quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 7

Mês de março. Finalmente chegou o período do ano mais esperado pelo papai: o da colheita. O papai disse à mamãe que a safra deste ano vai ser muito boa e que nós vamos melhorar nossa situação. Ano passado, nesta mesma época, eu o ouvi dizendo a mesma coisa. Espero que este ano ele não se decepcione. Neste momento, o papai está aqui próximo à frente de casa adaptando a colhedeira ao trator. Ele está lá do outro lado da cerca de arame farpado, eufórico e contente. Chego perto dele, devagarzinho, como quem não quer nada. Eu o observo por alguns minutos. Está suado e ofegante. Será que ele está precisando de minha ajuda? “Filho, vai lá no quartinho e busca aquele cardãzinho pro papai”, diz ele, parecendo ter lido meus pensamentos. Querendo mostrar para o papai que eu sou esperto, vou correndo buscar o que ele me pediu. No caminho, há uma cerca de arames pela metade. A maioria dos arames está no chão; somente um deles está no alto, mais ou menos na altura da minha cabeça. Eu, na minha pressa, acabo me esquecendo desta cerca... Percebo-a apenas quando sinto o arame farpado rasgando meu olho esquerdo, fazendo o sangue jorrar. “Mamãããããããããããe!” Acho que nunca gritei tão alto. A mamãe, ao ver-me com os olhos, a roupa e as mãos ensangüentadas, leva as duas mãos na cabeça e, desesperada, corre ao meu encontro. “Bem, pelo amor de Deus, acode aqui!” O papai, sem saber o que estava acontecendo, sai debaixo do trator xingando por ter batido a cabeça em uma saliência. Quando o papai consegue sair, a mamãe já está na cisterna, lavando-me e fazendo promessa para Santa Luzia. “Filho, você consegue ver?”, pergunta ela. “Não, mamãe, está tudo vermelho. Eu estou com medo!”, respondo, assustado. A expressão dela não foi das melhores ao ver a pele dependurada. Já o papai, que acabara de chegar, disse que o corte foi apenas superficial, mas é preciso vacinar-me contra tétano. Sim, a colheita vai ter que esperar. Após tomar a vacina antitetânica e ser examinado, o farmacêutico faz um curativo bem caprichado. Já não sinto mais dor e posso voltar para casa. Não foi preciso me dar pontos. A única dor que sinto é a de não ter ido mais devagar. Mas deixe estar. Se depender de minha pressa, a partir de agora o papai pode chamar-me de “lerdo” pelo resto da vida...

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