quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Hoje eu apliquei as últimas provas substitutivas na faculdade. Encerrou-se, assim, mais um ano letivo. Ao final destes dois anos ministrando aulas na faculdade, ouso dividir os alunos em dois grandes tipos. Existem aqueles mais “malandros”, mais alegres e divertidos, que parecem enxergar a vida de uma forma mais leve. Ao contrário do que eu pensava, apenas uma parte destes são “filhinhos de papai”. A maioria são pessoas que trabalham pesado o dia todo e que, mesmo assim, chegam na faculdade com um sorriso no rosto. Embora não consigam, muitas vezes, obter o rendimento esperado, esses alunos são bons colegas e acabam conseguindo minha admiração e respeito. Por outro lado, existem outros que são alunos exemplares, cujos rendimentos são muito satisfatórios, mas que parecem trazer consigo uma grande carga nos ombros. Eu me vejo muito nesses alunos (os tais CDF’s...). Os professores geralmente se realizam nesses alunos, mas estou certo de que sentem neles a falta da alegria que sobra nos primeiros...De qualquer forma, é muito engraçado a forma como eu acabo adquirindo um certo carinho por todos eles, mesmo já sendo bem crescidinhos. O fato é que alguns alunos conseguiram as notas que precisavam, outros não. O que eu gostaria de deixar registrado aqui é a dificuldade que eu sinto em reprovar um aluno. Não se trata apenas de um fracasso do aluno, mas também do professor. Além disso, eu sinto que existem alunos que realmente sentem dificuldade na matéria e, mesmo tendo se esforçado ao máximo, não conseguem o rendimento satisfatório... Acreditem: é uma situação muito delicada e constrangedora. Hoje vivenciei, pela primeira vez, uma situação que muitos professores já haviam me descrito, mas que eu não acreditava que fosse possível. Uma aluna aqui de São Joaquim precisava de 5,5, mas sua nota na prova era 5.0. Para dar uma ajuda (pois eu acho que ficar por 0,5 é sacanagem...), pedi-lhe que analisasse a prova novamente e que respondesse, mesmo que oralmente, a uma das questões que ela havia deixado em branco. Ela se sentou, pensou, pensou... e voltou. Tentou explicar-me, mas percebi que havia erros de conceito. Pedi-lhe, então, que retornasse à sua carteira e pensasse novamente. Após alguns minutos, ela retornou. Novamente os erros conceituais persistiram. Ela, ao notar que eu balançava a cabeça negativamente, olhou nos meus olhos, debruçou-se sobre a carteira e disse: “Me dá esse 0,5 que sábado à tarde eu vou lá na sua casa. Eu estou mesmo precisando de um namorado...” Rapidamente me recompus do choque e disse-lhe que voltasse à carteira para analisar novamente a questão. Putz, apelar não vale! Assim ninguém ganha nada comigo, não! Ou será que ela pensa que eu sou “facinho”? Ela sabe, inclusive, que eu namoro há muito tempo. Tenho pena dos professores que ficam se achando “lindos” ao receberem essas cantadas de alunas. Não são eles, é a posição de professor! Ou será que, de uma hora para outra, eu me tornei “o gostosão do pedaço”? Ah, fala sério! Aos que estão curiosos, ela ganhou, sim o 0,5, mas somente depois de responder-me a questão do jeito que eu queria!!! Uma outra aluna precisava de 9,5. Tirou 9.0. Uma das questões da prova, a mais difícil, foi respondida de forma muito “perfeita”. Estranhei muito, já que ela sempre foi uma aluna que mostrou muita dificuldade no conteúdo. Suspeitando de que ela havia colado, dei-lhe uma outra prova e uma folha em branco e pedi-lhe que escrevesse novamente tudo que ali estava. Ela pegou a folha, a prova, sentou-se e começou a chorar. Era a evidência que eu precisava. “Ela havia colado”, pensei. Após alguns alunos saírem, ela disse, em prantos, que estava nervosa, e que não conseguia pensar, já que tinha feito também uma outra prova naquela mesma noite. Disse-lhe, então, que podia me explicar sem escrever. Aos poucos ela foi se sentindo mais à vontade e acabou explicando o que eu queria... Meu Deus, que dia tenso para todos!!!

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