sábado, 25 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 9

Estou novamente à sombra da enorme árvore em frente de nossa casa. O tronco desta árvore é cheio de espinhos e, a pedido da mamãe, eu evito me aproximar deles. Ela disse que posso machucar-me. Há um banco debaixo dela, onde estou sentado, sozinho. Sim, estou novamente sozinho. A mamãe está lá dentro de casa, ocupada, fazendo pão e rosca. Os pães que ela faz são deliciosos! As roscas, então, nem se fala... Ela passa um caldo de açúcar por cima e cobre com coco ralado. Ah, só de pensar fico com água na boca... Vejo verde por todos os lados. Tem chovido bastante este mês. A poeira, que deixava a mamãe há alguns dias atrás, deu lugar ao barro. Agora é o barro que a irrita... Mas fazer o quê? Morar na roça é assim mesmo. Eu faço o que posso para manter a casa limpa, raspando minhas botinas no disco de grade, parcialmente enterrado no chão, que fica aqui ao lado da porta da sala (tem também um outro na entrada da varanda...). Quando as botinas estão muito sujas, eu entro descalço para não sujar o chão e não ver a mamãe nervosa. Ela gosta de ver o chão aqui de casa sempre muito limpo. Eu não entendo como a mamãe consegue mantê-lo tão branquinho. É de tijolo! Às vezes eu sinto que a mamãe não gosta de morar aqui. Eu penso que é porque nós moramos muito longe do vovô Mila, da vovó Maria e da tia Ângela. Eu até entendo. Acho que eu também não me sentira bem se vivesse longe do papai, da mamãe e da minha irmãzinha, a Fia, que está dormindo lá no bercinho dela, no quarto da mamãe. Nem com ela eu posso brincar agora... Há poucos metros entre eu e uma enorme mangueira. É debaixo dela que o papai guarda o trator, a colhedeira, o arado e a grade. Aquela mangueira tem tantas folhas que a gente não consegue enxergar nenhum raio de sol através dela. “Vou trocar uma sombra por outra”, penso. Sigo, então, caminhando pelo pasto. Noto, então, que o papai passou tantas vezes por ali com o trator que os pneus mataram o pasto, deixando um caminho de grama entre dois de terra. Eu, para não sujar demais as botinas, caminho pela grama. Estou chegando debaixo da mangueira. Olho para cima. Sim, é uma mangueira enorme! Nesta época, posso andar despreocupado por baixo dela, pois não há nenhuma manga que possa cair sobre minha cabeça. Eu imagino que se uma manga cair lá do alto em cima a minha cabeça, eu desmaio! O céu está repleto de nuvens escuras. Vou entre as folhas secas, espalhadas pelo chão, quando avisto, enterrado no chão, um pedaço de pau. Outro dia eu perguntei para o papai se aquilo era uma árvore seca. Ele riu e disse que era um antigo “mueirão”, daqueles que se usa para segurar a cerca de arame. Um pouco mais adiante, vejo o lugar onde enterrei as tampinhas de refrigerante, que tinham “Os Trapalhões” desenhados na parte de dentro. O vovô trouxe aquelas “bilinhas” pra mim lá de São Joaquim... Foi ali, naquele mesmo lugar, que o vovô Mila me ensinou a amarrar o cordão sapato... Fico, então, curioso, para saber se as tampinhas estão ali ainda. “Será que alguém descobriu o meu esconderijo?”, penso. Com um pedaço de galho seco, começo então a remover a terra. Aos poucos, as tampinhas vão aparecendo. Uma, duas, três... Sim, elas estão ali! De repente, ouço a mamãe chamando por mim, na porta da sala. “Estou aqui, mamãe!”, grito. Ela me avista. “Vem pra cá logo!” Só então eu vejo que está chovendo! “Ainda bem que a copa da mangueira está me protegendo”, penso, aliviado. “Está trovejando! Vem correndo! É perigoso cair um raio aí! Anda logo!”, esbraveja a mamãe. Sentindo que ela está levemente nervosa, cubro novamente as “bilinhas” com a terra e começo a correr de volta para casa. “Nossa, como a chuva está gelada!” Mas ainda é melhor sentir os pingos da chuva agora do que contrariar a mamãe e ser “esquentado” por ela mais tarde...”

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Mudança no visual do blogger

Vocês devem estar notando que o visual do blogger está um pouco diferente. Pra ser sincero, eu achava o outro visual mais bonito. No entanto, resolvi mudá-lo para facilitar a leitura dos posts, já que a largura deste novo modelo é bem maior. Espero que gostem, pois eu fiz as mudanças pensando mais nos leitores do que em mim mesmo...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Mais um anjo enviado por Deus...

Domingo. Vinte e duas horas e trinta minutos. Débora e eu estamos de estômagos vazios. O que comer? Ela propõe uma salada, eu proponho uma omelete. Cavalheiro, priorizo a vontade dela. Seguimos rumo ao posto. Está lotado. Precisamos escolher outro lugar. Após algumas sugestões e alguns litros de combustível andando sem rumo pelas ruas da cidade, decidimos ir a um restaurante comer algum prato “à la carte”. Estaciono o carro. Ao descer, a Débora comenta que estou de bermuda e chinelo. “Que se danem! Nós vamos pagar igual aos outros!”, respondo, com um tom de anarquista. Sentamos à mesa. No cardápio, a maioria dos preços me desagrada, mas um agrado à namorada sempre faz bem ao relacionamento... Fazemos o pedido. Enquanto aguardamos, olhamos sobre a pequena cerca de madeira que nos separa da rua. Lá embaixo, sentado ao pé de uma árvore, está um menino. Com os pés descalços e a roupa suja e rasgada, ele olha para o chão. Parece triste. Aos poucos, ele vai se levantando e, como se tivesse ouvido uma voz interior, sai em direção ao posto aqui ao lado. Após mais de quarenta minutos de espera, a garçonete surge com o prato que pedimos. Ela nos serve, primeiro à Débora, depois à mim. Humm!!!! A comida está muito saborosa. Aos poucos, a fome e a comida vão desaparecendo. De repente, ao virar-me para o lado, vejo o menino praticamente ao meu lado, me olhando. “Tio, o senhor tem umas moedinhas?”, diz. Noto que, apesar da pouca idade, poucos são os dentes que lhe restam. “Não, filho, não tenho moedas”, respondo. Neste momento, me recordo de uma ocasião em que dois meninos pediram um pedaço de pizza e, quando fomos recortar um pedaço da que estávamos comendo, eles disseram que queriam outro sabor, saindo então em suas bicicletas. Mas o menino permanece ali, ao meu lado. Está olhando para o prato de comida. “Nossa, arroz...”, diz ele, como quem não vê um prato de arroz há muito tempo... “O senhor me dá um pedaço?”, pede ele. Eu e a Débora entreolhamo-nos. Sim, ele realmente está com fome. “Você quer um pedaço de batata ou de bife?”, pergunto. “Qualquer um”, responde, demonstrando o que já suspeitávamos. Cortamos, então, um pedaço de batata e um pedaço de bife e lhe entregamos em um guardanapo. “Obrigado”, diz ele, pela primeira vez com um sorriso no rosto. Então ele volta ao pé da árvore e come. Em uma das mãos está uma latinha de Coca-Cola, que provavelmente conseguiu no posto aqui ao lado. Em poucos minutos, a latinha se esvazia e o bife e a batata desaparecem. Ele limpa as mãos na camisa amarela, já encardida, e segue para a porta do restaurante, debruçando-se sobre o balcão. Ali ele permanece por muito tempo, olhando as pizzas saírem do forno. Os garçons parecem ignorá-lo. Era como se ele não estivesse ali. Seus olhos estão brilhando. Ele ainda parece com fome... Na mesa, eu e a Débora estamos fartos. Ela olha o menino e depois para mim. Sinto um nó na sua garganta. Seus olhos ficam umedecidos. Nossa fome se foi... Peço, então, a conta e solicito que preparem o que sobrou para a viagem. Discretamente, a Débora retira a colher de plástico do pote de açúcar e a esconde em sua bolsa. Pago a conta e pego a comida que não conseguimos comer. Seguimos em direção à porta. Lá está o menino. Novamente, ele pede uma moeda. Então eu coloco as mãos sobre seus ombros e peço para ele acompanhar-me até a saída. Lá, eu lhe entrego a comida, embalada, com a pequena colher que a Débora “arrastou”. “Tome, nós pegamos pra você”. Ele me olha como uma criança que ganha um brinquedo. “Obrigado”. Já saindo com o carro, nós o avistamos sentado, no mesmo lugar, agora comendo. Damos a volta no quarteirão e voltamos para vê-lo. Já não está mais lá. Sim, era um anjo. Um anjo que Deus nos enviou para mostrar-nos quanta injustiça há neste mundo. Enquanto uns se esbanjam e jogam comida fora, outros sequer têm o que comer. Mergulhados no egoísmo, a maioria consegue olhar apenas para frente. Ao invés de tornar-nos humildes, o progresso intelectual e financeiro nos faz cada vez mais arrogantes e cegos. Não conseguimos enxergar os mais desfavorecidos, nem tampouco olhar para o lado. Mas tudo há um preço. Um dia teremos que prestar contas de nossos atos. Nunca é tarde para arrepender-se. Não se esqueça: você também é culpado pelo sofrimento de seus semelhantes. E então, como você tem usado os dons que Deus lhe ofereceu para ajudá-los?

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 8

Eu ainda não tenho uma noção exata do tempo. Não sei quantos são os dias da semana nem quantos são os meses do ano. Os únicos dias especiais que consigo distinguir dos demais são o Natal e o meu aniversário, mas também não faço a mínima idéia em que dia e em que mês comemoramos estas datas. Ainda não sei ler e, sendo assim, é uma tremenda perda de tempo tentar procurá-los nos calendários que ficam pendurados pelas paredes aqui de casa. Às vezes tenho dificuldade para identificar até o dia da semana... Na verdade, os dias aqui na roça me parecem todos iguais, exceto um: o domingo. Agora deve ser umas três horas da tarde. Estou brincando com minha bola de plástico sob a sombra deliciosa da árvore aqui na frente de casa. De repente, ouço alguns gritos, vindos de bem longe. Pressentindo o motivo destes gritos, pego minha bola e a abraço com força. Corro, então, até o meio do quintal, próximo à cisterna. De lá eu avisto, do outro lado do córrego, vários homens jogando futebol. São todos empregados do tio Antônio Marcon. O campo, na verdade, é um pasto. Eu imagino que de vez em quando algum dos jogadores, sem querer, pisa ou mesmo chuta aqueles enormes pedaços de cocô que as vacas deixam por onde passam. Eu penso que jogar futebol em um pasto deve ser mais divertido que em um campo de verdade. Bom, eu apenas imagino, pois nunca joguei em nenhum dos dois. Jogo apenas aqui no quintal de casa. Quando chuto a bola contra a parede, ela retorna junto com a poeira e eu acabo desistindo, pois a mamãe não gosta da poeira. Eu queria tanto ter um campo ou um pasto para jogar...
Sentado à beira da cisterna, fico prestando atenção no jogo. Os jogadores gritam uns com os outros e isso me deixa curioso. Parecem estar brigando, mas não estão. Por um momento eu chego a achar que eles mais gritam do que jogam futebol. Eu queria muito poder jogar com eles, mas não posso por causa do meu tamanho. Eu não tenho ninguém para jogar comigo, pois o papai não gosta de futebol. Por enquanto, posso apenas assistir. Será que os que moram na cidade também assistem a jogos de futebol aos domingos à tarde?

A intolerância entre amigos no futebol

Como bom brasileiro, jogo futebol desde criança. Embora não tenha habilidade, creio que minha força de vontade me torna um jogador no mínimo “escolhível” em qualquer racha. A posição em que jogo, zagueiro, também ajuda bastante, já que todos os colegas de equipe sempre descem até o ataque e deixam a defesa desguarnecida. Na maioria das vezes, eu me torno o único obstáculo entre a bola e o boleiro. É o que chamam de “mano-a-mano”. É tudo ou nada. Se eu falhar, a chance de meu time levar um gol é grande. Na adolescência, os colegas me apelidaram de “Tonhão” por causa do vigor físico e pela expressão séria com que jogava. Entre jogador e bola, somente um deles conseguia romper a barreira que eu representava. Falhei muitas vezes, mas isso faz parte do jogo. Não contentes em fazer o gol, alguns atacantes mais habilidosos tentavam dar dribles bonitos pra cima de mim, na tentativa de arrancar delírios da torcida. Eu, claro, acabava as pretensões do tal jogador, dando-lhe uma entrada mais violenta e deixando-o mais próximo da torcida que ele queria agradar. Com o tempo, fui controlando minha irritação com esse tipo de jogador. Independente disso, não me lembro em nenhuma ocasião de ter machucado algum deles ou que tenha gerado, em uma dessas minhas “entradas”, nem tampouco de ter sido desleal ou ter criado alguma inimizade. Pois bem. Com quase 30 anos de vida, presenciei neste sábado à tarde uma das cenas mais desleais de toda a minha vida. Após tomar um gol, o goleiro reclamou da falta de vontade dos jogadores de seu time. Um dos jogadores não gostou e começaram a trocar insultos, culminando em troca de socos. A turma do “deixa-disso”, obviamente, interveio. O jogador foi e pediu desculpas ao goleiro. Os dois se abraçaram e tudo ficou bem. Bom, pelo menos foi essa a impressão que tivemos naquele momento. Partidas mais tarde, jogador e goleiro agora estavam em times diferentes. A bola, então fora lançada. Jogador e goleiro foram em direção à bola. O goleiro com as mãos. O jogador, entretanto, não mirou a bola. Tive a impressão de que ele estivesse voando, dada a altura que seus pés estavam no chão. Os pés tiveram um destino certo: o peito do goleiro. Não, o objetivo dele não era a bola. Era vingar-se. E vingou-se, da forma mais desleal possível. O goleiro caiu e, como um gato, levantou-se e partiu em direção ao jogador. A turma do “deixa-disso” interveio novamente. Desta vez, eu me manifestei. Disse para que soltassem o goleiro e que deixasse ele resolver o problema com o jogador como antigamente: no braço. Sou totalmente contra a violência, mas selvageria combate selvageria. Não suporto deslealdade. Não se pode bater, pedir desculpas e ser desleal como aquele jogador foi. E não me venham com essa história de que “faz parte do jogo” ou que “aqui dentro é uma coisa, lá fora é outra”. Quem tem caráter, o tem em qualquer lugar.E para mim, isso é falta de caráter. Retirei-me e fui embora.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 7

Mês de março. Finalmente chegou o período do ano mais esperado pelo papai: o da colheita. O papai disse à mamãe que a safra deste ano vai ser muito boa e que nós vamos melhorar nossa situação. Ano passado, nesta mesma época, eu o ouvi dizendo a mesma coisa. Espero que este ano ele não se decepcione. Neste momento, o papai está aqui próximo à frente de casa adaptando a colhedeira ao trator. Ele está lá do outro lado da cerca de arame farpado, eufórico e contente. Chego perto dele, devagarzinho, como quem não quer nada. Eu o observo por alguns minutos. Está suado e ofegante. Será que ele está precisando de minha ajuda? “Filho, vai lá no quartinho e busca aquele cardãzinho pro papai”, diz ele, parecendo ter lido meus pensamentos. Querendo mostrar para o papai que eu sou esperto, vou correndo buscar o que ele me pediu. No caminho, há uma cerca de arames pela metade. A maioria dos arames está no chão; somente um deles está no alto, mais ou menos na altura da minha cabeça. Eu, na minha pressa, acabo me esquecendo desta cerca... Percebo-a apenas quando sinto o arame farpado rasgando meu olho esquerdo, fazendo o sangue jorrar. “Mamãããããããããããe!” Acho que nunca gritei tão alto. A mamãe, ao ver-me com os olhos, a roupa e as mãos ensangüentadas, leva as duas mãos na cabeça e, desesperada, corre ao meu encontro. “Bem, pelo amor de Deus, acode aqui!” O papai, sem saber o que estava acontecendo, sai debaixo do trator xingando por ter batido a cabeça em uma saliência. Quando o papai consegue sair, a mamãe já está na cisterna, lavando-me e fazendo promessa para Santa Luzia. “Filho, você consegue ver?”, pergunta ela. “Não, mamãe, está tudo vermelho. Eu estou com medo!”, respondo, assustado. A expressão dela não foi das melhores ao ver a pele dependurada. Já o papai, que acabara de chegar, disse que o corte foi apenas superficial, mas é preciso vacinar-me contra tétano. Sim, a colheita vai ter que esperar. Após tomar a vacina antitetânica e ser examinado, o farmacêutico faz um curativo bem caprichado. Já não sinto mais dor e posso voltar para casa. Não foi preciso me dar pontos. A única dor que sinto é a de não ter ido mais devagar. Mas deixe estar. Se depender de minha pressa, a partir de agora o papai pode chamar-me de “lerdo” pelo resto da vida...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Volta às aulas

As aulas recomeçaram, tanto no colégio como na universidade. Na viagem até Franca, fiquei chocado com a violência dos trotes. Não satisfeitos em sujar e rasgar as roupas dos "bixos" e "bixetes", os que se dizem veteranos partiram para a agressão física, distribuindo "pedala-Robinho" à torto e à direito, além de terem feito atravessar o corredor do ônibus de joelho. Isso sem mencionar a humilhação de terem que se beijar na boca... Realmente lamentável.
Fiquei muito feliz pela forma respeitosa e carinhosa com que muitos deles me trataram neste primeiro dia de aula. Até as salas de primeiro ano se comportaram muito bem. Espero que seja assim durante todo o ano.
Mas o episódio que mais emocionou-me foi ser aclamado e aplaudido quanto adentrei a classe do 2o. B. O mais interessante foi que aquela sala foi considerada em 2005 a mais indisciplinada da escola, onde a maioria dos professores nem conseguia dar aulas. Foi realmente muito grafiticante! Deu até um nó na garganta...
Agora há pouco, quando parei em frente ao portão e toquei a campainha, lembrei-me que quando o fiz pela última vez, a Clarinha ainda estava por aqui. Que saudade...

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Matando saudades da Bianca

Foi um domingo chuvoso e frio, daqueles em que a única vontade que temos é de ficar na cama. Ainda assim, aventuramo-nos (eu, a mamãe e a tia Ângela) na via Anhanguera até a cidade de Uberaba, para visitar minha afilhada Bianca e sua família. Já fazia um bom tempo que não a víamos...
Assim como aconteceu quando fomos visitar a Clara em Cosmópolis, viajamos sob chuva praticamente todo o tempo e a estrada estava muito perigosa. Mas valeu a pena! Meus cumpadres, a Cláudia e o Cláudio, sempre são muito simpáticos e atenciosos. Suas filhas, a Clara e a Brisa, são doces em forma de pessoas. E a Bianca... Ah, a Bianca... Como ela está linda! E como é boazinha... Eu fiquei admirado ao ver como ela é inteligente, esperta e calma. Ela até me chamou de "tio" e me deu um abraço e um beijo no rosto... Ah, desse jeito eu desmonto...
Depois desta visita, uma coisa ficou clara para mim: vou fazer de tudo para vê-la pelo menos de dois em dois meses. Abaixo segue uma foto da Bianca com o meu "cumpadi" Cláudio, seu papai "coruja". Quem achar que o tempo não passa rápido, dê uma olhada no primeiro post deste blog, lá no arquivo de agosto de 2005. Olhem aquela foto da Bianca e olhem esta de hoje...

Fragmentos de minha infância - parte 6

É madrugada. Lá fora o silêncio reina quase que absoluto. Ouve-se apenas o ruído esporádico das corujas trocando de galho e o som dos sapos brincando às margens do rio que atravessa o fundo do quintal. A estrada de terra batida que passa há algumas dezenas de metros aqui de casa também deserta. Estou dormindo como um anjo. Nem os roncos esporádicos do papai conseguem acordar-me. Aqui em casa há dois quartos, mas prefiro dormir dividir o quarto com o papai e a mamãe. Ainda sou muito criança pra dormir sozinho, mas já tenho minha própria cama. O colchão é de mola e eu o acho muito confortável. Minha cama fica posicionada aos pés da cama da do papai e da mamãe, logo abaixo da janela. As noites por aqui têm sido muito frias ultimamente e, por isso, não apenas durmo bem agasalhado como também uso dois cobertores. Ainda assim, neste momento, sinto um frio estranho nos pés, por baixo do cobertor. Primeiro o sinto no pé esquerdo, agora no direito e... Foi-se. Que estranho... Motivado por esta “onda” de frio que acabara de incomodar-me, procuro ajeitar-me como posso para que não volte a senti-la. A mamãe, aqui na cama ao lado, parece ter sentido a mesma onda de frio, mas sua reação é um pouco menos discreta que a minha. “Bem – diz ela para o papai, dando a impressão de estar estática – estou sentindo algo gelado nos meus pés. Acho que tem uma perereca debaixo do cobertor!” Atordoado de sono, o papai não dá muita bola para o seu comentário. “É impressão. Dorme aí, vai...” A mamãe, no entanto, parece congelada. Não consegue se mexer, parece assustada. Já o papai... Mal acaba de conversar com a mamãe e já está roncando novamente. De repente, a mamãe diz, com voz ainda mais petrificada: “Bem, não é uma perereca: é uma cobra!” Como se tivesse tido um pesadelo, o papai coloca-se sentado na cama e observa, calculista, a cobra descendo pelos pés da cama. Assim que a cobra ganha o chão, o papai pula da cama, abre as portas do guarda-roupa e pega a cartucheira. A caçada vai começar. Acordo com o rangido da porta do guarda-roupa. O papai está de pé e a mamãe está com a lanterna nas mãos (aqui em casa não tem energia elétrica...) A cobra parece perceber que está em perigo e corre para a sala. Ouço um tiro. “Ali, bem, ela foi para lá!” Outro tiro. “Lá, ela foi para o outro quarto. Está debaixo da cama!” Ela está sem saída. Ouço o terceiro tiro. É o último. O papai parece ter acertado na cabeça dela. Ele é bom de tiro. Ofegantes, o papai e a mamãe conversam algo sobre a necessidade de se tampar o buraco na porta da sala. A cobra deve ter entrado por lá. Às vezes acho que o lugar em que moramos é muito perigoso. Ainda bem que o papai está aqui pra nos proteger...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 5

Às vezes sinto-me muito sozinho. O papai e a mamãe nem sempre têm tempo pra brincar comigo. Eu até entendo. Afinal, a mamãe tem que lavar a casa, lavar a roupa, varrer o quintal, tirar água da cisterna, fazer comida, preparar mamadeira pra mim... É muita coisa pra uma pessoa só! Já o papai passa o dia todo trabalhando. Mesmo quando estou com ele, na roça, não posso ter toda a tenção dele. Pra falar a verdade, só consigo conversar direitinho com ele na hora do lanche, quando ele desce do trator. Pra falar a verdade, eu sinto falta de alguém para brincar comigo. Mas hoje está sendo um dia especial, pois não estou sozinho! O vovô Mila está passando alguns dias aqui em casa. Ele mora longe e não é sempre que posso brincar com ele. Tenho que aproveitar. Ao contrário do papai, o vovô Mila usa bigode. Outro dia ouvi o papai dizendo pra mamãe que o vovô arranca pêlos do bigode quando fica nervoso. Eu acho que é por isso que o bigode dele é fininho daquele jeito... O vovô Mila está brincando comigo desde cedo. De manhã, nós brincamos de carrinho. Nesta época do ano, eu estaciono meus carrinhos debaixo dos matinhos que brotam pelo quintal. Eu faço de conta que esses matinhos são árvores. O vovô também brincou de bola comigo. Ele disse que eu estou já estou chutando forte e que torce muito para que eu seja jogador de futebol quando crescer. Ele até falou que vai me dar um short, uma camisa e uma “meiona” de presente! Agora, neste momento, a mamãe e o papai não estão em casa. Eles foram para a cidade. Enquanto isso, eu e o vovô estamos brincando de caminhãozinho de gás. Ele caminha à minha frente, puxando o caminhãozinho que ele mesmo fez, enquanto eu o sigo, procurando velhas pilhas de rádio, perdidas pelo quintal. A gente faz de conta que essas pilhas são botijões de gás. Já demos umas três ou quatro voltas em volta do quintal mas ainda falta muito para conseguimos encher o caminhão. Eu sinto que o vovô já está cansado, mas ele não fala. Ao invés disso, ele continua puxando o caminhãozinho, alegre. Eu queria muito que o vovô Mila morasse mais perto, pra ele poder brincar comigo todos os dias. Tenho outros caminhões parecidos com este que estamos brincando, mas este é o que eu mais gosto. A carroceria deste abre, a dos outros não. Além disso, este aqui tem até farol e placa. Acho que o vovô teve mais trabalho pra fazer este caminhãozinho que os outros. A mamãe falou que ele fez todos os meus caminhões no canivete. Eu achei engraçado, porque o vovô é jardineiro... Como será que ele aprendeu a fazer esses caminhões de madeira? Deve ter tido um trabalho...
Enquanto coloco mais uma pilha de rádio dentro do caminhão, que o vovô está puxando com uma das mãos nas costas, eu ouço um barulho de carro. É o papai e a mamãe que estão chegando! Os dois ficam tão bonitinhos dentro do nosso Fusca branco...Deixo então o vovô por alguns minutos e corro para receber o papai e a mamãe. Eu tenho quase certeza que eles trouxeram mais um carrinho pra mim! Sempre que o papai vai à cidade ele traz um pra mim. Corro, então, para abraçá-los. Assim que me vê, o papai diz: “Filho, adivinha o que o papai trouxe pra você? É surpresa!”, diz ele. Eu me faço de desentendido, fingindo não saber que é um carrinho. Mas não é um carrinho!!! É um grande cilindro oco de papelão, com mais ou menos um meio metro de altura. Nele há um selo amarelo e verde, com os dizeres “Filtros Mann”. O papai diz que ali estava um filtro. Bom, eu não sei o que é um filtro. Mas deixa pra lá! Mais importante do que saber de onde veio é saber pra que serve. “Você pode guardar os seus carrinhos aí dentro, pra não os deixar jogados pelo chão”. Será que o papai está querendo dizer que eu sou faço muita bagunça? Eis que chega o vovô, cansado de esperar. Ele continua com uma das mãos nas costas, parecendo sentir dor. Fico feliz ao vê-lo. Deixo então aquela “caixa redonda” de papelão de lado e o puxo pela mão. “Vovô, vamos brincar até encher esse caminhão?” Ele olha pra mamãe e, puxando o caminhãozinho com a outra mão, olha pra mamãe e dá uma risada. Ainda temos muito trabalho pela frente...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 4

Manhã de inverno. Está frio lá fora. A luz do sol incide direto no meu rosto. É hora de acordar. Lembro-me então de não ter ouvido o barulho do trator, o meu despertador de todos os dias. O que terá acontecido? Será que o papai foi buscar o leite sem mim? Ainda na cama, espreguiçando, grito pela mamãe. “Mamãe, me dá leite?” Gosto tanto dessa frase... Acho que vou dizê-la pelo resto da vida... A mamãe, mais que rapidamente, traz-me a mamadeira. Enquanto mamo, esfrego uma chupeta no nariz. Gosto de fazer isso enquanto mamo e enquanto durmo. Dou goles volumosos e rápidos. Em pouco tempo, a mamadeira se esvazia. Tenho pressa. Entrego a mamadeira pra mamãe, que está sentada na cama ao lado, me olhando. Ela está me olhando com um olhar tão engraçado... Acho que ela me acha muito bonito. Na verdade, senti que ela está olhando para mim orgulhosa. Enquanto ela passa os dedos entre os meus cabelos, eu pergunto pelo papai. “O papai está lá fora, tentando fazer o trator pegar”, responde. Ah, tá vendo? Eu sabia que o papai não ia deixar-me para trás. Peço então minha roupa para a mamãe, ao que ela traz meu uniforme, todo perfumado: camisa, calça, sapato e meias. Tenho pressa para ajudar o papai. Já vestindo o uniforme, vou até o papai e peço sua bênção. “Deus te abençoe, meu filhinho”, diz ele, com voz manhosa, depois de dar-me um beijo estalado no rosto e me abraçar. O papai é tão bonzinho comigo... Então o papai se vira e volta a fazer o que estava fazendo. Seja o que for, eu acho que é pra fazer o trator pegar. Tenho certeza que ele vai conseguir. Uma, duas, três, quatro, cinco tentativas e nada. O motor do trator nem se move. Quero ajudar o papai, mas não sei o que está fazendo. Estou muito curioso para perguntar-lhe do que ele está precisando, mas sou interrompido em meio aos meus pensamentos. “Ô, meu Deus! Eu precisava de um outro trator para rebocar este...” Precisava, já não precisa mais! Sim, eu já sei como posso ajudar o papai! Vou amarrar o meu trator ao dele e rebocá-lo. Tenho certeza que o papai vai adorar quando vir” “Papai, amarra a corda no meu tratorzinho que eu vou rebocar o trator do senhor”, digo-lhe. Meu pai, em gargalhadas, diz que eu não consigo, que o trator é muito pesado e que eu não vou conseguir rebocá-lo com meu tratorzinho. Mas por que ele acha que eu não vou conseguir? Será que é um desafio? Eu gosto de desafios... “Papai, amarra a corda ao menos pra eu tentar, vai...” Ainda em gargalhadas, porém menos intensas, o papai une os dois tratores pela corda e aguarda minha reação. Finco então os dois pés no chão e impulsiono o trator para frente, mas nenhum dos tratores sai do lugar. Pior do que isso: o trator do papai nem sequer balança... Começo, então, a pedalar forte, mas a única coisa que eu consigo é levantar a poeira do buraco que as rodinhas estão fazendo. O papai e a mamãe riem, eu não. “Vou conseguir”, penso. Finco, então, os pés com mais força... E nada. À sombra, assistindo ao meu esforço, papai e mãe continuam sorrindo, abraçados Devem esta achando graça do meu fracasso e da minha vontade de ajudar. Eu fico triste, pois não gosto que ninguém ria de mim. Deixo logo o trator e saio, meio sem rumo. Estou sentindo que este não será um bom dia. Acho melhor eu voltar pra cama...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 3

Tarde de inverno. O quintal está repleto de folhas. Por mais que a mamãe teime em varrê-lo, seu serviço se desfaz a cada brisa que balança o galho das árvores. Mas acho que isso não vai durar por muito tempo. As árvores estão quase sem folhas. A seca este ano está sendo rigorosa. A mamãe reclama da poeira que vem da estrada aqui perto. Enquanto ela busca água na cisterna, eu contemplo, com os ombros apoiados no banco da varanda, o céu azul. Não há uma nuvem sequer. Faz tempo que não chove. O papai está trabalhando. Hoje não fui com ele. Pelo que eu entendi, parece que ele e seus empregados estão colhendo a safra e eles estão com muito serviço. Hoje o papai está precisando dos serviços do seu Januário, que normalmente é quem toma conta de mim lá na roça. Eu queria ajudar o papai. Acho que com quatro anos eu já consigo ajudar bastante. Mas acho que ele pensa que vou atrapalhar. Tudo bem. Não quero que ele fique bravo comigo. A roça de milho, logo ali depois da cerca, está seca. No meio dela, reinando soberanos, estão os coqueiros. Somente ali percebo um pouco de vida. O período de estiagem traz muita tristeza. No quintal, vejo uma galinha com seus pintinhos. Ela cisca e levanta poeira. O vento traz a poeira até mim e eu começo a tossir. Penso, então, em brincar com um dos pintinhos da galinha. Afinal, não tenho ninguém para brincar mesmo... “Não chegue nem perto dessa galinha, viu, filho? Ela está choca e pode te atacar”, grita a mamãe. Atacar? Parece covardia. Sou muito maior do que ela. Aproximo-me então de um de seus filhotes. É um rajadinho, que está um pouco distante dos outros. A galinha, sua mãe, parece distraída. Dou um “bote” e pego o pintinho nas mãos. A galinha não vê, mas seu instinto de mãe me acusa. Com as asas abertas, ela corre em minha direção. Parado, ali com o seu filhote nas mãos, eu aguardo seu ataque. Ela começa a bater as asas e voa para mim, com as unhas projetadas para frente, como se fossem armas. Nunca a vi cacarejar tão alto. Parece desesperada. Finalmente, em seu vôo, ela atinge meus braços e neles finca suas unhas. Meu primeiro reflexo é soltar o seu filhote. Mas ela não está satisfeita. Parece querer castigar-me pelo desrespeito. Suas unhas estão machucando e suas asas estão batendo no meu rosto. Eu grito, a mamãe escuta. Agora é briga de gente grande. Briga entre mães. A mamãe, com a vassoura nas mãos, leva vantagem. A galinha, após algumas vassouradas, solta meus braços. A lei do mais forte, enfim, foi posta em prática. Enquanto a galinha se retira com seus filhotes, eu choro de dor. Meus braços estão arranhados, sangrando. A mamãe, ao invés de acudir meus ferimentos, está brava comigo. “Não te falei pra não mexer com os pintinhos daquela galinha choca?” Ela tem razão. Apenas ouço. E agradeço ao Papai do céu por também ter uma mãe para proteger-me...”