terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 2


Brrrrrrrrmmmmmmmmm!!!! Este som é o meu despertador de todos os dias. Quando ouço a partida do trator, sei que o papai está se preparando para ir buscar o leite no sítio. Ele sabe que eu quero ir com ele, mas prefere não me acordar. Ele quer que eu acorde por vontade própria, para ter certeza que eu quero ir. Como sempre, jogo a chupeta para o lado e pulo da cama, gritando pela mamãe e pedindo-lhe a roupa e a mamadeira. “Mamãe, fala pro papai me esperar...”, digo, com voz de manhoso. Nem passa pela minha cabeça ficar para trás. Acho que posso dizer o mesmo do papai. Não levo nem cinco minutos para aprontar-me. O papai já está em cima do trator, me esperando. Lá está ele, com os botões da camisa desabotoados a maior parte do tempo, por causa do calor, deixando à mostra o peito forte e peludo. Ele diz que os pêlos são sinal de força. E o papai é mesmo muito forte! Pra dizer a verdade, é o homem mais forte que conheço. Quando crescer, espero tornar-me forte como ele. Embora eu admire muito o papai, eu não me visto como ele. Ele usa boné, eu uso chapéu. Acho que o chapéu dá um ar de responsabilidade, e eu já me considero bastante responsável para os meus quatro anos de idade. Ao contrário das camisas do papai, as minhas não tem botões. Talvez quando eu tiver o peito peludo eu tenha coragem de usá-las. Sim, o meu estilo e o do papai são bastante diferentes, mas ainda assim eu o vejo como meu herói e meu melhor amigo. Ao lado dele eu me sinto seguro até mesmo para andar de trator a uma altura de mais de um metro do chão. Estamos saindo de casa. À esquerda, a alguns metros da porteira, está um coqueiro enorme, cujos coquinhos amarelos a mamãe adora. Chegamos na porteira. Eu desço e a abro para o papai passar com o trator, fechando-a logo em seguida. O papai me pega pelas axilas e me coloca de novo sobre a sua perna. A viagem vai começar. Já estamos na estrada de terra batida, cheia de costelas de vaca, que fazem o trator trepidar. E como trepida! Espero que esta estrada possa ser asfaltada algum dia. À esquerda, avisto a casa do seu Januário e da dona Sebastiana. O seu Januário trabalha para o papai na roça de milho. O papai gosta muito dele; eu também. Quando estamos juntos na roça, ele passa a maior parte do tempo ao meu lado, a pedido do papai. Acho que o papai se preocupa à toa, pois eu já sei me virar bem sozinho. A dona Sebastiana, esposa do seu Januário, é benzedeira. Outro dia ela me benzeu de “espinhela caída”. Ao fundo, bem longe, vejo um pé de serra, “cachimbando”. O papai disse que aquela fumacinha em cima da serra é sinal de chuva. À direita, avisto a grande mangueira debaixo da qual o papai guarda a plantadeira, a grade e o arado. Mais à frente, entre coqueiros e enormes mangueiras, está a casa do seu Dudu e da dona Deolinda. O seu Dudu fuma muito e eu coleciono os maços de cigarros que ele me dá. A dona Deolinda me adora. Ela usa um óculos enorme! Sim, eu sou muito querido por todos. Afinal, acho que sou a única criança aqui do pedaço. Estamos nos aproximando da ponte. Quase ao lado dela, vejo a casa da Maria do Dito. A mamãe me disse que ela é muito "porca", que ela não toma banho nem dá banho nos seus filhos, e que a casa dela é uma bagunça. Após a ponte, à esquerda, está a casa da dona Nicolata. Mais à frente está a venda do seu João Grande, marido da dona Dora. Todo mundo fala que ela é uma fofoqueira de primeira! Praticamente ao lado da venda mora o seu Antônio Baiano e a dona Belinha. O seu Antônio tem um bigodinho fino e um sotaque nordestino que eu acho muito bonito. A dona Belinha, sua esposa, é crente. Ela e suas filhas vestem roupas longas e lenços na cabeça o tempo todo. A mamãe disse que uma delas, a mais nova, tem um cheiro de sovaco horrível porque tomou leite de cabra. Às vezes brinco com o Missim, seu irmão, mas a mamãe não gosta. Ela me disse que ele é muito bobagento, além de ser também muito mais velho que eu. Um pouco à frente, após um enorme pé de bambu, está uma escola. Eu acho aquela escola bonita, mas o papai e a mamãe dizem que eu não vou estudar aqui. Disseram que quando eu estiver na idade de ir para a escola, deixaremos Quirinópolis e nos mudaremos para São Joaquim da Barra, cidade onde moram os meus avós e meus tios. Será que eu vou ter mesmo que sair da roça algum dia? Gosto tanto daqui... À direita, logo depois da ponte, está a fazenda do tio Antônio Marcon. É a maior fazenda aqui por perto. O pasto está cheio de vacas. É dele também a casa onde nós moramos. Ele nos emprestou por alguns anos, já que é padrinho de batismo do papai. Mais ou menos uns quatrocentos metros à frente está outra ponte. Esta, porém, é bem maior, pois o rio Preto é bem largo. À esquerda, às margens do rio, mora o seu Zé Pequeno, a dona Segunda e seus 10 ou 12 filhos (é tanto filho que eu quase perco a conta...). Mais à frente, também à esquerda, vejo a venda do Tibúrcio. Por causa da sua altura, dizem que ele é parecido com um tal de Sérgio Reis, que é cantor de música sertaneja. Aos domingos, o Tibúrcio chama o time da cidade para amistosos contra o seu time de futebol. Acho que isso é para mais para aumentar as vendas de cerveja que pelo futebol propriamente dito... A Maria Do Carmo, esposa do tibúrcio, foi namorada do papai antes de conhecer a mamãe. Ela até que é bonitona... Andamos mais uns quatrocentos metros e, enfim, chegamos no sítio. Desço novamente para abrir a estronca. Eu prefiro as porteiras, pois as estroncas são feitas de arame farpado e, não raramente, acabo cortando a mão... Enfim chegamos ao curral! Adoro aquele cheiro de estrume de vaca! Sim, se comparado ao meu, o cocô de vaca é praticamente um perfume! Logo que entro no curral, procuro pelas minhas vacas. O papai disse que eu tenho várias vacas, mas a minha preferida é a Dadinha. O apelido dela foi inspirado no meu, pois todos me chamam de “Dadinho”. Peço para o papai colocar-me sobre o lombo da Dadinha enquanto o seu “Fi Vieira”, a dona Dica e o Adão, filho deles, enchem diretamente da “teta’ da vaca, uma caneca de leite para eu tomar. A mamãe mandou uma rosca de coco deliciosa pra eu comer. Acho que existem coisas na vida, como aquela combinação entre a espuma do leite no bigode e a rosca de coco, que realmente não tem preço... Ah, tudo bem. Se tivesse preço, eu não teria mesmo dinheiro para comprar...

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