origem e, do nada, a dor se foi. Quando olhei o anjo de guarda que havia me ajudado, eis a surpresa: ali estava o jovem rapaz que tanto insisti para vir jogar conosco... 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O fantasma do Hotel Pestana


Em 2004, a Reunião Anual da SBQ foi realizada em Salvador, juntamente com o Congresso Latino-americano de Química. Dentre as várias lembranças daquele congresso estão os passeios de escuna com os colegas da área de Química de Produtos Naturais e com o saudoso prof. Luiz Fernando da Silva Júnior, mas o “causo” do fantasma do Hotel Pestana foi certamente o mais marcante. O “causo” envolveu o prof. Norberto Peporine Lopes (Betão), naquela época em seus primeiros anos de carreira, os professores Leonardo Gobbo Neto (Gobbo) e Vanessa Leiria Campo, então colegas de pós-graduação, e os icônicos amigos Humberto Sakamoto e Michel David dos Santos.
Ao final do segundo dia de congresso, nosso colega Nilton Arakawa, que na época tocava em uma banda de rock, muniu-se de seu violão e reuniu professores e alunos da USP de Ribeirão Preto para um “happy hour” no saguão do Hotel Pestana, onde estávamos hospedados. Após algumas horas de um bate papo agradável e de muitas risadas, perdi minha batalha contra o sono e decidi sair de cena. Despedi-me de todos e disse que estava subindo para descansar no apartamento que dividia com o Sakamoto. Ao ver-me saindo, Betão não se conteve: “Miller, tome cuidado, hein? Dizem que este hotel é mal assombrado”. Sem levá-lo muito a sério, apenas balancei a cabeça e segui para o apartamento.
Algumas horas depois – não sei exatamente quantas - já em sono profundo, senti uma luz acesa me incomodando. Meio bêbado de sono, olhei para o lado e vi Sakamoto deitado em sua cama, acordado. A porta estava aberta e a luz que me incomodava vinha do corredor. De repente, ouvi alguém chamando meu nome:
-  “Miiiiiiller! Miiiiiiiller!”
Virei-me na cama e balbuciei:
- Sakamoto, pelo amor de Deus, estou morrendo de sono. Amanhã a gente conversa. E feche a porta, por favor!
- Hum? Mas eu não falei nada!”, respondeu prontamente.
- Miller, Miller! – disse a voz, que agora parecia se aproximar.
- Se não foi você, então quem foi?
Quando me virei novamente na cama, agora em direção à porta, vi uma criatura vestida de branco vindo em minha direção, chamando meu nome.
- Miiiiiller, Miiiiiller!
- Sakamoto, que porra é essa?
- Hum? Mas eu não estou vendo nada...
Por um milésimo de segundo, ainda sonolento, senti um frio na barriga enquanto aquele “fantasma” se aproximava de mim, com os braços levantados. Após a adrenalina tomar conta, percebi que se tratava de alguém trajando um lençol branco querendo assustar-me. Dei um salto da cama e coloquei-me de pé
- Miller? Miller, né? Peraí que eu vou te mostrar o Miller...
Armado com o enorme canudo verde de papelão onde estava acomodado o meu pôster e parti para cima do “fantasminha”, desferindo golpes nas costas, nos braços e nas pernas. Acuado, o fantasminha deu meia volta e saiu pela porta, correndo pelos corredores do Pestana, enquanto eu o perseguia. Quando passei pela porta no encalço do fantasma, deparei-me com Betão, Gobbo e Michel se contorcendo em gargalhadas. Após uns 15 metros de perseguição e vários golpes desferidos com o canudo, que já estava todo deformado, desisti do fantasminha e voltei para acertar as contas com os mentores da brincadeira. Já com dores no abdômen e com lágrimas nos olhos de tanto rirem, os três pareciam anestesiados e pouco se importaram com os meus golpes.
- Seus filhos da mãe! - disse a eles, dando meia volta e fechando a porta.
No dia seguinte, o episódio do fantasma do Pestana foi o assunto do café da manhã,. Todos riram muito, inclusive eu. No entanto, uma coisa ainda me intrigava: quem o Betão teria convencido a se vestir de fantasma?
- Você jamais saberá. Prometi não contar – disse ele, nutrindo ainda mais minha curiosidade.
Quando estávamos quase terminando o café da manhã, Vanessa aproximou-se e juntou-se a nós. Estava séria. Notei que seus braços estavam cheios de hematomas.
- Meu Deus, Vanessa, o que aconteceu? Você caiu?
Ela olha para o Betão, que se segura pra não rir, e me lança um olhar de raiva.
- Caí, sim... Caí em uma brincadeira...
E assim descobri a identidade do fantasma do Hotel Pestana, que provavelmente nunca mais assombrou ninguém...

domingo, 20 de agosto de 2017

Que a força esteja com o vovô!

Hoje à tarde, enquanto ajudava Miguel em seu banho, disse-lhe: “Papai está dando banho em você agora e você dará banho no papai quando eu estiver velhinho”. Ele achou engraçado. Então falei-lhe sobre os percalços da velhice – osteosporose, artrite, fraldas geriátricas, perda de memória etc. - e expliquei-lhe que “o papai já teve a idade dele e que o vovô já teve a minha idade”; que, em breve, eu terei a idade do vovô e ele terá a do papai. Contei então que seu vovô era um homem muito forte e trabalhador, que tinha um caminhão e que passava até três meses longe de casa lutando pelo nosso sustento. “Nossa, papai, o vovô era forte quando tinha o caminhão?”, perguntou ele, que veio ao mundo quando seu vovô já havia se aposentado. “Sim, filho, o vovô era muito forte”. Como sempre, deixei Alice e ele na casa de meus pais e retornei para casa. Quando vieram trazê-los, papai chamou-me e contou-me: “Miguel me disse que, quando crescer, vai me dar um caminhão de presente...”

sábado, 19 de agosto de 2017

Para nos lembrarmos dos dias mais felizes

Queridos Miguel e Alice,
Novamente escrevo em uma noite de sábado, enquanto vocês dormem. Hoje Alice adormeceu ao lado da mamãe, abraçada a ela. Miguel “apagou” logo após eu colocar o DVD do Toy Story, ainda nos trailers. Enquanto vocês dormem, cá estou em uma noite de sábado, a escrever-lhes novamente. É estranho estar no presente escrevendo para vocês no futuro, mas é para mim quase que uma necessidade registrar o imenso amor que sinto por vocês. Os dias que tenho vivido ao lado de vocês serão lembrados por mim como os melhores de minha vida. Digo isso porque o vovô Altair se lembra de minha infância como os melhores dias da vida dele e até hoje, por mais durão que tenha sido ao longo de sua vida, emociona-se quando fala deles.
Miguel passa bom tempo desenhando. Seus traços são lindos! Comecei a selecionar alguns de seus desenhos e a guarda-los em uma pequena caixa de papel que chamei de “Caixa dos desenhos especiais”. Bem, os desenhos especiais tornaram-se tão numerosos que tive que comprar uma caixa maior. Quando te dei de presente dois cadernos de desenho, percebi que você continuava a desenhar em folhas de sulfite. Depois entendi que sua intenção era que todos os desenhos fossem especiais! Você passa bastante tempo envolvido com jogos no celular. Às vezes chego do trabalho e você nem percebe... Imagino como vai ser na adolescência... Dias difíceis virão para nós, meu filho. Por isso, eu o abraço e converso com você o máximo que posso. Tenho ido busca-lo no inglês às segundas-feiras para passearmos um pouco pela cidade. Você deita o banco e diz “Que gostoso, papai!” o tempo inteiro. Então eu coloco a mão sobre o seu peito, você a toma, a beija e a passa pelo seu rosto, dizendo:” Papai, eu gosto tanto do senhor...”. Esses momentos estão passando tão rápido... Suas costas, pernas e braços já estão “peludinhos”, embora você tenha apenas seis anos. Olho para você e me vejo, inclusive com algumas das inseguranças e manias, mas espero que consiga lidar com elas. Estarei aqui para ajuda-lo.
Alice brinca o dia todo com suas bonecas e suas “coisinhas”. Prestes a completar quatro anos, você é incrivelmente encantadora, linda, inteligente e doce! Hoje pela manhã, enquanto limpava a varanda e organizada as coisas que você deixou jogada, não lamentei a bagunça (como geralmente faço!). Pelo contrário: dei-me conta de que em poucos anos você não mais conversará com sua sereia ou com a raposa e a “bódinha” do Zootopia e que sua Ana e a Rainha Elza ficarão encaixotadas. Sua casinha da Polly deixará de ocupar o balcão que construímos na varanda especialmente para acomodar as coisas de vocês. Em pouco tempo você deixará de brincar na banheira enquanto toma banho e não mais acordará no meio da noite me procurando quando eu acordo no meio da noite. A saudade dói muito desde já.
Mas há um assunto muito sério que eu gostaria de tratar com vocês. É sobre a minha tristeza. Como eu disse, esses têm sido os dias mais felizes de minha vida, mas têm sido também muito difícil aceitar que muitas coisas serão perdidas de hoje até o dia em que vocês conseguirem entender essas palavras. Seus avós estão envelhecendo e seus bisavós já estão em idade avançada. É incrível como todos eles amam vocês e eu espero, do fundo do coração, que vocês tenham conseguido mantê-los vivos entre as memórias que vocês guardaram desses anos. O biso Mila é um homem fantástico! Muito bem humorado; todo mundo o adora! Adora beber sua cervejinha todas as noites, mas só o faz em casa. Ele sempre foi como um segundo pai pra mim e eu provavelmente me tornarei um clone dele quando estiver mais velho. Graças a Deus ainda goza de boa saúde, mas está se aproximando dos 90 anos. Já a bisa Maria, apesar de quatro anos mais jovem, sofre com dores nas costas e no nervo ciático – a vovó provavelmente herdou dela essas dores. Há um par de histórias incríveis sobre a bisa – as bolachinhas que ela fazia pra eu levar pra Ribeirão Preto durante toda a pós-graduação, o desmaio dela quando me deixou na moradia estudantil, a tentativa de colar com Super Bonder a ponta do dedo que cortou acidentalmente com a faca. É uma pessoa muito alegre também, mas igualmente nervosa. Tem passado os últimos anos quase que o dia todo assistindo a Rede Vida e rezando pra todos nós. O que mais chama a atenção é o medo que ela tem da morte. Ela sabe que o dia de sua partida está chegando. Na verdade, todos sabemos. Vovô Altair também não está com boa saúde. Sofre com diabetes e seu coração funciona com marca-passo. Seus exames estão alterados e sua pressão também. Embora ele fosse um “monstro” para trabalhar, nunca foi adepto de atividades físicas e, por isso, sofre pra emagrecer. A situação está complicada.
Enquanto vocês crescem, alegres, saudáveis e cheios de vida, passado, presente e futuro se chocam em minha mente. Tenho lembrado muito dos meus anos de infância, em Quirinópolis-GO, quando tinha a idade de vocês e vivia com seus avós. Todos eram tão jovens! Então olho vocês, pequenos e com a vida pela frente, e olho para os seus avós e bisavós. Assim como cresci e aquelas pessoas fortes de minha infância envelheceram, vocês também crescerão e eu envelhecerei. Quando forem capazes de entender essas palavras – certamente as entenderão quando forem pais e vivenciarem o mesmo conflito que agora enfrento – eu serei uma pessoa diferente. Miguel já não precisará mais de mim para abrir uma garrafa nem dirá “Nossa, papai, como o senhor é forte!” e Alice não mais pedirá pra eu fazer um “leitinho bem quentinho” pra ela antes de dormir. Eu serei, meus filhos, um homem envelhecido e triste, que enfrentou a perda dos avós e, provavelmente, dos pais.
Vocês devem estar se perguntando: se esses são os dias mais felizes de minha vida, por que escrevo essas palavras tão tristes? Simplesmente porque eu quero que vocês saibam que vocês sempre são, desde que nasceram, os maiores motivos de minha felicidade. Pode ser que, quando me verem triste aí ao lado de vocês, no futuro, vocês achem que eu deixei de amá-los e que vocês não são mais motivo suficiente pra minha felicidade. Sim, meus filhos, é provável que vocês pensei isso. Sabem por quê? Porque eu pensei o mesmo do vovô Altair quando eu o via triste. Eu não entendia o sofrimento dele e me revoltava quando o ouvia dizer que estava ficando velho e que já tinha vivido demais. Cortava-me o coração vê-lo abatido e vendo que nada do que eu fazia conseguia animá-lo. O fato é que eu simplesmente não entendia o que ele sentia até sentir o mesmo, até perder as pessoas que, como filhos, mais amamos na vida: nossos pais e nossos avós. Peço apenas que tenham paciência, como eu tenho tido com o seu avô – e que tenham paciência comigo. Este papai que está aí ao lado de vocês no futuro foi, um dia, aquele que escreveu essas palavras e que viveu intensamente ao lado de vocês os melhores anos. E se nem eu nem vocês formos capazes de nos lembrarmos disso, espero que essas palavras, escritas entre lágrimas em uma madrugada de sábado, cumpram este papel.
Despeço-me agora. Já é mais de meia noite. Vou dar um beijo na mamãe de vocês, cobrir Miguel com seu edredon branco e dividir o cobertor de “urso” com a Alice no colchão ao lado de sua cama. Ah, como sinto saudade desses momentos...
Com amor,

Papai

sábado, 5 de agosto de 2017

Saudade do papai

Tenho andado muito reflexivo nas últimas duas semanas. Tudo começou quando o pai de um grande amigo meu faleceu. Estive no velório e presenciei a dor de cada familiar. Em certo momento, ele se levantou para despedir-se dele. Colocou sua mão sobre as mãos de seu pai, passou a mão pelo rosto dele e o beijou após dizer alguma coisa em voz baixa. Foi então que me vi nele. Imaginei-me no mesmo momento de perda. Senti uma tristeza horrível, certamente a mesma que meu amigo estava sentindo naquele momento. Sentei-me e, de óculos e boné, escondi o rosto entre as mãos e chorei.
Desde então não tenho mais sido o mesmo. A ideia de o mundo que conheço acabar me assombra. Sei que vou perder meu pai um dia, mas ter a sensação de que esses dias terríveis estão cada vez mais próximos me deixa totalmente sem rumo.
Meu pai costuma dizer que a cada dia morremos um pouco. Nunca gostei de ouvi-lo dizer isso. Na verdade, nunca gostei de ouvi-lo falar em morte. Eu sei que ele quis dizer que a cada dia envelhecemos e o dia de nossa morte se aproxima, mas outra interpretação assombrosa me veio à mente: a cada dia nós morremos, de fato! A pessoa que fomos ontem já não existe mais. Hoje, ao acordarmos, somos pessoas um pouco diferentes das que fomos ontem. Quando nos recordamos de nossa infância, estamos nos lembrando de alguém que não existe mais. Os pais e avós, aqueles com quem brincávamos e que nos protegiam quando crianças, vivem agora apenas em nossas lembranças. Podemos até visita-los, dar atenção, abraça-los, amá-los com todo o coração, mas não são mais os mesmos. Da mesma forma, não somos mais as crianças doces e cheirando a sabonete que éramos. Crescemos, tornamo-nos adultos. Eles envelheceram, perderam suas forças e, muitas vezes, a razão de sorrir e de viver. No entanto, é a lembrança das pessoas que fomos, e não das que somos hoje, que mantêm viva a relação entre pais e filhos, avôs e netos, filhos e sobrinhos e de irmãos.

Dias após a morte de seu pai, esse amigo que mencionei desabafou dizendo que as lembranças mais fortes de seu que lhe vêm à mente são as de quando ele era criança. Entre lágrimas, lembrei-me de uma foto de meu pai, de décadas atrás, que meu primo Polaco postou no facebook. Era uma foto tirada enquanto trabalhavam na colheita. Nela meu pai aparecia forte e sorrindo, como poucas vezes o vi. Aquela foto foi a materialização da forma como me lembro dele. Hoje ele está aposentado, e ao invés de viajar o Brasil na boleia de seu caminhão Mercedes Benz 2013 amarelo, passa o dia em casa, ora no quintal, ora na cozinha, ora na sala, ora na televisão. Mas naquele corpo, hoje envelhecido e enfraquecido, ainda vive o meu melhor amigo, o meu companheiro de jornada. Não é mais o homem mais forte do mundo, mas é ele o homem que um dia achei ser o mais forte do mundo e do qual tanto me orgulho. Eu o vejo todos os dias, o abraço todos os dias, mas ainda assim sinto saudade do meu "papai"... Quando ele partir, que Deus me ajude a não morrer de saudade e de tristeza. 


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Carta para meus filhos

Queridos Miguel e Alice,
      As férias de 2017 estão sendo particularmente especiais. Vocês estão no auge de suas respectivas fofuras. Não acredito que vocês se tornem mais fofos do que são. Por isso, preciso aproveitar esses momentos ao lado de vocês. 
      Alice adora brincar de Lego. Às vezes gruda em minha perna e ali permanece enquanto eu ando. Então eu a chamo de "preguicinha". Também gosta que eu a pegue nos braços como se fosse bebê. Então eu a chamo de "meu pacotinho". E.la adora! Alice também convida papai, mamãe e Miguel para a "festa do chá", onde todas as bonecas participam. A varanda vira uma bagunça! Como é encantador vê-la brincando e conversando com as bonecas. Como fala bem - usa todos os "s" com muito mais segurança que o papai! - e, meu Deus, como é criativa! Você passa horas brincando sozinha com as bonecas, conversando. É simplesmente encantadora!
      Miguel adora desenhar. Comprei-lhe uma prancheta para fixar as folhas onde desenha. Também comprei um caderno de desenho. No canto de seu quarto há inúmeras caixas onde ele guarda suas "coisinhas" - é assim que ele as chama. Parece o papai quando tinha a mesma idade! Mamãe diz pra eu reprendê-los, mas eu não o faço. É como se eu visse o mundo pelos seus olhos e, por isso, ficaria triste se meu pai me repreendesse. Ontem brincamos de Comandos em Ação com a coleção que foi do papai. Miguel amou! Diz que quer brincar mais de "soldadinho". Estamos aprendendo a andar de bicicleta. Hoje comprei pedais novos para sua bicicleta e retirei as rodinhas. Miguel ficou encantado quando conseguiu andar alguns metros aqui no quintal de casa. "Meu Deus do céu, mamãe! A senhora não vai acreditar no que eu fiz...", disse. Seus dois dentinhos da frente estão moles. Em breve eles cairão e ele ficará "banguelinha". Amanhã iremos soltar pipa.
      Estou tentando aproveitar ao máximo o tempo que tenho com vocês. Anos difíceis nos esperam - a vocês e a todos nós - por isso precisamos curtir esses momentos felizes. A vida passa tão rápido... Acabei de assistir a alguns episódios de "How I meet your mother". Nela o pai conversa com seus filhos e conta sobre o passado. É mais ou menos o que faço, agora com menos frequência, nesse "diário virtual" que vocês lerão algum dia. 
      São 23h. A mamãe de vocês foi dormir. Alice veio dormindo da casa da vovó. A madrinha e a Tata estão lá também. Miguel está aqui no chão do escritório assistindo "Detona Ralph" no celular enquanto escrevo essas palavras. Parei por um instante e fui buscar um travesseiro e o cobertor. Quando o cobri, Miguel me olhou e sorriu. Eu o beijei. São coisas simples das quais eu sentirei saudade. São momentos tão especiais que me fazem, mais uma vez, encher os olhos de lágrimas. 
     Desculpem, o pai de vocês anda muito sentimental. Talvez sejam as férias, período em que consigo algum tempo livre para respirar e refletir sobre a vida. Vejo então o quanto tudo é passageiro. Lembro do passado, dos tempos de colégio - certamente os mais felizes de minha adolescência. Estou me esforçando para passar para vocês o que de melhor eu tenho. Estou muito longe da perfeição, mas tê-los em minha vida me faz uma pessoa melhor em todos os sentidos. 
     Com amor,
     Papai