quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Ao contrário dos outros dias, não sei por onde devo começar a escrever. Entretanto, isto não significa que vivenciei hoje várias experiências. Não, não é isso. Definitivamente, não. Trata-se de um único relato. Um, apenas um! E eu não sei por onde começar... Bom, vamos tentar... Na quarta-feira (07 de novembro), eu e o papai fomos negociar a troca dos pneus do meu carro. Acordamos cedo e, antes mesmo da empresa abrir suas portas, lá estávamos nós. Chegamos cedo (7h30min) para evitar filas. O papai detesta filas. Ele odeia esperar. Sempre odiou. A paciência não é uma de suas virtudes e, a cada dia que passa, percebo que está mais distante de adquiri-la. Chovia bastante. A chuva nos forçou a esperar dentro de nossos carros – sim, cada um no seu carro.
Após uns 10 minuto de espera, as portas se abriram. Como o papai queria, fomos os primeiros a ser atendidos. Negociamos a troca de pneus (quatro pneus XT-AS 715/70 R13, da Michelin) e, a pedido do papai, deixei os que estavam no meu carro para a minha irmã. Acertadas as condições de pagamento (uma entrada de R$350,00 e um cheque de R$440,00 a ser depositado daqui a 30 dias), meu pai voltou para casa com o sentimento de dever cumprido. Eu fiquei lá, aguardando. Era só esperar. E esperei. Esperei. E esperei... Somente ao meio dia é que pude ver meu carro com pneus novos, devidamente alinhados e balanceados. E lá se foi minha manhã. Uma manhã de muita espera. À tarde, fui comprar algumas peças para o carro (paletas do limpador de pára-brisas, capa do pedal de embreagem e do freio e condutor de ar do radiador), bem como um fluido aditivo para o radiador. Hoje (quinta-feira) acordei decidido a lavar o carro para a viagem de amanhã (fui convidado pelo pessoal do laboratório lá da USP de Ribeirão Preto para o churrasco de final de ano). Contudo, na parte da manhã, acabei limitando-me a enviar alguns e-mails. Terminei por volta das 11h e, sentindo o cheiro da comida pronta, optei por nadar na parte da tarde. Após o almoço, estava pronto para começar a limpeza. Ao entrar no carro, porém, senti um cheiro de umidade dentro do carro, que parecia vir do porta-malas. Detectei que havia um vazamento nas lanternas. O porta-malas estava todo “suado”... Removi o estepe, as chaves, o triângulo de segurança, o macaco e, por fim, o carpete. Enxuguei o assoalho e deixei o porta-mala e as portas abertas. Lembrei-me, então, que os papelões do radiador precisavam ser colocados. E foi aí que tudo começou... Pedi ao papai algumas instruções. Ele simplesmente disse que nunca tinha trocado o tal papelão, mas que seria necessário retirar o radiador para efetuar a troca. Sendo assim, ele sugeriu-me que eu procurasse a ajuda do funileiro. Minha mãe, que é uma pessoa sensata, perguntou ao meu pai por que ele mesmo não levava, já que não tinha outras coisas a fazer e não podia esperar. Não sei o que exatamente meu pai pensou naquele momento, mas ele simplesmente disse que a troca era rápida e afirmou que era algo complicado e que eu deveria levar o carro ao funileiro. Ora, se era realmente rápido, não poderia ele ter levado o carro para mim? Afinal, ele estava mesmo “de bobeira”... E eu com milhões de coisas aguardando para serem feitas... Então pensei: “Entre ficar esperando alguém fazer e eu mesmo fazer, eu prefiro a segunda opção”. Abri o jogo de chaves que o papai guarda no caminhão dele, peguei algumas chaves, deitei debaixo do carro e comecei o serviço. Ao ver-me, minha mãe disse imediatamente para eu desistir. Eu a ouvi mas não a escutei. Em poucos minutos o papai veio ver o que estava acontecendo. “Filho, você vai furar o radiador. Não mexe no que você não sabe. Ao invés de arrumar, você vai é estragar. Aí vai ficar bonito... Faz o que eu estou falando: leva o carro pro Baiano que ele troca pra você”. Essas cenas se repetiram durante toda a tarde. Mas não levei. Fiquei tentando trocar a peça durante, sem, no entanto, retirar o radiador (se o fizesse, perderia o líquido do radiador, que eu havia trocado ontem...). Em um determinado momento, minha coluna ameaçou travar, dada a posição desconfortável em que eu tinha que ficar durante boa parte do tempo. A chave de fenda, muito grande, não conseguia alcançar um dos parafusos da forma correta, impossibilitando a sua retirada. Minha mão se espremia entre o distribuidor, o alternador e o motor. Meus braços se sujaram. As peças caíam constantemente entre as pedras, e levavam um certo tempo até serem reencontradas. Uma das porcas espanou. Um outro parafuso não rodava... Estava na cozinha bebendo água quando o papai perguntou se eu havia conseguido. “Ainda não”, respondi. “Filho, deixa de ser teimoso; você não sabe mexer e vai acabar estragando. Escuta o que o seu pai está falando.” Eu ouvi mas, novamente, não escutei. Após quatro horas de muito esforço, lá estava a peça no lugar. Agora vem a grande pergunta: por que foi tão difícil escrever isso? Justamente uma coisa tão simples? Na verdade, os sentimentos que me atropelam neste momento não são nada simples. Uma mistura de orgulho, uma sensação de vitória, misturados a uma sensação de desafio cumprido. Ah, há quanto tempo eu não sentia isso... A culpa de tudo isso é do papai. Aliás, se eu sou assim como sou, turrão e persistente, é unicamente culpa dele. Ele sempre me desafiou, dizendo que eu era incapaz de fazer várias coisas nesta vida. Eu acabei fazendo todas elas. Existe aqui dentro uma sensação confortante de ter provado alguma coisa para o meu pai, coisa que eu não fazia há muito tempo. Não, não se trata de uma luta com meu pai nem tampouco de desforra. Não é, também, uma luta contra meu pai, e sim uma luta para superar meus próprios limites (de paciência, de estress, de destreza).
Meu pai é meu super–herói. Eu adoro quando ele diz que eu não consigo fazer algo; nada é mais desafiador! Eu chego a esquecer que sou limitmado; o céu passa a ser o limite!
Muito obrigado, papai!

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