domingo, 19 de fevereiro de 2006

A intolerância entre amigos no futebol

Como bom brasileiro, jogo futebol desde criança. Embora não tenha habilidade, creio que minha força de vontade me torna um jogador no mínimo “escolhível” em qualquer racha. A posição em que jogo, zagueiro, também ajuda bastante, já que todos os colegas de equipe sempre descem até o ataque e deixam a defesa desguarnecida. Na maioria das vezes, eu me torno o único obstáculo entre a bola e o boleiro. É o que chamam de “mano-a-mano”. É tudo ou nada. Se eu falhar, a chance de meu time levar um gol é grande. Na adolescência, os colegas me apelidaram de “Tonhão” por causa do vigor físico e pela expressão séria com que jogava. Entre jogador e bola, somente um deles conseguia romper a barreira que eu representava. Falhei muitas vezes, mas isso faz parte do jogo. Não contentes em fazer o gol, alguns atacantes mais habilidosos tentavam dar dribles bonitos pra cima de mim, na tentativa de arrancar delírios da torcida. Eu, claro, acabava as pretensões do tal jogador, dando-lhe uma entrada mais violenta e deixando-o mais próximo da torcida que ele queria agradar. Com o tempo, fui controlando minha irritação com esse tipo de jogador. Independente disso, não me lembro em nenhuma ocasião de ter machucado algum deles ou que tenha gerado, em uma dessas minhas “entradas”, nem tampouco de ter sido desleal ou ter criado alguma inimizade. Pois bem. Com quase 30 anos de vida, presenciei neste sábado à tarde uma das cenas mais desleais de toda a minha vida. Após tomar um gol, o goleiro reclamou da falta de vontade dos jogadores de seu time. Um dos jogadores não gostou e começaram a trocar insultos, culminando em troca de socos. A turma do “deixa-disso”, obviamente, interveio. O jogador foi e pediu desculpas ao goleiro. Os dois se abraçaram e tudo ficou bem. Bom, pelo menos foi essa a impressão que tivemos naquele momento. Partidas mais tarde, jogador e goleiro agora estavam em times diferentes. A bola, então fora lançada. Jogador e goleiro foram em direção à bola. O goleiro com as mãos. O jogador, entretanto, não mirou a bola. Tive a impressão de que ele estivesse voando, dada a altura que seus pés estavam no chão. Os pés tiveram um destino certo: o peito do goleiro. Não, o objetivo dele não era a bola. Era vingar-se. E vingou-se, da forma mais desleal possível. O goleiro caiu e, como um gato, levantou-se e partiu em direção ao jogador. A turma do “deixa-disso” interveio novamente. Desta vez, eu me manifestei. Disse para que soltassem o goleiro e que deixasse ele resolver o problema com o jogador como antigamente: no braço. Sou totalmente contra a violência, mas selvageria combate selvageria. Não suporto deslealdade. Não se pode bater, pedir desculpas e ser desleal como aquele jogador foi. E não me venham com essa história de que “faz parte do jogo” ou que “aqui dentro é uma coisa, lá fora é outra”. Quem tem caráter, o tem em qualquer lugar.E para mim, isso é falta de caráter. Retirei-me e fui embora.

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