terça-feira, 13 de junho de 2006

Memórias de um almoxarife - parte 5

Já ouvi alguém dizer, ou li em algum lugar, que a gente nem sempre faz tudo o que gosta, mas que é necessário gostar daquilo que a gente faz. Não há, no momento, uma frase melhor para explicar o que sinto. Com o Danilo e o José Luís trabalhando no balcão, eu acabei sendo “premiado” para trabalhar com o Jaime no recebimento. Não, o problema não é trabalhar com o Jaime (que, aliás, é um colega de serviço e tanto!) e sim lidar com as notas fiscais. É preciso conferir as mercadorias em tempo hábil, para que as notas sejam encaminhadas ao setor financeiro para que possam ser pagas dentro do prazo. E isso, convenhamos, não tem sido uma tarefa das mais fáceis. Mas tenho que me acostumar. Afinal, preciso do dinheiro deste emprego para poder terminar minha graduação. Com o Edvaldo sobrecarregado com os pedidos de estoque e com os mais urgentes, que chegam a todo instante em suas mãos, a codificação e a digitação das notas fiscais também passaram a ser função do setor de recebimento. Na verdade, esta tarefa ficou mesmo para o Jaime, já que eu, para evitar tamanha responsabilidade, prefiro conferir as mercadorias e colocá-las nas prateleiras. Para conferir as mercadorias, basta comparar as especificações do pedido com a mercadoria que foi enviada pelo fornecedor. Alguns fornecedores fornecem peças de qualidade inferior, mas que ainda assim são rotuladas por eles como “originais”. Outros fornecedores fornecem as peças “genuínas”, que são realmente originais e vêm acondicionadas em embalagens que contêm o símbolo da marca (por exemplo, Scania, Massey Ferguson, Caterpilar etc.). As peças de reposição genuínas são geralmente enviadas por fornecedores autorizados e dificilmente são equivocadas. Eis que há alguns meses atrás chegou ao nosso almoxarifado uma peça cadastrada em nosso estoque como “cubo da roda da enleiradeira de palha DMB”, seguido do número de catálogo. Contudo, o fornecedor havia enviado o “braço da roda da enleiradeira de palha DMB”. Conforme os procedimentos da empresa, fui até o setor de compras conversar com o comprador responsável – o Rogério, que é genro do dono da empresa. Muito gentilmente, o Rogério ligou até o fornecedor, que nos esclareceu que a peça que nos foi enviada corresponde ao número que consta em nosso cadastro, e não ao nome. Em resumo: o código de nosso cadastro não correspondia ao cubo da roda, e sim ao braço. Diante deste erro que há tempos constava em nosso cadastro, o Rogério disse que a devolução não poderia ser feita, pois o erro era “nosso” (no caso, do nosso cadastro). Ao chegar no Almoxarifado, troquei imediatamente o código do cadastro no pedido, para que o Jaime pudesse dar a entrada da mercadoria no estoque no código correto. Foi numa quarta-feira, 16 h. Faltavam apenas 1 h para terminar o expediente quando o Joãozinho me chamou e disse que o Alceu queria conversar comigo na sala do Edvaldo. O Alceu era, nada mais nada menos, do que o nosso superior direto. Aquilo me trouxe um mau pressnetimento, pois nas poucas vezes que nos vimos, trocamos apenas cumprimentos breves, porém nenhuma palavra. O que eu sei sobre ele vem da boca de outros funcionários. Dizem que ele é muito ríspido com as palavras (beirando a “falta de educação”) e que não aceita erros de seus subordinados. Corre pelos "bastidores" que em uma conversa informal, ele havia dito a um de seus colegas: “Trabalho para o Dr. Luís (o dono da empresa) há quase 25 anos. Neste período, perdi mais ou menos umas vinte amizades, porém estou em um cargo que me satisfaz e ganho um salário que tme satisfaz.” É lógico que eu fiquei muito assustado quando me contarem esta história, mas eu preferi pensar que aquilo era uma "lorota" e procurei ver na pessoa do Alceu uma pessoa alegre e bem-humorada, de quem nós podemos exigir melhorias para o setor do Almoxarifado. Mas o Alceu que estava ali diante de mim não estava sorrindo. Aquele homem de cabelo curto, rosto vermelho de sol, a barriga projetada à frente e incontida dentro das calças, vestindo uma branca com listras pretas na vertical, com um ar de quem estava se contendo para não explodir, mostrou-me uma nota fiscal e exigiu explicações. “Tõim, me explica o que é que está acontecendo com esta nota." Desconhecendo do que se tratava, eu analisei a nota e dentro de 2 min dei a resposta. Esclareci que nossas especificações de estoque estavam equivocadas e tivemos que “engolir” esta peça. Sua expressão, então, endureceu ainda mais. Veemente e exaltado, em tom agressivo e cada vez mais vermelho, ele dá um soco de punho fechado na mesa e dispara: “Se você quiser, fique com esta peça, pode levar. Coloque-a na sua bicicleta, no seu carrinho de “rolemã” ou onde quiser. Mas eu não quero nem saber. Para mim ela não “serve’”. Amanhã eu não quero mais ver esta peça aqui na empresa, você está me entendendo?"
Assustado e muito triste, eu assistia aquele homem de origem humilde, a quem eu estava aprendendo a admirar, a dar provas concretas de que o que diziam sobre ele tinha fundamento. Cabisbaixo e abatido, eu saí da sala disposto a sumir com aquela maldita peça antes que ela me custasse o meu emprego...
(to be continued...)

Um comentário:

Márcio Roberto do Prado disse...

Ahá! Você repetiu aqui o “parte 4” que já estava no post de 4 de junho, né não? “Parte 5”, meu caro, e que venha logo a “parte 6”…

Abração do

Márcio Roberto do Prado

P.S.: Brincadeira o “puxão de orelha”, Antônio! Tava só enchendo o saco pra ter a chance de repetir que este é um grande blog! Fui!