quarta-feira, 24 de maio de 2006

Fruto da minha imaginação?

Quarta-feira, 22h28min. O ônibus que nos traz de volta da universidade estaciona na esquina de minha casa. A porta que separa os passageiros da cabine do motorista se abre. Sigo pelo corredor, despedindo-me dos poucos alunos que ainda restam. Desço o primeiro degrau e, enquanto desço o segundo, estendo a mão para o motorista. "Valeu, irmão! Até mais! Abraço!", digo-lhe. Com uma fala destas, alguns podem pensar que sou crente. Mas não sou, não. Aliás, faz um bom tempo que não vou a uma missa. Lembro-me que entrei na igreja matriz tempos atrás, mas não por ocasião de uma missa. Na ocasião, ajoelhei-me, pedi perdão a Deus e conversei com Ele. Um diálogo simples e sincero que me fez sentir-me mais limpo e em paz comigo mesmo. Na verdade, meu problema não é com a igreja-tempo, e sim com a igreja-instituição. Detesto quando pedem dinheiro. Para onde vai esse dinheiro? Aliás, acho um cúmulo instituírem o dízimo e dizerem que é uma obrigação prevista na Bíblia. Ora, desde quando a Bíblia passou a ser uma espécie de regulamento? Diante deste quadro, eu tenho definido que o mais importante é fazer o bem para as pessoas. E este bem nem sempre se manifesta na forma de gestos, mas, eventualmente, pode ser traduzido em palavras de conforto e incentivo. Para mim, este é o verdadeiro caminho que leva ao Pai.
Desço, então, do ônibus e me viro. Faço um sinal de positivo com o "dedão", ao qual o motorista retribui com um sorriso. O ônibus se vai e eu fico na esquina. O chão e a calçada estão molhados. Há um clima fresco no ar. Começo, então, minha caminhada em direção à minha casa. São apenas 50m. Olho para o céu e não vejo nenhuma estrela. Há folhas caídas sobre a calçada molhada. Não há ninguém na rua. Olho para o portão. Vejo que está entreaberto. Por trás dele, a mamãe, com uma camisa amarela, me observa. Lembro-me, então, do número de vezes que a mamãe veio me receber ao portão. Foram quatro anos de graduação! Já faz 11 anos que ela me espera no portão...
Caminho devagar. Ela recua e encosta o portão. "Tadinha, a mamãe deve estar cansada". Sorrio. Um sorriso de reconhecimento pelo amor e carinho que a minha "baixinha" tem dedicado a mim desde que vim a este mundo. Estou quase chegando ao portão. Os últimos metros que me restam são de completa escuridão. Devido às copas espessas das árvores, a iluminação do poste não consegue pentrar, tornando os últimos metros aterrorizantes. "Se a mamãe não estivesse ali, eu poderia até ficar com medo".
Chego, então, ao portão. "A mamãe o deixou apenas encostado", penso. Ao bater a mão na maçaneta, entretanto, percebo que está trancada... Dou duas batidinhas no portão, pensando que a mamãe estivesse brincando comigo. "Mamãezinha! Abre aqui!", digo, baixinho. Silêncio. Decido, então, tocar a campainha. A reposta ao som do dlim-dlom campainha é uma tossida da mamãe. Normalmente essa tossida quer dizer "Estou na cama, mas já estou indo. Não precisa apertar mais nenhuma vez." Dentro de uns 40 segundos, o portão se abre. Por trás dele surge a mamãe, com o rosto todo amassado de quem estava dormindo. "Mamãe, até parece que a senhora estava dormindo!", digo-lhe, abraçando-a. "Uai, filho, eu estava dormindo, sim". Estou com uma dor de dentes terrível! Estou dormindo desde as 23h." Eu levo na brincadeira. "Ah, mamãe, fala sério! A senhora estava me esperando ali, no portão. Eu até a vi pela fresta do portão entreaberto!". "Credo, 'fi'! Você tá ficando doido? Eu tava dormindo até agora! Levantei agora, só pra abir o portão".
Inexplicavelmente, um frio me percorre a coluna. Teria sido fruto da minha imaginação?

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