terça-feira, 2 de maio de 2006

É preciso saber vencer

Julho de 2004. Estou me dirigindo à Diretoria de Ensino de São Joaquim da Barra, cidade onde moro desde 1982. Poucas vezes estive naquela repartição pública e, convenhamos, as lembranças que de lá guardei não constam entre as melhores. Trata-se de um ambiente mal iluminado, com uma atmosfera de tristeza e abandono. Mal dá pra imaginar que quase 95% das pessoas que lá trabalham são do sexo feminino... Afinal, mulheres geralmente gostam de lugares alegres e iluminados, que transpareçam o encanto pelos quais nós, pobres homens, sentimo-nos atraídos. Com um envelope pardo nas mãos, contendo os dois documentos que trouxe de São Paulo, dobro a esquina a passos largos. Aos poucos a rampa recoberta de borracha preta antiderrapante, que dá acesso à Diretoria, aparece diante de meus olhos. Paro logo na entrada. Respiro fundo. Dou mais dois passos e, ao notar minha desorientação, uma senhora sorridente da recepção me atende. “Pois não?”. Sem saber o que dizer, abro o envelope pardo e dele retiro os dois documentos. Ao analisar os documentos, ela parece saber para que estou ali. “Ah, você foi aprovado no concurso? Que ótimo. Parabéns! E olha só: você conseguiu uma vaga aqui na escola Edda mesmo, hein? Que sorte!” Sem saber bem o que dizer, confirmo as afirmações daquela senhora perspicaz, retribuindo à calorosa recepção com um sorriso um tanto que forçado. Sim, estou tenso. Ela me devolve os documentos e me orienta a dirigir-me a uma outra sala. “Por favor, pode sentar-se ali naquela cadeira. A professora “E.....” vai atendê-lo em alguns instantes”. Sento-me. Segurando o envelope com as duas mãos, olho atentamente para ele, mas não o vejo. Meu pensamento está longe, muito longe dali, tentando encontrar alguma razão nos acontecimentos que antecederam este momento. Faltando pouco mais de um ano para a obtenção do título de doutorado, o governo estadual ofereceu um concurso para o ingresso de professores no ensino médio da rede pública. Minha irmã e minha namorada prontamente se interessaram. Afinal, um cargo público é, nos dias de hoje, a grande oportunidade para professores recém-formados garantirem suas aulas e, conseqüentemente, seu sustento. Ao contrário das duas, lembro-me que recebi a notícia com indiferença. Meus planos giravam em torno do ingresso em uma universidade pública e em um possível pós-doutorado no exterior. Havia, até aquele instante, uma grande motivação de minha parte e um grande interesse dos professores do laboratório em que eu continuasse minha carreira acadêmica. Após muito insistirem, cedi aos argumentos das duas “insistentes” e acabei inscrevendo-me no tal concurso. Estava ciente de que a prova seria constituída de 80 questões de múltipla escolha (20 questões referentes ao conteúdo pedagógico e 60 sobre o conteúdo específico de Química) e 20 questões dissertativas abordando o conteúdo pedagógico e o específico. De acordo as regras do concurso, seriam considerados aprovados aqueles que somassem mais de 40 acertos na parte de múltipla escolha e obtivessem nota maior que 5,0 nas questões dissertativas. Entretanto, considerando a importância que aquele concurso tinha para mim na época, acabei indo fazer a prova sem estudar absolutamente nada. As provas foram realizadas em um domingo. Lembro-me de ter ficado revoltado com o fato de ter que sacrificar o “futebol sagrado das manhãs de domingo” às custas do “maldito” concurso. Na entrada, ao perguntar para que sala eu deveria dirigir-me, tive um forte estímulo para eu chutar tudo pra cima: meu nome não fora encontrado na relação! Um tanto que satisfeito, dei as costas e ia dirigindo-me para casa, quando então ouvi a voz do Jorge (que seria futuramente meu colega de trabalho!) chamando-me: “Rapaz, eu achei seu nome aqui!”. Mais inconformado do que satisfeito, fiz a prova sem qualquer perspectiva, porém acabei tentando acertar o máximo número de questões possível. Em termos de Diretoria de ensino, acabei sendo aprovado em quarto lugar, “empatado” com uma amiga de faculdade. No primeiro lugar da lista estava uma professora de Orlândia (já efetiva na rede pública); em segundo, da professora E....., que estou aguardando neste momento, e em terceiro a professora K...., com quem estudei em 1993. Contudo, após entrar com um recurso para que o meu diploma de mestrado fosse considerado, acabei em terceiro na classificação. Ouço, então, a voz imponente da professora E..... Ela está se aproximando. Conhecendo-a de outras ocasiões, sinto-me um pouco mais à vontade quando ela se senta diante de mim. Afinal, ela “quebrou-me um galho” enorme na época em que eu fazia o estágio exigido pelo curso de licenciatura. Contudo, sinto em seus olhos que a satisfação não é mútua. Minha sensação se confirmada quando ouço suas palavras: “É, Tonhão, nem com o seu diploma de mestrado você conseguiu passar na minha frente”. Por um instante, fico sem palavras. Não consigo imaginar o que se passa pela cabeça desta professora neste momento. Afinal, ela competiu com alguém que não estava preparado. Então qual o motivo daquela sensação de superioridade? Seria a “vitória” sobre um “concorrente” que tem mestrado? Decepcionado, procuro manter a naturalidade e lhe digo: “E....., eu sei que você não havia sido aprovada no concurso anterior. Sei também a importância deste concurso para você e, mais ainda, o quanto você estudou. Seria uma injustiça enorme se eu, que não estudei nada, tivesse sido melhor classificado que você. Você merece esta vitória. Parabéns!” De olhos arregalados, espantada diante de minha reação, agora é ela quem fica sem voz...
Nesta vida, é preciso ter humildade para admitir uma derrota, mas acima de tudo, é preciso conservá-la após uma grande conquista.

2 comentários:

Márcio disse...

Fala, Antônio, grande!

Amigo, sei bem o que é isso e como as pessoas podem ser pequenas em caso de sucesso, seja ele qual for. Também fui aprovado em concurso estadual (este último; mas abandonei o cargo para vir aqui para a França), e fui mesmo o primeiro a escolher em todo o estado. Até aí, nada de extaordinário, conforme você bem lembrou, uma série de fatores entram nessa classificação. Maaas, na escola em que fui dar aulas, era impressionante como os professores que acabavam de ser aprovados tripudiavam em cima dos eventuais ou substitutos. Putz, tinha gente que conseguia falar: "Eu fui o 1238° a escolher, sou efetivo, vou mudar meu horário para fulano que nem efetivo é?". Eu sempre respondia: "Pô, cara, eu fui o primeiro a escolher, mas não acho que tenha que ser um babaca assim na hora de lidar com os outros"... Bem, eu não tinha muitos amigos, pelo jeito!

Mas é bom saber que aqui no "Narrativas" a gente pode encontrar um diálogo com quem conhece esses problemas "de dentro". Grande post, brother, e, realmente, se perder é difícil, parece que vencer é mais ainda!

Abração do

Márcio

Anônimo disse...

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