quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 3

Tarde de inverno. O quintal está repleto de folhas. Por mais que a mamãe teime em varrê-lo, seu serviço se desfaz a cada brisa que balança o galho das árvores. Mas acho que isso não vai durar por muito tempo. As árvores estão quase sem folhas. A seca este ano está sendo rigorosa. A mamãe reclama da poeira que vem da estrada aqui perto. Enquanto ela busca água na cisterna, eu contemplo, com os ombros apoiados no banco da varanda, o céu azul. Não há uma nuvem sequer. Faz tempo que não chove. O papai está trabalhando. Hoje não fui com ele. Pelo que eu entendi, parece que ele e seus empregados estão colhendo a safra e eles estão com muito serviço. Hoje o papai está precisando dos serviços do seu Januário, que normalmente é quem toma conta de mim lá na roça. Eu queria ajudar o papai. Acho que com quatro anos eu já consigo ajudar bastante. Mas acho que ele pensa que vou atrapalhar. Tudo bem. Não quero que ele fique bravo comigo. A roça de milho, logo ali depois da cerca, está seca. No meio dela, reinando soberanos, estão os coqueiros. Somente ali percebo um pouco de vida. O período de estiagem traz muita tristeza. No quintal, vejo uma galinha com seus pintinhos. Ela cisca e levanta poeira. O vento traz a poeira até mim e eu começo a tossir. Penso, então, em brincar com um dos pintinhos da galinha. Afinal, não tenho ninguém para brincar mesmo... “Não chegue nem perto dessa galinha, viu, filho? Ela está choca e pode te atacar”, grita a mamãe. Atacar? Parece covardia. Sou muito maior do que ela. Aproximo-me então de um de seus filhotes. É um rajadinho, que está um pouco distante dos outros. A galinha, sua mãe, parece distraída. Dou um “bote” e pego o pintinho nas mãos. A galinha não vê, mas seu instinto de mãe me acusa. Com as asas abertas, ela corre em minha direção. Parado, ali com o seu filhote nas mãos, eu aguardo seu ataque. Ela começa a bater as asas e voa para mim, com as unhas projetadas para frente, como se fossem armas. Nunca a vi cacarejar tão alto. Parece desesperada. Finalmente, em seu vôo, ela atinge meus braços e neles finca suas unhas. Meu primeiro reflexo é soltar o seu filhote. Mas ela não está satisfeita. Parece querer castigar-me pelo desrespeito. Suas unhas estão machucando e suas asas estão batendo no meu rosto. Eu grito, a mamãe escuta. Agora é briga de gente grande. Briga entre mães. A mamãe, com a vassoura nas mãos, leva vantagem. A galinha, após algumas vassouradas, solta meus braços. A lei do mais forte, enfim, foi posta em prática. Enquanto a galinha se retira com seus filhotes, eu choro de dor. Meus braços estão arranhados, sangrando. A mamãe, ao invés de acudir meus ferimentos, está brava comigo. “Não te falei pra não mexer com os pintinhos daquela galinha choca?” Ela tem razão. Apenas ouço. E agradeço ao Papai do céu por também ter uma mãe para proteger-me...”

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