domingo, 9 de abril de 2006

Fragmentos de minha infância - parte 10

Mais uma vez estou brincando sozinho. Como sempre, a mamãe está ocupada. Desta vez, está lavando roupas. Aqui em casa não temos tanque. A água é retirada da cisterna. Eu evito chegar próximo à cisterna; ela é muito funda e eu morro de medo de cair lá dentro. Acho que o papai e a mamãe não sabem que tenho medo da cisterna, pois nunca contei a eles. Prefiro que não saibam. Não quero que se preocupem comigo. Afinal, eles já têm tanta coisa para se preocuparem... Estou sob a sombra da enorme árvore em frente de casa. Ali, próximo à cerca, pastando, está o cavalo do seu Dudu. É um cavalo cor de mel. O seu Dudu o usa muito para puxar a sua charrete. Eu fico com pena do cavalo, pois a charrete deve ser muito pesada. Será que as rédeas não machucam o couro do cavalo? Curioso, eu me aproximo da cerca de arame farpado. Para minha surpresa, ao sentir que sigo em sua direção, o cavalo se aproxima de mim. Então penso em me apoiar no moerão e passar a mão na crina dele. O problema é o meu tamanho! Apesar de ser grande para os meus quatro anos, ainda sou bem menor que o cavalo... Olho para o canto da cerca, onde está um aro de roda de caminhão, que o papai deixou há muito tempo atrás. Penso então em usar este aro pra poder subir e me debruçar sobre o moerão e acariciar o rosto do cavalo. Ponho o pé direito, o pé esquerdo... pronto: estou “grande”! Como se quisesse ser visto bem de perto, o cavalo se aproxima da cerca. Com uma das mãos no moerão, eu me estico e consigo tocar o cavalo com a outra mão. Ele abaixa sua cabeça, parecendo querer ser “coçado”. Após deslizar a mão por seu rosto umas duas ou três vezes, o cavalo recua. Parece assustado. Percebo, então, que ele está olhando para o aro em que estou apoiado. Olho também para baixo, tentando ver o que lhe assustou. Lá embaixo, próximo aos meus pés, está uma cobra verdade, toda enrolada, pronta para dar o bote. Meu Deus! Dou um impulso e salto bem longe. Saio correndo em disparada, gritando o mais alto que posso. “Mamãe, mamãe! Socorro!” Acho que a mamãe deve ter se assustado mais que eu, pois mal eu dobro o canto da casa e trombo nas pernas dela. “Mamãe, mamãe! Tem uma cobra ali querendo me pegar”, contou, assustado, apontando em direção ao aro. A mamãe, então, se dirige ao quarto do papai e, mal pisco os olhos, lá está ela com a espingarda de chumbinho, indo em direção à cobra. Ao se aproximar do aro, a mamãe avista a cobra, repousando tranqüila na parte interior do aro. A mamãe se aproxima bem lentamente, tentando não fazer barulho. Eu fico de longe, olhando, morrendo de medo. Ouço, então, um tiro, depois outro. Pronto. Acabou. Mais uma vez, fui salvo pela minha heroína. Corro em direção a ela e a abraço! Ah, meu Deus... O que seria de mim nesta vida se não fosse a mamãe e o papai???

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