sábado, 25 de fevereiro de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 9

Estou novamente à sombra da enorme árvore em frente de nossa casa. O tronco desta árvore é cheio de espinhos e, a pedido da mamãe, eu evito me aproximar deles. Ela disse que posso machucar-me. Há um banco debaixo dela, onde estou sentado, sozinho. Sim, estou novamente sozinho. A mamãe está lá dentro de casa, ocupada, fazendo pão e rosca. Os pães que ela faz são deliciosos! As roscas, então, nem se fala... Ela passa um caldo de açúcar por cima e cobre com coco ralado. Ah, só de pensar fico com água na boca... Vejo verde por todos os lados. Tem chovido bastante este mês. A poeira, que deixava a mamãe há alguns dias atrás, deu lugar ao barro. Agora é o barro que a irrita... Mas fazer o quê? Morar na roça é assim mesmo. Eu faço o que posso para manter a casa limpa, raspando minhas botinas no disco de grade, parcialmente enterrado no chão, que fica aqui ao lado da porta da sala (tem também um outro na entrada da varanda...). Quando as botinas estão muito sujas, eu entro descalço para não sujar o chão e não ver a mamãe nervosa. Ela gosta de ver o chão aqui de casa sempre muito limpo. Eu não entendo como a mamãe consegue mantê-lo tão branquinho. É de tijolo! Às vezes eu sinto que a mamãe não gosta de morar aqui. Eu penso que é porque nós moramos muito longe do vovô Mila, da vovó Maria e da tia Ângela. Eu até entendo. Acho que eu também não me sentira bem se vivesse longe do papai, da mamãe e da minha irmãzinha, a Fia, que está dormindo lá no bercinho dela, no quarto da mamãe. Nem com ela eu posso brincar agora... Há poucos metros entre eu e uma enorme mangueira. É debaixo dela que o papai guarda o trator, a colhedeira, o arado e a grade. Aquela mangueira tem tantas folhas que a gente não consegue enxergar nenhum raio de sol através dela. “Vou trocar uma sombra por outra”, penso. Sigo, então, caminhando pelo pasto. Noto, então, que o papai passou tantas vezes por ali com o trator que os pneus mataram o pasto, deixando um caminho de grama entre dois de terra. Eu, para não sujar demais as botinas, caminho pela grama. Estou chegando debaixo da mangueira. Olho para cima. Sim, é uma mangueira enorme! Nesta época, posso andar despreocupado por baixo dela, pois não há nenhuma manga que possa cair sobre minha cabeça. Eu imagino que se uma manga cair lá do alto em cima a minha cabeça, eu desmaio! O céu está repleto de nuvens escuras. Vou entre as folhas secas, espalhadas pelo chão, quando avisto, enterrado no chão, um pedaço de pau. Outro dia eu perguntei para o papai se aquilo era uma árvore seca. Ele riu e disse que era um antigo “mueirão”, daqueles que se usa para segurar a cerca de arame. Um pouco mais adiante, vejo o lugar onde enterrei as tampinhas de refrigerante, que tinham “Os Trapalhões” desenhados na parte de dentro. O vovô trouxe aquelas “bilinhas” pra mim lá de São Joaquim... Foi ali, naquele mesmo lugar, que o vovô Mila me ensinou a amarrar o cordão sapato... Fico, então, curioso, para saber se as tampinhas estão ali ainda. “Será que alguém descobriu o meu esconderijo?”, penso. Com um pedaço de galho seco, começo então a remover a terra. Aos poucos, as tampinhas vão aparecendo. Uma, duas, três... Sim, elas estão ali! De repente, ouço a mamãe chamando por mim, na porta da sala. “Estou aqui, mamãe!”, grito. Ela me avista. “Vem pra cá logo!” Só então eu vejo que está chovendo! “Ainda bem que a copa da mangueira está me protegendo”, penso, aliviado. “Está trovejando! Vem correndo! É perigoso cair um raio aí! Anda logo!”, esbraveja a mamãe. Sentindo que ela está levemente nervosa, cubro novamente as “bilinhas” com a terra e começo a correr de volta para casa. “Nossa, como a chuva está gelada!” Mas ainda é melhor sentir os pingos da chuva agora do que contrariar a mamãe e ser “esquentado” por ela mais tarde...”

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