sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Fim das férias, começo das aulas

Após quase um mês distante, cá estou de volta à escola. As férias, enfim, terminaram. Estaria mentindo se dissesse que não senti saudades de todos. São como se fosse minha família. Findadas as poucas semanas de férias, as professoras aparecem, em sua maioria, bronzeadas e mostram, orgulhosas, o contraste entre a pele "tostada" e a parte que se salvou das queimaduras de terceiro grau. Os sorrisos em seus rostos dão indícios de que o stress e a depressão que tanto incomodavam no final do ano passado foram embora. Suas baterias, enfim, parecem ter sido recarregadas. É hora de trabalhar. Não, as aulas não começam hoje. Na verdade, fomos convocados apenas para a pré-atribuição de aulas. Em outras palavras, hoje é o dia em que cada professor efetivo (ou seja, que foi aprovado em concurso) escolhe as turmas para as quais darão aulas durante o ano letivo. A ordem de escolha obedece a uma classificação, baseada, principalmente, no tempo em que o professor é efetivo na escola. No meu caso, tudo é muito simples, pois sou o único professor efetivo de Química da escola: todas as aulas são minhas! No entanto, a situação é um pouco mais complicada para professores de História, Matemática e, principalmente, Português. Muitas vezes as aulas disponíveis na escola são insuficientes para que o professor complete sua jornada (inicial: 20 h; básica: 25 h), fazendo com que o mesmo seja obrigado a escolher também aulas em outra escola. Em dias de atribuição, uma das situações que mais gera tensão é o atrito com professores que pedem afastamento, seja por motivos de saúde, seja em função do acúmulo de cargos públicos. Não raramente, alguns destes professores são os primeiros a escolher. No ato da escolha das aulas, esses professores escolhem criteriosamente suas turmas, escolhendo inclusive as salas mais disciplinadas e manipulando o horário a seu favor. Além de utilizar boa parte da massa cinzenta dos diretores para a montagem do horário (ah, sim, muitos professores sempre ficam insatisfeitos com a distribuição do horário...), estes professores acabam pedindo afastamento por motivos diversos e deixam os demais professores, que ficaram com o "resto" das turmas, insatisfeitos durante todo o ano. Para mim, que dou aulas há apenas um ano, a situação causa-me surpresa. Afinal, sempre achei que um professor deve procurar não apenas o conteúdo da disciplina, mas também ética e respeito pelo semelhante. Neste ponto, tais professores deixam a desejar, mostrando um individualismo extremo e uma grande falta de respeito para com seu scolegas.
No ano passado, que foi o meu primeiro ano como professor da rede estadual, eu assumi apenas 20 aulas. Poderia ter assumido mais umas 13 aulas, já que eu era o primeiro na classificação, mas preferi não fazê-lo. Preferi dedicar a maior parte do tempo às atividades acadêmicas lá na faculdade. Além disso, existem professores que precisavam daquelas aulas que eu deixei de assumir para sobreviver. São professores não-efetivos, muitos dos quais sustentam a família com o dinheiro dessas aulas.
Eis que uma uma professora, que se encaixa no quadro daquelas que "ferram todo mundo pedem o afastamento", acabou assumindo as aulas e se afastando das aulas para assumir um cargo na diretoria de ensino, deixando colegas que não são efetivos sem aula e em dificuldades financeiras. Não consigo enxergar o que uma professora dessas pode ensinar a seus alunos além do conteúdo...

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