domingo, 28 de maio de 2006

Memórias de um almoxarife - parte 3

Quando fui contratado para trabalhar no almoxarifado, lá trabalhavam apenas o Jaime (no recebimento), o Edvaldo (no setor de pedidos e digitação de notas e requisições), o Miguel (no barracão de insumos) e o Caio (no balcão). No início, eu era parceiro do Caio no atendimento. Eu sentia que ele tinha uma consideração especial por mim, como se fosse filho dele (bem, idade para isso ele tinha...). Eu o via como sinônimo de eficiência e de esperteza. A agilidade dele no atendimento era algo que enchia os olhos, sem contar que ele conhecia praticamente todas as peças do estoque. Não havia uma ficha de estoque sequer que não contivesse a sua letra. Aos poucos fomos nos tornando bons amigos, e assim que ele começou a confiar em mim, passamos a dar boas risadas juntos. Quando o movimento estava tranqüilo, a gente chegava a ponto de parar no balcão para conversar com os mecânicos. Por outro lado, o clima no recebimento e no setor de pedidos, onde trabalhavam o Jaime e o Edvaldo, era um relativamente tenso. O Edvaldo quase se matava de trabalhar. Ele era incumbido de codificar as notas que o Jaime passava para ele e digitá-las. Também digitava todas as requisições de material que o Caio e eu passávamos para ele e, não bastasse, fazia também os pedidos para reposição do estoque. Com tanto trabalho para fazer, eu lamentava que ele não tivesse muito tempo para bater um papo comigo, pois eu sabia que ele era um bom amigo. Na maioria das vezes, ele ia ao estoque apenas para conferir alguma ficha de mercadoria ou para lavar as mãos antes do almoço. Era como se fosse um vulto... O Jaime (vulgo “Jacaré”) também vivia sob pressão, pois trabalhava sozinho. O seu antigo companheiro, o Carlos Henrique Caldani (então conhecido como “Mão”) havia pedido as contas pouco antes de eu ser contratado. Sendo assim, o Jaime tinha que receber as mercadorias, conferí-las, dar entrada nas respectivas fichas e colocá-las nas prateleiras, nas devidas locações. Apesar de tanto trabalho, poucas vezes eu vi o Jaime sério ou mal-humorado. Decorridos alguns meses após a minha contratação, os responsáveis pelo Almoxarifado decidiram que era preciso contratar mais uma pessoa para trabalhar com o Jaime. O aprovado no teste foi o Danilo. Lembro-me que ele tinha um ou dois anos mais novo que eu e que ele havia me tomado o meu “troféu” de funcionário mais novo do setor. Apesar da pequena diferença de idade e de também estar na universidade, matriculado no curso de Processamento de Dados, não foi preciso muito tempo para notar que ele tinha um estilo de vida muito diferente do meu. Ele bebia (e muito!) e, se não me falha a memória, fumava esporadicamente. Até aí tudo bem. Mas o que mais me espantava era o fato que as roupas que ele usava para trabalhar eram muito mais refinadas que as que eu colocava para sair nos fins de semana. Este aspecto, por si só, já era suficiente para que eu o tivesse classificado, logo no início, como “Mauricinho”. E eu odiava os “Mauricinhos”!!! Em conversa com o Caio e com o Jaime, eu notei que eles também tiveram a mesma impressão que eu. “Esse cara é muito metido. Vamos ter que batizá-lo!”, disse o Jaime, com os olhos arregalados e um sorriso no rosto. Ao ver a expressão dele, que o acusava de estar prestes a aprontar uma grande “sacanagem”, não pude conter o riso. Faltava apenas uma boa ocasião para o “batismo”. Eis que chegaram, em um único carregamento, mais de vinte caixas de eletrodo de solda. Estes eletrodos eram vendidos por quilo, mas no estoque nós entregávamos por unidade. Conclusão: o Jaime e o Danilo teriam que abrir aquelas caixas metálicas amarelas pesadas e contar todos os eletrodos, um por um... “Danilo, tive uma idéia!”, disse o Jaime. Ao ver seus olhos brilhando, comecei a rir. Aquela era a oportunidade que ele estava esperando para o “batismo” do Danilo... “Pensa comigo: cada caixa dessas pesa 5kg, não é? Se a gente souber o peso de um eletrodo, a gente faz as contas e deduz quantos eletrodos tem dentro de uma caixa dessas! Concorda?”, disse ao Danilo, que ouviu atentamente e concordou. “Então você vai fazer o seguinte: vai lá na balança e pesa esse eletrodo pra mim”, disse, entregando em suas mãos um eletrodo. E lá se foi o Danilo, com o eletrodo na mão, em direção à balança. Assim que o Danilo fechou a porta, o Jaime ficou eufórico. Mais que depressa, ele ligou para o meu tio, o Natal, que trabalhava na Balança (recepção e expedição), e explicou-lhe seu “plano de ataque”. “Pode deixar, Jacaré. Deixa comigo que aqui eu dou um jeito nele”, ouvi meu tio respondendo ao telefone, já aos risos. Embora estivesse ansioso para ver no que ia dar a brincadeira do Jaime e do Natal, eu só fui entender o que eles fizeram no ônibus, quando estávamos voltando para a cidade. Em meio a risos (às vezes ele não conseguia nem falar, de tanto rir...), o Natal nos contou que pediu para que o Danilo subisse primeiramente na balança (aquela onde se pesam os caminhões canavieiros!!!) sem o eletrodo e que depois subisse com o eletrodo nas mãos. A diferença entre as duas pesagens seria o peso real do eletrodo. Caramba, o eletrodo devia pesar gramas, mas a sensibilidade da referida balança era de toneladas!!! Por alguns minutos, os motoristas canavieiros deixaram a cabine de seus caminhões para ver o Danilo em cima da balança onde seus caminhões eram pesados, com o maldito eletrodo nas mãos... Pronto: o “Mauricinho” estava, enfim, batizado!!! Só lamentei não ter sido convidado para ser "padrinho"...

Um comentário:

Juliano F. Riquiel disse...

Olá Tonhão tudo bem?
Muito legal seu Blog, lembro dessa história do Danilo, realmente muito engraçado...
Obs: Vou passar para o Edvaldo ler...
Abraços e Sucesso...