sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 4

Manhã de inverno. Está frio lá fora. A luz do sol incide direto no meu rosto. É hora de acordar. Lembro-me então de não ter ouvido o barulho do trator, o meu despertador de todos os dias. O que terá acontecido? Será que o papai foi buscar o leite sem mim? Ainda na cama, espreguiçando, grito pela mamãe. “Mamãe, me dá leite?” Gosto tanto dessa frase... Acho que vou dizê-la pelo resto da vida... A mamãe, mais que rapidamente, traz-me a mamadeira. Enquanto mamo, esfrego uma chupeta no nariz. Gosto de fazer isso enquanto mamo e enquanto durmo. Dou goles volumosos e rápidos. Em pouco tempo, a mamadeira se esvazia. Tenho pressa. Entrego a mamadeira pra mamãe, que está sentada na cama ao lado, me olhando. Ela está me olhando com um olhar tão engraçado... Acho que ela me acha muito bonito. Na verdade, senti que ela está olhando para mim orgulhosa. Enquanto ela passa os dedos entre os meus cabelos, eu pergunto pelo papai. “O papai está lá fora, tentando fazer o trator pegar”, responde. Ah, tá vendo? Eu sabia que o papai não ia deixar-me para trás. Peço então minha roupa para a mamãe, ao que ela traz meu uniforme, todo perfumado: camisa, calça, sapato e meias. Tenho pressa para ajudar o papai. Já vestindo o uniforme, vou até o papai e peço sua bênção. “Deus te abençoe, meu filhinho”, diz ele, com voz manhosa, depois de dar-me um beijo estalado no rosto e me abraçar. O papai é tão bonzinho comigo... Então o papai se vira e volta a fazer o que estava fazendo. Seja o que for, eu acho que é pra fazer o trator pegar. Tenho certeza que ele vai conseguir. Uma, duas, três, quatro, cinco tentativas e nada. O motor do trator nem se move. Quero ajudar o papai, mas não sei o que está fazendo. Estou muito curioso para perguntar-lhe do que ele está precisando, mas sou interrompido em meio aos meus pensamentos. “Ô, meu Deus! Eu precisava de um outro trator para rebocar este...” Precisava, já não precisa mais! Sim, eu já sei como posso ajudar o papai! Vou amarrar o meu trator ao dele e rebocá-lo. Tenho certeza que o papai vai adorar quando vir” “Papai, amarra a corda no meu tratorzinho que eu vou rebocar o trator do senhor”, digo-lhe. Meu pai, em gargalhadas, diz que eu não consigo, que o trator é muito pesado e que eu não vou conseguir rebocá-lo com meu tratorzinho. Mas por que ele acha que eu não vou conseguir? Será que é um desafio? Eu gosto de desafios... “Papai, amarra a corda ao menos pra eu tentar, vai...” Ainda em gargalhadas, porém menos intensas, o papai une os dois tratores pela corda e aguarda minha reação. Finco então os dois pés no chão e impulsiono o trator para frente, mas nenhum dos tratores sai do lugar. Pior do que isso: o trator do papai nem sequer balança... Começo, então, a pedalar forte, mas a única coisa que eu consigo é levantar a poeira do buraco que as rodinhas estão fazendo. O papai e a mamãe riem, eu não. “Vou conseguir”, penso. Finco, então, os pés com mais força... E nada. À sombra, assistindo ao meu esforço, papai e mãe continuam sorrindo, abraçados Devem esta achando graça do meu fracasso e da minha vontade de ajudar. Eu fico triste, pois não gosto que ninguém ria de mim. Deixo logo o trator e saio, meio sem rumo. Estou sentindo que este não será um bom dia. Acho melhor eu voltar pra cama...

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