quinta-feira, 30 de março de 2006

Fim da linha

Após quase nove horas em frente à tela do computador, lutando para rascunhar um artigo científico, cá estou novamente em sala de aula. Serão mais cinco aulas. Estou cansado, muito cansado. As pernas já não têm mais a mesma força do início do dia. Os ombros já estão caídos, a coluna recurvada. Já não consigo levantar os pés; eu os arrasto como posso.
Eis que começo a jornada. Pareço atordoado; faço a chamada mas sinto não estar ali. É como se estivesse dormindo de olhos abertos. Neste momento, o lugar mais desejado do mundo é a minha cama. Ah, a minha cama... Que saudade!
Apesar do cansaço, as aulas seguem bem. Uma das salas é terrível, mas consigo fazer um trato com os alunos: falo três quartos da aula, a gente descansa o último quarto. Funciona. Já em outra sala, estou dando "vistos" nos cadernos. É uma forma de avaliação. Noto que os alunos estão afoitos, se esforçando para colocar o caderno em dia. Por um momento, sinto-me satisfeito. Todos estão empenhados, exceto dois, lá no fundo da sala. Eles me olham, desconfiados. Percebo que um deles despeja das mãos um pó branco sobre a carteira, enquanto o outro vigia. Ele está me olhando. De repente, ele se vira e, olhando o pó branco sobre a mesa, curva-se e corre o nariz ao longo da carreira de pó branco. É cocaína. Eu me assusto. Sempre ouvi falar pela televisão, mas nunca imaginei que fosse presenciar uma cena daquelas. Desvio o olhar, tentando agir naturalmente. Ele continua me olhando. Bate o sinal. É intervalo.
A jornada está chegando ao fim. Adentro em uma sala onde os alunos são tranqüilos. Já na porta, noto que há um cheiro estranho na sala. Um cheiro de borracha queimada. Minha cabeça começa a doer, meu estômago começa a embrulhar. Duas alunas saem e voltam com o professor responsável pelo período. Ele chama três alunos, que saem ameaçando as "cagoetas". Faço a chamada, fecho a caderneta. Vou-me embora. É o fim da linha para mim.

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