segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Mais um anjo enviado por Deus...

Domingo. Vinte e duas horas e trinta minutos. Débora e eu estamos de estômagos vazios. O que comer? Ela propõe uma salada, eu proponho uma omelete. Cavalheiro, priorizo a vontade dela. Seguimos rumo ao posto. Está lotado. Precisamos escolher outro lugar. Após algumas sugestões e alguns litros de combustível andando sem rumo pelas ruas da cidade, decidimos ir a um restaurante comer algum prato “à la carte”. Estaciono o carro. Ao descer, a Débora comenta que estou de bermuda e chinelo. “Que se danem! Nós vamos pagar igual aos outros!”, respondo, com um tom de anarquista. Sentamos à mesa. No cardápio, a maioria dos preços me desagrada, mas um agrado à namorada sempre faz bem ao relacionamento... Fazemos o pedido. Enquanto aguardamos, olhamos sobre a pequena cerca de madeira que nos separa da rua. Lá embaixo, sentado ao pé de uma árvore, está um menino. Com os pés descalços e a roupa suja e rasgada, ele olha para o chão. Parece triste. Aos poucos, ele vai se levantando e, como se tivesse ouvido uma voz interior, sai em direção ao posto aqui ao lado. Após mais de quarenta minutos de espera, a garçonete surge com o prato que pedimos. Ela nos serve, primeiro à Débora, depois à mim. Humm!!!! A comida está muito saborosa. Aos poucos, a fome e a comida vão desaparecendo. De repente, ao virar-me para o lado, vejo o menino praticamente ao meu lado, me olhando. “Tio, o senhor tem umas moedinhas?”, diz. Noto que, apesar da pouca idade, poucos são os dentes que lhe restam. “Não, filho, não tenho moedas”, respondo. Neste momento, me recordo de uma ocasião em que dois meninos pediram um pedaço de pizza e, quando fomos recortar um pedaço da que estávamos comendo, eles disseram que queriam outro sabor, saindo então em suas bicicletas. Mas o menino permanece ali, ao meu lado. Está olhando para o prato de comida. “Nossa, arroz...”, diz ele, como quem não vê um prato de arroz há muito tempo... “O senhor me dá um pedaço?”, pede ele. Eu e a Débora entreolhamo-nos. Sim, ele realmente está com fome. “Você quer um pedaço de batata ou de bife?”, pergunto. “Qualquer um”, responde, demonstrando o que já suspeitávamos. Cortamos, então, um pedaço de batata e um pedaço de bife e lhe entregamos em um guardanapo. “Obrigado”, diz ele, pela primeira vez com um sorriso no rosto. Então ele volta ao pé da árvore e come. Em uma das mãos está uma latinha de Coca-Cola, que provavelmente conseguiu no posto aqui ao lado. Em poucos minutos, a latinha se esvazia e o bife e a batata desaparecem. Ele limpa as mãos na camisa amarela, já encardida, e segue para a porta do restaurante, debruçando-se sobre o balcão. Ali ele permanece por muito tempo, olhando as pizzas saírem do forno. Os garçons parecem ignorá-lo. Era como se ele não estivesse ali. Seus olhos estão brilhando. Ele ainda parece com fome... Na mesa, eu e a Débora estamos fartos. Ela olha o menino e depois para mim. Sinto um nó na sua garganta. Seus olhos ficam umedecidos. Nossa fome se foi... Peço, então, a conta e solicito que preparem o que sobrou para a viagem. Discretamente, a Débora retira a colher de plástico do pote de açúcar e a esconde em sua bolsa. Pago a conta e pego a comida que não conseguimos comer. Seguimos em direção à porta. Lá está o menino. Novamente, ele pede uma moeda. Então eu coloco as mãos sobre seus ombros e peço para ele acompanhar-me até a saída. Lá, eu lhe entrego a comida, embalada, com a pequena colher que a Débora “arrastou”. “Tome, nós pegamos pra você”. Ele me olha como uma criança que ganha um brinquedo. “Obrigado”. Já saindo com o carro, nós o avistamos sentado, no mesmo lugar, agora comendo. Damos a volta no quarteirão e voltamos para vê-lo. Já não está mais lá. Sim, era um anjo. Um anjo que Deus nos enviou para mostrar-nos quanta injustiça há neste mundo. Enquanto uns se esbanjam e jogam comida fora, outros sequer têm o que comer. Mergulhados no egoísmo, a maioria consegue olhar apenas para frente. Ao invés de tornar-nos humildes, o progresso intelectual e financeiro nos faz cada vez mais arrogantes e cegos. Não conseguimos enxergar os mais desfavorecidos, nem tampouco olhar para o lado. Mas tudo há um preço. Um dia teremos que prestar contas de nossos atos. Nunca é tarde para arrepender-se. Não se esqueça: você também é culpado pelo sofrimento de seus semelhantes. E então, como você tem usado os dons que Deus lhe ofereceu para ajudá-los?

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