sexta-feira, 5 de maio de 2006

Um péssimo perdedor

Dizem que os bons filhos serão bons pais e que os bons alunos serão bons professores. Até este momento de minha vida, as evidências indicam que fui um bom aluno e também um bom filho. Embora eu sempre tenha me esforçado para chegar à condição de “melhor” em alguma coisa, algo que meu pai sempre me cobrou, eu nunca me considerei realmente “bom” em nada que eu tenha feito. Como filho, levei mais de 20 anos para ouvir um elogio de meu pai. Ao exigir sempre o máximo de mim e excluir os elogios de seu vocabulário, o papai não apenas instigou-me a nunca desistir como também acarretou danos profundos em minha personalidade. Eu havia me tornado um rapaz extremamente tímido, encolhido perante o mundo. Apesar das significativas vitórias que havia colhido, eu me sentia o pior em tudo o que eu fazia. Graças a Deus, após um tratamento psicológico com um famoso psicólogo de Ribeirão Preto, o meu amigo Guilherme Davoli, consegui recuperar-me, e o mais importante, encontrei forças e paciência para fazer com que meu pai se rendesse e “soltasse” (talvez esta seja o melhor verbo...) os adjetivos que eu sempre quis ouvir. No ramo acadêmico, fui divinamente abençoado (sim, abençoado!) com diplomas de honra ao mérito ao ser considerado, desde o ensino fundamental até a universidade, o melhor aluno das turmas de que fiz parte. Apesar de minha timidez, fui escolhido como orador da turma de ensino fundamental. Recebi também homenagens em todas as séries do curso técnico em contabilidade e cheguei a ser premiado com uma medalha pelo Conselho Regional de Química por ter sido o melhor aluno de minha turma de graduação. Na pós-graduação, sempre estive entre os três melhores de todas as disciplinas que cursei. Obviamente, a dedicação aos estudos premiou-me com adjetivos do tipo “bitolado”, “CDF” e “doido”. Por outro lado, meus estudos me privaram de um convívio social mais intenso e, somados à timidez decorrente do meu “insucesso” como filho (pelo menos aos olhos de meu pai), tornei-me muito teórico e pouco prático. Neste instante, minha vida passa como um filme por trás de meus óculos. Todo o sucesso que colhi na condição de aluno de nada vale neste momento. Aqui, diante de meus olhos, 30 adolescentes estão devidamente acomodados em suas carteiras. Muitos deles sentem-se tão acomodados que chegam a “cochilar”, sem a menor preocupação de serem repreendidos. Sim, o clima ameno está propício a um cochilo. Pena que eu não possa fazer o mesmo. Afinal, sou o professor... Na adolescência, uma das razões que me levaram a querer ser professor foi a possibilidade de ser o centro das atenções. Eu imaginava que, na condição de professor, eu teria a atenção e a consideração dos alunos. Um pouco mais tarde, já mais amadurecido, consegui enxergar que ser professor é doar-se, é esvaziar-se de tudo o que de bom recebemos durante a vida. Pois bem. Neste momento, não consigo ter a atenção de todos nem tampouco tenho a quem “despejar” o conhecimento e a experiência adquiridos ao longo da vida. Por um momento, a frustração e o desânimo tomam conta de mim. Meus ombros estão caindo, acusando um fracasso iminente. Demonstrando uma indiferença e, acima de tudo, um desrespeito sem precedentes, uma das alunas permanece com a carteira virada de costas para mim, enquanto conversa com suas duas amigas. Face ao desinteresse e à indiferença estampados nos rostos dos alunos, vejo-me desmotivado a continuar a explicar “para as paredes” um dos assuntos mais complexos de toda a Química: balanceamento de reações químicas. Olho, então, para a cadeira no centro da sala, próxima à mesa onde repousam as cadernetas e os meus livros. Ela parece convidar-me a sentar. Frases como “Que se dane. Explicando ou não, eu vou ganhar do mesmo jeito” e “Ninguém quer nada com nada” e “Não vou me preocupar; depois a vida os ensina”, tão pronunciadas na sala de professores durante os itnervalos, me vêm à mente neste momento. A cadeira parece chamar-me... Por um instante, a figura de meu pai batendo em meus ombros e dizendo “quero ver agora” invade os meus pensamentos. Num piscar de olhos, noto que estou sendo “derrotado”, prestes a render-me. E eu não gosto de perder... “Moça, por favor, vire sua carteira para frente”, ordeno. Aparentemente surpresa com a minha reação, a aluna atende, sem titubear. “É o seguinte: agora eu vou explicar a matéria e não quero conversa. Quem não estiver interessado, dorme aí na carteira. De boa.” Ditadas as regras, a maioria dos alunos agora parece olhar-me de uma forma diferente. Giz na mão, começo a explicar e a gestular. Passam-se 10min e a atenção deles perdura. Conto uma piada; alguns que dormiam acordam para ouvi-la. Todos, sem exceção, sorriem. Retomo a explicação. “Este assunto é um dos mais difíceis da Química”, esclareço. Alguns, como que se tivessem se sentindo desafiados, começam a acompanhar o raciocínio. Faço perguntas, eles respondem. Sim, eles estão participando da aula! Escrevo um, dois, três exemplos na lousa. Eles acompanham o raciocínio. “Isso mesmo! Muito bem!”. De repente, ouvimos o sinal tocar. “Vixi, fessor, mas já?”, diz um dos alunos. Sim, eu preciso ir embora. Há outras classes esperando por mim. Com uma deliciosa sensação de dever cumprido, abraço as cadernetas, o estojo, o livro e o apagador contra a cintura. Respiro fundo. É hora de ir embora. Mesmo tendo sido um bom aluno, estou longe de ser o professor eu que gostaria de ser. Pode ser que eu também não tenha sido o filho que o meu pai queria que eu fosse. Mas eu não sou, de maneira alguma, um bom perdedor. Eu detesto perder. Hoje todos nós fomos vencedores nesta aula. “Até semana que vem, moçada!” Um sorriso de canto de boca se estampa em meu rosto. Sim, eu sou um professor.

3 comentários:

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