domingo, 12 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 6

É madrugada. Lá fora o silêncio reina quase que absoluto. Ouve-se apenas o ruído esporádico das corujas trocando de galho e o som dos sapos brincando às margens do rio que atravessa o fundo do quintal. A estrada de terra batida que passa há algumas dezenas de metros aqui de casa também deserta. Estou dormindo como um anjo. Nem os roncos esporádicos do papai conseguem acordar-me. Aqui em casa há dois quartos, mas prefiro dormir dividir o quarto com o papai e a mamãe. Ainda sou muito criança pra dormir sozinho, mas já tenho minha própria cama. O colchão é de mola e eu o acho muito confortável. Minha cama fica posicionada aos pés da cama da do papai e da mamãe, logo abaixo da janela. As noites por aqui têm sido muito frias ultimamente e, por isso, não apenas durmo bem agasalhado como também uso dois cobertores. Ainda assim, neste momento, sinto um frio estranho nos pés, por baixo do cobertor. Primeiro o sinto no pé esquerdo, agora no direito e... Foi-se. Que estranho... Motivado por esta “onda” de frio que acabara de incomodar-me, procuro ajeitar-me como posso para que não volte a senti-la. A mamãe, aqui na cama ao lado, parece ter sentido a mesma onda de frio, mas sua reação é um pouco menos discreta que a minha. “Bem – diz ela para o papai, dando a impressão de estar estática – estou sentindo algo gelado nos meus pés. Acho que tem uma perereca debaixo do cobertor!” Atordoado de sono, o papai não dá muita bola para o seu comentário. “É impressão. Dorme aí, vai...” A mamãe, no entanto, parece congelada. Não consegue se mexer, parece assustada. Já o papai... Mal acaba de conversar com a mamãe e já está roncando novamente. De repente, a mamãe diz, com voz ainda mais petrificada: “Bem, não é uma perereca: é uma cobra!” Como se tivesse tido um pesadelo, o papai coloca-se sentado na cama e observa, calculista, a cobra descendo pelos pés da cama. Assim que a cobra ganha o chão, o papai pula da cama, abre as portas do guarda-roupa e pega a cartucheira. A caçada vai começar. Acordo com o rangido da porta do guarda-roupa. O papai está de pé e a mamãe está com a lanterna nas mãos (aqui em casa não tem energia elétrica...) A cobra parece perceber que está em perigo e corre para a sala. Ouço um tiro. “Ali, bem, ela foi para lá!” Outro tiro. “Lá, ela foi para o outro quarto. Está debaixo da cama!” Ela está sem saída. Ouço o terceiro tiro. É o último. O papai parece ter acertado na cabeça dela. Ele é bom de tiro. Ofegantes, o papai e a mamãe conversam algo sobre a necessidade de se tampar o buraco na porta da sala. A cobra deve ter entrado por lá. Às vezes acho que o lugar em que moramos é muito perigoso. Ainda bem que o papai está aqui pra nos proteger...

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