quarta-feira, 5 de julho de 2006

Crônica 2 - Amizade: singular ou plural?

João não se lembrava de como conheceu Pedro. Isso, no entanto, pouco lhe importava. Aos 15 anos de idade, ele via Pedro como um grande amigo. Não apenas um grande amigo, mas o melhor amigo que ele tinha. Embora Pedro fosse três anos mais velho, ele o via como se fosse da mesma idade. Praticamente todas as tardes eram passadas na casa de Pedro. A mãe e o pai, dona Maria e seu Mário, gostavam muito desta idéia. Afinal, Pedro era o único filho que eles tinham. João era um rapaz muito tímido, mas a sua presença tornava a casa da família de Pedro mais alegre. Pedro, por outro lado, era um jovem alegre, sorridente e brincalhão. Enquanto estavam juntos, aqueles dois adolescentes sorriam praticamente todo o tempo. Quando jogavam xadrez, o objetivo não era exatamente capturar o rei, mas sim a rainha, tida por eles como a peça mais importante. Não raramente, o jogo se encerrava após a rainha de um ser capturada, pois o outro passava as mãos sobre as pedras que restaram, para dar início a um outro jogo. Algumas vezes, em tom de brincadeira, Pedro e João jogavam as peças do jogo um no outro. O pai de João, um homem experiente e muito sério, começou a ficar preocupado com seu filho. “Meu filho, esse rapaz não é seu amigo”. João ficava muito chateado e entristecido com a postura de seu pai, pois tinha certeza que ele estava enganado a respeito de Pedro. Com o passar dos meses, Pedro apaixonou-se por uma moça muito rica. Aos poucos, Pedro conseguiu fazer com que a moça se interessasse por ele. Os dois passaram a se encontrar todas as noites de sábado e às tardes de domingo, períodos que Pedro antes dividia com João. Mas João não se importava. Ele via que Pedro estava feliz, e como um grande amigo que era, sentia-se feliz por ver o amigo namorando. Apesar de ter durado poucas semanas, a paixão avassaladora deixou marcas profundas na alma de Pedro. Inconformado com a dor do amigo, João propôs a Pedro que enviassem uma carta à tal moça. E assim fizeram. O rapaz que entregou a carta disse aos dois que a moça foi lendo e derramando suas lágrimas sobre a carta. Era o bastante para os dois. “É isso aí!”, disse Pedro, apertando a mão de João, em tom de comemoração. Alguns meses depois, Pedro voltaria a se apaixonar, desta vez por uma moça pobre, porém muito inteligente, que estudava na mesma série escolar que ele. Pedro sabia que deveria ser um pouco menos brincalhão e mais romântico se quisesse chamar a atenção da tal moça. João então passou a escrever todas as suas redações, que eram lidas por Pedro em voz alta diante da classe. Assim que a moça passou a olhar para Pedro com olhos diferentes, João escreveu-lhe um lindo acróstico. Pedro decorou o acróstico e declarou-se para a moça, que o abraçou, emocionada. “Que lindo! Como você é especial!”. Os dois, enfim, começaram a namorar. Com o início do namoro, Pedro passou a preencher a maior parte de seu tempo com a sua companheira. João ficava meio sem jeito quando chegava na casa de Pedro e encontrava a namorada dele. Como amigo que era, ele preferia deixar os dois a sós. Certa vez, o pai de João, inconformado por ver o filho passar tanto tempo ao lado de Pedro, sugeriu-lhe que ele testasse a amizade de Pedro. “Filho, faz o seguinte: fica uns tempos sem ir à casa deste seu ‘amigo’. Vamos ver se ele vai se lembrar de você”. Certo de que seu pai estava equivocado, João passou dois meses sem ir à casa de Pedro. Neste período, não recebeu nenhum telefonema, nem visita, nem notícias de Pedro. “Eu não te falei?”, dizia seu pai. Preocupado com o que poderia ter acontecido com Pedro, João montou em sua bicicleta e dirigiu-se à casa de seu amigo. Quando lá chegou, deparou-se com ele, sentado em uma cadeira de balanço, sem camisa, sorrindo. “E aí, João, beleza? Você estava sumido!”, disse Pedro, com o tom de voz brincalhão de sempre. “O que aconteceu com você, Pedro? Está tudo bem?”, falou João, preocupado. “Claro! Nunca estive melhor! Por que a pergunta?”, respondeu Pedro. “Não foi nada, não”. A conversa prosseguiu, como se Pedro o tivesse visto há dois minutos. Mas João estava preocupado, pensativo. Não conseguindo aceitar que seu pai poderia estar certo, perguntou: “Pedro, qual é o seu melhor amigo?”. “Ora, meu melhor amigo é o Cláudio. Por que está perguntando?”. Como se uma espada tivesse atravessado seu coração, João baixou a cabeça e deixou Pedro falando sozinho. Nunca mais o procurou. Passaram-se quatro anos. Pedro não ligou, não mandou notícias nem tampouco foi à casa de João. Eis que, após este período, o telefone toca. “E aí, João, beleza? Rapaz, eu estava precisando de um favor seu...” A amizade é um substantivo no plural; sua existência requer, acima de tudo, reciprocidade. Neste mundo de pessoas tão individualistas e cada vez mais egoístas, quem encontra um amigo encontra um verdadeiro tesouro. Se quiser encontrar dois amigos de uma só vez, procure seus pais. Por mais duros e severos que pareçam, eles o trouxeram à vida. Ou será que algum de seus amigos faria isso por você? Quer prova de amizade e amor maior que esta?

9 comentários:

Olga disse...

Antônio,

Vi o nome do seu Blog como recomendado no Blog de uma amiga e como o nome é muito parecido com o meu (Notas Cotidianas) vim visitá-lo.

E que prazer o meu em encontrar crônicas tão bonitas ! Seu texto é
delicado e profundo, de uma sensibilidade arrebatadora ! Parabéns !

Quanto à Crônica2: Amizade, singular ou plural? Você tem toda a razão quando finaliza que a amizade precisa ser recíproca. Aliás, amizade é um dom recíproco entre dois seres que livremente se entregam tudo que são. Pois amizade , para mim, é mais que amor.

Prazer enorme conhecer você e sesu textos.
Beijos,
Olga.

Cristine disse...

Oi Antonio!

Passei aqui hoje à tarde, mas não deu tempo de comentar .. é duro dividir o computador com mais 2 irmãs .. rs

Adorei essa crônica nova, achei bem melhor do que a outra. (não que a 1 esteja ruim, viu? rs)

Nunca pensei que amizade fosse no plural, mas para que ela seja real tem que ser mesmo .. pq vc pode ser amigo de alguém e essa pessoa não ser sua amiga .. mas isso não é amizade verdadeira e plena .. afinal vc somente doa e não recebe nada ..

A Olga disse que amizade é mais que amor .. tem uma frase que diz: 'A amizade é um amor que nunca acaba.'

Ah, meu perfil do Orkut está no meu nome no outro comentário ..
Mas para facilitar aí vai o link:
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=13235096289498065384

Beijos .. até mais! =)

Antonio E. M. Crotti disse...

Olga,
Fiquei feliz por você ter visitado nosso blog. Saiba que o prazer é todo nosso. Devo agradecer-lhe pelas palavras tão gentis, que em muito me motivam a contar aqui as experiências do cotidiano. Pra falar a verdade, essa é uma crônica da vida real. Eu só troquei os nomes...
Concordo com você com relação à reciprocidade. Contudo, encontrá-la é quase tão difícil quanto pronunciá-la.
Prazer em conhecê-la!
Um grande abraço!
AEMC

Antonio E. M. Crotti disse...

Cristine,
De fato, dividir um computador com irmãos não é tarefa fácil. A paciência nem sempre é farta nesta disputa, de forma que a troca de tapas e palavrões é quase uma constante quando o assunto em pauta é a vez de quem vai usá-lo.
Fico feliz que tenha gostado da crônica 2, que realmente ficou mais interessante que a crônica 1 (principalmente por causa do final). Mas não se preocupe. Pode opinar quando quiser, este espaço aqui é nosso!
Estou aqui dando risada, pois nunca achei que fosse possível alguém se interessar por um blog que narra fatos do meu cotidiano (justo eu, tadinho de mim!), ao invés de pornografia e fofocas!
Muito obrigado a você, à Olga, ao Michel, ao Márcio, à Deborah, ao Eudes, à Sarah e à Ivani, que sempre deixam comentários por aqui.
Valeu mesmo, de coração!
Abração!
AEMC

Lemon Eng Quimica disse...

Fala millerrrrrr!!!!!

Vim dar um alo aki no seu blogger!!!!
TO meio sem tempo pra ler tudo isto!!!!!!

Mais prometo q nestas férias eu leio HUIAHiuaHiuahia

Boas Férias aew Mestre!!!!!

Abraçossss

Marcelo disse...

Muito bom esse texto! Primeira vez q entro aqui, porem nao sera a ultima! Parabens!

cristine disse...

Pois é .. aqui a disputa costuma ser acirrada ..
Afinal somos em 4 (pai, 2 irmãs e eu) para um único computador! =P
Mas no fim tudo se resolve .. seja no grito ou por meio de acordos .. rs
Caracas .. sou muito mais o seu blog do que qualquer Glamurama/Surfistinha que tem por aí ..
Pq lendo o seu blog e alguns outros no mesmo estilo, aprendo muita coisa.
Então não sou eu que faço um favor comentando aqui, vc que é uma pessoa iluminada que compartilha seu conhecimento conosco =)
Beijos, ótimo domingo!

Anônimo disse...

Muito boa crônica....
Parabéns !!!

Anônimo disse...

Mds. Muito boa essa cronica. Parabens, continue assim!