domingo, 4 de junho de 2006

Memórias de um almoxarife - parte 4

Trabalhar aqui no almoxarifado não tem sido nada fácil. Além do cansaço que sinto por ficar estudando até altas horas da madrugada, há muito serviço a ser feito. Todo mundo aqui tem se desdobrado, mas estamos chegando à conclusão que somos poucos para a quantidade de serviço que temos que fazer. Para trabalhar aqui no balcão, contrataram o José Luís. Trata-se de um homem muito magro (o Edvaldo o chama de “seco”), cuja idade aparenta aproximar-se dos 40 anos. Antes de trabalhar aqui conosco, lembro-me que ele trabalhava na Compeças, junto com o Henrique. O papai comprava muitas peças lá naquela loja, mas parece que decretaram falência da empresa. O José Luís tem sido um bom colega de trabalho. Sempre sorridente e muito humilde, ele não tem vergonha de perguntar quando não sabe. Estamos nos dando muito bem. Além disso, adora tirar um sarro na moçada. O Danilo, que havia sido contratado para trabalhar com o Jaime lá no recebimento, agora está trabalhando conosco aqui no balcão de atendimento. Não sei bem o que ele andou aprontando por lá, mas deve ter feito alguma besteira e acabou levando uns “ganchos” (assim chamamos as suspensões) e sendo transferido aqui para o balcão. Com isso, estamos em quatro pessoas aqui e o Jaime voltou a ficar sozinho lá no recebimento. Dias atrás a empresa contratou um rapaz para trabalhar com o Jaime. Seu nome é André. Ele é filho de um ex-administrador aqui da empresa. Nós somos quase vizinhos. Quando éramos moleques, brincávamos juntos aqui na nossa rua. Apesar disso, poucas vezes eu tive oportunidade de ir à casa dele, pois a família dele é bem mais provida em termos financeiros que a minha. Isso fica evidente, por exemplo, na maneira de nos vestirmos. Eu visto calça jeans. Aliás, tenho apenas duas. Normalmente eu trabalho com a mesma calça uns dois dias seguidos. Eu costumo usar um jaleco azul para evitar que as coxas se sujem demais. Já o André... Ele chega todo dia muito bem perfumado, calçando botina de couro (ou seria botas?) e camisas de manga comprida. Caramba, eu não tenho nenhuma dessas camisas, nem pra sair aos sábados... Todos aqui no setor tem achado o André muito quieto e “metido”. Eu já percebi que o Jaime está de olho nele, talvez para “batizá-lo”, como fez com o Danilo. Eu acho melhor o André ficar esperto... São 11h30min. Acabei de retornar do almoço. Como uso fazer de costume, pego os papelões (na verdade, são pedaços de caixas velhas, onde as mercadorias vêm embaladas) e os sacos de limpeza e dirijo-me ao corredor que fica entre as prateleiras S e T. Eu forro o chão, que deve ter uns dois dedos de poeira, e acomodo os sacos para que eu possa deitar-me de barriga para cima. Não é nada confortável dormir nesta posição, mas o que é que eu posso fazer? Depois do “batismo” do Danilo, eu decidi tomar todas as precauções para não ser o próximo “afilhado”. Ouço alguns passos. Alguém está se aproximando. É o André. “Tonhão, eu posso deitar nesse corredor aí?”, pergunta ele, também demonstrando a intenção de tirar um cochilo pós-almoço. “Claro, fique à vontade”, respondo. Ele, então improvisa um forro e se deita, também de barriga para cima. No entanto, noto que ele retirou suas botinas. “Cara, eu tenho um calor nos pés!”, justifica ele. Por mim tudo bem. Eu só espero que ele não se arrependa, pois aquelas duas botinas soltas pelo corredor são um prato feio pras brincadeiras que o Jaime sabe fazer. São 12h. O sinal da oficina bate, comunicando aos desavidados que é hora de voltarem ao trabalho. Eu fico deitado, como que imobilizado pela preguiça e pelo cansaço. Nem sequer abrir os olhos eu abri. Enquanto isso, ouço o André se levantar do papelão. “Tonhão, cadê as minhas botinas?”, braveja o André, achando eu sou culpado pelo desaparecimento de suas botas. “Sei lá, André. Eu acordei depois de você”, respondo. Ao olhar para os pés dele, avisto meias branquíssimas. Ainda deitado, consigo identificar, por trás das prateleiras, o Jaime, o Edvaldo e o José Luís rindo. “Mas o que é isso?”, braveja novamente o André, com um bilhete nas mãos. Mais que depressa, eu me levanto e pergunto o que está acontecendo. Ele, então, me mostra o bilhete, onde está escrito mais ou menos assim: “Seu palhaço metido, suas botinas estão na H-26”. Ouço, então, as risadas vindas de trás das prateleiras se intensificarem. Quase não acreditando no que estou vendo, avisto o André sair caminhando pelo Almoxarifado de meias brancas, tem busca de suas botinas. oDe repente, outro grito de nervosismo. “Caralho! Cadê as minhas botinas?”, grita ele, já puto da vida. Eis que lá vem o André novamente, andando de meias brancas, sem as botas, andando pelos corredores empoeirados do almoxarifado. Ele parece ter outro bilhete nas mãos, mas desta vez caminha para outra prateleira. Chegando lá, outro grito. “Que desgraça! Cadê a minha botina?”. Os risos se intensificam. Pra falar a verdade, até eu estou rindo. E o André... Bom, acho que ele é o único que não tem motivos pra rir neste momento. E lá segue ele, caminhando de meias brancas pelos corredores empoeirados do almoxarifado, com o novo bilhete nas mãos. A meia dele já era. Acho que ele vai demorar um tempo para descobrir que as botinas dele estão dentro do cesto de lixo. Este é, enfim, o batismo dele. André, seja bem vindo ao Almoxarifado Agrícola!

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