segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 5

Às vezes sinto-me muito sozinho. O papai e a mamãe nem sempre têm tempo pra brincar comigo. Eu até entendo. Afinal, a mamãe tem que lavar a casa, lavar a roupa, varrer o quintal, tirar água da cisterna, fazer comida, preparar mamadeira pra mim... É muita coisa pra uma pessoa só! Já o papai passa o dia todo trabalhando. Mesmo quando estou com ele, na roça, não posso ter toda a tenção dele. Pra falar a verdade, só consigo conversar direitinho com ele na hora do lanche, quando ele desce do trator. Pra falar a verdade, eu sinto falta de alguém para brincar comigo. Mas hoje está sendo um dia especial, pois não estou sozinho! O vovô Mila está passando alguns dias aqui em casa. Ele mora longe e não é sempre que posso brincar com ele. Tenho que aproveitar. Ao contrário do papai, o vovô Mila usa bigode. Outro dia ouvi o papai dizendo pra mamãe que o vovô arranca pêlos do bigode quando fica nervoso. Eu acho que é por isso que o bigode dele é fininho daquele jeito... O vovô Mila está brincando comigo desde cedo. De manhã, nós brincamos de carrinho. Nesta época do ano, eu estaciono meus carrinhos debaixo dos matinhos que brotam pelo quintal. Eu faço de conta que esses matinhos são árvores. O vovô também brincou de bola comigo. Ele disse que eu estou já estou chutando forte e que torce muito para que eu seja jogador de futebol quando crescer. Ele até falou que vai me dar um short, uma camisa e uma “meiona” de presente! Agora, neste momento, a mamãe e o papai não estão em casa. Eles foram para a cidade. Enquanto isso, eu e o vovô estamos brincando de caminhãozinho de gás. Ele caminha à minha frente, puxando o caminhãozinho que ele mesmo fez, enquanto eu o sigo, procurando velhas pilhas de rádio, perdidas pelo quintal. A gente faz de conta que essas pilhas são botijões de gás. Já demos umas três ou quatro voltas em volta do quintal mas ainda falta muito para conseguimos encher o caminhão. Eu sinto que o vovô já está cansado, mas ele não fala. Ao invés disso, ele continua puxando o caminhãozinho, alegre. Eu queria muito que o vovô Mila morasse mais perto, pra ele poder brincar comigo todos os dias. Tenho outros caminhões parecidos com este que estamos brincando, mas este é o que eu mais gosto. A carroceria deste abre, a dos outros não. Além disso, este aqui tem até farol e placa. Acho que o vovô teve mais trabalho pra fazer este caminhãozinho que os outros. A mamãe falou que ele fez todos os meus caminhões no canivete. Eu achei engraçado, porque o vovô é jardineiro... Como será que ele aprendeu a fazer esses caminhões de madeira? Deve ter tido um trabalho...
Enquanto coloco mais uma pilha de rádio dentro do caminhão, que o vovô está puxando com uma das mãos nas costas, eu ouço um barulho de carro. É o papai e a mamãe que estão chegando! Os dois ficam tão bonitinhos dentro do nosso Fusca branco...Deixo então o vovô por alguns minutos e corro para receber o papai e a mamãe. Eu tenho quase certeza que eles trouxeram mais um carrinho pra mim! Sempre que o papai vai à cidade ele traz um pra mim. Corro, então, para abraçá-los. Assim que me vê, o papai diz: “Filho, adivinha o que o papai trouxe pra você? É surpresa!”, diz ele. Eu me faço de desentendido, fingindo não saber que é um carrinho. Mas não é um carrinho!!! É um grande cilindro oco de papelão, com mais ou menos um meio metro de altura. Nele há um selo amarelo e verde, com os dizeres “Filtros Mann”. O papai diz que ali estava um filtro. Bom, eu não sei o que é um filtro. Mas deixa pra lá! Mais importante do que saber de onde veio é saber pra que serve. “Você pode guardar os seus carrinhos aí dentro, pra não os deixar jogados pelo chão”. Será que o papai está querendo dizer que eu sou faço muita bagunça? Eis que chega o vovô, cansado de esperar. Ele continua com uma das mãos nas costas, parecendo sentir dor. Fico feliz ao vê-lo. Deixo então aquela “caixa redonda” de papelão de lado e o puxo pela mão. “Vovô, vamos brincar até encher esse caminhão?” Ele olha pra mamãe e, puxando o caminhãozinho com a outra mão, olha pra mamãe e dá uma risada. Ainda temos muito trabalho pela frente...

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