segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 1


Seis horas da tarde. O piso da casa, lavado há pouco, expele um cheiro agradável de limpeza. A mamãe ouve o jornal das 18h no rádio de pilha enquanto prepara o jantar para o papai. Aqui, o rádio é o único meio de sabermos o que acontece no Brasil e no mundo. Temos uma pequena televisão mas o papai e a mamãe não conseguem sintonizá-la em nenhuma estação, pois estamos muito longe da cidade. Ela funciona à bateria, já que não há energia elétrica aqui em casa. A mamãe já deu banho em mim, pois ainda não tenho idade para tomar banho sozinho. Mesmo que tivesse, ainda não saberia fazê-lo. Afinal, não conheço ninguém que tenha quatro anos e que saiba esquentar a água no fogão nem tampouco que tenha forças para despejar a água quente na bacia onde eu tomo banho. O papai gosta de encontrar-me limpo quando chega da roça. Ele é agricultor. As terras que ele planta não são nossas; são arrendadas e metade da renda vai para o dono das terras. Estou sentado no degrau da cozinha. A botina está preparada para ser vestida, basta apenas um sinal: o som do trator do papai. Espere! Estou ouvindo um barulho. É, é o papai! Ele está chegando! Mais que depressa, visto a botina e corro para abrir a porteira para o papai, como sempre faço. Abro a porteira e o papai passa, de trator, sorrindo. Ele está todo sujo, parecendo um tatu. Deve ter trabalhado duro o dia todo... Mas ele parece muito feliz por me ver ali, recebendo-o. Eu aceno, ele sorri e acena de volta. Meu herói chegou... Fecho a porteira e corro para dar-lhe um abraço. Ele me puxa para o seu colo e me dá um beijo estalado no rosto. “Vamos dar uma volta de trator?”, ele convida, já sabendo a resposta. Em frente de casa, a mamãe espera por nós dois, de avental. Somos uma família pequena, porém muito feliz. Pelo que ouvi a mamãe dizer ontem no jantar, acho que a família vai aumentar. Disse que em poucos meses eu vou ganhar uma irmãzinha, que vai sair da barriga dela. Espero que ela seja legal e que a mamãe a deixe brincar comigo. Às vezes, enquanto a mamãe lava roupas no tanque ou retira água pela cisterna, e não tenho a atenção dela, eu me sinto tão sozinho... Queria muito alguém para brincar...

Um comentário:

Anônimo disse...

Por que nao:)