quarta-feira, 21 de junho de 2006

Banca amenizadora

São seis horas. Não sei ao certo se uso o termo “manhã” ou “madrugada”, pois foram apenas quatro horas de sono. Estou aos frangalhos! Tive que ficar acordado ontem (ou melhor, até hoje...) até às 2h lendo aquela dissertação que há quase um mês está comigo e elaborar perguntas para o aluno que será examinado. Não bastasse o cansaço físico, sinto que existe (pelo menos de minha parte) uma certa expectativa em torno da minha postura como “professor doutor” como membro da banca. Certo, será a minha primeira vez. Antes, eu havia sido convidado uma única vez para integrar uma banca de qualificação. Na minha modesta opinião, eu fui um desastre! Desta vez, porém, será uma defesa de verdade. E na USP! Curiosamente, o outro membro da banca foi também membro da minha banca examinadora de doutorado. É, o mundo dá muitas voltas... São 9h15min. Estamos em uma sala de aula. Há alguns colegas assistindo a apresentação oral do aluno que está sendo avaliado. Posso ver, pela silhueta do aluno, que ele está com os lábios tremendo.Mas seria um eufemismo enorme dizer que ele está nervoso. Acho que o mais correto seria dizer que ele está em pânico. Às vezes as palavras lhe somem. Quando isso acontece, ele lamenta, abaixa a cabeça e recomeça a fala do slide. Neste momento, tenho a impressão que ele está se sentindo massacrado pelos olhares dos que estão aqui. Às vezes parece que ele vai chorar. Que situação triste... 9h30min. A argüição vai começar. O presidente da banca, o orientador deste aluno, passa-me a palavra. “Antes de iniciar a nossa discussão, gostaria de parabenizá-lo pelo seu trabalho. Há uma riqueza e diversidade muito grande de informações em sua dissertação.”, digo a ele que, de frente para nós, observa atentamente e ouve minhas palavras. Mas continua tremendo... “Eu gostaria de saber de onde veio o seu interesse pelo tema do projeto que você desenvolveu.” Ele se ajeita na cadeira e começa a falar. Aos poucos, sua voz vai parecendo mais firme. “Desculpe-me pela minha ignorância quanto aos vocábulos técnicos...”. Todo o auditório cai em gargalhadas, inclusive ele.” ... mas preciso perguntar-lhe: o que quer dizer a palavra ‘rabdominólise’ que você mencionou aqui na introdução?” Ele pensa. Abaixa a cabeça. Ao erguê-la novamente em minha direção, ainda sob o riso causado nos que aqui estão devido à minha declaração descontraída, ele responde, com um sorriso no rosto. “Miller, eu sei que deveria saber, mas não sei”. Pronto! O gelo está quebrado! São onze horas. O prazo estipulado de 1h já se esgotou faz tempo e ainda estou argüindo. O meu amigo aluno está bem mais à vontade e seguro. Eu lhe fiz várias perguntas, todas elas tentando avaliar e, ao mesmo tempo, induzir a resposta. Ele parece feliz. “Estou satisfeito. Mais uma vez parabéns pelo seu trabalho. Tenho certeza que o mestrado foi para você um período de amadurecimento, tanto pessoal como acadêmico. E é este amadurecimento o diploma que você levará daqui. Parabéns! Devolvo agora a palavra para o presidente da banca.” Ufa! Estou livre! Estou me sentindo mais tranqüilo, pois tenho a impressão de que eu soube lidar com o nervosismo do aluno e extrair dele o conhecimento que era preciso para aquele momento. Mas será que é só impressão? “Obrigado, professor Miller, pela brilhante argüição”, diz o presidente da banca. Sinto então um peso enorme abandonar meus ombros. Uma alegria enorme toma conta de mim, mas tenho que me conter, pois a cerimônia ainda não terminou. Ah, como eu queria ter asas neste momento...

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