segunda-feira, 24 de abril de 2006

Carrasco?

Dezenove horas e trinta minutos. Finalmente chegou o momento que tanto esperei. Entro na sala de aula com um sonoro "Boa noite", mas paro já nos primeiros passos quando vejo que o outro professor ainda está lá. Recuo, pedindo deculpas. Ele, cordial, fecha sua caderneta, levanta-se e diz que já terminou de mostrar as provas para os alunos. É um momento que me traz uma satisfação pessoal enorme. Afinal, fui aluno deste professor e não era um de seus maiores fãs. Não me esqueço do dia em que ele rasgou uma prova diante da classe, dizendo que se tratava de uma prova muito difícil e que nós não tínhamos condições de resolvê-la, sem sequer nos dar a chance de tentar... Mas agora, passados 11 anos, somos colegas de profissão e, como tal, ele age com profissionalismo e com uma cordialidade que não via nos tempos em que eu era seu aluno. Ele então se despede da classe e me dá um tapa nos ombros. "Até mais, Miller", diz. Agora somos apenas eu e os 47 alunos.
Desde que comecei a "brincar" de ser professor (sim, esta profissão é para mim uma grande diversão!), uma pergunta não para de ecoar em minha mente: ser professor ou ser amigo? O ideal seria ser ambos, mas hoje em especial eu tenho que ser professor para que os alunos desta sala percebam mais tarde o quanto sou amigo deles.
Durante todo este bimestre tive excelentes momentos em sala de aula com esta turma, mas apenas como amigo. Sim, estes alunos, que agora estão me olhando, ansiosos e apreensivos pela prova que lhes será aplicada, viram-me como amigo durante todo o bimestre e me trataram apenas como tal, a despeito de minha condição de professor. Em outras palavras, não tiveram o respeito para com a figura do professor (no caso, eu) e não dedicaram à disciplina a devida atenção que ela merece. Trata-se de uma classe com alunos muito falantes e incrivelmente desinteressados pelo conteúdo. Muitos tiveram o descaso de xerocar a apostila de mais de 30 páginas apenas na semana que antecedia a prova. Tenho a impressão que alguns achavam que "o amigo Miller é de boa e não vai ferrar na prova". Diante destes e de muitos detalhes desagradáveis, que não aparecem em nenhuma das outras classes, resolvi ser duro com eles, ou melhor, ser simplesmente professor. Eu já havia lhes alertado sobre o grau de dificuldade do conteúdo, mas poucos pareciam dispostos a dar-me ouvidos.
Abro o pacote de provas e deixo-as cairem sobre a mesa. Dirijo-me ao centro da sala e peço para alguns alunos trocarem de lugar. Após alguns minutos de poluição sonora devido ao barulho das carteiras sendo arrastadas, a classe está em ordem. Distribuo, então, as folhas de prova e leio as questões com eles. Ao pé da prova, uma frase de Isaac Newton que traduz perfeitamente a situação desta classe: "Podemos escolher o que plantamos, mas somos obrigados a colher semeamos". "Vixi! Bem que você falou que ia ferrar a gente, hein Miller?", ouço vários alunos comentando. Sim, é chegada a hora da primeira colheita. Espero que aprendam a importância daquilo que forem semear daqui em diante.

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