sábado, 17 de junho de 2006

Plantio direto

Já é tarde. O relógio aqui no canto do monitor acusa 1h36min. Estou cansado e amanhã tenho que acordar cedo para as aulas como voluntário lá no colégio. Ainda assim, tentarei escrever algumas linhas para me lembrar deste dia tão marcante em minha vida. Hoje completei três décadas de existência. Ao som de Caribbean Blue, da Enya, começo a pensar que estou na metade da minha vida útil. Por isso, não posso perder tempo. E é por isso que eu estou aqui, renunciando a alguns minutos de sono, para fazer algo que tanto me dá prazer: escrever. Muitos odeiam escrever; eu gosto. Vários colegas professores detestam a profissão e dizem que a trocaria por qualquer cargo público atrás de um balcão ou de uma mesa; eu não deixaria de ser professor por nada neste mundo! Ser diferente dos outros não me torna melhor ou pior do que eles. Torna-me apenas diferente. Eu sinto prazer e realização na maioria das coisas que eu faço. Acho que este sentimento vem do fato de não me sentir obrigado a ser como as outras pessoas. Cada vez mais eu me sinto eu mesmo! Acho que eu acabei encontrando minha felicidade naquilo que tanto me incomodava na adolescência: ser diferente!
1h52min. Lá dentro todos estão dormindo. Não apenas a mamãe e o papai, mas também a Fia (minha irmã) e a Clarinha, minha querida afilhada. É bom tê-las aqui conosco, mesmo que por poucos dias. É uma boa oportunidade para relembrar os velhos e bons tempos em que elas moravam aqui. e para se ter a doce ilusão de que o tempo pode voltar... Mas o tempo não volta nem tampouco estaciona. Parece que foi ontem que eu andava com a Clara pelo quintal, chacoalhando-a no colo para que ela parasse de chorar. Passou-se algum tempo e fui agraciado com uma segunda afilhada, a Bianca. E parece que foi ontem que nós fomos a Uberaba para batizá-la... Hoje ela está com um ano e seis meses e já fala de tudo! Meu Deus! Eu estou mesmo ficando velho...
Certa vez, o papai usou usou uma comparação muito válida. Ele disse que na vida nós somos como uma lavoura de cultivo direto. Neste tipo de cultivo, após a colheita, não se remexe a terra; planta-se em cima da antiga lavoura. Na ocasião, ele disse que se sentia como a velha plantação, que está fornecendo a colheita, enquanto a nova plantação (no caso, eu) está brotando. Enquanto uma vai morrendo, a outra vai crescendo. Eu estou tentando espalhar minhas sementes, para que elas possam brotar em breve. Tenho me preocupado muito no sentido de poder oferecer a minha plantação - a minha vida - para o maior número de pessoas possível. Hoje, no meu aniversário de número 30, a minha maior felicidade foi ver que as sementes que eu espalhei ao longo da minha vida, estão dando bons frutos. Foram mais de 100 mensagens no Orkut, muitas delas vindas de pessoas que eu não pensei que fossem se lembrar de mim. Amigos de infância, colegas de almoxarifado, colegas de faculdade, de tiro-de-guerra (até o próprio sargento!), amigos de pós-graduação, alunos, ex-alunos, primos e primas, colegas lá do colégio, alguns que conheci através deste blog (olha você aí, Márcio!) A todos o meu muito obrigado! O meu maior presente que eu poderia receber foi a sensação de ser especial na vida de alguém. Que esta felicidade que agora sinto, às 2h16min, possa estar comigo durante a segunda metade de minha vida útil, para que eu possa ser realmente útil na vida de alguém...

4 comentários:

michelleandro disse...

"Plantio direto"!

É fabuloso ler escrituras de um professor que nem no ramo literário se encontra mas, apenas ser "eu", ou seja, ele ser ele, isso é ser, isso é viver.
Eu (aluno) não poderia jamais deixar de fazer um comentário a um texto maduro, escrito com experiência e feito com amor, já que ele reserva a magia de viver:O tempo!
30 anos, quanta vida vivida.
Ser especial é ser amado.E nossos antepassados serão sim um pequeno reflexo de nós, o presente momento, dizer que se és agora a colheita é uma performace interessante, já que o que se plantou está se colhendo.Que orgulho deve ser para um pai ler o que está escrito aí em cima de feito por seu filho, honra e mérito!Mas... sempre será esforço dele!
O nome "Plantio direto" é uma filosofia, como qualquer frase boba, só basta ser analisada e vista de suas variadas formas.Plantar-se e plantar-se e, colher!

Caro Eduardo saiba que você merece ser lembrado por todos que, de alguma forma teve a oportunidade de conviver contigo.Que bom que eu posso e poderei...
Não o vejo mais como professor e nem em sala de aula, talvez isso seja ruim, o vejo como meu amigo, companheiro.Acredito que é desse laço que nós temos que se falta no mundo comtempôraneo.
Dizer que se foi e se teve tempo perdido é uma irregularidade, tudo tem seu TEMPO!
Dizer que se foi "velho" quando se tinha que ser "novo" não é inormalidade, ao contrário, é ser "EU", é ser humano e principalmente a Evolução!
É fazer o que se tem que fazer ao presente instante do tempo.
Não olhe para trás com arrependimento.OLhe com Orgulho!!!

Simplismente Parabéns pela pessoa que és e, pelos seus anos de vida sendo o "Eu", sendo "Eduardo", sendo você mesmo a qualquer dia, hora e momento.
"A vida é sua mas o mundo é nosso!"E desse mundo compartilho com você meu presente que és meu ombro amigo a todo instante que jamais parará!
Abraços e como sempre finalizo com isso:
muita LUZ!!!sempre...eis o sue lema, o meu e o do sol!
Brilhar!

Márcio Roberto do Prado disse...

Tio Antônio (tô brincando! tô brincando!),

Olha, conforme eu já disse inúmeras vezes, o “Narrativas” me ajuda a refletir sobre o Tempo. E isso não é fácil. Não apenas porque o assunto é duro, sujeito a polêmicas e repleto de desafios críticos. É isso, mas é muito mais que isso. Refletir sobre o Tempo é difícil porque nos coloca diante de nossa própria mortalidade. E, ô coisinha chata esse nosso destino. Depois de nascer, sofrer, crescer, sofrer, lutar, sofrer, envelhecer, sofrer e, de vez em quando, sorrir, ainda temos que encarar a prova do túmulo. E não é nada bom, apesar do paradoxo. Paradoxo? Claro. Em meio a tanto sofrimento, a Morte deveria ser um alívio, não outra dor. Mas… Como, então? Por que essa contradição? Apenas para reforçar um fado masoquista? Non, mon ami! Parece que a resposta está em algo mais sutil.

Para explicar, uma historieta de meus dezoito anos que começa quando eu era guri (prometo não cansá-lo até a morte, nem mesmo até o sono!!!). Aos oito ou nove anos, eu era chamado por meus irmãos mais novos e pelas crianças pequenas do bairro onde nasci pelo simpático apelido de “Tatá”. Bem, esse apelido servia como uma espécie de marca temporal capaz de me separar, etariamente falando, de uma quase outra e nova geração. O “Tatá” viera antes: ele comandava as brincadeiras e pegava a fatia do bolo que vinha com pedaço de morango. Bom, vantagens da prioridade temporal. Contudo, o tempo passou, brincadeiras ficaram para trás, os bolos menos doces, e eu cresci. Cresci mas, apesar de sentir seu cheiro no ar, não tinha a experiência direta e quase táctil do Tempo. Até um dia em que, passeando à toa nos arredores do bairro da minha infância, vi uma moça beeeem bonita passando do outro lado da rua. Troquei de calçada, passei a mão no cabelo e preparei a cantada, mas, quando cruzei com ela, veio o tiro fatal:

- Ei, Tatá, o que você está fazendo?

Amigo, eu me senti como o próprio tio da Sukita. O pobre Matusalém aqui sorriu amarelo, fez uma brincadeirinha inocente, disse tchau. Só faltou dar a bênção e acrescentar: “até logo, minha netinha”. Era uma daquelas crianças menores, a quem eu já havia dado colo, que se transformara, de repente, em uma mulher, em “gente grande”. Apesar do abalo, acabei rindo de minha própria desgraça. Ok, ok, um sorrisinho meio tímido e deslocado, mas verdadeiro. E foi aí que eu senti o Tempo fisicamente. Ele tinha cheiro, claro. Mas também cor, peso, textura. O Tempo estava lá, como um antigo mito grego, como um pai severo e faminto. Gemi pensando que, no futuro, o prato do dia seria eu. Mas, vendo a moça que afastava, aquela que, tão indelicadamente, havia crescido sem pedir licença, vi também a nossa teimosia em desafiar esse pai. Ela era vida, vida jovem e indomável. Vida. E bastava.

Lembrei de algo que o Paulo Leminski escreveu (letra de música, se não me engano). Nunca acho o poema para copiar direito, então cito, aqui, de memória. Perdoe-me por eventuais erros de pontuação e imprecisões com relação ao original, mas ele ilustra bem demais o que eu estou tentando dizer para que não tente reproduzi-lo:

dois namorados
olhando o céu
chegam à mesma conclusão
mesmo que a terra
não passe da próxima guerra
mesmo assim valeu

valeu
encharcar este planeta de suor
valeu
encarar esta vida que podia ser melhor
valeu
esquecer as coisas que eu sei de cor

valeu
valeu

Bem, é alguma coisa assim. Ora, Antônio, aí está o motivo de espernearmos diante da Morte, apesar da Dor. Sorrir de vez em quando, eu disse acima. É, é de vez em quando, mas vale. Quando chegar a minha hora, quando a Dor pegar o chapéu e preparar o último ato antes de ir embora, quero olhar para trás e dizer isso: “valeu”. Então, a despeito do Tempo, apesar de qualquer sonho pavoroso de Goya, terei justificado minha existência aos meus olhos. O universo, após isso, pode dissolver-se em trevas assustadoras ou em luz incrível. Não importa.

Valeu.


Bá, meu velho (não estou zoando com seu aniversário, juro!), era isso. Coisas que o “Narrativas” me faz pensar.

Abração do seu amigo

Márcio

Cristine disse...

Olá Antonio!

Encontrei o endereço do seu blog não lembro aonde no Orkut .. hehehe
Gostei dos textos .. é diferente um professor de Química que gosta de escrever .. e isso é muito bom tbm! =)

Ah, e parabéns, mesmo que seja um pouco atrasado!

Pode mandar um e-mail para cris.kemi@gmail.com, caso queira responder a este recado meio estranho (digo estranho pq eu estou me sentindo a estranha aqui .. nem te conheço e já venho aqui meter o bedelho aonde não fui chamada .. mas todo mundo que tem blog gosta de comentários .. então aqui estou .. afinal não custa nada, não é? rs)

Ótima semana para vc, beijos.

Márcio Roberto do Prado disse...

Tonhão, amigão, salve !

Opa, parece que o negócio aqui quer ficar disputado, então resolvi emendar mais um comentário. Ah, muuuitcho obrigado por suas gentis (e exageradas!!!) palavras no e-mail. Quanto à escolha das vagas, realmente eu estava daquele jeito, embora, como o Obélix, eu prefira dizer que estava “desenvolvido”, ou então “forte”… Bem, enfim, é mentira que eu estava gordo, como é mentira que o Ronaldo está gordo, como é mentira que o Lula bebe, iac, iac!

Quanto aos motivos que me levam a gostar do “Narrativas”, sem dúvida, podemos citar a identificação. Mas tem muito, muito mais. Bá, onde é que eu vou achar um cara que escreva tão bem, com um texto tão cativante e que ainda por cima saiba que o fungo endofítico VA17, em simpática associação com a não menos simpática Viguiera arenaria, pode produzir, tcham, tcham, tcham, tcham… As ainda mais simpáticas dicetopiperazinas!!! Há, meu velho, isso nem no umbigo do camisa nove da seleção!!!

Abração do

Márcio