segunda-feira, 5 de junho de 2006

Quando amanhã pode ser tarde demais

(carta escrita em 30/03/05; noite em que meu pai foi submetido a uma cirurgia para remoção de um câncer maligno no rim direito).
Querido papai, A última coisa que eu queria neste momento era estar escrevendo esta carta, mas, tendo-a escrito, o que mais desejo neste mundo é que o senhor possa lê-la. De alguma forma, sei que o senhor está sentindo o nosso sofrimento e angústia neste momento tão difícil para todos nós, mesmo estando há quilômetros de distância. Não sabemos onde o senhor está neste momento nem tampouco qual é o seu estado de saúde. A apreensão que toma conta de nós neste momento é indescritível. A Fia acaba de ouvir a voz do senhor chamando por ela, como se fosse um mau presságio do que possa estar por acontecer. Eu disse que poderia ter alguém lá fora e pedi-lhe para fechar a porta. Tentei demonstrar uma calma que, de súbito, sumiu quando eu senti um vazio dentro do peito. Agora, neste momento, em frente ao computador, as lágrimas brotam dos olhos e eu não consigo contê-las. Talvez o mais sensato neste momento fosse rezar e dormir, mas estou com muito medo da notícia que vão nos dar amanhã de manhã. Não consigo ordenar meus pensamentos, está tudo muito confuso na minha cabeça. E choro, apenas choro, e vou digitando o que me vem à cabeça, na tentativa de que eu desmaie quando estiver, enfim, vencido pelo sono. Acho que disse ao senhor o quanto o senhor é importante na vida de todos nós, em particular na minha. Sempre tive no senhor um modelo de honestidade e de força. Um homem sempre dedicado à família e aos filhos, sem qualquer luxo ou vaidade. Sempre trabalhou a vida inteira e desde que nascemos sempre fomos a razão da sua existência. Sinceramente, papai, nunca consegui imaginá-lo deitado em um leito de hospital, com a barriga raspada e com a mamãe chorando ao seu lado... Acho que é por isso que estou com tanto medo neste momento. Nunca achei que fosse passar por isso, mesmo sabendo que nesta vida tudo é possível. A verdade é que eu passo muito tempo na frente dessa merda de computador e tenho tirado pouco do meu tempo para conversar com o senhor. E agora se a gente não puder voltar a conversar??? E se eu não puder mais pegar o pegador de macarrão e ir brincar com o senhor? A rede está balançando, mas está vazia. Que falta o senhor faz roncando dentro dela... Que saudade dos gritos que o senhor dava conosco e com a mamãe... Mas eu sabia que, enquanto o senhor estivesse gritando é porque o senhor estava bem. Sempre foi assim, não é mesmo? O jeito bravo e alto de falar. Para mim o senhor nunca precisou falar duas vezes. Aliás, bastava olhar para eu ficar me borrando de medo, principalmente após aquela surra de corda que o senhor aplicou às minhas perdas e traseiro lá em Quirinópolis... Durante muito tempo eu condenava o senhor por ter me espancado daquele jeito, sem motivos mas, conversando com o senhor, eu entendi quais foram os verdadeiros motivos daquela surra. O mais engraçado é que, após colocar-me no lugar do senhor, eu lhe dei razão... Sempre gostei, desde criança, de ficar junto com o senhor. Uma das situações que mais me marcaram na adolescência foi aquele dia em que fomos quebrar cupins lá na fazenda da vovó, lá em Quirinópolis. Naquele dia eu senti que nós éramos grandes companheiros, um ajudando o outro. Mas o tempo foi passando e o senhor foi apenas dando ordens e eu, à medida que fui crescendo, fui começando a me afastar... O senhor não parecia querer ser mais meu companheiro e sim meu patrão... Mas sei que, algum dia, vou entender tudo isso, quando também for pai. É, papai, preciso lembrar-me destes momentos passados para distrair-me e tentar esquecer o presente. Até meus ouvidos estão entupidos, de tanto tentar conter o choro. Não posso chorar alto, pois a Fia vai ficar desesperada quando me vir nesta situação. Logo ela, que sempre me chamou de frio e calculista. O desespero dela vai ser imediato, por isso preciso ser forte. Papai, ainda tem muitas coisas que eu quero lhe falar, mas muitas delas são difíceis de se dizer pessoalmente. Que bosta, eu dou aula para mais de cinqüenta alunos em uma sala de aula e não consigo expor o quanto gosto do senhor... Eu recebo muitos e-mails dizendo que a gente deve dizer àqueles que bem queremos o quanto os amamos, mas eu sempre fico deixando isso para depois. E agora, papai, vejo-me traído pela minha arrogância e prepotência por ter deixado sempre para amanhã... E se eu não tiver mais como lhe dizer isso??? Meu Deus, de novo essa possibilidade sombria perturbando minha cabeça!!! Desculpa, papai, mas eu prefiro pensar que sábado o senhor e a mamãe estarão de volta e nós estaremos todos juntos e felizes novamente. E aí nós poderemos “mimar” o senhor nos próximos três meses. Não, papai, nós ainda tem que dar muita risada e vivermos muitas coisas juntos. Porque eu te amo, papai. E eu não conheço ninguém que chora quando fala do pai. Não conheço nenhum colega que tenha tido um pai tão marcante quanto o senhor é pra mim. E é por isso, papai, que eu preciso que o senhor volte para casa para dizer-lhe isso pessoalmente. Amanhã de manhã sei que receberemos uma boa notícia. Que o senhor acordou da anestesia e que está tudo bem. Vou rezar e pedir para que Deus espere mais um pouco e dê a todos nós uma segunda chance. Sei que Ele vai me ouvir. A gente se fala no sábado, papai. Eu amo muito o senhor e espero nunca mais ter que escrever isso com tantas lágrimas nos olhos, no rosto e no coração. Seu eterno filho, Dado

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