quinta-feira, 15 de junho de 2006

O livro de nossas vidas não aceita rascunho

Acordei hoje às 8h. Não me recordo da última vez que acordei tão bem disposto. “Hoje o artigo das dicetopiperazinas sai”, pensei. Certo, eu estava de bem com a vida. A inspiração divina certamente estava comigo. Mas... “Filho, vamos lá ver a vovó Lourdes?”, convidou o papai. “Putz, faz quase dois meses que eu não vou visitar a vovó...”, lamentei. E lá fomos nós! Certo, eu não sou um bom neto. Aliás, qualquer neto que more na mesma cidade que seus avós e não vai visitá-los pelo menos nos finais de semana está longe de ser um bom neto. Neste estágio da minha vida, a minha ausência da casa de meus avós paternos me causa muita vergonha. Por que há tanto tempo me ausentei da casa da vovó? Será falta de tempo? Não, a história não é tão simples como pode parecer. Para abreviar o relato dos fatos, e para não transformar este espaço em “lavação de roupa suja”, limitar-me-ei a dizer que houve um grande desgaste na amizade entre meu pai e seus irmãos desde que a vovó Lourdes adoeceu. O clima entre os irmãos é tenso. Abraçando as dores do meu pai, ainda que inconscientemente, eu imagino que tenha me afastado de lá para não presenciar outras discussões, no meio das quais eu tomaria as dores de meu pai e aumentaria, assim, o clima de guerra e entre os membros desta família. Quando abri o portão, notei que havia coisas ali que estavam muito diferentes em relação à última vez que ali estive. O jardim estava repleto de rosas, algumas de cachos, mas a grama havia desaparecido completamente (ou talvez morrido por causa da falta de água.). Sentei-me então ao lado do vovô, pedi-lhe a bênção e perguntei como ele estava. A pergunta, obviamente, faz parte do manual, já que estou a par de alguns de seus problemas de saúde, como efizema pulmonar e labirintite. Ainda assim, ele disse que parte dos efeitos da labirintite havia passado. Aproveitando o embalo, comecei a contar-lhe as últimas novas sobre nossos parentes de Cambira-PR. Senti um certo ar de satisfação na forma como ele olhou para mim. Parecia estar sentindo falta de algo que eu acabara de proporcionar-lhe. A vovó estava dormindo quando chegamos. Quando acordou, por volta das 9h30min, chamou a Sílvia (a moça que toma conta dela) e disse que queria levantar-se. Após alguns minutos, a vovó apareceu à porta do quarto, apoiada no ombro da Sílvia. Após vê-la sentar-se no sofá e pedir-lhe a bênção, senti um aperto no peito. Decidi, então, que precisava tomar um pouco de ar, o que fez-me sair em direção à porta da cozinha, rumo à varanda. Em poucos minutos eu lamentei ter tomado tal decisão... Na cozinha, dentro dos armários, estavam escondidas as panelas que a vovó tanto estima. Quantas vezes ela não usou aquelas panelas para cozinhar aquele macarrão com carne que ela tanto sabia fazer... Sobre a mesa, onde sempre ficavam as bolachas Mabel que ela sempre me oferecia, havia apenas uma camada espessa de poeira e de restos de queimada de cana, típicos desta época, traduzindo um certo abandono. No fundo do quintal, onde o vovô guarda as peças de caminhão e os pneus, notei que ainda estava tudo ali, como ele deixou da última vez que mexeu. Tentei ser forte para conter as lágrimas, mas uma delas escorreu-me até a metade da face, onde foi interrompida pela manga da camisa. Acho que o medo daquela sensação horrível que me abateu naquele momento era, na verdade, o grande motivo da minha ausência da casa da vovó Lourdes. Lembrei-me então de uma frase que o papai disse uma vez e que gerou uma discussão amigável entre nós dois: “Quando a gente fica velho, a gente vira boneco na mão dos outros. Todo mundo faz o que quiser com a gente. A gente não manda mais nada!” Antes que as previsões tristes que aquilo me trouxe pudessem abater-me, enxuguei o olho e voltei para a sala. Lá estavam o vovô e a vovó. O papai conversava com alguns primos que ali estavam, longe dos meus avós... “Engraçado, né, vovõ? Tantas pessoas aqui na casa de vocês e só eu é quem estou aqui perto neste momento... Onde estão os outros? Eles não vêm aqui para ver a senhora e o senhor?” Comecei, então, a contar do quanto estou trabalhando e da construção de minha casa. Sentada no sofá, praticamente estática, a vovó agarrou minha mão com força e deu um “meio-sorriso”, já que o movimento de seus lábios parecia não ser mais controlado por sua própria vontade. Aquele sorriso acabou salvando minha última manhã com 29 anos. Eu, que acordei hoje tão alegre, vou agora dormir chorando Putz, e o artigo que eu precisava escrever? Bom, vai ter que ficar pra depois. Há artigos, muito mais urgentes, que precisam ser escritos no livro de nossas vidas já na forma definitiva, pois não há como fazer um rascunho. Cá estou, postando neste blog uma das linhas de minha vida. Tive que digitá-las, pois as lágrimas poderiam manchar aquilo que eu porventura tivesse escrito. Acordei sorrindo, dormirei chorando...

2 comentários:

Márcio Roberto do Prado disse...

Grande Antônio, salve!


Olha, belíssimo post, amigo! Muita sensibilidade para captar a essência do momento, realmente. Concordo com você quando fala dos artigos a serem escritos no livro da vida e de como esses não esperam que os passemos a limpo. Mas, freqüentemente, temos uma pontinha de esperança que possamos reescrevê-los, especialmente quando o resultado não nos agrada, não é mesmo? Assim, não deixa de ser simbólico o fato de este post ter saído duplicado aqui no “Narrativas”. Um lapso freudiano que parece reproduzir esse anseio de “fazer de novo”, se possível para melhor. Curioso, né?

Abração do

Márcio

P.S.: Parabéns pra você, nesta data querida!... Eita! 30? Hmmm, acho que agora vou ter que te chamar de “Tio” ou “Seu Antônio”, né não? Brincadeira, Tonhão! Felicidades, sucesso e saúde, amigo. Espero outras trincas de décadas nas quais você possa continuar sendo o grande cara que você é. Abração de novo.

Antonio E. M. Crotti disse...

Meu grande amigo Márcio,
Como sempre, suas análises são brilhantes! De fato, houve um deslize de minha parte ao postar duas vezes o mesmo post. Por causa do sono (sempre digito os posts durante as madrugadas...), cometi vários erros de ortografia e de digitação. Conforme você disse, há sempre a intenção de se fazer o melhor. É uma pena que na vida, refletida no nosso "narrativas", nós não possamos fazer o mesmo. Caso fosse, poderíamos apagar (ou mesmo reescrever) vários posts de nossa vida e fazer um "blog" totalmente diferente!
Abração pra ti, meu amigo parisiense-tupiniquim!
Antônio Eduardo Miller Crotti