sábado, 24 de junho de 2006

Amigo de verdade

Carlos Henrique Ceribelli. É este o nome deste rapaz aí da foto acima. Nós nos conhecemos em 1988, quando estudamos juntos na 6ª. Série, na escola aqui perto de casa (E. E. P. G. “Manoel Gouveia de Lima”). Naquela época eu já era o aluno mais quieto da turma e também um dos que obtinham as maiores notas nas provas. Mas eu era muito tímido. O Carlos, a quem eu me acostumei a chamar de “Gordo” (olha o porte físico da criança...), era uma das pessoas com quem eu mais me identificava. Éramos em três amigos: o Gordo, o Rodrigo (a quem chamávamos de “Tião”) e eu (já com o consolidado apelido de “Tonhão”, que surgira em 1986). Nós tínhamos muito em comum: quietos, tímidos e muito simples, mas também éramos completamente diferentes. O Gordo era de uma família muito humilde e, apesar do porte físico avantajado, sempre gostou de jogar futebol. Talvez isso tenha me deixado mais próximo dele que do Tião. Guardo na lembrança os momentos inesquecíveis de quando fomos jogar no estádio Ceribelli, onde o Garrincha (sim, o “Anjo das pernas tortas”!) jogou uma de suas últimas partidas antes de deixar órfão nosso futebol. Eu nunca havia jogado em um campo tão grande! Em uma outra ocasião, o Gordo convidou-me para jogar em uma fazenda. Bem, quaisquer palavras que eu usar para descrever aquela experiência serão completamente ineficazes para expressar quão inesquecível ela foi. Muitos jogavam descalço e, mesmo assim, se arriscavam a dar as famosas divididas com aqueles que calçavam chuteiras. E pasmem: muitas vezes ganhavam! O goleiro que jogou para o nosso time era um senhor que beirava os 50 anos. Acreditem ou não (não é história de pescador!!!), ele jogou totalmente embriagado e, ainda assim, “fechou o gol” (como costumam dizer na linguagem futebolística). O vovô Mila, que assistiu a toda aquela cena, ria o tempo todo... Em 1990, após dois anos estudando juntos, o Gordo começou a trabalhar e precisou estudar no período noturno. Ele e o Tião, que também começou a trabalhar. Eu fiquei sozinho, estudando no período matutino. Mas nos anos que se seguiriam eu não me separaria do Gordo. Muito pelo contrário; nossa amizade se tornaria mais forte. Mesmo não estudando mais juntos, eu ia à casa dele para jogarmos Maia. Ele, o pai dele, o irmão dele e eu. Também jogávamos truco nas noites de sábado. Quando comecei a gostar de música (isso, claro, depois que a mamãe comprou um rádio relógio), eu adquiri duas fitas da Madonna (os álbuns “True Blue” e “Like a Prayer”, se não me engano). Eu ia à sua casa para ouvir estas fitas no rádio dele. A gente ficava até altas horas (para quem não é daquela época, saibam que 22 h era praticamente madrugada...) conversando e ouvindo as músicas na varanda. Em outras palavras, o Gordo foi amigo constante durante os anos mais dourados da minha juventude. Quanto ao Tião, eu nunca mais o veria até o ano de 1995. A partir de então eu voltaria a ter com ele longas conversas até 1998, durante o percurso de ônibus até a universidade, onde ele cursava Desenho Industrial. O Gordo era assunto constante em nossos diálogos. A gente desejava muito que ele estivesse ali conosco. Mas o Gordo não gostava de estudar e abandonou a escola após terminar o ensino fundamental. Em 1994, quando seu pai teve um derrame cerebral, o Gordo teve que assumir o comando de sua casa. Para sustentar a família, ele passou a trabalhar de madrugada dirigindo o caminhão canavieiro que era de seu pai, enquanto o mesmo se recuperava das seqüelas. A partir de então a gente passou a se ver com menos freqüência. Mesmo assim, eu jamais me esqueci do Gordo. De vez em quando eu ia à sua casa e ele, sempre que podia, vinha visitar-me. O Tião, por outro lado, nunca veio à minha casa. Nem na juventude, nem na época de graduação, nem nos anos que se seguiriam. Lembro-me dele no portão aqui de casa uma ou duas vezes, mas bem sei que ele o fez por eu tanto ter insistido. O tempo passou (é, ele sempre passa...). O Tião se casou e nunca mais o vi. Nem telefonema, nem carta, nem e-mail, nem nada. Às vezes pergunto dele para o “Renatim”, sobrinho dele, com quem jogo futebol aos sábados à tarde. Ironia do destino: o Renatim sempre se lembra de mim (eu fui professor dele ano passado) e passa aqui em casa para irmos jogar futebol. Em outras palavras, ele faz o que o tio dele nunca fez. O Gordo não tem ensino médio, não tem nível superior nem tampouco qualquer diploma. O Gordo não tem dinheiro, não convive comigo diariamente e, portanto, eu não faço mais parte da vida cotidiana dele. Ainda assim, o Gordo é o único que vem visitar-me aqui em casa. É o único que tem se lembrado de mim como amigo nos últimos 18 anos. Em nossa vida, é preciso saber diferenciar os amigos de verdade, como o Gordo, dos colegas que passam por nossas vidas, como o Tião passou pela minha. Este post é uma homenagem simples, porém muito sincera, a este meu grande amigo, o Gordo. É também uma forma de mostrar a todos aqueles que lerem esta mensagem que a amizade verdadeira não depende de dinheiro, nem de diploma, nem tampouco da convivência cotidiana. Depende apenas do respeito e da consideração entre duas pessoas. E o mais importante: a amizade não se apaga com o tempo.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Enquanto isso, no passado...

Sexta-feira, 23 de junho de 2006. O dia está nublado, porém muito seco. Nuvens escuras de fumaça teimam em esconder o sol, mas não há previsão de chuva. A única coisa que precipita do céu é a fuligem da queima das lavouras de cana-de-açúcar. Diante deste clima, típico do inverno da região da Alta Mogiana, um clima de tristeza paira no ar. Papai, mamãe e eu estamos conversando na cozinha. A mamãe está lavando alguns pratos, o papai está me observando enquanto eu tomo o tradicional copo de leite de todas as manhãs. Há algo diferente eu seu olhar. Conhecendo-o como eu o conheço, sinto que ele está nostálgico. “Meu filho...”, diz ele, em tom pausado. “Eu pedi um filho a Deus e ele me enviou um do jeito que eu havia pedido”, desabafa, enquanto me abraça. Eu abraço o meu querido papai. Decorridas duas décadas e meia desde a surra que ele me deu, eu tenho novamente em meu pai o meu grande companheiro. Sinto ternura em seu abraço. A mamãe observa tudo e, embora nada diga, sinto que está feliz, mas não menos nostálgica. A mamãe sai em direção ao quarto, enquanto eu e o papai continuamos nossa conversa, lembrando fatos de quando eu era pequeno. Dentro de dois minutos, a mamãe retorna. De óculos, ela esvazia as mãos cheias de fotos, depositando-as sobre a mesa. “Olha, bem, que coisa mais linda que ele era. ..Como a gente gostava de você, filho!”, diz ela, emocionada. “Era, né mamãe? Agora eu fiquei feio e a senhora e o papai não gosta mais de mim, né?!”, digo, já aguardando a resposta de sempre. “Deixa de ser bobo, filho. É só um jeito de falar”. O papai passa os olhos sobre as fotos, deixando a saudade sair pelos poros a cada uma delas. “Nessa época a gente era feliz e não sabia...” “Olha, filho. Nesta foto você está com aquela fita nas mãos”, comenta a mamãe. A fita cassete a que ela se refere é bem antiga. Nela o papai havia registrado, com o uso de um gravador antigo que ele havia comprado por volta dos seus 20 anos, momentos muito especiais, como a “Fia” (minha irmã) cantando “Menina veneno”, do Ritchie, eu chorando, meus bisavós paternos conversando e, inclusive, o papai pedindo a mamãe em casamento (!!!!). “Nossa, bem... Se tivesse jeito de salvar o que tem nessa fita, né? Eu acho que de tão velha que ela é, ela não toca mais em lugar nenhum...”, diz a mamãe, com voz chorosa. “Mamãe, onde está a fita?”. Depois de alguns minutos no quarto, a mamãe volta com a tal fita. “Está aqui, filho”. Pego então a fita e me tranco no quarto. Abro o rádio toca-fitas, que nunca usei, introduzo lá a fita e aciono o mp3 player na função de gravador de voz. Meia hora depois, abro a porta. “Papai! Mamãe! Venham cá!”, digo, gritando por eles. A mamãe vem e fica aqui ao meu lado. O papai fica na varanda, sentado na cadeira. Um dos seus braços está dependurado no encosto da cadeira, enquanto o outro está com os cotovelos apoiadso na mesa e as mãos sustentando o queixo. Enquanto ouve, seus olhos estão voltados para o chão. Ele parece triste. “Ai, que saudade...”, suspira ele. No meio da fita, uma conversa da minha querida e saudosa tia Alice, que já não está mais entre nós. “Pois é, né? Olha só o que que é uma pessoa inteligente pra fazer uma coisa dessas!”, diz ela ao meu bisavô, referindo-se ao gravador que o papai estava usando na época. Passados quase 30 anos, cá estou com um mp3 player do tamanho de uma caixa de palito de dentes, seguindo o caminho de meu pai: registrando as passagens para lembrar daqui há vários anos. De repente, dou-me conta que meus avós também não estarão aqui daqui a algum tempo. É, papai, eu entendo quais são os motivos de sua tristeza...

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Banca amenizadora

São seis horas. Não sei ao certo se uso o termo “manhã” ou “madrugada”, pois foram apenas quatro horas de sono. Estou aos frangalhos! Tive que ficar acordado ontem (ou melhor, até hoje...) até às 2h lendo aquela dissertação que há quase um mês está comigo e elaborar perguntas para o aluno que será examinado. Não bastasse o cansaço físico, sinto que existe (pelo menos de minha parte) uma certa expectativa em torno da minha postura como “professor doutor” como membro da banca. Certo, será a minha primeira vez. Antes, eu havia sido convidado uma única vez para integrar uma banca de qualificação. Na minha modesta opinião, eu fui um desastre! Desta vez, porém, será uma defesa de verdade. E na USP! Curiosamente, o outro membro da banca foi também membro da minha banca examinadora de doutorado. É, o mundo dá muitas voltas... São 9h15min. Estamos em uma sala de aula. Há alguns colegas assistindo a apresentação oral do aluno que está sendo avaliado. Posso ver, pela silhueta do aluno, que ele está com os lábios tremendo.Mas seria um eufemismo enorme dizer que ele está nervoso. Acho que o mais correto seria dizer que ele está em pânico. Às vezes as palavras lhe somem. Quando isso acontece, ele lamenta, abaixa a cabeça e recomeça a fala do slide. Neste momento, tenho a impressão que ele está se sentindo massacrado pelos olhares dos que estão aqui. Às vezes parece que ele vai chorar. Que situação triste... 9h30min. A argüição vai começar. O presidente da banca, o orientador deste aluno, passa-me a palavra. “Antes de iniciar a nossa discussão, gostaria de parabenizá-lo pelo seu trabalho. Há uma riqueza e diversidade muito grande de informações em sua dissertação.”, digo a ele que, de frente para nós, observa atentamente e ouve minhas palavras. Mas continua tremendo... “Eu gostaria de saber de onde veio o seu interesse pelo tema do projeto que você desenvolveu.” Ele se ajeita na cadeira e começa a falar. Aos poucos, sua voz vai parecendo mais firme. “Desculpe-me pela minha ignorância quanto aos vocábulos técnicos...”. Todo o auditório cai em gargalhadas, inclusive ele.” ... mas preciso perguntar-lhe: o que quer dizer a palavra ‘rabdominólise’ que você mencionou aqui na introdução?” Ele pensa. Abaixa a cabeça. Ao erguê-la novamente em minha direção, ainda sob o riso causado nos que aqui estão devido à minha declaração descontraída, ele responde, com um sorriso no rosto. “Miller, eu sei que deveria saber, mas não sei”. Pronto! O gelo está quebrado! São onze horas. O prazo estipulado de 1h já se esgotou faz tempo e ainda estou argüindo. O meu amigo aluno está bem mais à vontade e seguro. Eu lhe fiz várias perguntas, todas elas tentando avaliar e, ao mesmo tempo, induzir a resposta. Ele parece feliz. “Estou satisfeito. Mais uma vez parabéns pelo seu trabalho. Tenho certeza que o mestrado foi para você um período de amadurecimento, tanto pessoal como acadêmico. E é este amadurecimento o diploma que você levará daqui. Parabéns! Devolvo agora a palavra para o presidente da banca.” Ufa! Estou livre! Estou me sentindo mais tranqüilo, pois tenho a impressão de que eu soube lidar com o nervosismo do aluno e extrair dele o conhecimento que era preciso para aquele momento. Mas será que é só impressão? “Obrigado, professor Miller, pela brilhante argüição”, diz o presidente da banca. Sinto então um peso enorme abandonar meus ombros. Uma alegria enorme toma conta de mim, mas tenho que me conter, pois a cerimônia ainda não terminou. Ah, como eu queria ter asas neste momento...

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Reencontrando a inocência

São 11h33min. Estou caminhando em direção à última sala do pavilhão. Lá estudam os alunos da 3ª. Série do ensino médio. O tempo de percurso é muito curto. Por isso, meus olhos percorrem o ambiente com uma certa ansiedade, como se precisassem fazê-lo dentro de um prazo estipulado. Ao longo do pavilhão existem vários coqueiros, que parecem estar sufocados devido ao chão de cimento que os rodeiam por todos os lados. As paredes estão pintadas em azul escuro até a altura de 1,50m, e de bege acima desta altura. A pintura do interior das salas de aula obedece ao mesmo padrão, diferindo apenas na tonalidade (mais clara, obviamente). Por causa de alguns vazamentos, o forro de madeira de algumas salas está apodrecendo. Não há cortinas na maioria das salas. Há, ainda, um único ventilador de teto, o que torna a situação altamente desconfortável para todos no verão. Aos olhos de professores que já passaram por aquela escola, as instalações são horríveis e os alunos são “manos”. Eu os entendo e não os repreendo, nem tampouco espero convencê-los que estejam errados. Na maioria das vezes, o fracasso que enxergamos ao nosso redor é fruto de nossas frustrações pessoais. Mas esta não é uma simples escola; é a escola onde eu leciono. E isso tem um significado maior do que qualquer pessoa pode imaginar. Afinal, é aqui onde estou tentando realizar o meu sonho de, um dia, ser um professor. À medida que meus olhos varrem as paredes recentemente pintadas, porém já repletas de marcas de tênis de alunos e rabiscos, trazendo consigo uma visão de um lugar cada vez mais familiar, eu vou me aproximando do meu destino. Lá, à porta da sala, muitos estão me aguardando. Outros alunos, por causa do frio, saem à procura de um pouco de sol. Parado à entrada da sala, eu aguardo os que estão foram passarem. “E aí, fessor, beleza?”, cumprimentam, fazendo um sinal positivo com a mão. “Firmeza!”, respondo. “Bom dia, bom dia!”, digo. Puxo então a cadeira para sentar, mas... “Gente, sexta-feira foi aniversário do professor. Vamos cantar parabéns?”. E tome “parabéns a você...” Não, eu estou muito longe de estar nervoso pela “arruaça” que está se formando. Muito pelo contrário! Estou rindo. Afinal, foi a única sala que se lembrou daquela data. Estou rindo, mas imagino que estejatambém vermelho. Maldita timidez! “...nesta data querida...” Enquanto batem palmas, corro os olhos por cada um deles. Todos estão de camisa verde, com os dizeres “Decolando para o futuro” e "Quem acredita sempre alcança!", estampados na parte frontal da camiseta. “...muitas felicidades...” Não, eu ainda não me acostumei a estas demonstrações de carinho espontâneas e desinteressadas. Por todos os lugares que passei durante estes recém-completos 30 anos de existência, eu jamais havia sido alvo de manifestações coletivas de afeto como as que eu tenho presenciado nesta escola."...muitos anos de vida.” Nas raras vezes em que vi algo similar, eu sentia que havia uma gama de interesses envolvidos e que cada sorriso distribuído seria cobrado depois, como se cada um dos dentes mostrados trouxesse consigo uma cárie de fingimento, cinismo, falsidade e egoísmo. Talvez seja por isso eu tenha, de certa forma, "endurecido" meu coração. Meu Deus, onde foi parar a inocência e a pureza dos sentimentos daquelas pessoas? Será que a inocência a que me refiro é abandonada pelos alunos quando eles concluem o ensino médio? Será que a destes alunos também ficará aqui? Será que estes alunos serão novas vítimas do consumismo e do mundo-cão que existe lá fora e deixarão seus corações serem tomados pela frieza e pelo calculismo do mundo lá de fora destas paredes? A esta altura, eu me flagro olhando para o chão. Meu pensamento está longe dali, perdido entre as idéias que tanto me incomodam. O motivo? Simples: qual será a importância de uma universidade pública em minha vida? Compensaria realmente trocar este ambiente de inocência, ingenuidade e pureza pelo ambiente “carregado” e cheio de intrigas, fingimento e de política, que me parecem ser tão constantes em uma universidade pública? Ao terminar os “parabéns”, uma das alunas toma a palavra e diz: “Professor querido, o senhor mora no meu coração! Que o senhor tenha sempre muita saúde, porque eu te adoro!”, diz uma aluna que sempre corre para me recepcionar com um abraço. Totalmente desconcertado, deixo escapar um sorriso envergonhado e a agradeço. Uma outra aluna diz: “Professor, jamais me esquecerei de você!” Agradeço-lhes pelas frases gentis e me levanto. Giz em mãos, viro-me para a lousa. Quando giz e lousa se encontram, um sorriso brota em meu rosto. Acho que já encontrei a resposta para as minhas indagações...

sábado, 17 de junho de 2006

Plantio direto

Já é tarde. O relógio aqui no canto do monitor acusa 1h36min. Estou cansado e amanhã tenho que acordar cedo para as aulas como voluntário lá no colégio. Ainda assim, tentarei escrever algumas linhas para me lembrar deste dia tão marcante em minha vida. Hoje completei três décadas de existência. Ao som de Caribbean Blue, da Enya, começo a pensar que estou na metade da minha vida útil. Por isso, não posso perder tempo. E é por isso que eu estou aqui, renunciando a alguns minutos de sono, para fazer algo que tanto me dá prazer: escrever. Muitos odeiam escrever; eu gosto. Vários colegas professores detestam a profissão e dizem que a trocaria por qualquer cargo público atrás de um balcão ou de uma mesa; eu não deixaria de ser professor por nada neste mundo! Ser diferente dos outros não me torna melhor ou pior do que eles. Torna-me apenas diferente. Eu sinto prazer e realização na maioria das coisas que eu faço. Acho que este sentimento vem do fato de não me sentir obrigado a ser como as outras pessoas. Cada vez mais eu me sinto eu mesmo! Acho que eu acabei encontrando minha felicidade naquilo que tanto me incomodava na adolescência: ser diferente!
1h52min. Lá dentro todos estão dormindo. Não apenas a mamãe e o papai, mas também a Fia (minha irmã) e a Clarinha, minha querida afilhada. É bom tê-las aqui conosco, mesmo que por poucos dias. É uma boa oportunidade para relembrar os velhos e bons tempos em que elas moravam aqui. e para se ter a doce ilusão de que o tempo pode voltar... Mas o tempo não volta nem tampouco estaciona. Parece que foi ontem que eu andava com a Clara pelo quintal, chacoalhando-a no colo para que ela parasse de chorar. Passou-se algum tempo e fui agraciado com uma segunda afilhada, a Bianca. E parece que foi ontem que nós fomos a Uberaba para batizá-la... Hoje ela está com um ano e seis meses e já fala de tudo! Meu Deus! Eu estou mesmo ficando velho...
Certa vez, o papai usou usou uma comparação muito válida. Ele disse que na vida nós somos como uma lavoura de cultivo direto. Neste tipo de cultivo, após a colheita, não se remexe a terra; planta-se em cima da antiga lavoura. Na ocasião, ele disse que se sentia como a velha plantação, que está fornecendo a colheita, enquanto a nova plantação (no caso, eu) está brotando. Enquanto uma vai morrendo, a outra vai crescendo. Eu estou tentando espalhar minhas sementes, para que elas possam brotar em breve. Tenho me preocupado muito no sentido de poder oferecer a minha plantação - a minha vida - para o maior número de pessoas possível. Hoje, no meu aniversário de número 30, a minha maior felicidade foi ver que as sementes que eu espalhei ao longo da minha vida, estão dando bons frutos. Foram mais de 100 mensagens no Orkut, muitas delas vindas de pessoas que eu não pensei que fossem se lembrar de mim. Amigos de infância, colegas de almoxarifado, colegas de faculdade, de tiro-de-guerra (até o próprio sargento!), amigos de pós-graduação, alunos, ex-alunos, primos e primas, colegas lá do colégio, alguns que conheci através deste blog (olha você aí, Márcio!) A todos o meu muito obrigado! O meu maior presente que eu poderia receber foi a sensação de ser especial na vida de alguém. Que esta felicidade que agora sinto, às 2h16min, possa estar comigo durante a segunda metade de minha vida útil, para que eu possa ser realmente útil na vida de alguém...

quinta-feira, 15 de junho de 2006

O livro de nossas vidas não aceita rascunho

Acordei hoje às 8h. Não me recordo da última vez que acordei tão bem disposto. “Hoje o artigo das dicetopiperazinas sai”, pensei. Certo, eu estava de bem com a vida. A inspiração divina certamente estava comigo. Mas... “Filho, vamos lá ver a vovó Lourdes?”, convidou o papai. “Putz, faz quase dois meses que eu não vou visitar a vovó...”, lamentei. E lá fomos nós! Certo, eu não sou um bom neto. Aliás, qualquer neto que more na mesma cidade que seus avós e não vai visitá-los pelo menos nos finais de semana está longe de ser um bom neto. Neste estágio da minha vida, a minha ausência da casa de meus avós paternos me causa muita vergonha. Por que há tanto tempo me ausentei da casa da vovó? Será falta de tempo? Não, a história não é tão simples como pode parecer. Para abreviar o relato dos fatos, e para não transformar este espaço em “lavação de roupa suja”, limitar-me-ei a dizer que houve um grande desgaste na amizade entre meu pai e seus irmãos desde que a vovó Lourdes adoeceu. O clima entre os irmãos é tenso. Abraçando as dores do meu pai, ainda que inconscientemente, eu imagino que tenha me afastado de lá para não presenciar outras discussões, no meio das quais eu tomaria as dores de meu pai e aumentaria, assim, o clima de guerra e entre os membros desta família. Quando abri o portão, notei que havia coisas ali que estavam muito diferentes em relação à última vez que ali estive. O jardim estava repleto de rosas, algumas de cachos, mas a grama havia desaparecido completamente (ou talvez morrido por causa da falta de água.). Sentei-me então ao lado do vovô, pedi-lhe a bênção e perguntei como ele estava. A pergunta, obviamente, faz parte do manual, já que estou a par de alguns de seus problemas de saúde, como efizema pulmonar e labirintite. Ainda assim, ele disse que parte dos efeitos da labirintite havia passado. Aproveitando o embalo, comecei a contar-lhe as últimas novas sobre nossos parentes de Cambira-PR. Senti um certo ar de satisfação na forma como ele olhou para mim. Parecia estar sentindo falta de algo que eu acabara de proporcionar-lhe. A vovó estava dormindo quando chegamos. Quando acordou, por volta das 9h30min, chamou a Sílvia (a moça que toma conta dela) e disse que queria levantar-se. Após alguns minutos, a vovó apareceu à porta do quarto, apoiada no ombro da Sílvia. Após vê-la sentar-se no sofá e pedir-lhe a bênção, senti um aperto no peito. Decidi, então, que precisava tomar um pouco de ar, o que fez-me sair em direção à porta da cozinha, rumo à varanda. Em poucos minutos eu lamentei ter tomado tal decisão... Na cozinha, dentro dos armários, estavam escondidas as panelas que a vovó tanto estima. Quantas vezes ela não usou aquelas panelas para cozinhar aquele macarrão com carne que ela tanto sabia fazer... Sobre a mesa, onde sempre ficavam as bolachas Mabel que ela sempre me oferecia, havia apenas uma camada espessa de poeira e de restos de queimada de cana, típicos desta época, traduzindo um certo abandono. No fundo do quintal, onde o vovô guarda as peças de caminhão e os pneus, notei que ainda estava tudo ali, como ele deixou da última vez que mexeu. Tentei ser forte para conter as lágrimas, mas uma delas escorreu-me até a metade da face, onde foi interrompida pela manga da camisa. Acho que o medo daquela sensação horrível que me abateu naquele momento era, na verdade, o grande motivo da minha ausência da casa da vovó Lourdes. Lembrei-me então de uma frase que o papai disse uma vez e que gerou uma discussão amigável entre nós dois: “Quando a gente fica velho, a gente vira boneco na mão dos outros. Todo mundo faz o que quiser com a gente. A gente não manda mais nada!” Antes que as previsões tristes que aquilo me trouxe pudessem abater-me, enxuguei o olho e voltei para a sala. Lá estavam o vovô e a vovó. O papai conversava com alguns primos que ali estavam, longe dos meus avós... “Engraçado, né, vovõ? Tantas pessoas aqui na casa de vocês e só eu é quem estou aqui perto neste momento... Onde estão os outros? Eles não vêm aqui para ver a senhora e o senhor?” Comecei, então, a contar do quanto estou trabalhando e da construção de minha casa. Sentada no sofá, praticamente estática, a vovó agarrou minha mão com força e deu um “meio-sorriso”, já que o movimento de seus lábios parecia não ser mais controlado por sua própria vontade. Aquele sorriso acabou salvando minha última manhã com 29 anos. Eu, que acordei hoje tão alegre, vou agora dormir chorando Putz, e o artigo que eu precisava escrever? Bom, vai ter que ficar pra depois. Há artigos, muito mais urgentes, que precisam ser escritos no livro de nossas vidas já na forma definitiva, pois não há como fazer um rascunho. Cá estou, postando neste blog uma das linhas de minha vida. Tive que digitá-las, pois as lágrimas poderiam manchar aquilo que eu porventura tivesse escrito. Acordei sorrindo, dormirei chorando...

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Meus últimos dias...

Esta é a minha última semana com 29 anos, já que na próxima sexta-feira (16 de junho) completarei 3o anos de vida. Eu nunca pensei que chegaria a esta idade. Quando era mais jovem, eu pensava que uma pessoa com esta idade era muito velha. É engraçado como a minha visão do mundo mudou com o passar dos anos. Na adolescência, quando tinha uns 15 ou 16 anos, eu me achava muito responsável para a minha idade. Eu era muito sério e tímido. Vivia sempre sisudo. Alguns chegavam a falar que tinham errado na data do meu registro! Hoje, por incrível que pareça, eu me considero "moleque" demais para algumas coisas. Por exemplo, às vezes eu não me dou conta de que sou professor e, conseqüentemente, não ajo como tal. Quando estou na minha sala lá no laboratório da universidade, eu abro a porta e começo a tirar um sarro com os alunos. As vítimas variam desde alunos até outros professores. É como se eu fosse um aluno também. É como se todos fôssemos colegas de turma de graduação.
Durante os intervalos, os alunos me param pelos corredores para tirar um sarro. A maioria deles me cumprimenta, sorrindo. Quando eu não os vejo, na maioria das vezes por distração, alguns fazem questão de chamar-me pelo nome ou gritarem, para terem minha atenção. A satisfação que isto me traz é indescritível, principalmente porque a disciplina que eu ministro (Química Orgânica) é uma das mais temidas de todo o curso de Química lá da universidade. Quem é aluno sabe o quanto é difícil olhar para o professor e não maldizê-lo quando não se está indo bem na disciplina que ele ministra.
Como professor de ensino médio, posso dizer que não sou o professor que eu gostaria de ser. Eu encontro, sim, uma enorme realização pessoal, mas profissionalmente eu acho que deixo muito a desejar. Há muitas coisas do cotidiano que eu deveria ensinar-lhes, mas eu percebo que estou pecando muito neste sentido. É complicado, pois o pouco tempo que me sobra é preenchido com atividades da pós-graduação ou com horas de sono, já que eu durmo de 5h30min a 6h por noite. Mas eu não posso nem começar a pensar nisso, pois ter a sensação de estar fazendo algo malfeito é algo que me causa profunda depressão e tristeza.
Como pesquisador, eu sinto uma frustração enorme. Embora eu tenha conseguido publicar mais de uma dezena de artigos, a sensação de estar "desaprendendo" a cada dia me incomoda muito. Mais do que isso, eu percebo que a contribuição direta que estes artigos trazem para a sociedade é praticamente nula. O que realmente me motiva são as aulas de pós-graduação. São uma oportunidade de transmitir o pouco que aprendi para os alunos de mestrado. Após as aulas, eu me sinto esvaziado e com a consciência tranqüila. Vale a pena!
Como esportista, eu aprendi que não sou um perdedor tão ruim quanto eu pensava. No futebol, eu estou me tornando um jogador menos habilidoso a cada dia que passa. Muita raça, pouca técnica. Apesar disso, aprendi a me controlar e ser um jogador que joga para o time. Embora jogue na posição de zagueiro, eu tenho o orgulho de dizer que nunca fui desleal, já que jamais ninguém se machucou por minha causa. Tenho me dividido entre o futebol e a natação. Claro que eu odeio nadar, mas a minha coluna cervical implora (às vezes ordena!) que eu nade.
Como amigo, eu não posso afirmar nada. Afinal, eu aprendi com o papai que ele e a mamãe são os meus únicos e verdadeiros amigos (claro que aí devo incluir a vovó Maria, o vovô Mila e a titia Ângela, né?). Entretanto, eu conheço uma meia dúzia (talvez menos...) de pessoas que, pelo menos aparentemente, tem consideração por mim e com quem vale a pena manter contato. A eles eu procuro dedicar uma parte de meu tempo (embora nem sempre isso seja possível).
Como filho, percebi que meus pais e minha família têm orgulho de mim. Agora há pouco, o papai me abraçou e disse que eu sou "o filho do jeito que ele pediu a Deus". Quem lê este blog com certa freqüência faz mais ou menos idéia da minha felicidade e realização que esta frase me trouxe. Eu só lamento estar levando uma vida corrida como esta, que me impede, muitas vezes, de dar a atenção merecida àqueles que mais amo nesta vida.
Como namorado, eu posso apenas dizer que estar ao lado de uma pessoa como a Débora é algo divino e extremamente motivante, em todos os sentidos. Nós somos pessoas extremamente diferentes, com personalidades muitíssimo diferentes. Logo, conviver (e aceitar) as diferenças - e, mais do que isso, aprender a amá-las - é uma verdadeira lição de vida. É também uma excelente oportunidade para aprender a compartilhar minha vida e, principalmente, o meu tempo ao lado dela.
Como homem, eu também me sinto realizado. Fisicamente, descobri que não sou tão feio quanto eu pensava na adolescência, mas acabei descobrindo que há algo em mim que é muito mais importante e atraente do que a beleza física. Mês que vem eu completarei 11 maravilhosos anos ao lado da Débora, que eu acredito ser a mulher que Deus enviou a este plano para ser minha companheira. Continuamos a construção da casa (embora a passos lentos) e estamos otimistas quanto ao nosso futuro. Um futuro onde eu possa escrever o meu livro, plantar uma árvore e ser pai. Acima de tudo, um futuro onde eu possa retribuir aos meus semelhantes todas as bênçãos que Deus-Pai me concedeu.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Vitorioso?

Eu estava prestes a pegar no sono. Já havia vestido meu pijama e o cobertor já estava sobre a cama. Aquele friozinho de inverno parecia fazer dela a cama mais desejada do mundo. Foi quando eu olhei para este monitor e lembrei-me de que não havia atualizado este blog.
"Caramba, mas eu não tenho nada de especial para contar...", pensei. "Mas o que é especial?" Neste ponto da reflexão, uma enorme tensão tomou conta de mim, pois o termo "especial" é, em essência, muito relativo. Afinal, um relato pode ser muito importante para uma pessoa e totalmente insignificante para outras. De qualquer forma, o que acontece na vida de cada um de nós tem sempre um significado especial para nós mesmos, pois é no cotidiano que adquirimos experiência de vida e nos tornamos pessoas melhores (bom, pelo menos eu penso assim...).
Pois bem. Semana passada eu relatei aqui o meu desapontamento com alguns fatos ocorridos na universidade. Como o mundo dá muitas voltas, hoje foi um dia diferente. Havia poucos alunos e as aulas foram bem mais descontraídas e leves. Confesso que fiquei feliz e muito surpreso, pois eu esperava uma aula de revisão pré-prova muito tensa e com um clima pesado. Diante do que vivi hoje, eu me convenço cada vez mais que o problema está, muitas vezes, no próprio professor. E olha que não estou me referindo às tecnologias e inovações, mas sim ao estado de espírito com que um professor entra em sala de aula. Hoje vou dormir com a consciência tranqüila. Estou cansado, porém feliz. Preciso descansar da batalha de hoje, pois amanhã tem mais outra...

Memórias de um almoxarife - parte 5

Já ouvi alguém dizer, ou li em algum lugar, que a gente nem sempre faz tudo o que gosta, mas que é necessário gostar daquilo que a gente faz. Não há, no momento, uma frase melhor para explicar o que sinto. Com o Danilo e o José Luís trabalhando no balcão, eu acabei sendo “premiado” para trabalhar com o Jaime no recebimento. Não, o problema não é trabalhar com o Jaime (que, aliás, é um colega de serviço e tanto!) e sim lidar com as notas fiscais. É preciso conferir as mercadorias em tempo hábil, para que as notas sejam encaminhadas ao setor financeiro para que possam ser pagas dentro do prazo. E isso, convenhamos, não tem sido uma tarefa das mais fáceis. Mas tenho que me acostumar. Afinal, preciso do dinheiro deste emprego para poder terminar minha graduação. Com o Edvaldo sobrecarregado com os pedidos de estoque e com os mais urgentes, que chegam a todo instante em suas mãos, a codificação e a digitação das notas fiscais também passaram a ser função do setor de recebimento. Na verdade, esta tarefa ficou mesmo para o Jaime, já que eu, para evitar tamanha responsabilidade, prefiro conferir as mercadorias e colocá-las nas prateleiras. Para conferir as mercadorias, basta comparar as especificações do pedido com a mercadoria que foi enviada pelo fornecedor. Alguns fornecedores fornecem peças de qualidade inferior, mas que ainda assim são rotuladas por eles como “originais”. Outros fornecedores fornecem as peças “genuínas”, que são realmente originais e vêm acondicionadas em embalagens que contêm o símbolo da marca (por exemplo, Scania, Massey Ferguson, Caterpilar etc.). As peças de reposição genuínas são geralmente enviadas por fornecedores autorizados e dificilmente são equivocadas. Eis que há alguns meses atrás chegou ao nosso almoxarifado uma peça cadastrada em nosso estoque como “cubo da roda da enleiradeira de palha DMB”, seguido do número de catálogo. Contudo, o fornecedor havia enviado o “braço da roda da enleiradeira de palha DMB”. Conforme os procedimentos da empresa, fui até o setor de compras conversar com o comprador responsável – o Rogério, que é genro do dono da empresa. Muito gentilmente, o Rogério ligou até o fornecedor, que nos esclareceu que a peça que nos foi enviada corresponde ao número que consta em nosso cadastro, e não ao nome. Em resumo: o código de nosso cadastro não correspondia ao cubo da roda, e sim ao braço. Diante deste erro que há tempos constava em nosso cadastro, o Rogério disse que a devolução não poderia ser feita, pois o erro era “nosso” (no caso, do nosso cadastro). Ao chegar no Almoxarifado, troquei imediatamente o código do cadastro no pedido, para que o Jaime pudesse dar a entrada da mercadoria no estoque no código correto. Foi numa quarta-feira, 16 h. Faltavam apenas 1 h para terminar o expediente quando o Joãozinho me chamou e disse que o Alceu queria conversar comigo na sala do Edvaldo. O Alceu era, nada mais nada menos, do que o nosso superior direto. Aquilo me trouxe um mau pressnetimento, pois nas poucas vezes que nos vimos, trocamos apenas cumprimentos breves, porém nenhuma palavra. O que eu sei sobre ele vem da boca de outros funcionários. Dizem que ele é muito ríspido com as palavras (beirando a “falta de educação”) e que não aceita erros de seus subordinados. Corre pelos "bastidores" que em uma conversa informal, ele havia dito a um de seus colegas: “Trabalho para o Dr. Luís (o dono da empresa) há quase 25 anos. Neste período, perdi mais ou menos umas vinte amizades, porém estou em um cargo que me satisfaz e ganho um salário que tme satisfaz.” É lógico que eu fiquei muito assustado quando me contarem esta história, mas eu preferi pensar que aquilo era uma "lorota" e procurei ver na pessoa do Alceu uma pessoa alegre e bem-humorada, de quem nós podemos exigir melhorias para o setor do Almoxarifado. Mas o Alceu que estava ali diante de mim não estava sorrindo. Aquele homem de cabelo curto, rosto vermelho de sol, a barriga projetada à frente e incontida dentro das calças, vestindo uma branca com listras pretas na vertical, com um ar de quem estava se contendo para não explodir, mostrou-me uma nota fiscal e exigiu explicações. “Tõim, me explica o que é que está acontecendo com esta nota." Desconhecendo do que se tratava, eu analisei a nota e dentro de 2 min dei a resposta. Esclareci que nossas especificações de estoque estavam equivocadas e tivemos que “engolir” esta peça. Sua expressão, então, endureceu ainda mais. Veemente e exaltado, em tom agressivo e cada vez mais vermelho, ele dá um soco de punho fechado na mesa e dispara: “Se você quiser, fique com esta peça, pode levar. Coloque-a na sua bicicleta, no seu carrinho de “rolemã” ou onde quiser. Mas eu não quero nem saber. Para mim ela não “serve’”. Amanhã eu não quero mais ver esta peça aqui na empresa, você está me entendendo?"
Assustado e muito triste, eu assistia aquele homem de origem humilde, a quem eu estava aprendendo a admirar, a dar provas concretas de que o que diziam sobre ele tinha fundamento. Cabisbaixo e abatido, eu saí da sala disposto a sumir com aquela maldita peça antes que ela me custasse o meu emprego...
(to be continued...)

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Meu querido diário...

Certo, o título deste post é um pouco estranho. Afinal, não sou nenhuma adolescente e nem tampouco ou apreciador de diários, daqueles onde as jovens moças depositam a maioria de seus segredos, muitas vezes na forma de códigos. Na verdade, coloquei este título por querer manifestar aqui um pouco do que estou sentindo neste momento. Portanto, nada de narrativas por hoje. Estou um pouco abatido para escrevê-las, embora histórias não me faltem.
Voltei às aulas do ensino médio na segunda-feira. Mesmo permanecendo um mês de licença médica, preferi não descansar e continuar levando em frente os planos para o futuro. Como já mencionei aqui neste espaço algumas vezes, certamente antes de empolgar-me com as narrativas (acho que por incentivo do Márcio), estou tentando preparar-me para uma grande guinada na minha vida profissional. Não, eu não vou deixar de ser professor para ser fiscal da receita ou coisa parecida. Eu me refiro apenas a subir mais um importante degrau ba nubga carreira. No entanto, para cumprir as minhas metas pessoais, tenho me dedicado muito. Não raramente, abdico de estar com as pessoas que tanto gosto para ficar olhando para a tela de um monitor, sem qualquer inspiração,para escrever um artigo científico. Trocando em miúdos, acho que já os que estiverem lendo este post conseguem entender por que estou com a coluna vertical travada...
Mas não foi por isso que resolvi mudar o enfoque do post de hoje. Na verdade, eu o fiz com a intenção de deixar aqui relatado que hoje, em especial, estou muito triste com algumas coisas que aconteceram lá na universidade. Por exemplo: ontem uma aluna ficou a aula inteira dizendo que não estava entendendo nada do que eu estava explicando. Quando eu pedi para ela abrir a apostila na página 16, ela me responde, rindo: "Eu não tenho apostila." Percebi, também, que a maioria dos alunos não estuda, ou se o fazem, deixam para estudar às vésperas da prova. Em resumo: eu passo uma boa parte do tempo tentando transmitir um pouco do quase nada que eu sei e os alunos pouco se interessam... Eu sei que a maioria deles trabalha durante o dia (alguns até giram turno!), mas ainda assim é muito doloroso esforçar-se para explicar e receber os ombros em retribuição (o mesmo que "não estou nem aí"). mesma de "aceitar os ombros para aquilo que transmitimos com tanta dedicação. Ser professor universitário é mais complicado do que eu pensava.
Diante destes infortúios, comunico que estou trocando a cadeira do computador pelo meu colchão. Talvez amanhã eu esteja um pouco mais animiado. Rezem por mim!

terça-feira, 6 de junho de 2006

O retorno

Segunda-feira, 5 de junho de 2006. São 7h42min. Acabo de desligar o carro. Estou no estacionamento aqui da escola. Pego o estojo, o apagador com a caixa de giz, os livros e o jaleco e os pressiono contra meu corpo. Jogo os pés para fora do carro; o restante do corpo vai logo em seguida. Ao ficar de pé, olho ao meu redor. A escola que deixei há um mês atrás, em virtude de problemas com a coluna, não é mais a mesma. Algumas das árvores que faziam sombra no estacionamento já não estão mais lá. Elas tiveram seus caules podados bem próximo ao solo. Em virtude do inferno, as copas das árvores que restaram vão, aos poucos, diminuindo de tamanho, deixando o chão forrado de folhas secas. O vento se encarrega de espalhar estas folhas pelo estacionamento e pelo chão de cimento que me separada da porta de entrada. Há um clima de tristeza e de solidão no ar. Aproximo-me da porta. Giro a maçaneta e... “Seu Eduardo! Que bom que o senhor voltou!”, diz uma aluna, aparentemente alegre com o meu retorno. A tristeza, mais que depressa, desaparece. Meus lábios desenham um sorriso tímido, sem que os dentes fiquem expostos. Mal sabia eu que a minha timidez só aumentaria ao ser ovacionado com palmas ao adentrar a classe da terceira série. Ah, eu já estava com saudade disso tudo...

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Quando amanhã pode ser tarde demais

(carta escrita em 30/03/05; noite em que meu pai foi submetido a uma cirurgia para remoção de um câncer maligno no rim direito).
Querido papai, A última coisa que eu queria neste momento era estar escrevendo esta carta, mas, tendo-a escrito, o que mais desejo neste mundo é que o senhor possa lê-la. De alguma forma, sei que o senhor está sentindo o nosso sofrimento e angústia neste momento tão difícil para todos nós, mesmo estando há quilômetros de distância. Não sabemos onde o senhor está neste momento nem tampouco qual é o seu estado de saúde. A apreensão que toma conta de nós neste momento é indescritível. A Fia acaba de ouvir a voz do senhor chamando por ela, como se fosse um mau presságio do que possa estar por acontecer. Eu disse que poderia ter alguém lá fora e pedi-lhe para fechar a porta. Tentei demonstrar uma calma que, de súbito, sumiu quando eu senti um vazio dentro do peito. Agora, neste momento, em frente ao computador, as lágrimas brotam dos olhos e eu não consigo contê-las. Talvez o mais sensato neste momento fosse rezar e dormir, mas estou com muito medo da notícia que vão nos dar amanhã de manhã. Não consigo ordenar meus pensamentos, está tudo muito confuso na minha cabeça. E choro, apenas choro, e vou digitando o que me vem à cabeça, na tentativa de que eu desmaie quando estiver, enfim, vencido pelo sono. Acho que disse ao senhor o quanto o senhor é importante na vida de todos nós, em particular na minha. Sempre tive no senhor um modelo de honestidade e de força. Um homem sempre dedicado à família e aos filhos, sem qualquer luxo ou vaidade. Sempre trabalhou a vida inteira e desde que nascemos sempre fomos a razão da sua existência. Sinceramente, papai, nunca consegui imaginá-lo deitado em um leito de hospital, com a barriga raspada e com a mamãe chorando ao seu lado... Acho que é por isso que estou com tanto medo neste momento. Nunca achei que fosse passar por isso, mesmo sabendo que nesta vida tudo é possível. A verdade é que eu passo muito tempo na frente dessa merda de computador e tenho tirado pouco do meu tempo para conversar com o senhor. E agora se a gente não puder voltar a conversar??? E se eu não puder mais pegar o pegador de macarrão e ir brincar com o senhor? A rede está balançando, mas está vazia. Que falta o senhor faz roncando dentro dela... Que saudade dos gritos que o senhor dava conosco e com a mamãe... Mas eu sabia que, enquanto o senhor estivesse gritando é porque o senhor estava bem. Sempre foi assim, não é mesmo? O jeito bravo e alto de falar. Para mim o senhor nunca precisou falar duas vezes. Aliás, bastava olhar para eu ficar me borrando de medo, principalmente após aquela surra de corda que o senhor aplicou às minhas perdas e traseiro lá em Quirinópolis... Durante muito tempo eu condenava o senhor por ter me espancado daquele jeito, sem motivos mas, conversando com o senhor, eu entendi quais foram os verdadeiros motivos daquela surra. O mais engraçado é que, após colocar-me no lugar do senhor, eu lhe dei razão... Sempre gostei, desde criança, de ficar junto com o senhor. Uma das situações que mais me marcaram na adolescência foi aquele dia em que fomos quebrar cupins lá na fazenda da vovó, lá em Quirinópolis. Naquele dia eu senti que nós éramos grandes companheiros, um ajudando o outro. Mas o tempo foi passando e o senhor foi apenas dando ordens e eu, à medida que fui crescendo, fui começando a me afastar... O senhor não parecia querer ser mais meu companheiro e sim meu patrão... Mas sei que, algum dia, vou entender tudo isso, quando também for pai. É, papai, preciso lembrar-me destes momentos passados para distrair-me e tentar esquecer o presente. Até meus ouvidos estão entupidos, de tanto tentar conter o choro. Não posso chorar alto, pois a Fia vai ficar desesperada quando me vir nesta situação. Logo ela, que sempre me chamou de frio e calculista. O desespero dela vai ser imediato, por isso preciso ser forte. Papai, ainda tem muitas coisas que eu quero lhe falar, mas muitas delas são difíceis de se dizer pessoalmente. Que bosta, eu dou aula para mais de cinqüenta alunos em uma sala de aula e não consigo expor o quanto gosto do senhor... Eu recebo muitos e-mails dizendo que a gente deve dizer àqueles que bem queremos o quanto os amamos, mas eu sempre fico deixando isso para depois. E agora, papai, vejo-me traído pela minha arrogância e prepotência por ter deixado sempre para amanhã... E se eu não tiver mais como lhe dizer isso??? Meu Deus, de novo essa possibilidade sombria perturbando minha cabeça!!! Desculpa, papai, mas eu prefiro pensar que sábado o senhor e a mamãe estarão de volta e nós estaremos todos juntos e felizes novamente. E aí nós poderemos “mimar” o senhor nos próximos três meses. Não, papai, nós ainda tem que dar muita risada e vivermos muitas coisas juntos. Porque eu te amo, papai. E eu não conheço ninguém que chora quando fala do pai. Não conheço nenhum colega que tenha tido um pai tão marcante quanto o senhor é pra mim. E é por isso, papai, que eu preciso que o senhor volte para casa para dizer-lhe isso pessoalmente. Amanhã de manhã sei que receberemos uma boa notícia. Que o senhor acordou da anestesia e que está tudo bem. Vou rezar e pedir para que Deus espere mais um pouco e dê a todos nós uma segunda chance. Sei que Ele vai me ouvir. A gente se fala no sábado, papai. Eu amo muito o senhor e espero nunca mais ter que escrever isso com tantas lágrimas nos olhos, no rosto e no coração. Seu eterno filho, Dado

domingo, 4 de junho de 2006

Memórias de um almoxarife - parte 4

Trabalhar aqui no almoxarifado não tem sido nada fácil. Além do cansaço que sinto por ficar estudando até altas horas da madrugada, há muito serviço a ser feito. Todo mundo aqui tem se desdobrado, mas estamos chegando à conclusão que somos poucos para a quantidade de serviço que temos que fazer. Para trabalhar aqui no balcão, contrataram o José Luís. Trata-se de um homem muito magro (o Edvaldo o chama de “seco”), cuja idade aparenta aproximar-se dos 40 anos. Antes de trabalhar aqui conosco, lembro-me que ele trabalhava na Compeças, junto com o Henrique. O papai comprava muitas peças lá naquela loja, mas parece que decretaram falência da empresa. O José Luís tem sido um bom colega de trabalho. Sempre sorridente e muito humilde, ele não tem vergonha de perguntar quando não sabe. Estamos nos dando muito bem. Além disso, adora tirar um sarro na moçada. O Danilo, que havia sido contratado para trabalhar com o Jaime lá no recebimento, agora está trabalhando conosco aqui no balcão de atendimento. Não sei bem o que ele andou aprontando por lá, mas deve ter feito alguma besteira e acabou levando uns “ganchos” (assim chamamos as suspensões) e sendo transferido aqui para o balcão. Com isso, estamos em quatro pessoas aqui e o Jaime voltou a ficar sozinho lá no recebimento. Dias atrás a empresa contratou um rapaz para trabalhar com o Jaime. Seu nome é André. Ele é filho de um ex-administrador aqui da empresa. Nós somos quase vizinhos. Quando éramos moleques, brincávamos juntos aqui na nossa rua. Apesar disso, poucas vezes eu tive oportunidade de ir à casa dele, pois a família dele é bem mais provida em termos financeiros que a minha. Isso fica evidente, por exemplo, na maneira de nos vestirmos. Eu visto calça jeans. Aliás, tenho apenas duas. Normalmente eu trabalho com a mesma calça uns dois dias seguidos. Eu costumo usar um jaleco azul para evitar que as coxas se sujem demais. Já o André... Ele chega todo dia muito bem perfumado, calçando botina de couro (ou seria botas?) e camisas de manga comprida. Caramba, eu não tenho nenhuma dessas camisas, nem pra sair aos sábados... Todos aqui no setor tem achado o André muito quieto e “metido”. Eu já percebi que o Jaime está de olho nele, talvez para “batizá-lo”, como fez com o Danilo. Eu acho melhor o André ficar esperto... São 11h30min. Acabei de retornar do almoço. Como uso fazer de costume, pego os papelões (na verdade, são pedaços de caixas velhas, onde as mercadorias vêm embaladas) e os sacos de limpeza e dirijo-me ao corredor que fica entre as prateleiras S e T. Eu forro o chão, que deve ter uns dois dedos de poeira, e acomodo os sacos para que eu possa deitar-me de barriga para cima. Não é nada confortável dormir nesta posição, mas o que é que eu posso fazer? Depois do “batismo” do Danilo, eu decidi tomar todas as precauções para não ser o próximo “afilhado”. Ouço alguns passos. Alguém está se aproximando. É o André. “Tonhão, eu posso deitar nesse corredor aí?”, pergunta ele, também demonstrando a intenção de tirar um cochilo pós-almoço. “Claro, fique à vontade”, respondo. Ele, então improvisa um forro e se deita, também de barriga para cima. No entanto, noto que ele retirou suas botinas. “Cara, eu tenho um calor nos pés!”, justifica ele. Por mim tudo bem. Eu só espero que ele não se arrependa, pois aquelas duas botinas soltas pelo corredor são um prato feio pras brincadeiras que o Jaime sabe fazer. São 12h. O sinal da oficina bate, comunicando aos desavidados que é hora de voltarem ao trabalho. Eu fico deitado, como que imobilizado pela preguiça e pelo cansaço. Nem sequer abrir os olhos eu abri. Enquanto isso, ouço o André se levantar do papelão. “Tonhão, cadê as minhas botinas?”, braveja o André, achando eu sou culpado pelo desaparecimento de suas botas. “Sei lá, André. Eu acordei depois de você”, respondo. Ao olhar para os pés dele, avisto meias branquíssimas. Ainda deitado, consigo identificar, por trás das prateleiras, o Jaime, o Edvaldo e o José Luís rindo. “Mas o que é isso?”, braveja novamente o André, com um bilhete nas mãos. Mais que depressa, eu me levanto e pergunto o que está acontecendo. Ele, então, me mostra o bilhete, onde está escrito mais ou menos assim: “Seu palhaço metido, suas botinas estão na H-26”. Ouço, então, as risadas vindas de trás das prateleiras se intensificarem. Quase não acreditando no que estou vendo, avisto o André sair caminhando pelo Almoxarifado de meias brancas, tem busca de suas botinas. oDe repente, outro grito de nervosismo. “Caralho! Cadê as minhas botinas?”, grita ele, já puto da vida. Eis que lá vem o André novamente, andando de meias brancas, sem as botas, andando pelos corredores empoeirados do almoxarifado. Ele parece ter outro bilhete nas mãos, mas desta vez caminha para outra prateleira. Chegando lá, outro grito. “Que desgraça! Cadê a minha botina?”. Os risos se intensificam. Pra falar a verdade, até eu estou rindo. E o André... Bom, acho que ele é o único que não tem motivos pra rir neste momento. E lá segue ele, caminhando de meias brancas pelos corredores empoeirados do almoxarifado, com o novo bilhete nas mãos. A meia dele já era. Acho que ele vai demorar um tempo para descobrir que as botinas dele estão dentro do cesto de lixo. Este é, enfim, o batismo dele. André, seja bem vindo ao Almoxarifado Agrícola!