quarta-feira, 31 de maio de 2006

A queda de um anjo

Domingo, 28 de maio de 2005. São 22h18min. Estou em meu quarto, tentando corrigir a dissertação de mestrado de um aluno da USP de Ribeirão Preto. Será a primeira vez que serei membro de uma banca examinadora... Há muitas correções a serem feitas. Aliás, eu tenho milhões de coisas para fazer, e muitas delas tomam minha atenção neste momento. É verdade, concentrar-me está sendo uma tarefa muito difícil. Afinal, a contragosto, deixei a Débora em casa mais cedo por causa das coisas que tenho que fazer, Ainda bem que ela é compreensiva... A mamãe e o papai estão lá dentro, dormindo. Estou preocupado com o papai, pois ele está há semanas com uma tosse que não quer curar. É uma tosse seca. A mamãe me contou que ele arregala os olhos quando começa a tossir, de tal forma que se tem a impressão que ele vai perder o fôlego. Quando cheguei em casa, há pouco mais de uma hora, encontrei os dois no quarto. A mamãe estava sentada, com os cotovelos nos joelhos, olhando para o chão. Parecia desanimada. O papai estava deitado de lado, com um olhar triste e distante. “O que foi, mamãe?”, perguntei, com certo ar de preocupação. “Seu pai está com medo de dormir e se sufocar quando começar a tossir”, responde ela, aparentemente exausta e desanimada. Sem ter muito que fazer (pelo menos nada que possa resolver esta situação), eu vim para o meu quarto tentar corrigir a dissertação. Pra falar a verdade, com tanta coisa pra pensar, não está sendo nada fácil... Eis que, de súbito, ouço um enorme barulho. Tiro os olhos do monitor por um instante. “Deve ter caído alguma coisa ali na oficina”, penso, lembrando-me que as coisas sempre caem na oficina do tio “Bixim”, aqui no terreno ao lado. Quando penso em tentar concentrar-me na correção da dissertação, ouço um grito de horror da mamãe, vindo lá de dentro de casa: “Filho do céu! Seu pai caiu da cama!” Como que por instinto, eu abro a porta do quarto e destranco a da cozinha e corro em direção ao quarto. Lá, no chão do quarto, próximo à parede, está o papai, sentado. O criado-mudo está encostado à parede, a cama está fora do lugar. Minha primeira reação é perguntar se ele melhorou. Sua resposta demonstra que ele está meio sonolento, ou talvez fora de si. Penso, então, na possibilidade dele ter batido a cabeça no criado. “Papai, o senhor se machucou?”. Como resposta, ouço apenas alguns grunhidos de sono, idênticos à resposta anterior. Preocupado em vê-lo no chão, penso então em erguê-lo e colocá-lo na cama. Abraço-o pelas axilas e tento levantá-lo. Imediatamente sinto uma fisgada na coluna. É, eu sei que não tenho uma coluna saudável para um esforço hercúleo com este, nem tampouco sou tão forte para erguer os 118kg de meu pai, mas nessas horas de apuros a gente tem que tentar. Aos poucos, ele vai se apoiando e, após muito esforço, consegui fazer com que ele se sente na cama. Com um dos cotovelos apoiados sobre uma das coxa, ele leva uma das mãos à testa.. “Papai, o que o senhor está sentindo?”, insisto. Sua resposta vem na forma de lágrimas. Caramba, eu não me lembro de ter visto o meu pai chorando antes! As lágrimas vão escorrendo. Curiosamente, eu acho que sei por que ele estão tão triste... Olho para ele. Aqui, diante de mim, está o meu pai. Sentado na cama, diante de meus olhos, eis o homem que me tornou o que sou hoje, aquele que moldou minha personalidade. Um homem de 54 anos, de cabelos grisalhos, que já passou poucas e boas para criar a mim e à minha irmã. Um homem trabalhador, que nunca teve preguiça nem medo de serviço pesado. Um homem honesto e, acima de tudo, honrado. Um homem que sempre deu a vida por nós. Sento-me ao seu lado e o abraço. Também estou chorando. Eu compartilho da dor dele. Nós dois sabemos que os anos se passam e levam consigo nossa saúde e nossa força. Causa muito sofrimento ao meu pai enxergar que aquele homem que levantava 60 kg com o braço esquerdo, sorrindo, agora mal consegue parar de pé... E a mim também...Abraçado a ele, eu também choro. Um enorme sentimento de incapacidade me abate neste momento.
Tentando segurar o pranto, ouço a mamãe dizer para eu ir me deitar, que o papai precisa tentar dormir para descansar. Enxugando as lágrimas, volto então para o meu quarto. Lá encontro a maldita dissertação, aguardando para ser corrigida. Como que em uma atitude de revolta, arranco o cabo da tomada e me deito. Por alguns segundos, fico olhando para o céu. Penso no quanto somos pequenos e frágeis. E choro. Choro aos soluços. Apago a luz. Fecho os olhos, mas o sono não vem. Talvez o sono venha após algum tempo. Agora, mais do que nunca, eu desejo que o tempo passe.

domingo, 28 de maio de 2006

Memórias de um almoxarife - parte 3

Quando fui contratado para trabalhar no almoxarifado, lá trabalhavam apenas o Jaime (no recebimento), o Edvaldo (no setor de pedidos e digitação de notas e requisições), o Miguel (no barracão de insumos) e o Caio (no balcão). No início, eu era parceiro do Caio no atendimento. Eu sentia que ele tinha uma consideração especial por mim, como se fosse filho dele (bem, idade para isso ele tinha...). Eu o via como sinônimo de eficiência e de esperteza. A agilidade dele no atendimento era algo que enchia os olhos, sem contar que ele conhecia praticamente todas as peças do estoque. Não havia uma ficha de estoque sequer que não contivesse a sua letra. Aos poucos fomos nos tornando bons amigos, e assim que ele começou a confiar em mim, passamos a dar boas risadas juntos. Quando o movimento estava tranqüilo, a gente chegava a ponto de parar no balcão para conversar com os mecânicos. Por outro lado, o clima no recebimento e no setor de pedidos, onde trabalhavam o Jaime e o Edvaldo, era um relativamente tenso. O Edvaldo quase se matava de trabalhar. Ele era incumbido de codificar as notas que o Jaime passava para ele e digitá-las. Também digitava todas as requisições de material que o Caio e eu passávamos para ele e, não bastasse, fazia também os pedidos para reposição do estoque. Com tanto trabalho para fazer, eu lamentava que ele não tivesse muito tempo para bater um papo comigo, pois eu sabia que ele era um bom amigo. Na maioria das vezes, ele ia ao estoque apenas para conferir alguma ficha de mercadoria ou para lavar as mãos antes do almoço. Era como se fosse um vulto... O Jaime (vulgo “Jacaré”) também vivia sob pressão, pois trabalhava sozinho. O seu antigo companheiro, o Carlos Henrique Caldani (então conhecido como “Mão”) havia pedido as contas pouco antes de eu ser contratado. Sendo assim, o Jaime tinha que receber as mercadorias, conferí-las, dar entrada nas respectivas fichas e colocá-las nas prateleiras, nas devidas locações. Apesar de tanto trabalho, poucas vezes eu vi o Jaime sério ou mal-humorado. Decorridos alguns meses após a minha contratação, os responsáveis pelo Almoxarifado decidiram que era preciso contratar mais uma pessoa para trabalhar com o Jaime. O aprovado no teste foi o Danilo. Lembro-me que ele tinha um ou dois anos mais novo que eu e que ele havia me tomado o meu “troféu” de funcionário mais novo do setor. Apesar da pequena diferença de idade e de também estar na universidade, matriculado no curso de Processamento de Dados, não foi preciso muito tempo para notar que ele tinha um estilo de vida muito diferente do meu. Ele bebia (e muito!) e, se não me falha a memória, fumava esporadicamente. Até aí tudo bem. Mas o que mais me espantava era o fato que as roupas que ele usava para trabalhar eram muito mais refinadas que as que eu colocava para sair nos fins de semana. Este aspecto, por si só, já era suficiente para que eu o tivesse classificado, logo no início, como “Mauricinho”. E eu odiava os “Mauricinhos”!!! Em conversa com o Caio e com o Jaime, eu notei que eles também tiveram a mesma impressão que eu. “Esse cara é muito metido. Vamos ter que batizá-lo!”, disse o Jaime, com os olhos arregalados e um sorriso no rosto. Ao ver a expressão dele, que o acusava de estar prestes a aprontar uma grande “sacanagem”, não pude conter o riso. Faltava apenas uma boa ocasião para o “batismo”. Eis que chegaram, em um único carregamento, mais de vinte caixas de eletrodo de solda. Estes eletrodos eram vendidos por quilo, mas no estoque nós entregávamos por unidade. Conclusão: o Jaime e o Danilo teriam que abrir aquelas caixas metálicas amarelas pesadas e contar todos os eletrodos, um por um... “Danilo, tive uma idéia!”, disse o Jaime. Ao ver seus olhos brilhando, comecei a rir. Aquela era a oportunidade que ele estava esperando para o “batismo” do Danilo... “Pensa comigo: cada caixa dessas pesa 5kg, não é? Se a gente souber o peso de um eletrodo, a gente faz as contas e deduz quantos eletrodos tem dentro de uma caixa dessas! Concorda?”, disse ao Danilo, que ouviu atentamente e concordou. “Então você vai fazer o seguinte: vai lá na balança e pesa esse eletrodo pra mim”, disse, entregando em suas mãos um eletrodo. E lá se foi o Danilo, com o eletrodo na mão, em direção à balança. Assim que o Danilo fechou a porta, o Jaime ficou eufórico. Mais que depressa, ele ligou para o meu tio, o Natal, que trabalhava na Balança (recepção e expedição), e explicou-lhe seu “plano de ataque”. “Pode deixar, Jacaré. Deixa comigo que aqui eu dou um jeito nele”, ouvi meu tio respondendo ao telefone, já aos risos. Embora estivesse ansioso para ver no que ia dar a brincadeira do Jaime e do Natal, eu só fui entender o que eles fizeram no ônibus, quando estávamos voltando para a cidade. Em meio a risos (às vezes ele não conseguia nem falar, de tanto rir...), o Natal nos contou que pediu para que o Danilo subisse primeiramente na balança (aquela onde se pesam os caminhões canavieiros!!!) sem o eletrodo e que depois subisse com o eletrodo nas mãos. A diferença entre as duas pesagens seria o peso real do eletrodo. Caramba, o eletrodo devia pesar gramas, mas a sensibilidade da referida balança era de toneladas!!! Por alguns minutos, os motoristas canavieiros deixaram a cabine de seus caminhões para ver o Danilo em cima da balança onde seus caminhões eram pesados, com o maldito eletrodo nas mãos... Pronto: o “Mauricinho” estava, enfim, batizado!!! Só lamentei não ter sido convidado para ser "padrinho"...

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Fruto da minha imaginação?

Quarta-feira, 22h28min. O ônibus que nos traz de volta da universidade estaciona na esquina de minha casa. A porta que separa os passageiros da cabine do motorista se abre. Sigo pelo corredor, despedindo-me dos poucos alunos que ainda restam. Desço o primeiro degrau e, enquanto desço o segundo, estendo a mão para o motorista. "Valeu, irmão! Até mais! Abraço!", digo-lhe. Com uma fala destas, alguns podem pensar que sou crente. Mas não sou, não. Aliás, faz um bom tempo que não vou a uma missa. Lembro-me que entrei na igreja matriz tempos atrás, mas não por ocasião de uma missa. Na ocasião, ajoelhei-me, pedi perdão a Deus e conversei com Ele. Um diálogo simples e sincero que me fez sentir-me mais limpo e em paz comigo mesmo. Na verdade, meu problema não é com a igreja-tempo, e sim com a igreja-instituição. Detesto quando pedem dinheiro. Para onde vai esse dinheiro? Aliás, acho um cúmulo instituírem o dízimo e dizerem que é uma obrigação prevista na Bíblia. Ora, desde quando a Bíblia passou a ser uma espécie de regulamento? Diante deste quadro, eu tenho definido que o mais importante é fazer o bem para as pessoas. E este bem nem sempre se manifesta na forma de gestos, mas, eventualmente, pode ser traduzido em palavras de conforto e incentivo. Para mim, este é o verdadeiro caminho que leva ao Pai.
Desço, então, do ônibus e me viro. Faço um sinal de positivo com o "dedão", ao qual o motorista retribui com um sorriso. O ônibus se vai e eu fico na esquina. O chão e a calçada estão molhados. Há um clima fresco no ar. Começo, então, minha caminhada em direção à minha casa. São apenas 50m. Olho para o céu e não vejo nenhuma estrela. Há folhas caídas sobre a calçada molhada. Não há ninguém na rua. Olho para o portão. Vejo que está entreaberto. Por trás dele, a mamãe, com uma camisa amarela, me observa. Lembro-me, então, do número de vezes que a mamãe veio me receber ao portão. Foram quatro anos de graduação! Já faz 11 anos que ela me espera no portão...
Caminho devagar. Ela recua e encosta o portão. "Tadinha, a mamãe deve estar cansada". Sorrio. Um sorriso de reconhecimento pelo amor e carinho que a minha "baixinha" tem dedicado a mim desde que vim a este mundo. Estou quase chegando ao portão. Os últimos metros que me restam são de completa escuridão. Devido às copas espessas das árvores, a iluminação do poste não consegue pentrar, tornando os últimos metros aterrorizantes. "Se a mamãe não estivesse ali, eu poderia até ficar com medo".
Chego, então, ao portão. "A mamãe o deixou apenas encostado", penso. Ao bater a mão na maçaneta, entretanto, percebo que está trancada... Dou duas batidinhas no portão, pensando que a mamãe estivesse brincando comigo. "Mamãezinha! Abre aqui!", digo, baixinho. Silêncio. Decido, então, tocar a campainha. A reposta ao som do dlim-dlom campainha é uma tossida da mamãe. Normalmente essa tossida quer dizer "Estou na cama, mas já estou indo. Não precisa apertar mais nenhuma vez." Dentro de uns 40 segundos, o portão se abre. Por trás dele surge a mamãe, com o rosto todo amassado de quem estava dormindo. "Mamãe, até parece que a senhora estava dormindo!", digo-lhe, abraçando-a. "Uai, filho, eu estava dormindo, sim". Estou com uma dor de dentes terrível! Estou dormindo desde as 23h." Eu levo na brincadeira. "Ah, mamãe, fala sério! A senhora estava me esperando ali, no portão. Eu até a vi pela fresta do portão entreaberto!". "Credo, 'fi'! Você tá ficando doido? Eu tava dormindo até agora! Levantei agora, só pra abir o portão".
Inexplicavelmente, um frio me percorre a coluna. Teria sido fruto da minha imaginação?

terça-feira, 23 de maio de 2006

Anjos: eles realmente existem?

Águas de Lindóia, 20 de maio de 2006. Estou na 29ª. Reunião da Sociedade Brasileira de Química (SBQ) apresentando um pôster sobre o uso da espectrometria de massas para diferenciar dois eudesmanolídeos regioisoméricos. O número do meu pôster é PN-101. À minha volta encontram-se várias pessoas, mas no momento nenhuma delas está interessada nos meus resultados. Mas eu não me chateio. Afinal, esta é a minha sexta participação em congressos e sei que, na maioria das vezes, ninguém se interessa mesmo. Já estou acostumado. Penso, então, no quanto eu sofri na primeira vez que apresentei um pôster. Foi em Poços de Caldas, em 2000. Eu tinha resultados muito simples, mais ou menos como os que estou apresentando agora. Eu havia estudado muito para apresentar os resultados que eu tinha obtido e estava ansioso para que alguém me formulasse algumas perguntas sobre ele. Mas os minutos iam passando e ninguém aparecia... O mais dolorido era ver as pessoas passando e olhando o pôster de cima a baixo, com cara de desprezo (como sempre fazem!). Era como se o que eu tivesse feito não tivesse nenhum valor! Eu havia ficado tão triste e tão magoado que minha vontade era sair correndo para o apartamento do hotel onde eu estava hospedado e chorar. Eis que surgiu uma jovem. Recordo-me que estava tão distante que não vi de onde ela veio nem a que instituição ela pertencia. Recordo-me apenas que ela fez-me duas perguntas muito simples, às quais respondi com o maior prazer. Após esclarecer suas dúvidas, senti-me profundamente e divinamente aliviado. Agradeci-lhe e, virando o rosto para a direção oposta à que ela estava, olhei para um ponto perdido do chão, com um sorriso no rosto. Quando me virei para cumprimentar a moça e agradecer-lhe novamente pelo enorme bem que ela acabara de me fazer, notei que ela tinha desaparecido! Aquela jovem havia simplesmente evaporado! Eu não podia acreditar no que havia acontecido. Foi quando um sorriso brotou em meu rosto e eu finalmente enxerguei que era Deus quem havia me enviado um anjo, na forma daquela jovem, para confortar-me... Ao me lembrar disso, percebo que estou sorrindo... Ao voltar à realidade, vejo que há quatro jovens estáticos, de frente para mim, olhando para um pôster. Curioso, eu acompanho o olhar deles para descobrir para onde estão olhando. Qual seria o motivo de tanto interesse? Caramba, eles estão olhando para o meu pôster! Eis que aquele sorriso de seis anos atrás reaparece em meu rosto. Desta vez, os anjos que Deus me enviou vieram aos pares. Será que alguém vai acreditar quando eu contar isso no blog?

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Tem coisas que o dinheiro não pode comprar

19h15min. Estou na universidade, caminhando pelo corredor em direção à sala de aula. Ao meu lado, conversando comigo, está nada mais, nada menos que o meu amigo Toni. O Toni era o professor que eu mais idolatrava no primeiro ano de graduação e, certamente, foi um dos que mais guardo lembranças positivas. Afinal, ele era o professor mais humano que nós tínhamos, aquele que parecia realmente preocupar-se conosco. Fico observando enquanto ele caminha. A cada cinco passos ele é interrompido por um aperto de mão ou um abraço. Quando isso acontece, eu me afasto um pouco e fico observando, rindo. Meu sorriso tem um ar de admiração por aquele ser humano ímpar. Afinal, enche os olhos ver como ele é adorado e, mais do que isso, como ele não mudou sua personalidade desde que o conheci. Parece até uma ironia do destino que agora, passados 11 anos, ele e eu sejamos colegas de profissão...
Quando nos vemos a sós, conversando enquanto caminhamos, ouço seus conselhos: "Miller, não tem como você separar o aluno da pessoa. Da mesma forma, o aluno não separa o professor da pessoa. Por isso, não se deve nunca ser arrogante". Eu ouço com atenção. Na verdade, sempre segui os conselhos que ele me dispensou. Finalmente, achegamos ao terceiro andar do bloco azul, despedimo-nos e fomos cada um pra a sua sala de aula.
Na porta da sala, uma aluna me aborda. "Você é o professor Miller? Eu gostaria de fazer iniciação científica com você". Lisonjeado, marco um horário para amanhã de manhã. Ao adentrar a sala, uma aluna pergunta: "Professor, o que aconteceu? O senhor sumiu do MSN!" Dou um sorriso, um tanto que amarelado de vergonha, e começo a aula. O assunto da aula? Ressonância. É um tópico um pouco complexo, mas eu me esforço ao máximo para simplificar. Durante a explicação, faço uma pergunta básica sobre o assunto do bimestre anterior. A maioria responde de maneira errada. Ensaio, então, uma risada, e comento que alguns professores me disseram, no intervalo, que aquela turma ali era "boa" de cola. Ao ouvir isso, muitos ficam ofendidos. Um das respostas, no entanto, chamou-me a atenção ao dizer: "Sabe por que todos os outros professores dizem isso? Porque é só você quem dá aulas de verdade nesta turma. Os outros professores só dão aulas nas outras duas turmas; na nossa, eles não conseguem manter a classe quieta. " Vermelho de timidez, porém muito orgulhoso, sem muito saber o que dizer, eu me viro para a lousa novameante e recomeço a explicação. Ao invés de desenhar uma forma contribuinte de ressonância, minha vontade era de desenhar um enorme sorriso no rosto, pra manifestar o meu estado de espírito naquele momento.
Como diz a propaganda do Mastercard, "Existem coisas que o dinheiro não pode comprar." E nenhum dinheiro do mundo pode comprar minha realização neste momento. Obrigado, meu Deus!

segunda-feira, 15 de maio de 2006

PCC (Preciso Continuar Caminhando)

10h46min. Estou trancado em meu quarto. Está frio lá fora. Como estou com minhas vias nasais estão congestionadas e não posso deparar-me com qualquer sopro de vento, mantenho-me abrigado, de pijama, com as portas e janelas fechadas. Não fosse o relógio do monitor do computador e eu não saberia que horas são. Estou tentando organizar uns arquivos em formato pdf para escrever um livro sobre espectrometria de massas. Lá dentro de casa (meu quarto é, na verdade, um pedaço da varanda...) estão o papai e a mamãe, assistindo ao noticiário. Pouco discretos, ouço os seus comentários nada animadores. “Noooooooooooossa Senhora! Meu Deus do céu!”, diz a mamãe. Um pouco mais alterado, o papai complementa: “Isso é culpa do Lula, aquele desgraçado!Na época do Maluf, não tinha nada disso. Cadê a ROTA?”. Sem conseguir me concentrar com tanto escândalo, levanto-me, abro a porta e vou verificar qual o motivo de tanto espanto. “O PCC (Primeiro Comando da Capital) está coordenando rebeliões por todo o país. Mais de 80 pessoas já foram mortas”. Sem ter palavras que eles já não tenham dito para manifestar minha indignação, limito-me a dar meia-volta e retornar ao meu quarto. Sento-me diante do computador, mas acabo lançando um olhar perdido para um canto da cama. Uma confusão de pensamentos povoa minha mente. Que mundo é este em que vivemos? Por que os homens não conseguem viver em paz? Por que a maldição do dinheiro está acima do respeito pela vida? Como um homem consegue matar seu semelhante a sangue frio e não sentir culpa? Onde está Deus em tudo isso? Lembro-me, então, da situação do Oriente Médio, onde os homens-bomba se suicidam em nome do Deus deles. Recordo, então, de um dos trechos que li no livro “Operação Cavalo de Tróia”, em que Jesus dizia mais ou menos assim: “Os homens estão embriagados. Quando se derem conta, terão se afogado no próprio vômito”. Fico imaginando que a vida é uma caixa de surpresas, e não sei quantos anos viverei, muito menos se irei casar, se conseguir constituir uma família e educar meus filhos. Temo muito que, vivendo neste mundo cada vez mais violento, eu não tenha vida nem saúde suficientes para cumprir minha tarefa aqui nesta vida.
Diante de tantas perguntas e nenhuma resposta, de tantas dúvidas e nenhuma certeza, balanço a cabeça, ainda com o olhar perdido, e em seguida retorno minha atenção para o computador. O que é mesmo que eu estava fazendo?

domingo, 14 de maio de 2006

Meu amigo Vanderlei

Sexta-feira, 12 de maio. São 12h06min. Estou no Galpão da Picanha, em Ribeirão Preto. O estômago está roncando e o filé à parmegiana que pedi não chega... Enquanto aguardo, olho à minha volta. O restaurante está lotado. A maioria das pessoas riem e falam alto. À minha frente, conversando comigo, está alguém que fala baixo e pausadamente. Sua voz é forte e imponente, dando a impressão de ser um homem alto e forte. Mas o meu amigo Vanderlei não é um homem grande e forte, pelo menos não no sentido físico. De estatura mediana (aproximadamente 1,70m), meu amigo "Vandeco" é um grande homem, com uma força de espírito sem precedentes. Passados quase 7 anos desde que o conheci, olho bem para ele. Em sua cabeça alguns fios de cabelo branco mostram que o tempo passou, mas seu caráter permaneceu intacto. Seu modo simples de se vestir e sua preocupação com a aparência também perduraram. Enquanto ouço sua voz de locutor, contando o que se passou com ele desde a última vez que falamos ao telefone, minhas lembranças da maneira que nos conhecemos povoam minha mente.
Foi em abril de 1999, na casa de pós-graduação 12. Eu havia feito inscrição para o concurso seletivo para concorrer a uma vaga à moradia, mas o resultado demoraria a sair. Diante de uma série de circunstâncias, como a falta de dinheiro e o tempo gasto nas viagens de São Joaquim até Ribeirão Preto, resolvi pedir socorro aos estudantes que lá estavam alojados, para que permitissem que lá ficasse até que o resultado da seleção fosse divulgado. Lembro-me que o representante da casa, o Angel (um argentino barbudo e cabeludo, que à primeira vista me pareceu o cantor Sting) disse-me que eu poderia ficar alojado no quarto 2, com o Vanderlei. Quando o vi pela primeira vez, cumprimentei-o com um "E aí, tudo bem?". Após uns 10 segundos de silêncio, sua resposta limitou-se a um frio e educado "oi".
Quando adentrei seu quarto, deparei-me com três camas, três escrivaninhas, uma estante de aço e um enorme guarda-roupa. Tudo ali estava ocupado. Ele, no entanto, pareceu sentir-se constrangido, como se eu tivesse invadido sua privacidade. Educadamente, pediu-me desculpas pela bagunça (embora não houvesse nada bagunçado...) e disse-me que organizaria as coisas para que eu tivesse um espaço naquele quarto. Disse que não precisava se preocupar, pois eu ficaria na casa apenas para tomar banho e dormir, mas ele permanecia firme, dizendo que era meu direito ter minha privacidade dentro daquele quarto. Enquanto ele ajeitava os livros na estante, na tentativa de liberar um espaço para mim, reparei que ali havia livros de religião, administração, medicina e Física Quântica. "Qual é a sua área?", perguntei, não agüentando de curiosidade. "Faço doutorado em Física". Aos poucos eu notaria que estava dividindo o quarto com o estudante mais culto, educado e consciente daquela casa. Tempos depois também ficaria sabendo, através do próprio Vanderlei, que a espessura de seus óculos devia-se a uma catarata congênita, que lhe privaria da visão de um dos olhos e de 70% da visão do outro. Aos poucos fui ficando admirado com a força de vontade daquele rapaz, que mesmo possuindo 30% da visão de um dos olhos, nunca demonstrou desânimo nem tampouco reclamou da vida. Nos anos difíceis que se seguiriam, o Vandeco seria para mim um verdadeiro exemplo de força de vontade, de humildade e de ser humano.
Eis aqui, diante de mim, o mesmo Vanderlei, que agora está lutando contra uma picanha com catupiry. Ele levanta o pescoço. Pára por uns instantes. Está mastigando. "Hum, meu amigo Tonhão, está muito boa esta picanha. Não quer um pedaço?" Percebo então que nada mudou. Por um instante, penso que ainda existem pessoas puras e hoestas neste mundo! Meu amigo "Vandeco", obrigado pela sua amizade!

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Reatando laços

Sexta-feira, 5 de maio. São 7h da manhã. A temperatura deve ter caído um bocado, pois estou com duas blusas e ainda assim sinto frio. Mas não posso pensar nisso agora. Tenho que correr! Hoje é dia de ir a Ribeirão Preto. Não posso perder tempo. Olho para o carro. Está coberto de poeira... Balanço a cabeça, em sinal de quem não acredita no que vai fazer... Eis então que visto um "short", um chinelo e uma camiseta, como se fosse a uma praia. Todo encolhido por causa do frio, abro a torneira, estico a mangueira e pego um pano ensaboado. Sim, eu vou lavar o carro!!! Putz, como esta água está fria! Os dedos estão duros, com as pontas vermelhas. Ainda bem que esta tortura dura apenas 20 min e, após esta eternidade, dirijo-me ao banheiro para tomar uma ducha quente.
9h. Avisto a entrada da USP, onde permaneci no período de 1999 a 2004. Quantas histórias tenho pra contar! E quantas pessoas boas conheci ali! Penso que me tornei uma pessoa melhor após freqüentar aquele ambiente. Isso não quer dizer que ali não existam pessoas mal intencionadas. O grande é problema é que às vezes não se consegue sequer identificar tais pessoas... Entretanto, acredito que eu tenha conseguido me afastar da maioria dessas pessoas.
Vejo então que muitas coisas não mudaram. O porteiro, o meu amigo Paulo, ainda está lá no prédio do laboratório, firme e forte, com o mesmo uniforme azul. Ele está com frio, mas continua sorridente como sempre. No laboratório, sou recepcionado pela Adeguimar, a faxineira. Está de cabelo "novo", liso. Penso na importância de uma "chapinha" na vida de uma mulher. Começo a rir sozinho...
A Carla continua lá, agora mais escondida atrás dos papéis do que nunca. Imagino que ser secretária do laboratório deve ser estressante. Contudo, sempre simpática, ela também me recepciona com um enorme sorriso.
Eis que aparece o meu amigo Tomaz. Este sim é uma figura! Nós nos abraçamos. Sim, tenho grande consideração por ele e sinto que este sentimento é recíproco. Afinal, foram incontáveis diálogos sobre o passado e sobre a vida que levávamos naquela época. Ele era funcionário, eu era pós-graduando. Acabamos nos tornando bons amigos. Digo, com muito orgulho e satisfação, que a participação dele foi fundamental durante os 6 anos que freqüentei o laboratório.
Desço para o laboratório do segundo andar. Lá encontro a Andréia, uma doutoranda que veio para o laboratório já no final do meu doutorado. Também encontro o Diógenes (o "Barba"), o Léo e o Giba, ainda como técnicos do laboratório. Lá na sala, escondido, está o Betão. Ele me recepciona calorosamente e me dá alguns minutos de sua preciosa atenção. Sobre a sua mesa estão papéis e mais papéis. Não sei como ele não se perde... Aos poucos vão aparecendo os velhos colegas. Michel, Carlos, Dayana. Há também alguns novatos, a quem desconheço.
Após o almoço, encontro a professora Dionéia. Esta, sim, é a "mãe" do laboratório! Muito atenciosa, dispensou quase 20 min de "prosa" e, de quebra, ainda ofereceu seu computador para fazer um levantamento bibliográfico. Eu não tinha nem palavras para agradecer por tanta atenção... No meio da "prosa", aparece a professora Hosana. Eu conheci esta jovem professora também no final do doutorado, mas apesar do pouco tempo que convivemos no laboratório, acabamos nos tornando bons amigos, pois consegui ver muita bondade nela em um período curto de tempo.
Mas faltava um. Sim, o professor João! Ele aparece enquanto estou conversando com o Michel e a Andréia na biblioteca. Pára na porta. Olha para mim. Levanta os braços. "Pô, você vem aqui e nem passa na minha sala?" Então eu aperto sua mão e nos abraçamos. Sigo para sua sala, puxo uma cadeira e me sento diante dele para contar, em detalhes, o que tem ocorrido comigo desde dezembro, quando conversamos pela última vez. Tornamo-nos tão amigos que nem acredito que ele foi meu orientador...
Já no final da tarde, como não poderia deixar de ser, sigo para a moradia estudantil. Lá encontro a Ana (gaúcha), o Ricardão (Jaw Jaw) e o Gláucio. Há outras pessoas na casa que não estavam na época em que lá morei. O clima, entretanto, continua o mesmo. Logo noto que são boas pessoas e não é preciso muito tempo de conversa para nos enturmarmos. Em poucos minutos percebo que estão todos rindo das "besteiras" que eu falo.
22h. Entro no carro. Dou partida. Piso na embragem. Engato a marcha. Um dos novos moradores, um baiano chamado Ricardo, acena. "Volte quando puder, Antônio. Você tem uma energia muito positiva." A viagem de volta recomeça. E eu, pra variar, sigo sorrindo sozinho...

domingo, 7 de maio de 2006

Churrasco em família

Não posso acreditar no que vejo neste momento. Em todos estes anos, uma das situações que mais desejei acontece diante de meus olhos. Talvez seja justamente esta expectativa que esteja me impedindo de acreditar. Não, não se trata de uma reunião da cúpula do G-8. É apenas um churrasco em família, que está acontecendo sem nenhum "barraco". Aqui se encontram reunidos, pacificamente, quatro dos cinco irmãos Crotti e suas respecitvas famílias .
Sentado no banco ao banco verde de madeira ao pé da enorme mangueira, sob a qual está aconteendo o churrascoárvore, vestindo camisa vermelha, está o tio Buchudo. O tio Tim está ao lado dele. Neste instante, ele fala alto com a Mariana (sua filha) e sua esposa Ângela. Vendo-os sentados no tal banco, chamo também o papai para integrar "os três mosqueteiros".
Próximo à churrasqueira, o vovô Crotti e a vovó Lourdes "degustam" a carne trazida pelo papai diretamente da churrasqueira, feita de "campana de freio de caminhão". De tempos em tempos, o papai traz-lhes uma assadeira repleta de carne. Sentada, a vovó Lourdes pouco se mexe e praticamente nada fala. Sua saúde está muito debilitada, mas sentimos nos seus olhos que está muito feliz por ver a família reunida.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Um péssimo perdedor

Dizem que os bons filhos serão bons pais e que os bons alunos serão bons professores. Até este momento de minha vida, as evidências indicam que fui um bom aluno e também um bom filho. Embora eu sempre tenha me esforçado para chegar à condição de “melhor” em alguma coisa, algo que meu pai sempre me cobrou, eu nunca me considerei realmente “bom” em nada que eu tenha feito. Como filho, levei mais de 20 anos para ouvir um elogio de meu pai. Ao exigir sempre o máximo de mim e excluir os elogios de seu vocabulário, o papai não apenas instigou-me a nunca desistir como também acarretou danos profundos em minha personalidade. Eu havia me tornado um rapaz extremamente tímido, encolhido perante o mundo. Apesar das significativas vitórias que havia colhido, eu me sentia o pior em tudo o que eu fazia. Graças a Deus, após um tratamento psicológico com um famoso psicólogo de Ribeirão Preto, o meu amigo Guilherme Davoli, consegui recuperar-me, e o mais importante, encontrei forças e paciência para fazer com que meu pai se rendesse e “soltasse” (talvez esta seja o melhor verbo...) os adjetivos que eu sempre quis ouvir. No ramo acadêmico, fui divinamente abençoado (sim, abençoado!) com diplomas de honra ao mérito ao ser considerado, desde o ensino fundamental até a universidade, o melhor aluno das turmas de que fiz parte. Apesar de minha timidez, fui escolhido como orador da turma de ensino fundamental. Recebi também homenagens em todas as séries do curso técnico em contabilidade e cheguei a ser premiado com uma medalha pelo Conselho Regional de Química por ter sido o melhor aluno de minha turma de graduação. Na pós-graduação, sempre estive entre os três melhores de todas as disciplinas que cursei. Obviamente, a dedicação aos estudos premiou-me com adjetivos do tipo “bitolado”, “CDF” e “doido”. Por outro lado, meus estudos me privaram de um convívio social mais intenso e, somados à timidez decorrente do meu “insucesso” como filho (pelo menos aos olhos de meu pai), tornei-me muito teórico e pouco prático. Neste instante, minha vida passa como um filme por trás de meus óculos. Todo o sucesso que colhi na condição de aluno de nada vale neste momento. Aqui, diante de meus olhos, 30 adolescentes estão devidamente acomodados em suas carteiras. Muitos deles sentem-se tão acomodados que chegam a “cochilar”, sem a menor preocupação de serem repreendidos. Sim, o clima ameno está propício a um cochilo. Pena que eu não possa fazer o mesmo. Afinal, sou o professor... Na adolescência, uma das razões que me levaram a querer ser professor foi a possibilidade de ser o centro das atenções. Eu imaginava que, na condição de professor, eu teria a atenção e a consideração dos alunos. Um pouco mais tarde, já mais amadurecido, consegui enxergar que ser professor é doar-se, é esvaziar-se de tudo o que de bom recebemos durante a vida. Pois bem. Neste momento, não consigo ter a atenção de todos nem tampouco tenho a quem “despejar” o conhecimento e a experiência adquiridos ao longo da vida. Por um momento, a frustração e o desânimo tomam conta de mim. Meus ombros estão caindo, acusando um fracasso iminente. Demonstrando uma indiferença e, acima de tudo, um desrespeito sem precedentes, uma das alunas permanece com a carteira virada de costas para mim, enquanto conversa com suas duas amigas. Face ao desinteresse e à indiferença estampados nos rostos dos alunos, vejo-me desmotivado a continuar a explicar “para as paredes” um dos assuntos mais complexos de toda a Química: balanceamento de reações químicas. Olho, então, para a cadeira no centro da sala, próxima à mesa onde repousam as cadernetas e os meus livros. Ela parece convidar-me a sentar. Frases como “Que se dane. Explicando ou não, eu vou ganhar do mesmo jeito” e “Ninguém quer nada com nada” e “Não vou me preocupar; depois a vida os ensina”, tão pronunciadas na sala de professores durante os itnervalos, me vêm à mente neste momento. A cadeira parece chamar-me... Por um instante, a figura de meu pai batendo em meus ombros e dizendo “quero ver agora” invade os meus pensamentos. Num piscar de olhos, noto que estou sendo “derrotado”, prestes a render-me. E eu não gosto de perder... “Moça, por favor, vire sua carteira para frente”, ordeno. Aparentemente surpresa com a minha reação, a aluna atende, sem titubear. “É o seguinte: agora eu vou explicar a matéria e não quero conversa. Quem não estiver interessado, dorme aí na carteira. De boa.” Ditadas as regras, a maioria dos alunos agora parece olhar-me de uma forma diferente. Giz na mão, começo a explicar e a gestular. Passam-se 10min e a atenção deles perdura. Conto uma piada; alguns que dormiam acordam para ouvi-la. Todos, sem exceção, sorriem. Retomo a explicação. “Este assunto é um dos mais difíceis da Química”, esclareço. Alguns, como que se tivessem se sentindo desafiados, começam a acompanhar o raciocínio. Faço perguntas, eles respondem. Sim, eles estão participando da aula! Escrevo um, dois, três exemplos na lousa. Eles acompanham o raciocínio. “Isso mesmo! Muito bem!”. De repente, ouvimos o sinal tocar. “Vixi, fessor, mas já?”, diz um dos alunos. Sim, eu preciso ir embora. Há outras classes esperando por mim. Com uma deliciosa sensação de dever cumprido, abraço as cadernetas, o estojo, o livro e o apagador contra a cintura. Respiro fundo. É hora de ir embora. Mesmo tendo sido um bom aluno, estou longe de ser o professor eu que gostaria de ser. Pode ser que eu também não tenha sido o filho que o meu pai queria que eu fosse. Mas eu não sou, de maneira alguma, um bom perdedor. Eu detesto perder. Hoje todos nós fomos vencedores nesta aula. “Até semana que vem, moçada!” Um sorriso de canto de boca se estampa em meu rosto. Sim, eu sou um professor.

terça-feira, 2 de maio de 2006

É preciso saber vencer

Julho de 2004. Estou me dirigindo à Diretoria de Ensino de São Joaquim da Barra, cidade onde moro desde 1982. Poucas vezes estive naquela repartição pública e, convenhamos, as lembranças que de lá guardei não constam entre as melhores. Trata-se de um ambiente mal iluminado, com uma atmosfera de tristeza e abandono. Mal dá pra imaginar que quase 95% das pessoas que lá trabalham são do sexo feminino... Afinal, mulheres geralmente gostam de lugares alegres e iluminados, que transpareçam o encanto pelos quais nós, pobres homens, sentimo-nos atraídos. Com um envelope pardo nas mãos, contendo os dois documentos que trouxe de São Paulo, dobro a esquina a passos largos. Aos poucos a rampa recoberta de borracha preta antiderrapante, que dá acesso à Diretoria, aparece diante de meus olhos. Paro logo na entrada. Respiro fundo. Dou mais dois passos e, ao notar minha desorientação, uma senhora sorridente da recepção me atende. “Pois não?”. Sem saber o que dizer, abro o envelope pardo e dele retiro os dois documentos. Ao analisar os documentos, ela parece saber para que estou ali. “Ah, você foi aprovado no concurso? Que ótimo. Parabéns! E olha só: você conseguiu uma vaga aqui na escola Edda mesmo, hein? Que sorte!” Sem saber bem o que dizer, confirmo as afirmações daquela senhora perspicaz, retribuindo à calorosa recepção com um sorriso um tanto que forçado. Sim, estou tenso. Ela me devolve os documentos e me orienta a dirigir-me a uma outra sala. “Por favor, pode sentar-se ali naquela cadeira. A professora “E.....” vai atendê-lo em alguns instantes”. Sento-me. Segurando o envelope com as duas mãos, olho atentamente para ele, mas não o vejo. Meu pensamento está longe, muito longe dali, tentando encontrar alguma razão nos acontecimentos que antecederam este momento. Faltando pouco mais de um ano para a obtenção do título de doutorado, o governo estadual ofereceu um concurso para o ingresso de professores no ensino médio da rede pública. Minha irmã e minha namorada prontamente se interessaram. Afinal, um cargo público é, nos dias de hoje, a grande oportunidade para professores recém-formados garantirem suas aulas e, conseqüentemente, seu sustento. Ao contrário das duas, lembro-me que recebi a notícia com indiferença. Meus planos giravam em torno do ingresso em uma universidade pública e em um possível pós-doutorado no exterior. Havia, até aquele instante, uma grande motivação de minha parte e um grande interesse dos professores do laboratório em que eu continuasse minha carreira acadêmica. Após muito insistirem, cedi aos argumentos das duas “insistentes” e acabei inscrevendo-me no tal concurso. Estava ciente de que a prova seria constituída de 80 questões de múltipla escolha (20 questões referentes ao conteúdo pedagógico e 60 sobre o conteúdo específico de Química) e 20 questões dissertativas abordando o conteúdo pedagógico e o específico. De acordo as regras do concurso, seriam considerados aprovados aqueles que somassem mais de 40 acertos na parte de múltipla escolha e obtivessem nota maior que 5,0 nas questões dissertativas. Entretanto, considerando a importância que aquele concurso tinha para mim na época, acabei indo fazer a prova sem estudar absolutamente nada. As provas foram realizadas em um domingo. Lembro-me de ter ficado revoltado com o fato de ter que sacrificar o “futebol sagrado das manhãs de domingo” às custas do “maldito” concurso. Na entrada, ao perguntar para que sala eu deveria dirigir-me, tive um forte estímulo para eu chutar tudo pra cima: meu nome não fora encontrado na relação! Um tanto que satisfeito, dei as costas e ia dirigindo-me para casa, quando então ouvi a voz do Jorge (que seria futuramente meu colega de trabalho!) chamando-me: “Rapaz, eu achei seu nome aqui!”. Mais inconformado do que satisfeito, fiz a prova sem qualquer perspectiva, porém acabei tentando acertar o máximo número de questões possível. Em termos de Diretoria de ensino, acabei sendo aprovado em quarto lugar, “empatado” com uma amiga de faculdade. No primeiro lugar da lista estava uma professora de Orlândia (já efetiva na rede pública); em segundo, da professora E....., que estou aguardando neste momento, e em terceiro a professora K...., com quem estudei em 1993. Contudo, após entrar com um recurso para que o meu diploma de mestrado fosse considerado, acabei em terceiro na classificação. Ouço, então, a voz imponente da professora E..... Ela está se aproximando. Conhecendo-a de outras ocasiões, sinto-me um pouco mais à vontade quando ela se senta diante de mim. Afinal, ela “quebrou-me um galho” enorme na época em que eu fazia o estágio exigido pelo curso de licenciatura. Contudo, sinto em seus olhos que a satisfação não é mútua. Minha sensação se confirmada quando ouço suas palavras: “É, Tonhão, nem com o seu diploma de mestrado você conseguiu passar na minha frente”. Por um instante, fico sem palavras. Não consigo imaginar o que se passa pela cabeça desta professora neste momento. Afinal, ela competiu com alguém que não estava preparado. Então qual o motivo daquela sensação de superioridade? Seria a “vitória” sobre um “concorrente” que tem mestrado? Decepcionado, procuro manter a naturalidade e lhe digo: “E....., eu sei que você não havia sido aprovada no concurso anterior. Sei também a importância deste concurso para você e, mais ainda, o quanto você estudou. Seria uma injustiça enorme se eu, que não estudei nada, tivesse sido melhor classificado que você. Você merece esta vitória. Parabéns!” De olhos arregalados, espantada diante de minha reação, agora é ela quem fica sem voz...
Nesta vida, é preciso ter humildade para admitir uma derrota, mas acima de tudo, é preciso conservá-la após uma grande conquista.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Aprendendo a escolher

Terça-feira, 27 de março de 2006. São 10h50min. Estou caminhando em direção àquela sala em que “paguei um mico” enorme diante da diretora por causa de uma maldita “revistinha de Avon”. Para eles, esta será a penúltima aula do dia; para mim ainda faltarão cinco. Aqui sigo com as cadernetas, o livro e o apagador apertados contra o corpo, na altura da cintura. Estou usando óculos, pois o médico recomendou que eu não usasse lentes de contato em ambientes onde houvesse muito pó. Estou com o tradicional jaleco branco, desabotoado, peça que adotei como obrigatória em meu vestuário de professor, face aos comentários que surgiram por parte das alunas sobre o tamanho e o formato de meu “traseiro”. Caminho tranqüilamente entre os alunos, que sempre saem às portas de suas salas de aula para aguardarem a chegada do próximo professor. Na verdade, muitos deles vão muito além da porta. Muitos se batem uns nos outros, se empurram e se ofendem verbalmente. Não, não estão brigando. Estão sorrindo. Por mais que seja difícil de acreditar, eles estão apenas se divertindo. à forma deles, é claro. Para mim, é difícil de entender. Afinal, fui educado sob a filosofia que "brincadeira de mão acaba em briga" (e geralmente acaba mesmo!). Mas eu os respeito e, exceto em ocasiões críticas, não os repreendo. Ao me verem passar, muitos deles param, abrem espaço e me cumprimentam. “E aí, fessor, firmeza?” A reação deles traz-me uma satisfação pessoal enorme. Sinto-me querido, com a impressão de ser, para eles, algo mais que um professor. Parado à porta da sala, eu aguardo a volta daqueles que saíram no intervalo em que houve a troca de professores. Alguns caminham lentamente, como se quisessem testar minha paciência. A tentativa, no entanto, vê-se frustrada quando encosto a porta de madeira, sem fechadura. “Professor, dá licença?”, dizem alguns. Outros, menos “polidos”, simplesmente entram sem nada dizerem. Enfim, começo a chamada. Alguns dos alunos não ouvem sues nomes por causa do barulho da conversa de seus colegas e, portanto, não respondem. Sei que estão ali presentes, pois sei o nome de cada um deles, mas coloco falta. Ao final da chamada, como que em um coro combinado, começam a surgir os “Professor, número .”x” está presente!”. “Aqueles que não responderam, presentes ou não, estão com falta”, respondo. “Fessor, mas eu estou aqui!”, retruca um deles. “Cada escolha que vocês fazem na vida terá uma conseqüência à altura. Ao invés de responderem a chamada, vocês preferiram conversar. A falta é a conseqüência pela escolha que acabaram de fazer”. “Mas eu não tava conversando, não. Eu não ouvi o senhor dizer o meu número por causa da conversa”, insiste outro. “Neste caso, você também fez uma escolha errada: deixou que seus colegas conversassem e acabou sendo prejudicado. Você deveria tê-los repreendido”, retruco. “Mas o senhor é quem é o professor aqui! O senhor é quem tem que colocar ordem na sala!”, ele alfineta. “E você é o aluno. Em situações como esta, você deveria manifestar-se para não ser prejudicado. É seu dever e sua obrigação. Lembre-se sempre: não espere que os outros façam algo por você e não deixe o que é de seu interesse sob a confiança dos outros. Não se encolha diante de situações como esta. É por deixar, comodamente, que pessoas irresponsáveis tratem de nossos interesses que o Brasil está como está.” Talvez eu esteja finalmente enxergando que há algo muito mais importante a ensinar a estes alunos do que a Química propriamente dita...
(to be continued...)