segunda-feira, 3 de julho de 2006

Crônica 1 - O perdedor bem-sucedido

Aquela não era a vida que José queria. Vivia em uma das favelas mais violentas de São Paulo. Morava em um cômodo de 10 m2, cujas paredes eram feitas de tábuas e de plásticos. Não havia forro. Quando chovia, tinha-se a impressão de que havia mais água dentro do cômodo do que fora dele. Lá ele morava com sua mãe e seus quatro irmãos, todos mais jovens que ele. Ele não conhecia o pai, assim como os demais irmãos também não. Eram todos filhos de uma mesma mãe, Valdirene, mas de pais diferentes. A mãe trabalhava pesado para sustentá-los, mas o salário de faxineira era insuficiente, de modo que preciava contar com a ajuda dos vizinhos para sobreviver. Apesar da situação difícil, ela nunca quis que seus filhos pedissem esmola. O sonho dela era que todos estudassem. Dentre eles, José era o que mais se destacava nos estudos. Nas reuniões na escola, Valdirene sempre ouvia elogios dos professores. Diziam que José era um menino brilhante e que teria um futuro muito promissor. Era um dos poucos orgulhos que ela tinha na vida. Mas José era um menino muito introspectivo. Às vezes sua mãe o surpreendia olhando para os prédios, que pareciam estar distantes não só fisicamente, mas também de sua realidade. No fundo, José queria estudar. Queria ser alguém na vida. Os alunos, seus colegas, zombavam dele. “Deixa de ser mané, rapá! Ou cê ta achando que vai ficar rico estudando nesse país?” Embora quisesse, José não respondia às provocações. Quanto mais zombavam dele, mais ele estudava. “É uma pena que você estude em escola pública. Do contrário, teria condições de ingressar em uma universidade pública”, diziam os professores, todos em um mesmo discurso. Mas José não desanimava. Era o freqüentador mais assíduo da biblioteca de sua escola. Nos finais de semana, ia à escola para ter aulas de computação. Com o tempo, José foi crescendo. Aos poucos, foi se afastando dos colegas. A maioria deles acabou se envolvendo com o tráfico de drogas. Alguns haviam se afiliado ao PCC, outros se tornaram viciados que roubavam e matavam em troca de um trago. Aos poucos, José foi endurecendo seu coração. Não se interessava por mulheres, não se interessava por amigos, não se interessava por nenhum esporte. Apenas estudava. Os livros eram seus únicos amigos. José também ia crescendo intelectualmente. Era o melhor aluno da escola onde estudava. O que movia José era um objetivo muito nobre: “Vou ser alguém na vida, para ajudar minha mãe e meus irmãos”. Era esse pensamento que o mantinha vivo. Quando terminou o ensino fundamental, José foi convidado para estudar em uma escola privada. “Não gosto de burguês”, dizia. E assim seguiu, sempre estudando em uma escola estadual. Quando chegava em casa, José se isolava em um canto do cômodo onde morava para tentar estudar. E estudava. E como estudava! Os anos se passaram. José obteve uma das melhores colocações no vestibular para cursar Biologia na Unesp. “Quero ser professor”, dizia ele. Conseguiu algumas aulas para se sustentar e, em pouco tempo, era um dos professores de Biologia mais competentes de sua cidade. Começou a ganhar dinheiro. Em pouco tempo, comprou uma casa para sua mãe e começou a bancar os estudos dos irmãos. Aos poucos, José foi também se destacando como o melhor aluno de seu curso. Interessou-se pela pesquisa e acabou ingressando na área de Psicobiologia, como aluno de iniciação científica. No fim de seu curso, José recebeu menção honrosa. Foi aplaudido de pé por todos os alunos e professores. Não contente, José decidiu que queria continuar seus estudos. “Quero ser um doutor”, dizia. Na seleção, fora aprovado em primeiro lugar. A partir de então José começou a receber uma bolsa de estudos, cuja maior parte era enviada para sua família. Tudo o que ele quis estava acontecendo. Mas o sucesso, fruto de tanto esforço, parecia ter-lhe subido à cabeça. “É, eu sou bom. Eu sou o melhor”. De fato, ele era. Ou melhor, quase era... Certo dia, José deparou-se com dois estudantes com quem morava na república. José adentrou a cozinha, batendo no peito e dizendo: “Estudem bastante. Um dia vocês serão como eu. Quem sabe cheguem onde eu cheguei... ha ha ha”. Dando uma risada, deixou os estudantes, entreolhando-se sem entenderem nada do que havia ocorrido. Por atitudes como esta, José passou a ser malvisto pelos colegas. “Todos vocês têm inveja de mim”, gabava-se. Nesta vida, não há disputas, não há melhores, não há piores. Há apenas pessoas que conseguem mais sucesso que outras. Mas nem sempre ter sucesso significa ser um vencedor.

2 comentários:

cristine disse...

Olá Antonio, tudo bem?
Há quanto tempo não passo aqui .. =P
Triste fim da sua crônica .. mas quem disse que tudo na vida tem que ter um final feliz?
Gostei muito da frase em destaque: 'nem sempre ter sucesso significa ser um vencedor.'
Vc escreve muito bem! E bastante ainda por cima.
Bom, e agora? Está de férias?
Sempre lembro de vc quando escuto falar de química .. o texto do seu aniversário me marcou profundamente .. dá pra ver que tem muito gosto em ser professor. =)
Não sei se tem Orkut, mas envio-lhe o link do meu perfil.
Beijos, ótima semana.

Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Cristine, tudo bem?
Fico feliz que tenha gostado da crônica. Estou de férias "parciais", já que as aulas na rede pública ainda continuam. Gosto muito de ser professor. Sempre sonhei com isso e agora estou tentando, aos trancos e barrancos, realizá-lo. Por favor, envie-me o seu perfil no orkut para eu poder adicioná-la à minha lista de amigos.
Abração!