sábado, 8 de julho de 2006

As coisas sempre podem piorar

Quinta-feira, 6 de julho de 2006. O período de férias escolares está se aproximando, tanto na universidade como no ensino médio. Basta terminar de corrigir as provas da universidade e estarei “livre” (pelo menos na teoria...). Certo. Corrigir seis pacotes de provas, que somam mais ou menos umas 220 provas, parece brincadeira de criança. Mas não é. Pelo menos não para mim. Trata-se de um momento de muita tensão para este cidadão aqui, que desde o ensino médio almejou tornar-se professor. E não uso o termo “tensão” no sentido de “expectativa” ou de “curiosidade”, mas sim no sentido de nervosismo, ansiedade, angústia. Afinal, terei que avaliar os alunos através de seus desempenhos em uma prova escrita. Decorrem daí dois grandes problemas. Primeiro: eu sinto que, ao avaliar, estou também julgando, e eu sou da opinião de que não devo julgar ninguém. Sim, parece uma contradição: como um professor pode não querer avaliar? É isso mesmo. Eu não apenas detesto avaliar (é sinônimo de julgar!) como também acho injustos os critérios utilizados, que privilegiam unicamente o resultado final. Afinal, muitos alunos trabalham pesado e vão assistir às aulas cansados. Para estes, o simples fato de estar indo às aulas já é uma vitória. É, eu sei disso, mas infelizmente não há normas que permitam avaliar este esforço, que acaba sendo praticamente desconsiderado. O que se avalia é apenas o conhecimento adquirido. “Por que eu não posso usar um critério diferente?”, fico às vezes me perguntando, mas logo me vem à tona que eu sou parte de uma instituição onde há normas e procedimentos. Na condição de professor, eu sou apenas um funcionário, sou apenas uma engrenagem daquela grande máquina. Obviamente, se esta engrenagem aqui não quiser ser substituída, é preciso seguir as regras... Trocando em miúdos: eu sou FORÇADO a julgar, ou seja, sou FORÇADO a ir contra meus princípios. Isso, convenhamos, não é nada agradável. O segundo problema é a depressão que me abate neste período. Trata-se de um período em que o trabalho do professor acaba, de uma forma ou de outra, sendo avaliado através das notas dos alunos. Infelizmente, a disciplina que ministro na universidade, a tal da Química Orgânica, não é das mais simples. Todos os nossos colegas professores temem aquelas flechinhas indicando o movimento de elétrons de um lado para o outro durante uma reação química. Tenho me esforçado ao máximo para simplificar o conteúdo para os alunos. Dei-me o trabalho de preparar uma apostila, que foi muito elogiada pelos colegas professores. Todavia, o aproveitamento por parte dos alunos parece ter sido mínimo, talvez até se reduzido se comparado com o das turmas dos anos anteriores. Tenho uma forte impressão que a maioria deles não fez ou não cursou um bom ensino médio. Muitos devem ser vítimas da tal progressão continuada, que tanto combatemos no ensino médio. Há também uma outra grande parcela que ingressa no curso apenas para obter o diploma. Esses não estudam de forma alguma. Acham que merecem o diploma pelo simples fato de estarem pagando. Deus, que absurdo! Juro que gostaria de rir ao invés de ficar irritado. Pois bem. Inconscientemente (e infelizmente) eu acabo enxergando a falta de interesse e o mau desempenho dos alunos como se fosse um espelho. Em outras palavras, eu acabo chamando toda a responsabilidade para mim mesmo, como se eu fosse o grande culpado por todos os erros do sistema!!! Já corrigi dois pacotes de prova. Ainda faltam quatro... Eu os corrigirei hoje lá na faculdade. Já devidamente vestido e perfumado, eu adentro o meu quarto e sigo em direção à minha cama. Sobre ela repousa duas bolsas: uma delas contendo o computador de mão; na outra estão os pacotes de prova. Dou uma leve abaixada para pegar uma das bolsas e... Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiii!!!!! Que fisgada na coluna! Não consigo me mexer! Como dói!!! Malditos bicos-de-papagaio! Estão a bicar-me! Mal consigo ficar de pé. Tento girar o corpo para sentar-me na cama, mas não consigo. Pareço levar umas duas toneladas nas costas. A base da coluna está travada! Ah, não! De novo?!?!?! Tentando apoiar-me no guarda-roupa, vou me abaixando aos poucos, até deitar-me no chão, onde permaneço até a mamãe chegar. “Meu Deus do céu! Filho, o que aconteceu?”, diz ela, desesperada. “Calma, mamãe. Foi a coluna, que travou outra vez....” Da porta da cozinha, o papai observa, balançando a cabeça em sinal de desaprovação. “Xi, ta ficando velho mesmo, hein? Vamos lá na farmácia tomar uma injeção pra aliviar a dor.” É claro que eu sabia que não era ele quem ia me levar, e sim a mamãe. Apoiando em qualquer barranco que aparece pela frente, cá sigo em direção ao carro. Após muito malabarismo, consigo sentar no banco. Até aí tudo bem. O problema é puxar as pernas para dentro do carro. Um, dois, três e.... aaaaaaaaaaaaaaiiiiiiii!!!! Putz, como isso dói! A mamãe segue pelas ruas da cidade em alta velocidade, sem se preocupar com quem apareça pela frente. Ela está muito preocupada comigo. Não se passam nem três minutos e já chegamos ao nosso destino. Já na farmácia, quem me atende é uma moça. “Moça, preciso de uma injeção pra coluna”, digo, meio que gemendo de dor. “Claro. O senhor pode ir para aquele quarto ali que eu já estou indo aplicar-lhe”. Dentro de um minuto a moça aparece com uma injeção enorme nas mãos. “Olha, essa injeção é doída. Vamos ter que aplicá-la nas nádegas”. “Pronto! Só faltava essa! Além de estar “travado”, ainda tenho que abaixar as calças pra levar uma agulhada! Meu Deus! Que humilhação! Agora não falta mais nada!”, penso, indignado. Triste engano. Eu já devia ter aprendido que as coisas sempre podem piorar... A moça “ajeita” a área, passa um algodão com álcool e.... uuuuuuuuuuuiii!!! O líquido da injeção penetra nas veias como se fosse chumbo! Mas... Sem querer acreditar, ouço a moça se queixando:”Vixi, o líquido da seringa empedrou. Vamos ter que aplicar outra injeção na outra nádega.” Mama mia! Parem o mundo; eu quero descer! Agora deitado de lado, presencio a mesma cerimônia de preparação. E... “Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiii!!!! Caramba! Desta vez parece que doeu mais! Nossa! O conteúdo da injeção não acaba mais????!!!”, queixo-me com a moça, que continua a empurrar o êmbolo da seringa, rindo da situação. Terminada a “sessão tortura”, eu saio da farmácia arrastando as pernas. Se esta injeção vai realmente resolver o meu problema, eu realmente não sei. Sei apenas que a dor nas nádegas é tão grande que por um momento eu quase esqueci a dor na coluna. Deste jeito não vai ser nada fácil manter este sorriso aí da foto acima...

3 comentários:

cristine disse...

Aproveitou o final de semana para postar 2 textos? Que surpresa boa =)

Infelizmente suas preocupações são comuns .. vários professores que dão aula para nós reclamam do método de avaliação, e acabam inventando outras maneiras de definir a nota que o aluno merece. Tem nota de comportamento, lição de casa, trabalhos, seminários, etc .. mas no fundo, o que pesa mais é a prova mesmo porque está pagando merece passar de ano ..
E nem prestam atenção no que o professor fala durante a aula, só fazem a prova e rezam para tirar um 5 e passar direto ..

Aliás, professor que faz prova fácil para não ter aluno de recuperação é o que não falta ..

Quanto ao seu bico-de-papagaio, desejo melhoras!
(não tenho idéia do tamanho da dor que está sentindo/sentiu, mas deve ser terrível)

Beijos ^^

Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Cristine!
Por causa da coluna, fiquei "de molho" e postei dois textos.
Ainda vão inventar uma outra forma de se avaliar. No meu caso, eu sofro muito nesta época, não apenas por ODIAR corrigir provas (o único osso que preciso roer no ofício de professor!) mas pelo clima de terror e tensão que se cria.
Meus bicos-de-papagaio (é, são três, mais o desgaste nas vértebras cervicais!) dóem muito. Vou me tratar com afinco e logo voltarei à ativa como zagueiro titular da seleção brasileira!!!! :-)
Valeu pelo comentário!

LiLiK@ disse...

ê Miller, a lei de Murphy tbm andou perseguindo o sr ?
Boas ferias, viu? :D