segunda-feira, 1 de maio de 2006

Aprendendo a escolher

Terça-feira, 27 de março de 2006. São 10h50min. Estou caminhando em direção àquela sala em que “paguei um mico” enorme diante da diretora por causa de uma maldita “revistinha de Avon”. Para eles, esta será a penúltima aula do dia; para mim ainda faltarão cinco. Aqui sigo com as cadernetas, o livro e o apagador apertados contra o corpo, na altura da cintura. Estou usando óculos, pois o médico recomendou que eu não usasse lentes de contato em ambientes onde houvesse muito pó. Estou com o tradicional jaleco branco, desabotoado, peça que adotei como obrigatória em meu vestuário de professor, face aos comentários que surgiram por parte das alunas sobre o tamanho e o formato de meu “traseiro”. Caminho tranqüilamente entre os alunos, que sempre saem às portas de suas salas de aula para aguardarem a chegada do próximo professor. Na verdade, muitos deles vão muito além da porta. Muitos se batem uns nos outros, se empurram e se ofendem verbalmente. Não, não estão brigando. Estão sorrindo. Por mais que seja difícil de acreditar, eles estão apenas se divertindo. à forma deles, é claro. Para mim, é difícil de entender. Afinal, fui educado sob a filosofia que "brincadeira de mão acaba em briga" (e geralmente acaba mesmo!). Mas eu os respeito e, exceto em ocasiões críticas, não os repreendo. Ao me verem passar, muitos deles param, abrem espaço e me cumprimentam. “E aí, fessor, firmeza?” A reação deles traz-me uma satisfação pessoal enorme. Sinto-me querido, com a impressão de ser, para eles, algo mais que um professor. Parado à porta da sala, eu aguardo a volta daqueles que saíram no intervalo em que houve a troca de professores. Alguns caminham lentamente, como se quisessem testar minha paciência. A tentativa, no entanto, vê-se frustrada quando encosto a porta de madeira, sem fechadura. “Professor, dá licença?”, dizem alguns. Outros, menos “polidos”, simplesmente entram sem nada dizerem. Enfim, começo a chamada. Alguns dos alunos não ouvem sues nomes por causa do barulho da conversa de seus colegas e, portanto, não respondem. Sei que estão ali presentes, pois sei o nome de cada um deles, mas coloco falta. Ao final da chamada, como que em um coro combinado, começam a surgir os “Professor, número .”x” está presente!”. “Aqueles que não responderam, presentes ou não, estão com falta”, respondo. “Fessor, mas eu estou aqui!”, retruca um deles. “Cada escolha que vocês fazem na vida terá uma conseqüência à altura. Ao invés de responderem a chamada, vocês preferiram conversar. A falta é a conseqüência pela escolha que acabaram de fazer”. “Mas eu não tava conversando, não. Eu não ouvi o senhor dizer o meu número por causa da conversa”, insiste outro. “Neste caso, você também fez uma escolha errada: deixou que seus colegas conversassem e acabou sendo prejudicado. Você deveria tê-los repreendido”, retruco. “Mas o senhor é quem é o professor aqui! O senhor é quem tem que colocar ordem na sala!”, ele alfineta. “E você é o aluno. Em situações como esta, você deveria manifestar-se para não ser prejudicado. É seu dever e sua obrigação. Lembre-se sempre: não espere que os outros façam algo por você e não deixe o que é de seu interesse sob a confiança dos outros. Não se encolha diante de situações como esta. É por deixar, comodamente, que pessoas irresponsáveis tratem de nossos interesses que o Brasil está como está.” Talvez eu esteja finalmente enxergando que há algo muito mais importante a ensinar a estes alunos do que a Química propriamente dita...
(to be continued...)

5 comentários:

Márcio disse...

Caro Antônio,

Belo post, meu amigo! Vejo que seu exercício de registrar as ocorrências do cotidiano está abrindo espaço para reflexões cada vez mais abrangentes e humanamente mais relevantes! Ainda que isso nos coloque em terreno um tanto quanto movediço. Afinal, o fato de um aluno presente ficar com falta e a lição que ele pode tirar disso não é exatamente algo que podemos analisar através da separação de seus íons gasosos em campos elétricos ou magnéticos, certo? Mas o fim de seu texto mostra como isso está claro para você, de modo que apenas posso esperar ansioso por suas próximas narrativas no nosso (conforme você disse) "Narrativas".

Abração do

Márcio

Ivani disse...

Puxa Eduardo que narrativa maravilhosa, coo aprendo com você a cada dia que leio suas narrativas, em uma simples aula de uma professor super criativo vc consegue trabalhar a cidadania nem medir esforços..parabéns.. Ah! a LAmia quer que vc poste o texto do diretor no blog da escola ok.... um enorme abraço e saudade

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