domingo, 23 de abril de 2006

Trapalhadas de um professor - parte 1

Terça-feira, 18 de abril de 2006. O relógio do celular acusa exatamente 10h20min. Estou em uma sala de aula de uma escola da rede pública, a minha querida "Edda Cardoso de Souza Marcussi". Acabo de "dar o visto" nos cadernos dos alunos da 2a série do ensino médio. Estou sentado à mesa do centro. Sim, sou o professor. À minha frente estão quase 30 alunos que, diante do horário, expressam facialmente e verbalmente um "por hoje é só, né professor?". De fato, é preciso reconhecer que é tarde demais para iniciar um novo conteúdo. "Certo, moçada. Por hoje é só." Aqueles alunos, que até então se mostravam cansados, levantam-se de suas carteiras e começam a conversar, não apenas entre si, mas comigo também. Em poucos minutos, vejo-me cercado de cadeiras de alunos, que querem minha atenção. Agora não mais como professor, mas como amigo. Uma das alunas me mostra uma relação dos "carinhas" com quem ficou até hoje. Somam quase 50... Aparentemente orgulhosa, ela me mostra e ri; os outros também. Uma outra aluna aparece com uma revistinha de amostragem da Avon. Ela aponta para uma meia-calça transparente e diz, entre risos, que vai vir à escola com uma daquelas. Todos sorriem. Eu, com a revistinha na mão, também estou sorrindo.
Eis que, de repente, vejo a porta da sala de abrir. "Com licença, professor?". É a diretora... Como que num instinto de sobrevivência, os alunos que estavam ao redor de mim retornam a suas carteiras, deixando-me ali, sozinho... Eu, com aquela revistinha nas mãos, diante da diretora, olhando para mim... Diante de situação tão constrangedora, tento agir naturalmente e, enquanto me levanto, escondo a revistinha debaixo do diário de classe.
Dirijo-me então para a porta e permaneço de pé, ao lado dela, observando a diretora falar. Ela fala sobre filosofia e sobre as idéias de Aristóteles e Platão. Eu observo atentamente, mas noto que alguns alunos riem. Só então me dou conta que eles estão rindo da minha reação. Eles olham para mim e tentam conter o riso. Enquanto fala, a diretora tem o costume de ir mexendo nas coisas que estão sobre a mesa. Atônito, vejo ela colocar a mão no diário de classe. Ela o levanta. Meus olhos o acompanham, o dos alunos também. Eis que a revistinha do Avon aparece. Ela fica sem reação. Parece não acreditar no que vê, mas polidamente não diz nada. Um frio percorre minha coluna e me deixa paralisado. Consigo apenas mexer os olhos e ver que alguns alunos já não conseguem mais conter o riso.
Ela termina seu discurso e segue em direção à saída. Digo-lhe que seria bom que os alunos lessem "O mundo de Sofia". Ela concorda e retoma o discurso por mais alguns instantes. Ao sair, educadamente me agradece. Somente então toca o sinal e a outra professora entra na sala. Para não complicar ainda mais a situação, introduzo novamente a tal revistinha no meio dos diários e sigo em direção à saída. "Professor, o senhor não está se esquecendo de nada?", ouço, entre risos. Paro, então, na porta e, de costas para a sala, removo a tal revistinha de dentro dos diários, deixando-a sobre uma das carteiras próximas à porta. Meu ar de "não é possível que denunciava que minha vontade era de rasgar a maldita revistinha, tamanho foi o embaraço que me causou. Deixo, então, a sala de aula, ouvindo as gargalhadas dos alunos. Sim, agora podem rir. "O que está acontecendo?", pergunta a outra professora, sem entender nada. Imagino que eles vão narrar a história em detalhes. Uma nova sessão de gargalhadas vai começar.

Um comentário:

Márcio disse...

Grande Antônio, salve, salve!

Puxa vida, voltou com a corda toda, meu amigo! Fico bastante feliz em ver isso! Bem, gostei muito dos novos posts e, posteriormente, gostaria, também, de trocar mais idéias a respeito das coisas que diferenciam (com vantagens!) o "Narrativas" de blogs como o da Bruna Surfistinha. Bem, mas isso fica para depois porque eu acabo de chegar da Bélgica e, em plena madrugada parisiense (quatro e dezenove da matina) mal consigo ficar de olho aberto na frente do notebook. Mas eu tinha que agradecer, claro, depois de suas gentis palavras. Valeu, brother!

Bem, era isso por enquanto, um abração do

Márcio