domingo, 30 de julho de 2006

A dor de um pai que perde seu filho

15h26min. Acabo de entrar em meu quarto. Há 50 min atrás eu estava em Franca, ministrando aulas na pós-graduação. Estou exausto. Caminho com o corpo projetado à frente, os ombros encolhidos. Preciso dormir. Sento na cama, tiro os sapatos. Neste momento, o papai aparece à porta do meu pequeno quarto. Bate uma mão contra a outra, esfrega as duas no rosto, passa os dedos entre os cabelos. “Filho do céu! O papai viu um carro que é perfeito pra você!”. Eu sei ao que ele se refere. A mamãe havia me prevenido do entusiasmo dele com relação a um carro que ele viu em uma revendedora de veículos aqui da cidade. Mesmo estando cansado, o entusiasmo do papai faz surgir um riso tímido, que não chega a expor meus dentes. “Papai, o senhor sabe que eu estou construindo a minha casa, e que esta é agora a minha grande prioridade. Não posso trocar o carro, não”, esclareço-lhe. “Filho, se você ver, você vai babar! Vamos lá ver o carro. O papai te leva lá, vamos!” Não tenho forças para isso. “Papai, eu vou dormir. Preciso descansar. Depois a gente vai lá, ta?” Meio que contrariado, ele vira as costas e se dirige à sala, onde passa boa parte do tempo assistindo televisão. Sem conseguir organizar meus pensamentos e sem dar muita importância ao que acabou de acontecer, eu forro o chão com um lençol e me deito, com as pernas para cima. Tenho dormido nesta posição por causa das dores na coluna. Por incrível que pareça, tenho observado que as dores estão desaparecendo aos poucos. Estendido pelo chão, eu fecho os olhos. Acordarei daqui a uns 40 min. 16h50min. Ao ouvir o barulho dos pingos da chuva contra as telhas, decidi dormir um pouco mais do que o previsto. Afinal, com chuva não vai haver o futebol das tardes de sábado. Ou será que vai? Com o ânimo renovado, projeto o tronco à frente e, após um rápido flexionar de joelhos, posiciono-me de pé. Calço os chinelos e dirijo-me ao portão. “Mamãe, eu vou lá ver se a turma vai jogar futebol, tá?”. Ao ter como resposta um simples movimento de pescoço, dirijo-me ao portão. Como de costume, o atrito do trinco com o portão devido à falta de graxa alerta que estou saindo. “Filho! Onde você vai?”, ouço, já na rua, a caminho da academia, o papai gritando por mim, lá de dentro de casa.... Mesmo com a quadra molhada, lá estão os colegas. Correm como se não houvesse nenhuma poça d’água dentro da quadra. “Tonhão, vai lá calçar um tênis!” Ao ver a animação deles, dou meia volta e retorno para casa. Minha presença é novamente acusada pelo ranger do trinco do portão. Lá vem o papai. “Filho, vamos lá ver o carro. Ele é do jeito que você sonhou!”, diz ele, com o entusiasmo aparentemente renovado. “Papai, mas eu não posso comprar ele agora. O senhor sabe qual é a minha situação. Estou gastando muito com a construção da casa. Nem o senhor eu estou podendo ajudar, dirá então trocar de carro...” “Mas eu não quero que você compre. É só pra ver. Filho, você precisa ver que carro ‘ajeitado’!” Enquanto ouço ele falar, abro a sacola onde ficam o tênis, a tornozeleira e a caneleira. A expressão do papai então endurece. “Aonde você vai?”, pergunta, como se já soubesse a resposta. “Vou jogar bola”, respondo. Sentado à cadeira, ele, que inicialmente estava sentado à ponta da cadeira, acomoda as costas e olha para o céu, com um olhar perdido. “É isso que um pai ganha. Eu te criei com tanto amor e você não tem nem um minuto pra mim. Quando eu era mais novo, quando a situação financeira aqui em casa era melhor, quando eu ainda mandava em vocês, aí sim você e sua irmã ligavam pra mim. Agora que não precisam mais de mim, meu destino é ficar jogado às traças. Isso é muito duro para um pai. Mas pode deixar. Você ainda vai ter um filho e sentir a mesma coisa que eu. Aí você vai ver o quanto é doloroso e vai se lembrar de seu velho pai”. Tentando demonstrar naturalidade, eu me dirijo até o portão. “Tchau, papai! Tchau, mamãe!”. Sigo então em direção à academia. Meus passos, entretanto, são curtos. Caminho olhando para o chão, tentando controlar a respiração. As palavras do papai transpassaram-me o coração. Sinto um nó na garganta. Olho então para o céu e ensaio uma pequena corrida até a academia. Está difícil conter as lágrimas... Neste momento, eu me sinto o pior dos seres humanos, o pior dos filhos da face da terra. Pior que isso: eu me sinto o mais egoísta. Paro, então, por um instante. Penso em voltar para trás, mas o meu egoísmo abafa qualquer tentativa de voltar atrás. Talvez eu esteja empolgado e iludido com o meu desempenho no sábado passado... Entro então em quadra. Os passes não saem, os chutes não vão em direção ao gol, os dribles são facilmente desarmados. “Tonhão, você ta feio hoje, hein?”, grita alguém, aludindo-se ao meu rendimento pífio... Após 50 min, eu volto para casa tão derrotado quanto a deixei. Na sala, o papai está sentado no sofá, apoiado à almofada. “Agora é tarde demais pra ver o carro, você não acha?” Tentando segurar as lágrimas, eu olho dentro dos olhos dele. Parecem estar úmidos também. Pego então em sua mão e ficamos nos olhando, sem dizer nada. Não é preciso. 1h21min. As palavras de meu pai ecoam como um sino em memória. “Um dia você terá um filho e sentir a mesma coisa que eu.” Perder os filhos para o mundo é talvez uma das feridas mais tristes de serem cicatrizadas no coração de um pai. À medida que crescem, passam a ter vidas próprias. Ao assistirem a independência de seus filhos, os pais custam acreditar que o tempo está passando. É difícil e doloroso aceitar que seus bebês estão se tornando homens. Egoístas, os filhos não conseguem dedicar um pouco de seu tempo aos seus pais. Suas vidas são, na opinião deles, prioridade. Minutos de atenção dedicados aos pais são, realmente, muito raros. Neste momento, penso no quanto eu preciso ser pai, para deixarmos de ser tão egoísta. E, claro, para sentir e entender esta dor que, certamente, fará brotar a solidão em meu coração e trará à tona as palavras tão tristes de mais um pai que irá perder seu filho para o mundo...

sábado, 22 de julho de 2006

Inimigo imortal

Tempo. Ah, o tempo... Ele de novo! Ainda não aprendi a lidar com ele. Parece-me um inimigo imbatível, para o qual sempre perco a guerra. Sempre. No final, ele sempre vence. Sua estratégia é simples: vai minando nossas forças, pouco a pouco. Algumas vezes é certeiro: abate-nos em cheio, levando-nos a saúde e a alegria. Em outras tantas, o tempo é desleal: não nos atinge diretamente, mas sim aos nossos entes queridos e amigos. Leva a saúde deles e, não raramente, os tira do campo de batalha. Quando não temos pessoas próximas, a quem amamos, ele as coloca em nossa vida, para, obviamente, tirá-las mais tarde e fazer-nos sofrer. É um plano inteligente, porém muito cruel. Ficaria satisfeito se conseguisse vencer algumas batalhas, mas minhas armas não têm funcionado muito bem... É o caso da minha irmã, por exemplo. Até os quatro anos de idade, eu era um menino muito solitário. Então Deus trouxe minha irmã e o tempo colocou-a em minha vida. Eu não estava mais sozinho. Desde então inúmeras foram as brigas e discussões. Embora sejamos irmãos, nunca soubemos compreender-nos um ao outro. Ainda assim, nos divertimos muitas vezes. Bichinhos de pelúcia, vôlei, xadrez, banco imobiliário... Quando veio a maturidade, quando nós finalmente estávamos começando a querer entender as razões um do outro, o tempo desferiu um golpe duro: minha irmã se casou e se foi para Ribeirão. Quando estava conseguindo recuperar-me, o tempo resolveu apelar e colocou a Clara em minha vida. Não apenas minha sobrinha, mas também minha afilhada. As duas, minha irmã e ela, voltaram para casa. Era só uma preparação para um golpe mais duro, que viria pouco mais de um ano depois: o tempo agora levou embora as duas para Cosmópolis, a 300 km daqui...

Quando começo a me acostumar com a dor, o tempo traz as duas de volta, para relembrar quão importante é a presença das duas em minha vida. Mas em pouco mais de uma semana percebo que tudo não passou de mais uma estratégia do tempo, e as duas se vão novamente... Ontem o tempo fez uso de um dos golpes mais duros e desleais: deixou nossa casa cheia, para hoje esvaziá-la. Trouxe-me de volta, de longe, minha querida afilhada Bianca. Encheu a casa de doçura, proporcionou-me uma tarde inesquecível.

Hoje estamos apenas eu e o papai. Ele, deitado no sofá, eu aqui no meu pequeno quarto, ouvindo Enya. Estou sozinho novamente, com dores nas costas (maldito tempo, está levando minha saúde também!), aguardando o próximo golpe...

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Passado sempre presente

Este não é o mundo que sonhei. Após 30 anos de existência, afirmo que este mundo é muito diferente daquele que eu via quando era criança. Naquela época, eu imaginava que o mundo fosse repleto de lugares verdes, como se fosse um enorme jardim. Pensava que as árvores pudessem viver em harmonia com o homem e que não precisassem ser arrancadas. Naquele tempo, os lugares onde havia asfalto, energia elétrica, água e esgoto eram raros. Para mim, o mar não passava de um grande rio, cujas ondas se movimentavam com maior intensidade. No ambiente em que eu vivia, as pessoas se relacionavam de forma amigável e respeitosa. Eu não via maldade em nenhuma delas. Eu passava a maior parte do tempo com o papai. Tinha tempo de sobra para brincar, mas não tinha amigos para brincar comigo. Tínhamos um Fusca velho e morávamos numa casa sem forro. Esperávamos, ansiosos, por um futuro melhor. Pois bem. O futuro chegou. Boa parte do verde das matas daquela época já desapareceu. O jardim que eu imaginava não existe. Há apenas enormes florestas de pedra e cimento. Hoje a energia elétrica, água e esgoto são fartos para muitos, mas uma grande parte ainda não tem sequer o que comer. O mar está se tornando, sim, um grande rio, onde são despejadas toneladas e mais toneladas de esgoto. As pessoas se relacionam de maneira cada vez mais fria e, embora pareçam próximas por causa da internet, estão cada vez mais distantes fisicamente. Falta respeito e amizade entre elas. A falsidade predomina nos relacionamentos inter-pessoais, na maioria das vezes movidos por interesses. Há muitas pessoas maldosas, mal-intencionadas, egoístas, egocêntricas e extremamente individualistas. Embora estejam próximas de nós, nem sempre somos capazes de identificá-las... Cada um pensa apenas em si próprio e não consegue enxergar o sofrimento de seus semelhantes.
Hoje tenho pouco tempo para ficar com o papai, a mamãe, meus avós, minha família... Ainda não encontrei os amigos de minha idade que tanto procurei para brincar e jogar conversa fora. Temos um carro mais novo, mas sempre pensamos que vamos precisar vendê-lo para pagar as contas. Ao contrário do que ocorria na infância, não temos esperança em um mundo melhor. Nosso maior sonho é que o passado possa voltar algum dia. Hoje olhamos para o passado, saudosos, com o peito apertado e com um nó na garganta, entristecidos pela sensação de que éramos felizes e não sabíamos. Este, sem dúvida, não é o mundo que eu sonhei, mas é o mundo em que tenho que aprender a sonhar novamente...

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Fotos do dia em que voltei a ter 19 anos

Autoridades passando em revista à tropa. Da esquerda para a direita: prefeita Maria Helena Borges Vanucchi (diretora do tiro-de-guerra), tenente Fernando, capitão Enock (de branco), sargento Lélis e capitão Paulo Alves.
Dois atiradores, um só nome de guerra: primo Gustavo (o Crotti de 2004) e eu (o Crotti de 1995).

O maestro e eu: o amigo Juninho, que rege a fanfarra do tiro-de-guerra desde os tempos em qu eu era atirador...

Irmãos guerreiros: Araújo (atirador 12), Honório (atirador 33) e eu (atirador 11).

Relembrando os velhos tempos: Araújo, tenente Fernando (nosso eterno "sargento"), eu e Nunes (atirador 38)

Prestando homenagem ao tenente Fernando pelos serviços prestados ao nosso tiro-de-guerra. Que honra a minha!

Entrega da placa de homenagem ao "sargento" Fernando: homenagem mais que merecida a um grande homem e amigo.

domingo, 16 de julho de 2006

Não só de pão vive o homem...

Eu não imaginaria que estaria aqui 11 anos depois. No final de 1995, as lágrimas brotavam só de lembrar que tudo tinha terminado. A partir daquele momento, tinha certeza que só restariam recordações, mas eu havia decidido que deveria distanciar me deste lugar, pois as lembranças ressurgiriam, deixando-me saudoso, emocionado e triste. As paredes ainda são verdes, como se esperaria de um ambiente militar. No centro da quadra, uma enorme bandeira do Brasil encontra-se pintada em cores bem vivas. O antigo banheiro, cujo forro antigamente caía sobre nossas cabeças, agora é um grande e moderno vestiário. A prancha de educação física foi substituída por um belo palanque. Em sua frente, um pequeno gramado, com os dizeres: “TG 02-065”. Seria bom que as diferenças parassem por aí, mas as mais dolorosas eu só notaria segundos depois: o chefe da instrução não é mais o sargento Fernando, e sim o sargento Lélis, e a turma por ele instruída não contém nenhum dos camaradas que eu conheci há 11 anos...

Vestindo a antiga calça do abrigo de educação física e a camisa contendo o nome de todos os atiradores da turma de 1995, eu adentrei o tiro-de-guerra com um aperto no peito e um nó na garganta. Logo avisto o vovô, que está conversando com um dos ex-instrutores que passaram pelo nosso TG. Cumprimento-o e sigo ao lado do meu primo Gustavo, também ex-atirador, em direção às cadeiras. Após alguns minutos, a cerimônia tem início. Os atiradores executam alguns movimentos simples com armas (como nós costumávamos fazer nos velos tempos), muito bem executados, por sinal, sendo sucedidos por uma série de homenagens aos ex-instrutores aqui presentes, dentre eles o 2º. sargento Paulo Alves (hoje capitão), o 2º. sargento Enock (hoje capitão), o 2º. sargento Pianca (hoje capitão), o 1º. Sargento Cássio (hoje subtenente) e... o 1º. Sargento Fernando (hoje tenente). Terminadas as formalidades, vejo o sargento Lélis tomar o microfone em suas mãos e convidar os ex-atiradores para marcharem com a tropa. “Não acredito no que estou ouvindo!”, penso comigo mesmo. Ele repete mais uma, duas vezes. Talvez não somente eu não estivesse querendo acreditar que aquilo fosse verdade. Mas era. Meu coração dispara. Sigo então para a frente do 1º. Pelotão, juntamente com quase uma centena de ex-atiradores de todas as idades. “Tem alguém aí da turma de 1969?”, pergunta um dos ex-atiradores. “Não, eles estão todos internados!”, responde alguém. Estamos todos rindo. O sargento Lélis posiciona-se à nossa frente. “Tiro-de-guerra, sentido!”, brada, com voz de comando. Ouvimos então uma batida no tambor. “Ordinário, marche!” A fanfarra começa a tocar. Projeto então a perna à frente e bato o pé esquerdo, depois o pé direito. As mãos, com os dedos unidos, rasgam novamente o ar. Estou marchando! São pouco mais de 30 metros de marcha, mas são suficientes para despertar um sorriso largo no rosto de todos que aqui estão. Aplausos para a iniciativa! Passam-se alguns minutos e a demonstração da ordem unida começa. Detalhe: sem comando algum! As cenas que meus olhos observam são impressionantes. Durante cerca de 10 minutos os 50 atiradores marcham de um lado para o outro, de forma sincronizada. Às vezes o pelotão, na forma de retângulo, se divide em dois outros retângulos menores. Às vezes se dividem em quatro. Aos que assistem, a sensação de que os atiradores vão trombar com os outros é constante, porém indevida. A apresentação é impecável, digna de palmas. “Vocês fizeram uma apresentação 99,9%. Podem melhorar”, diz o sargento Lélis. Fazia 11 anos que não ouvia esta frase... Após alguns segundos, segue-se a demonstração de desmontagem do fuzil. Era uma das minhas especialidades! Eis que, após a cerimônia, o sargento surpreende a todos. “Algum ex-atirador quer desmontar o fuzil?”. Meu coração dispara novamente. Eu me levanto, já com a frase feita: “Desde que eu não tenha que disputar com ninguém, eu topo”, digo ao sargento. Minha frase foi intencional, pois eu sabia que o tenente Fernando, nosso chefe da instrução, havia comentado ao sargento Lélis que eu era o mais rápido na desmontagem de armamento que ele já tinha visto. Certo. Eu realmente desmontava em 12 ou 13 segundos, atingindo uma marca recorde de 10 segundos. Mas isso faz 11 anos! Nos minutos que se sucedem, o mundo parece parar. Meus ouvidos parecem ter ensurdecido. Não há nada ao meu redor. Só existimos eu e o fuzil, e por ironia do destino, nós já não somos tão íntimos como antigamente... Terminada a demonstração, sigo em direção ao sargento Lélis para agradecer-lhe a oportunidade de realizar dois sonhos que vinham me acompanhando há 11 anos. Mas algo está errado. Percebo que ex-atiradores estão em turmas. Onde está a minha turma, a de 1995? Não vejo ninguém! Sou então abatido por uma grande tristeza e decepção. “Eles vão apenas ao churrasco”, penso. No churrasco, promovido em comemoração aos 60 anos do “nosso” tiro-de-guerra, apenas 5 atiradores da nossa turma: Araújo, Crotti (eu), Honório, Nunes e Martins. Meu Deus! Onde estarão os outros 55? Será que não puderam vir ou terão dado pouca importância ao evento? Fico então lembrando que nestes 11 anos que se passaram desde que terminamos o tiro-de-guerra, nossa turma jamais se reuniu. Mais um motivo de tristeza... Enquanto isso, lá em cima do palanque, segue-se uma série de homenagens aos ex-instrutores. Solicitam ex-atiradores voluntários para entregarem uma placa em homenagem aos seus respectivos chefes de instrução. Eis que ouço o “sargento” Fernando (hoje tenente) chamar-me pelo nome. Sim, sou eu quem vai lhe entregar a placa! Caramba, que honra! E o coração volta a bater acelerado novamente... Já em nossas mesas, a carne, enfim, aparece! Carne, mandioca e pão. Não é um grande cardápio, eu sei. Mas... minha alma já está alimentada e satisfeita com todas as emoções vividas por hoje. Um sentimento divino toma conta de mim. Algo que não sei explicar, mas que eu senti apenas quando tinha 19 anos. Por um dia, 11 anos depois, eu sinto novamente a sensação de ser um atirador. Ah, como é bom sentir-se jovem novamente... Obrigado, Senhor!

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Crônica 4 - Quando a vida imita a arte

Já era tarde da noite. Os dois estavam se arriscando muito ao estarem juntos naquele lugar. Deviam ser breves nas palavras, mas, ao invés disso, o silêncio predominava entre os dois. Não disseram nenhuma palavra desde que entraram naquele barzinho, onde costumavam se encontrar na adolescência. Talvez as palavras fosses desnecessárias. A troca de olhares era tão intensa que um parecia saber o que o outro estava pensando. Enquanto se olhavam, seus capuccinos iam esfriando em suas mãos, mas isso era o que menos importava naquele momento. Na face de ambos não havia nenhum vestígio de sorriso. Nenhum músculo, nenhuma expressão. Estavam sérios. Aquele ambiente talvez não fosse o mais apropriado para aquela situação. Afinal, todas as lembranças dos bons tempos em que foram namorados pareciam vir à tona ao inalarem aquele cheiro forte de capuccino e ao ouvirem MPB. Tudo aquilo trazia recordações especiais. Muito, muito especiais para ambos. Eles se conheceram no colégio. Ele era de família rica, proprietária de centenas de alqueires em propriedades naquela região. Seu pai era advogado, sua mãe era estilista. Já ela era de família muito humilde. O pai cortava cana, a mãe apanhava laranjas. Mal tinham o que comer. Não fosse o uniforme e ela sequer teria roupas para ir à escola. Mas as diferenças entre eles não paravam por aí. Ele era muito vaidoso; andava sempre muito bem vestido e perfumado. Ela não tinha muita vaidade e, mesmo que a tivesse, de pouco lhe adiantaria, pois o pouco dinheiro que entrava em casa era para comprar comida. Ele falava muito bem. Já ela tinha pouca afinidade com as palavras. Falava alto e cometia muitos erros na fala. Ele a via como uma caipira desengonçada, ela o enxergava como um “filhinho de papai” desprezível e arrogante. Eram como água e vinho, como óleo e água. Quando um chegava, o outro saía. Na adolescência, quando tinham 15 anos, o destino pregou-lhes uma peça que mudaria para sempre suas vidas. A professora de Artes escolheu-os para formarem o par romântico em “Romeu e Julieta”. Ele oferecia o que Romeu mais precisava: o domínio com as palavras. Já ela era a Julieta perfeita: inocente e pura em essência, embora um pouco desajeitada. Ele era pura razão, ela era movida pela emoção. No início, ele recusou o papel, alegando que jamais se apaixonaria por alguém tão desengonçada. Ela, por sua vez, rebateu que jamais faria uma cena amorosa com uma marionete como ele. A professora interveio e lhes explicou-lhes, por meio de alguns ‘safanões’, que se tratava apenas de uma peça teatral, e que a vida não precisava imitar a arte. A contragosto, ambos ensaiaram várias e várias vezes todas as cenas, com exceção de uma: a do beijo. “Na hora a gente vê o que faz”, pensavam consigo mesmos. No dia da apresentação, o teatro da cidade estava completamente lotado. Nem a professora imaginava que a peça conseguiria reunir um número tão grande de pessoas. Os pais dele estavam lá presentes; os dela não, pois não tinham como pagar o ingresso. Um pouco tensos, sob o olhar daquelas centenas de pessoas, os dois entraram no palco. Fizeram tudo conforme haviam ensaiado. Todos estavam admirados e emocionados. Àquela altura da peça, um único comentário ecoava na mente da platéia: “Eles formam um casal perfeito!”. Os pais dele também concordavam. “Ela é de que família?”, perguntou seu pai. “Nunca a vi antes nas reuniões da alta sociedade”, respondia sua mãe. “Que história mais triste, esta do Romeu e Julieta, né? Ainda bem que é apenas teatro”, comentou a mãe. Enfim chegou o momento tão esperado: a cena do beijo. Ele tomou-a nos braços, fixou seus olhos nos dela e... seus lábios se encontraram, sob o aplauso do público. Após um breve instante, seus lábios se separaram. Olharam-se novamente... e voltaram a se beijar. Um beijo longo, muito mais longo do que poderiam prever. A paixão deles começava ali. A partir daquele momento, ela passou a vê-lo como um rapaz romântico, gentil e educado. Ele, por sua vez, admirava-se com a inocência e com a pureza da moça. Eles realmente formavam um belo casal. Pareciam que tinham sido feitos um para o outro. Certo dia, ele resolveu contar sobre o seu namoro para os seus pais, que nutriam uma grande curiosidade sobre a origem da moça. Empolgado, ele contou toda a verdade aos seus pais. Imediatamente, uma decepção enorme tomou conta de seus pais. “Meu filho, onde você está com a cabeça? Você tem que se casar com uma mulher do seu nível social! Ela é uma “pé-rapada”! Você quer nos envergonhar perante a sociedade?” Três anos se passaram. Aos 18 anos de idade, ambos ainda sustentavam o namoro às escondidas. O amor entre eles era cada vez mais forte. Contudo, o fato de namorarem escondido ainda os incomodava. Tomaram, então, uma decisão: teriam um filho! “Meus pais terão que aceitar você. Afinal, você será a mãe do neto deles.” Após quatro meses, ele deu a notícia da gravidez aos seus pais. Contudo, sua alegria foi desaparecendo diante dos olhares de reprovação de seus pais. “Meu filho! Você tem um futuro brilhante pela frente! Quer estragá-lo? O que você quer que digamos?”. “Mãe, nós queremos nos casar”. A mãe começou a chorar, desesperada. “Filho, vamos conversar sobre isso em uma outra ocasião. Sua mãe está muito abalada”, pediu-lhe o pai. Desapontado, ele saiu da sala e deixou seus pais, até então desolados. Dois dias se passaram. Ela, para surpresa dele, havia desaparecido. Não teve notícias nem fazia idéia de onde poderia estar. Preocupado, ele ia ao barzinho onde ele lhe pagava um capuccino todas as manhãs, mas nem sinal dela. Após uma semana, ela apareceu. Estava abatida, pálida. A alegria que o fizera apaixonar-se por ela havia desaparecido de seu olhar. Ele se levantou e correu em direção a ela, para abraçá-la. “Meu amor, o que aconteceu?”, perguntou, preocupado. “Não me toque!”, disse ela, empurrando-o. “Diga-me: o que aconteceu? Você sumiu durante uma semana e nem deu sinal! Estava preocupado”. Ela sentou, escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar. “Há uma semana atrás, quatro homens invadiram nosso barraco e me seqüestraram. Fui lavada a uma clínica clandestina de aborto. Nosso filho não mais existe!” Deixando-se cair sobre a cadeira, boquiaberto, ele não sabia o que dizer. Não acreditava que seus pais pudessem ter feito aquilo com eles. Era o neto deles! “A partir de hoje, quero que se afaste de mim. Sou pobre, sua família não me aceita. Quero que faça um favor a nós e a eles: me esqueça!”. Chorando, levantou-se e foi embora. Passados 16 anos, os dois estavam novamente naquela mesma mesa, tomando um capuccino cada um. Ele acabou se casando com uma moça muito rica. Não teve filhos, pois ela era estéril. Contudo, sua esterilidade não a impediu de traí-lo incontáveis vezes. Seu dinheiro era usado para sustentar os amantes. Acabaram falindo. Com a baixa nos preços da soja e do milho, seus pais também faliram. Hoje eles moram em uma casa “meia água”, de fundos, alugada. Ele trabalha em uma loja de informática, como vendedor de suprimentos. Acabou não fazendo faculdade. Sua vaidade desaparecera e ele aparentava ser mais velho do que realmente era. Ela, por sua vez, terminou o ensino médio e conseguiu uma bolsa do Pró-UNE. Graduou-se em Educação Física. Abriu sua própria academia. Não apenas mais uma academia, mas a maior da cidade. Estava bem vestida, perfumada e maquiada. Tornou-se uma mulher linda e vaidosa, porém não se casou. Não conseguiu superar as marcas do aborto. Passados 16 anos, os dois se esbarraram no centro da cidade e, sem nada dizerem, voltaram para o lugar onde viveram os melhores momentos da adolescência. Na troca de olhares, ele a olhava com admiração; ela, por sua vez, o olhava com pena. Ela puxou a cadeira e levantou-se. Abriu a bolsa e deixou uma nota de R$50,00 em cima da mesa. Desta vez o capuccino era por conta dela. Deu meia-volta e saiu por aquela mesma porta por onde ele a perdeu há 16 anos atrás. O mundo dá muitas voltas. Talvez voltem a se encontrar novamente em alguma delas, talvez daqui a 16 anos.

domingo, 9 de julho de 2006

Crônica 3 - As voltas que o mundo dá

Francisco nascera em uma pequena cidade do interior de Goiás. Lá não havia crianças de sua idade. Só havia terra e muito, muito verde. Seu pai era um agricultor, muito trabalhador, que trabalhava pesado para conseguir sustentar a esposa e ele. Embora estivesse cercado de pessoas que o amassem e lhe oferecessem muito carinho e atenção, Francisco sempre se sentiu um menino muito sozinho e isolado do mundo. Mas esta solidão, que o transformaria em um adolescente muito tímido, durou quatro anos, até o nascimento de sua única irmã. Aos seis anos de idade, a família de Francisco mudou-se para o interior de São Paulo. Lá seu pai conseguiu um emprego de motorista e a mãe passou a fazer serviços domésticos. A família levava uma vida humilde, mas nada faltava a Francisco e à sua irmã. Ambos eram muito amados, tanto pelos pais como pelo restante da família. Na 1ª série da escola, Francisco era o aluno mais atrasado da turma.Todos os alunos de sua classe haviam feito pré-escola e sabiam ler e escrever. Francisco não sabia. Em casa, seu pai o pressionava. “Não quero nem saber de boletim com notas baixas. Se tiver nota baixa, vai apanhar”, ameaçava seu pai. Já muito novo, passou então a dedicar-se horas e horas estudando, para tentar se nivelar aos alunos de sua turma. Já no final do primeiro ano, ele já estava entre os alunos de melhor desempenho. Nos anos que se seguiram, Francisco demonstrou uma cerca dificuldade para fazer novas amizades. Muito tímido, ficava isolado dos demais alunos. Observava muito, falava pouco. E estudava muito. Aos 10 anos, ele reparou que seus colegas de classe estavam começando a se interessar por outras meninas. Neste período, Francisco experimentou sua primeira paixão. Por causa da timidez, ele nem chegou a se declarar. Por causa da discrição de Francisco, a pretendente nunca notou a sua presença. Curioso, perguntou ao seu pai por que as meninas ao se interessavam por ele. “Porque você é feio”, respondeu prontamente o pai, em tom de brincadeira. No entanto, Francisco ficou refletindo vários dias sobre a resposta de seu pai. Acabou concluindo que era mesmo feio. Aos 11 anos, na 5ª. Série, Francisco viu seus amigos de turma mudarem para outras classes. Francisco notou que precisaria se tornar um rapaz mais falante se realmente quisesse fazer novas amizades. Certo dia, em um caminho de volta para casa, ele se aproximou de um colega de classe que morava perto de sua casa. Pensou que aquela poderia ser uma boa oportunidade para conquistar um amigo. “Não quero conversa com você. Você está se aproximando de mim só porque eu moro naquele sobrado ali”. Francisco retraiu-se novamente e assim permaneceria durante os anos que se seguiriam. Aos 12 anos, o pai de Francisco notou um erro em sua postura. O médico diagnosticou escoliose, que provavelmente foi fruto das horas e horas de estudo. Aos 14 anos, passou a usar óculos, pois sua visão à distância já não era mais a mesma. Apesar de “corcunda” e “míope”, Francisco era o melhor aluno de sua turma. Era também o mais tímido e o único de sua turma que ainda não tinha namorada. Nesta idade, Francisco aprendeu a escrever versos. Começou então a escrevê-los e a enviá-los para uma menina loira, dois anos mais nova. Cada dia ele escrevia um verso e pedia para um amigo entregá-los para ela. Após um certo tempo, ele decidiu que já era hora de se declarar. Roubou um botão de rosa do jardim de sua avó e nele amarrou um bilhete. Tomou coragem e foi entregá-lo pessoalmente na casa da menina. Quando tocou a campainha e a menina saiu ao portão, as palavras sumiram. Ele apenas entregou o botão de rosa e deu um sorriso tímido. A moça, com o botão de rosas em mãos, disse-lhe friamente. “Você está fazendo papel de bobo. Pare com isso. Eu não gosto de você”. Muito triste, Francisco deu-lhe as costas e saiu, quieto, da mesma forma que chegou. “É porque sou feio”, concluiu. A adolescência foi particularmente difícil para Francisco. Além de sentir-se feio, corcunda e míope, surgiram-lhe cravos e espinhas por todo o corpo. Até o fato de ser o aluno mais estudioso da escola acabou sendo um peso para ele, que acabou sendo tachado de “louco”, por ser muito tímido, sério e introspectivo. As moças só se aproximavam dele para pedir explicações da matéria. No auge dos 15 anos, Francisco era alvo de chacota de todos os colegas. As moças que ele paquerava sequer notavam a sua existência ou, quando muito, o ignoravam. Em casa, o pai de Francisco passou a exigir muito dele. Queria que fosse sempre o melhor, que fosse o mais esperto e que, sobretudo, fosse o mais namorador. Mas ele era lento, pois costumava fazer devagar as coisas que seu pai pedia, para que ficassem bem feitas. Além disso, por causa da timidez, ele abaixava os olhos quando passava alguma moça em frente à sua casa. “Moleque desgraçado! Não gosta de mulher!”, bravejava seu pai, com a intenção de fazer com que Francisco paquerasse. Até com um Fusca seu pai lhe presenteou para facilitar que ele “pegasse uns filés”, como dizia ele. Em vão. Aos 19 anos, Francisco foi selecionado para servir o exército. “Com essa lerdeza, o sargento vai te chutar a canela todos os dias! É bom assim você fica mais esperto!”, dizia seu pai. Neste mesmo ano, ele ingressou na universidade, no curso de Engenharia Elétrica. Como estava desempregado, quem pagava seu curso era sua tia materna. Feio, louco, desempregado, corcunda e míope, Francisco conheceu Darlene, que era irmã de um de seus companheiros de tiro-de-guerra. Era uma moça incrivelmente linda, simpática e educada. Seus olhos e seu sorriso eram lindos! Estava apaixonado. Para sua sorte, havia algo em Darlene que deixava Francisco à vontade, de forma que ele pôde expor a ela a sua forma de ver a vida. “Você é muito bem-humorado”, dizia ela. No dia em que começaram a namorar, Francisco passou a noite em claro. Não conseguia acreditar que estava namorando! Os anos se passaram. Francisco formou-se e conseguiu um emprego em uma empresa multinacional. Trocou os óculos por lentes de contato e mudou seu estilo de se vestir. Passou a nadar quase todos os dias e adquiriu um físico impecável. Muito unidos, ele e sua namorada construíram uma linda casa. “Meu filho, você é o meu orgulho!”, dizia seu pai. Certo dia, já com a data de seu casamento definida, Francisco caminhava pelas ruas do centro da cidade quando sentiu uma mão segurar-lhe pelo braço. “Oi, Francisco, tudo bem? Há quanto tempo, hein?” Era a moça loira que Francisco paquerava na infância. “Nossa, como você está diferente. Que charme! Sabia que eu nunca tinha reparado que você era tão bonito?”, disse ela, toda insinuante. “Pois eu sempre reparei em você, desde que te conheço...” “Sério?”, respondeu ela, entre suspiros. “... mas eu nunca pude perceber o quanto você é falsa e fingida”. Francisco deu-lhe as costas e saiu, com um sorriso de canto de boca.

sábado, 8 de julho de 2006

As coisas sempre podem piorar

Quinta-feira, 6 de julho de 2006. O período de férias escolares está se aproximando, tanto na universidade como no ensino médio. Basta terminar de corrigir as provas da universidade e estarei “livre” (pelo menos na teoria...). Certo. Corrigir seis pacotes de provas, que somam mais ou menos umas 220 provas, parece brincadeira de criança. Mas não é. Pelo menos não para mim. Trata-se de um momento de muita tensão para este cidadão aqui, que desde o ensino médio almejou tornar-se professor. E não uso o termo “tensão” no sentido de “expectativa” ou de “curiosidade”, mas sim no sentido de nervosismo, ansiedade, angústia. Afinal, terei que avaliar os alunos através de seus desempenhos em uma prova escrita. Decorrem daí dois grandes problemas. Primeiro: eu sinto que, ao avaliar, estou também julgando, e eu sou da opinião de que não devo julgar ninguém. Sim, parece uma contradição: como um professor pode não querer avaliar? É isso mesmo. Eu não apenas detesto avaliar (é sinônimo de julgar!) como também acho injustos os critérios utilizados, que privilegiam unicamente o resultado final. Afinal, muitos alunos trabalham pesado e vão assistir às aulas cansados. Para estes, o simples fato de estar indo às aulas já é uma vitória. É, eu sei disso, mas infelizmente não há normas que permitam avaliar este esforço, que acaba sendo praticamente desconsiderado. O que se avalia é apenas o conhecimento adquirido. “Por que eu não posso usar um critério diferente?”, fico às vezes me perguntando, mas logo me vem à tona que eu sou parte de uma instituição onde há normas e procedimentos. Na condição de professor, eu sou apenas um funcionário, sou apenas uma engrenagem daquela grande máquina. Obviamente, se esta engrenagem aqui não quiser ser substituída, é preciso seguir as regras... Trocando em miúdos: eu sou FORÇADO a julgar, ou seja, sou FORÇADO a ir contra meus princípios. Isso, convenhamos, não é nada agradável. O segundo problema é a depressão que me abate neste período. Trata-se de um período em que o trabalho do professor acaba, de uma forma ou de outra, sendo avaliado através das notas dos alunos. Infelizmente, a disciplina que ministro na universidade, a tal da Química Orgânica, não é das mais simples. Todos os nossos colegas professores temem aquelas flechinhas indicando o movimento de elétrons de um lado para o outro durante uma reação química. Tenho me esforçado ao máximo para simplificar o conteúdo para os alunos. Dei-me o trabalho de preparar uma apostila, que foi muito elogiada pelos colegas professores. Todavia, o aproveitamento por parte dos alunos parece ter sido mínimo, talvez até se reduzido se comparado com o das turmas dos anos anteriores. Tenho uma forte impressão que a maioria deles não fez ou não cursou um bom ensino médio. Muitos devem ser vítimas da tal progressão continuada, que tanto combatemos no ensino médio. Há também uma outra grande parcela que ingressa no curso apenas para obter o diploma. Esses não estudam de forma alguma. Acham que merecem o diploma pelo simples fato de estarem pagando. Deus, que absurdo! Juro que gostaria de rir ao invés de ficar irritado. Pois bem. Inconscientemente (e infelizmente) eu acabo enxergando a falta de interesse e o mau desempenho dos alunos como se fosse um espelho. Em outras palavras, eu acabo chamando toda a responsabilidade para mim mesmo, como se eu fosse o grande culpado por todos os erros do sistema!!! Já corrigi dois pacotes de prova. Ainda faltam quatro... Eu os corrigirei hoje lá na faculdade. Já devidamente vestido e perfumado, eu adentro o meu quarto e sigo em direção à minha cama. Sobre ela repousa duas bolsas: uma delas contendo o computador de mão; na outra estão os pacotes de prova. Dou uma leve abaixada para pegar uma das bolsas e... Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiii!!!!! Que fisgada na coluna! Não consigo me mexer! Como dói!!! Malditos bicos-de-papagaio! Estão a bicar-me! Mal consigo ficar de pé. Tento girar o corpo para sentar-me na cama, mas não consigo. Pareço levar umas duas toneladas nas costas. A base da coluna está travada! Ah, não! De novo?!?!?! Tentando apoiar-me no guarda-roupa, vou me abaixando aos poucos, até deitar-me no chão, onde permaneço até a mamãe chegar. “Meu Deus do céu! Filho, o que aconteceu?”, diz ela, desesperada. “Calma, mamãe. Foi a coluna, que travou outra vez....” Da porta da cozinha, o papai observa, balançando a cabeça em sinal de desaprovação. “Xi, ta ficando velho mesmo, hein? Vamos lá na farmácia tomar uma injeção pra aliviar a dor.” É claro que eu sabia que não era ele quem ia me levar, e sim a mamãe. Apoiando em qualquer barranco que aparece pela frente, cá sigo em direção ao carro. Após muito malabarismo, consigo sentar no banco. Até aí tudo bem. O problema é puxar as pernas para dentro do carro. Um, dois, três e.... aaaaaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!! Putz, como isso dói! A mamãe segue pelas ruas da cidade em alta velocidade, sem se preocupar com quem apareça pela frente. Ela está muito preocupada comigo. Não se passam nem três minutos e já chegamos ao nosso destino. Já na farmácia, quem me atende é uma moça. “Moça, preciso de uma injeção pra coluna”, digo, meio que gemendo de dor. “Claro. O senhor pode ir para aquele quarto ali que eu já estou indo aplicar-lhe”. Dentro de um minuto a moça aparece com uma injeção enorme nas mãos. “Olha, essa injeção é doída. Vamos ter que aplicá-la nas nádegas”. “Pronto! Só faltava essa! Além de estar “travado”, ainda tenho que abaixar as calças pra levar uma agulhada! Meu Deus! Que humilhação! Agora não falta mais nada!”, penso, indignado. Triste engano. Eu já devia ter aprendido que as coisas sempre podem piorar... A moça “ajeita” a área, passa um algodão com álcool e.... uuuuuuuuuuuiii!!! O líquido da injeção penetra nas veias como se fosse chumbo! Mas... Sem querer acreditar, ouço a moça se queixando:”Vixi, o líquido da seringa empedrou. Vamos ter que aplicar outra injeção na outra nádega.” Mama mia! Parem o mundo; eu quero descer! Agora deitado de lado, presencio a mesma cerimônia de preparação. E... “Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiii!!!! Caramba! Desta vez parece que doeu mais! Nossa! O conteúdo da injeção não acaba mais????!!!”, queixo-me com a moça, que continua a empurrar o êmbolo da seringa, rindo da situação. Terminada a “sessão tortura”, eu saio da farmácia arrastando as pernas. Se esta injeção vai realmente resolver o meu problema, eu realmente não sei. Sei apenas que a dor nas nádegas é tão grande que por um momento eu quase esqueci a dor na coluna. Deste jeito não vai ser nada fácil manter este sorriso aí da foto acima...

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Crônica 2 - Amizade: singular ou plural?

João não se lembrava de como conheceu Pedro. Isso, no entanto, pouco lhe importava. Aos 15 anos de idade, ele via Pedro como um grande amigo. Não apenas um grande amigo, mas o melhor amigo que ele tinha. Embora Pedro fosse três anos mais velho, ele o via como se fosse da mesma idade. Praticamente todas as tardes eram passadas na casa de Pedro. A mãe e o pai, dona Maria e seu Mário, gostavam muito desta idéia. Afinal, Pedro era o único filho que eles tinham. João era um rapaz muito tímido, mas a sua presença tornava a casa da família de Pedro mais alegre. Pedro, por outro lado, era um jovem alegre, sorridente e brincalhão. Enquanto estavam juntos, aqueles dois adolescentes sorriam praticamente todo o tempo. Quando jogavam xadrez, o objetivo não era exatamente capturar o rei, mas sim a rainha, tida por eles como a peça mais importante. Não raramente, o jogo se encerrava após a rainha de um ser capturada, pois o outro passava as mãos sobre as pedras que restaram, para dar início a um outro jogo. Algumas vezes, em tom de brincadeira, Pedro e João jogavam as peças do jogo um no outro. O pai de João, um homem experiente e muito sério, começou a ficar preocupado com seu filho. “Meu filho, esse rapaz não é seu amigo”. João ficava muito chateado e entristecido com a postura de seu pai, pois tinha certeza que ele estava enganado a respeito de Pedro. Com o passar dos meses, Pedro apaixonou-se por uma moça muito rica. Aos poucos, Pedro conseguiu fazer com que a moça se interessasse por ele. Os dois passaram a se encontrar todas as noites de sábado e às tardes de domingo, períodos que Pedro antes dividia com João. Mas João não se importava. Ele via que Pedro estava feliz, e como um grande amigo que era, sentia-se feliz por ver o amigo namorando. Apesar de ter durado poucas semanas, a paixão avassaladora deixou marcas profundas na alma de Pedro. Inconformado com a dor do amigo, João propôs a Pedro que enviassem uma carta à tal moça. E assim fizeram. O rapaz que entregou a carta disse aos dois que a moça foi lendo e derramando suas lágrimas sobre a carta. Era o bastante para os dois. “É isso aí!”, disse Pedro, apertando a mão de João, em tom de comemoração. Alguns meses depois, Pedro voltaria a se apaixonar, desta vez por uma moça pobre, porém muito inteligente, que estudava na mesma série escolar que ele. Pedro sabia que deveria ser um pouco menos brincalhão e mais romântico se quisesse chamar a atenção da tal moça. João então passou a escrever todas as suas redações, que eram lidas por Pedro em voz alta diante da classe. Assim que a moça passou a olhar para Pedro com olhos diferentes, João escreveu-lhe um lindo acróstico. Pedro decorou o acróstico e declarou-se para a moça, que o abraçou, emocionada. “Que lindo! Como você é especial!”. Os dois, enfim, começaram a namorar. Com o início do namoro, Pedro passou a preencher a maior parte de seu tempo com a sua companheira. João ficava meio sem jeito quando chegava na casa de Pedro e encontrava a namorada dele. Como amigo que era, ele preferia deixar os dois a sós. Certa vez, o pai de João, inconformado por ver o filho passar tanto tempo ao lado de Pedro, sugeriu-lhe que ele testasse a amizade de Pedro. “Filho, faz o seguinte: fica uns tempos sem ir à casa deste seu ‘amigo’. Vamos ver se ele vai se lembrar de você”. Certo de que seu pai estava equivocado, João passou dois meses sem ir à casa de Pedro. Neste período, não recebeu nenhum telefonema, nem visita, nem notícias de Pedro. “Eu não te falei?”, dizia seu pai. Preocupado com o que poderia ter acontecido com Pedro, João montou em sua bicicleta e dirigiu-se à casa de seu amigo. Quando lá chegou, deparou-se com ele, sentado em uma cadeira de balanço, sem camisa, sorrindo. “E aí, João, beleza? Você estava sumido!”, disse Pedro, com o tom de voz brincalhão de sempre. “O que aconteceu com você, Pedro? Está tudo bem?”, falou João, preocupado. “Claro! Nunca estive melhor! Por que a pergunta?”, respondeu Pedro. “Não foi nada, não”. A conversa prosseguiu, como se Pedro o tivesse visto há dois minutos. Mas João estava preocupado, pensativo. Não conseguindo aceitar que seu pai poderia estar certo, perguntou: “Pedro, qual é o seu melhor amigo?”. “Ora, meu melhor amigo é o Cláudio. Por que está perguntando?”. Como se uma espada tivesse atravessado seu coração, João baixou a cabeça e deixou Pedro falando sozinho. Nunca mais o procurou. Passaram-se quatro anos. Pedro não ligou, não mandou notícias nem tampouco foi à casa de João. Eis que, após este período, o telefone toca. “E aí, João, beleza? Rapaz, eu estava precisando de um favor seu...” A amizade é um substantivo no plural; sua existência requer, acima de tudo, reciprocidade. Neste mundo de pessoas tão individualistas e cada vez mais egoístas, quem encontra um amigo encontra um verdadeiro tesouro. Se quiser encontrar dois amigos de uma só vez, procure seus pais. Por mais duros e severos que pareçam, eles o trouxeram à vida. Ou será que algum de seus amigos faria isso por você? Quer prova de amizade e amor maior que esta?

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Crônica 1 - O perdedor bem-sucedido

Aquela não era a vida que José queria. Vivia em uma das favelas mais violentas de São Paulo. Morava em um cômodo de 10 m2, cujas paredes eram feitas de tábuas e de plásticos. Não havia forro. Quando chovia, tinha-se a impressão de que havia mais água dentro do cômodo do que fora dele. Lá ele morava com sua mãe e seus quatro irmãos, todos mais jovens que ele. Ele não conhecia o pai, assim como os demais irmãos também não. Eram todos filhos de uma mesma mãe, Valdirene, mas de pais diferentes. A mãe trabalhava pesado para sustentá-los, mas o salário de faxineira era insuficiente, de modo que preciava contar com a ajuda dos vizinhos para sobreviver. Apesar da situação difícil, ela nunca quis que seus filhos pedissem esmola. O sonho dela era que todos estudassem. Dentre eles, José era o que mais se destacava nos estudos. Nas reuniões na escola, Valdirene sempre ouvia elogios dos professores. Diziam que José era um menino brilhante e que teria um futuro muito promissor. Era um dos poucos orgulhos que ela tinha na vida. Mas José era um menino muito introspectivo. Às vezes sua mãe o surpreendia olhando para os prédios, que pareciam estar distantes não só fisicamente, mas também de sua realidade. No fundo, José queria estudar. Queria ser alguém na vida. Os alunos, seus colegas, zombavam dele. “Deixa de ser mané, rapá! Ou cê ta achando que vai ficar rico estudando nesse país?” Embora quisesse, José não respondia às provocações. Quanto mais zombavam dele, mais ele estudava. “É uma pena que você estude em escola pública. Do contrário, teria condições de ingressar em uma universidade pública”, diziam os professores, todos em um mesmo discurso. Mas José não desanimava. Era o freqüentador mais assíduo da biblioteca de sua escola. Nos finais de semana, ia à escola para ter aulas de computação. Com o tempo, José foi crescendo. Aos poucos, foi se afastando dos colegas. A maioria deles acabou se envolvendo com o tráfico de drogas. Alguns haviam se afiliado ao PCC, outros se tornaram viciados que roubavam e matavam em troca de um trago. Aos poucos, José foi endurecendo seu coração. Não se interessava por mulheres, não se interessava por amigos, não se interessava por nenhum esporte. Apenas estudava. Os livros eram seus únicos amigos. José também ia crescendo intelectualmente. Era o melhor aluno da escola onde estudava. O que movia José era um objetivo muito nobre: “Vou ser alguém na vida, para ajudar minha mãe e meus irmãos”. Era esse pensamento que o mantinha vivo. Quando terminou o ensino fundamental, José foi convidado para estudar em uma escola privada. “Não gosto de burguês”, dizia. E assim seguiu, sempre estudando em uma escola estadual. Quando chegava em casa, José se isolava em um canto do cômodo onde morava para tentar estudar. E estudava. E como estudava! Os anos se passaram. José obteve uma das melhores colocações no vestibular para cursar Biologia na Unesp. “Quero ser professor”, dizia ele. Conseguiu algumas aulas para se sustentar e, em pouco tempo, era um dos professores de Biologia mais competentes de sua cidade. Começou a ganhar dinheiro. Em pouco tempo, comprou uma casa para sua mãe e começou a bancar os estudos dos irmãos. Aos poucos, José foi também se destacando como o melhor aluno de seu curso. Interessou-se pela pesquisa e acabou ingressando na área de Psicobiologia, como aluno de iniciação científica. No fim de seu curso, José recebeu menção honrosa. Foi aplaudido de pé por todos os alunos e professores. Não contente, José decidiu que queria continuar seus estudos. “Quero ser um doutor”, dizia. Na seleção, fora aprovado em primeiro lugar. A partir de então José começou a receber uma bolsa de estudos, cuja maior parte era enviada para sua família. Tudo o que ele quis estava acontecendo. Mas o sucesso, fruto de tanto esforço, parecia ter-lhe subido à cabeça. “É, eu sou bom. Eu sou o melhor”. De fato, ele era. Ou melhor, quase era... Certo dia, José deparou-se com dois estudantes com quem morava na república. José adentrou a cozinha, batendo no peito e dizendo: “Estudem bastante. Um dia vocês serão como eu. Quem sabe cheguem onde eu cheguei... ha ha ha”. Dando uma risada, deixou os estudantes, entreolhando-se sem entenderem nada do que havia ocorrido. Por atitudes como esta, José passou a ser malvisto pelos colegas. “Todos vocês têm inveja de mim”, gabava-se. Nesta vida, não há disputas, não há melhores, não há piores. Há apenas pessoas que conseguem mais sucesso que outras. Mas nem sempre ter sucesso significa ser um vencedor.

sábado, 1 de julho de 2006

Verde e amarelo

São 18h. Lá fora, os vizinhos começam a queimar os foguetes que compraram para comemorar a vitória da seleção brasileira sobre a França. Contudo, o motivo não é a alegria, e sim a decepção que veio com a derrota. É, mais uma vez a nossa seleção canarinho ficou a ver navios diante da França, frustrando as esperanças de mais de 180 milhões de brasileiros de conseguir o hexacampeonato. É claro que ninguém é obrigado a vencer sempre. Aliás, eu nem acho que isso é justo. Quando jogo futebol, por exemplo, eu não me importo de perder, desde que meu time tenha condições de competir de igual para igual, com todo mundo dando o sangue e se doando em função de um objetivo em comum: a vitória. Todos juntos, como uma equipe. Na condição de zagueiro, posição que tive que assumir em virtude da pouca habilidade com a bola (ao invés de construir jogadas, minha função é destruí-las...), meu lema passou a ser “muita raça e pouca técnica”, com um estilo parecido com o do volante Dunga, que foi tetracampeão em 1994. Nunca fui bom, mas sempre fiz o melhor que pude dentro das quatro linhas. Nem sempre foi possível vencer, mas isso evidentemente faz parte do jogo. Pois bem. Hoje, no jogo Brasil x França, o que se viu foi uma seleção apática. Jogadores consagrados no futebol mundial, como Kaká, Cafu, Juninho, Gilberto Silva e Ronaldinho Gaúcho (este último eleito o melhor jogador do mundo nos últimos dois anos), assistiam ao passeio da França em campo. Isso é o que nos irrita! A movimentação do time foi horrível! O treinador, um tal de Carlos Alberto Parreira, assistia àquela apresentação vergonhosa sem demonstrar qualquer preocupação. Nem mesmo alterar o time ele conseguiu, exceto aos 35 min da segunda etapa (nossa, que esperto, hein???!!!) Enquanto isso, na arquibancada, os brasileiros gritavam “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, na tentativa de trazer empolgação àqueles jogadores. Uma frase tão difícil de ser dita pelos brasileiros em tempos normais, e agora aparece em vão... As bandeiras verde-amarelas irão, aos poucos, desaparecer. As camisas amarelas e os calções azuis deixarão de fazer parte do vestuário do brasileiro. Nesta semana, tudo voltará ao normal. De verde e amarelo mesmo só restarão as copas das mangueiras. Aproveitemos enquanto elas também ainda não se renderam e não desapareceram da paisagem...