domingo, 19 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 8

Eu ainda não tenho uma noção exata do tempo. Não sei quantos são os dias da semana nem quantos são os meses do ano. Os únicos dias especiais que consigo distinguir dos demais são o Natal e o meu aniversário, mas também não faço a mínima idéia em que dia e em que mês comemoramos estas datas. Ainda não sei ler e, sendo assim, é uma tremenda perda de tempo tentar procurá-los nos calendários que ficam pendurados pelas paredes aqui de casa. Às vezes tenho dificuldade para identificar até o dia da semana... Na verdade, os dias aqui na roça me parecem todos iguais, exceto um: o domingo. Agora deve ser umas três horas da tarde. Estou brincando com minha bola de plástico sob a sombra deliciosa da árvore aqui na frente de casa. De repente, ouço alguns gritos, vindos de bem longe. Pressentindo o motivo destes gritos, pego minha bola e a abraço com força. Corro, então, até o meio do quintal, próximo à cisterna. De lá eu avisto, do outro lado do córrego, vários homens jogando futebol. São todos empregados do tio Antônio Marcon. O campo, na verdade, é um pasto. Eu imagino que de vez em quando algum dos jogadores, sem querer, pisa ou mesmo chuta aqueles enormes pedaços de cocô que as vacas deixam por onde passam. Eu penso que jogar futebol em um pasto deve ser mais divertido que em um campo de verdade. Bom, eu apenas imagino, pois nunca joguei em nenhum dos dois. Jogo apenas aqui no quintal de casa. Quando chuto a bola contra a parede, ela retorna junto com a poeira e eu acabo desistindo, pois a mamãe não gosta da poeira. Eu queria tanto ter um campo ou um pasto para jogar...
Sentado à beira da cisterna, fico prestando atenção no jogo. Os jogadores gritam uns com os outros e isso me deixa curioso. Parecem estar brigando, mas não estão. Por um momento eu chego a achar que eles mais gritam do que jogam futebol. Eu queria muito poder jogar com eles, mas não posso por causa do meu tamanho. Eu não tenho ninguém para jogar comigo, pois o papai não gosta de futebol. Por enquanto, posso apenas assistir. Será que os que moram na cidade também assistem a jogos de futebol aos domingos à tarde?

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