quinta-feira, 27 de abril de 2006

Memórias de um almoxarife - parte 1

26 de novembro de 1996. Hoje faz um mês que fui contratado para trabalhar aqui no Almoxarifado Agrícola da Usina Alta Mogiana. Como almoxarife, minha função é servir os mecânicos da oficina e todos aqueles que apareçam no balcão com uma requisição de material. Aqui neste setor ficam armazenadas peças para caminhões, carros, tratores, reboques canavieiros, tratores, colhedeiras de cana, máquinas de esteira, bombas de veneno, grades niveladoras. Também armazenamos material de limpeza, tintas, mangueiras e uma grande variedade de materiais. É tanta mercadoria que o espaço acaba sendo pequeno demais... O ambiente físico aqui não é dos mais aconchegantes. O telhado é constituído de folhas do tipo Eternit, o que torna o ambiente aqui dentro um verdadeiro forno. As paredes são feitas de placa de madeira prensada, a que eles chamam de “folhas de madeirite”. O chão, por sua vez, é feito de concreto bruto, mas a quantidade de poeira depositada sobre ele é tão grande que nem mesmo o “seu Boné”, nosso faxineiro, consegue eliminá-la com a água que sai de seu regador verde. A poeira que se levanta do chão quando passamos acaba se depositando sobre as peças que se encontram sobre as prateleiras, tornando o ambiente nada propício para quem sofre de rinite alérgica, como eu. Aliás, tive que esconder este meu pequeno problema de saúde do médico que me examinou para que eu fosse admitido; caso contrário não seria contratado. Sim, eu preciso muito deste emprego para pagar o curso de graduação em Química. Desde que assumi a função aqui no almoxarifado agrícola, minha rotina tem sido bastante cansativa. Acordo às 6h, entro no ônibus às 6h30min e só desço do mesmo ônibus às 17h30min. Desde o momento em que desço do ônibus da empresa até o momento em que entro no ônibus da universidade, são decorridos aproximadamente 30min. Este é o tempo que tenho para tomar banho e alimentar-me. Sim, é um tempo curto demais para que eu consiga esvaziar um prato de comida. Ao invés de tentar e fracassar, e ainda correr o risco de ter uma congestão, prefiro comer uma torrada com “catchup” ou um pão com presunto e queijo. Quando chego em casa de volta da universidade, o relógio de pêndulo na parede da sala, herança de meus bisavós, bate 23h40min. Já é tarde. Estou muito cansado. Mas não posso dormir. Tenho que estudar. Enquanto tomo um copo de leite com café e açúcar, escovo os dentes e visto o pijama, passam-se 20 min. Assim que abro o caderno, o relógio dá doze badaladas da meia noite. “Agora eu vou trabalhar para mim”, penso. Mas cadê o ânimo? Tento ler o texto mas está difícil. Os olhos acabam se fechando antes do final de cada frase. Procuro, então, reescrever o que estou lendo. Eis que me flagro escrevendo há quase 3 min no mesmo lugar... A ponta da caneta já está quase rabiscando a mesa, do outro lado da folha de papel. Levanto-me. Dirijo-me ao banheiro; molho as mãos com a água gelada da torneira e fricciono as mãos contra o rosto, na tentativa de espantar o sono. Já se passaram quase 30min e eu não consegui sequer começar a estudar. Quando retorno à mesa, o sono se vai. O relógio da cozinha são 0h30min. Agora sim! Lembro-me, então, de cada palavra que meu pai me disse há um mês atrás, quando consegui este emprego. “Filho, até hoje você só estudou. Sempre viveu para estudar e sempre teve boas notas. Mas agora é diferente. Agora você vai trabalhar e estudar”. E colocando as mãos sobre meus ombros, ele pronunciou o estímulo que eu precisava para passar as madrugadas estudando: “Agora sim eu quero ver se você é mesmo “macho” pra manter essas notas!” Respiro fundo. Esboço um sorriso de canto de boca. “Pode deixar, papai”, penso. Sim, esta madrugada vai ser curta demais para mim...

2 comentários:

Márcio disse...

Caro Antônio,

De início, vejo-me diante de um problema particular: como devo chamá-lo? Antônio ou Eduardo? Bem, Até que você me diga, continuarei com o Antônio, certo? Assim, passemos ao que importa: o motivo pelo qual prefiro blogs como o seu àqueles como o da Bruna Surfistinha, por exemplo. Oh, bem, creio que isso mereça um novo parágrafo. Ou dois.

Conforme você explicou diversas vezes, o "Narrativas" é um blog que atualiza nosso bom e velho diário pessoal, de modo a traduzir uma "vida real", uma vida "como ela é". Não, não sou uma daquelas pessoas que colocam aspas em (quase) tudo, mas, no caso presente, isso é necessário. Por quê? Porque uma vez traduzida em escritura, qualquer experiência tida como verdade, mesmo que nosso intuito seja o de mantê-la como verdade, passa a figurar no campo da experiência literária e, deste modo, toca também as raias da ficção. Nada de mau com isso, oras! Afinal, autobiografias como as Confissões de Santo Agostinho ou de Rousseau, apesar de (novamente as aspas!) "fracassarem" como experiência de reprodução da verdade, oferecem-nos muitos outros prazeres que compensam - com sobras - a falta da dita cuja. Não creio que o "Narrativas" tenha o intuito de fazer exatamente o mesmo que esses diários famosos, mas também não sei se o seu blog existe basicamente para que seus filhos (conforme você já afirmou em muitas outras oportunidades) saibam como o pai deles pensava. Afinal, você escreve para um público - inclusive pensando em parar com o blog em caso de ausência deste público. Ou seja, caro Antônio: você também não está tão longe de Santo Agostinho ou de Rousseau quanto ao projeto e ideal.

Maaaas, se for assim, por que eu teria louvado o caráter autêntico do "Narrativas"? Eu o fiz justamente porque você, ao levar a cabo seu projeto pessoal de autobiografia (ficcional em certo sentido; isso não importa e ainda bem!), e ao inseri-lo no universo na net, não cedeu à facilidade da apelação que certamente está ligada a um dos principais elementos de medida de sucesso (se não for o maior, se não for o único) de um blog ou site: o número de visitas e de comentários. Sem dúvida, as aventuras sexuais de alguém, hoje, dão muito mais ibope do que as sutis epifanias de uma pessoa "normal" (aspas, aspas!). E é justamente por isso que prefiro seu blog: ao pensar na questão do sucesso, muitos deixam que isso interfira em seu processo e em seu projeto de escritura. Não perdem em sinceridade (poque nenhuma escritura é sincera), mas perdem - e muito - em autenticidade. E, ao fazê-lo, perdem a única verdade possível e importante para o escritor: a verdade do milagre estético que termina no pacto do leitor com o texto com o qual dialoga, mas que começa com o pacto do autor e sua escritura, que lança a pedra angular deste milagre. Não estou julgando blogs como o da Bruna ou fazendo juízos de valor, nem seria este o momento ou o lugar para tanto. Eu apenas queria dizer o porquê de eu gostar daquilo que você escreve e o porquê de você dever sempre, sempre continuar escrevendo. Independentemente do número de visitas, tenha ou não comentários expressos, sua escritura exprime a "autencidade", a "sinceridade" e a "verdade" possíveis em matéria de literatura. Isso, definitivamente, é uma "vitória. Com ou sem aspas.

Um fraterno abraço deste seu admirador,

Márcio Roberto do Prado

P.S.: Sinta-se à vontade para citar meu nome ou reproduzir parte ou a íntegra deste comentário. Em casos como este, vale a pena engajar o nome e a palavra.

Mauro Jr disse...

(Mauro) E ai Miller tudo bem? Espero que sim! Sou um frequentador assíduo do seu blog, sempre que leio as suas narrativas encontro uma nova forma de encarar a vida. Passei esse final de semana um pouco desanimado, parece que a única alternativa seria desistir, ou da faculdade ou das aulas de PEBI. A primeira alternativa é fora de cogitação, afinal a faculdade de quimica é a minha vida, a segunda alternativa seria mais viável, afinal quando a gente se depara com uma sala aonde a maioria dos alunos estão pouca ai e não querem saber de nada, isso é muito desanimador, e ainda pra piorar a situação a coordenação e a direção da escola é uma droga!!! Eu então percebendo que a notas da faculdade já estão caindo de produção pensei realmente em exonerar do cargo afinal eu voltaria a ter todo o tempo do mundo pra estudar. O Marangoni e o Élvio já tinha me aconselhado a não cometer esse erro, mais foi lendo o seu blog que realmente decidi em não desistir de nada!!! O estrago feito não é tão grande assim que eu não possa recuperar. É como o seu Pai te disse quando você arranjou o seu 1º emprego. Apesar das dificuldades a gente tem que se mostrar forte pra vencer na vida. Queria te dizer que dentro da sala de aula te vejo como professor, mais acima de tudo te considero um amigo, um grande amigo. Abraços, té mais.