domingo, 14 de maio de 2006

Meu amigo Vanderlei

Sexta-feira, 12 de maio. São 12h06min. Estou no Galpão da Picanha, em Ribeirão Preto. O estômago está roncando e o filé à parmegiana que pedi não chega... Enquanto aguardo, olho à minha volta. O restaurante está lotado. A maioria das pessoas riem e falam alto. À minha frente, conversando comigo, está alguém que fala baixo e pausadamente. Sua voz é forte e imponente, dando a impressão de ser um homem alto e forte. Mas o meu amigo Vanderlei não é um homem grande e forte, pelo menos não no sentido físico. De estatura mediana (aproximadamente 1,70m), meu amigo "Vandeco" é um grande homem, com uma força de espírito sem precedentes. Passados quase 7 anos desde que o conheci, olho bem para ele. Em sua cabeça alguns fios de cabelo branco mostram que o tempo passou, mas seu caráter permaneceu intacto. Seu modo simples de se vestir e sua preocupação com a aparência também perduraram. Enquanto ouço sua voz de locutor, contando o que se passou com ele desde a última vez que falamos ao telefone, minhas lembranças da maneira que nos conhecemos povoam minha mente.
Foi em abril de 1999, na casa de pós-graduação 12. Eu havia feito inscrição para o concurso seletivo para concorrer a uma vaga à moradia, mas o resultado demoraria a sair. Diante de uma série de circunstâncias, como a falta de dinheiro e o tempo gasto nas viagens de São Joaquim até Ribeirão Preto, resolvi pedir socorro aos estudantes que lá estavam alojados, para que permitissem que lá ficasse até que o resultado da seleção fosse divulgado. Lembro-me que o representante da casa, o Angel (um argentino barbudo e cabeludo, que à primeira vista me pareceu o cantor Sting) disse-me que eu poderia ficar alojado no quarto 2, com o Vanderlei. Quando o vi pela primeira vez, cumprimentei-o com um "E aí, tudo bem?". Após uns 10 segundos de silêncio, sua resposta limitou-se a um frio e educado "oi".
Quando adentrei seu quarto, deparei-me com três camas, três escrivaninhas, uma estante de aço e um enorme guarda-roupa. Tudo ali estava ocupado. Ele, no entanto, pareceu sentir-se constrangido, como se eu tivesse invadido sua privacidade. Educadamente, pediu-me desculpas pela bagunça (embora não houvesse nada bagunçado...) e disse-me que organizaria as coisas para que eu tivesse um espaço naquele quarto. Disse que não precisava se preocupar, pois eu ficaria na casa apenas para tomar banho e dormir, mas ele permanecia firme, dizendo que era meu direito ter minha privacidade dentro daquele quarto. Enquanto ele ajeitava os livros na estante, na tentativa de liberar um espaço para mim, reparei que ali havia livros de religião, administração, medicina e Física Quântica. "Qual é a sua área?", perguntei, não agüentando de curiosidade. "Faço doutorado em Física". Aos poucos eu notaria que estava dividindo o quarto com o estudante mais culto, educado e consciente daquela casa. Tempos depois também ficaria sabendo, através do próprio Vanderlei, que a espessura de seus óculos devia-se a uma catarata congênita, que lhe privaria da visão de um dos olhos e de 70% da visão do outro. Aos poucos fui ficando admirado com a força de vontade daquele rapaz, que mesmo possuindo 30% da visão de um dos olhos, nunca demonstrou desânimo nem tampouco reclamou da vida. Nos anos difíceis que se seguiriam, o Vandeco seria para mim um verdadeiro exemplo de força de vontade, de humildade e de ser humano.
Eis aqui, diante de mim, o mesmo Vanderlei, que agora está lutando contra uma picanha com catupiry. Ele levanta o pescoço. Pára por uns instantes. Está mastigando. "Hum, meu amigo Tonhão, está muito boa esta picanha. Não quer um pedaço?" Percebo então que nada mudou. Por um instante, penso que ainda existem pessoas puras e hoestas neste mundo! Meu amigo "Vandeco", obrigado pela sua amizade!

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