domingo, 9 de julho de 2006

Crônica 3 - As voltas que o mundo dá

Francisco nascera em uma pequena cidade do interior de Goiás. Lá não havia crianças de sua idade. Só havia terra e muito, muito verde. Seu pai era um agricultor, muito trabalhador, que trabalhava pesado para conseguir sustentar a esposa e ele. Embora estivesse cercado de pessoas que o amassem e lhe oferecessem muito carinho e atenção, Francisco sempre se sentiu um menino muito sozinho e isolado do mundo. Mas esta solidão, que o transformaria em um adolescente muito tímido, durou quatro anos, até o nascimento de sua única irmã. Aos seis anos de idade, a família de Francisco mudou-se para o interior de São Paulo. Lá seu pai conseguiu um emprego de motorista e a mãe passou a fazer serviços domésticos. A família levava uma vida humilde, mas nada faltava a Francisco e à sua irmã. Ambos eram muito amados, tanto pelos pais como pelo restante da família. Na 1ª série da escola, Francisco era o aluno mais atrasado da turma.Todos os alunos de sua classe haviam feito pré-escola e sabiam ler e escrever. Francisco não sabia. Em casa, seu pai o pressionava. “Não quero nem saber de boletim com notas baixas. Se tiver nota baixa, vai apanhar”, ameaçava seu pai. Já muito novo, passou então a dedicar-se horas e horas estudando, para tentar se nivelar aos alunos de sua turma. Já no final do primeiro ano, ele já estava entre os alunos de melhor desempenho. Nos anos que se seguiram, Francisco demonstrou uma cerca dificuldade para fazer novas amizades. Muito tímido, ficava isolado dos demais alunos. Observava muito, falava pouco. E estudava muito. Aos 10 anos, ele reparou que seus colegas de classe estavam começando a se interessar por outras meninas. Neste período, Francisco experimentou sua primeira paixão. Por causa da timidez, ele nem chegou a se declarar. Por causa da discrição de Francisco, a pretendente nunca notou a sua presença. Curioso, perguntou ao seu pai por que as meninas ao se interessavam por ele. “Porque você é feio”, respondeu prontamente o pai, em tom de brincadeira. No entanto, Francisco ficou refletindo vários dias sobre a resposta de seu pai. Acabou concluindo que era mesmo feio. Aos 11 anos, na 5ª. Série, Francisco viu seus amigos de turma mudarem para outras classes. Francisco notou que precisaria se tornar um rapaz mais falante se realmente quisesse fazer novas amizades. Certo dia, em um caminho de volta para casa, ele se aproximou de um colega de classe que morava perto de sua casa. Pensou que aquela poderia ser uma boa oportunidade para conquistar um amigo. “Não quero conversa com você. Você está se aproximando de mim só porque eu moro naquele sobrado ali”. Francisco retraiu-se novamente e assim permaneceria durante os anos que se seguiriam. Aos 12 anos, o pai de Francisco notou um erro em sua postura. O médico diagnosticou escoliose, que provavelmente foi fruto das horas e horas de estudo. Aos 14 anos, passou a usar óculos, pois sua visão à distância já não era mais a mesma. Apesar de “corcunda” e “míope”, Francisco era o melhor aluno de sua turma. Era também o mais tímido e o único de sua turma que ainda não tinha namorada. Nesta idade, Francisco aprendeu a escrever versos. Começou então a escrevê-los e a enviá-los para uma menina loira, dois anos mais nova. Cada dia ele escrevia um verso e pedia para um amigo entregá-los para ela. Após um certo tempo, ele decidiu que já era hora de se declarar. Roubou um botão de rosa do jardim de sua avó e nele amarrou um bilhete. Tomou coragem e foi entregá-lo pessoalmente na casa da menina. Quando tocou a campainha e a menina saiu ao portão, as palavras sumiram. Ele apenas entregou o botão de rosa e deu um sorriso tímido. A moça, com o botão de rosas em mãos, disse-lhe friamente. “Você está fazendo papel de bobo. Pare com isso. Eu não gosto de você”. Muito triste, Francisco deu-lhe as costas e saiu, quieto, da mesma forma que chegou. “É porque sou feio”, concluiu. A adolescência foi particularmente difícil para Francisco. Além de sentir-se feio, corcunda e míope, surgiram-lhe cravos e espinhas por todo o corpo. Até o fato de ser o aluno mais estudioso da escola acabou sendo um peso para ele, que acabou sendo tachado de “louco”, por ser muito tímido, sério e introspectivo. As moças só se aproximavam dele para pedir explicações da matéria. No auge dos 15 anos, Francisco era alvo de chacota de todos os colegas. As moças que ele paquerava sequer notavam a sua existência ou, quando muito, o ignoravam. Em casa, o pai de Francisco passou a exigir muito dele. Queria que fosse sempre o melhor, que fosse o mais esperto e que, sobretudo, fosse o mais namorador. Mas ele era lento, pois costumava fazer devagar as coisas que seu pai pedia, para que ficassem bem feitas. Além disso, por causa da timidez, ele abaixava os olhos quando passava alguma moça em frente à sua casa. “Moleque desgraçado! Não gosta de mulher!”, bravejava seu pai, com a intenção de fazer com que Francisco paquerasse. Até com um Fusca seu pai lhe presenteou para facilitar que ele “pegasse uns filés”, como dizia ele. Em vão. Aos 19 anos, Francisco foi selecionado para servir o exército. “Com essa lerdeza, o sargento vai te chutar a canela todos os dias! É bom assim você fica mais esperto!”, dizia seu pai. Neste mesmo ano, ele ingressou na universidade, no curso de Engenharia Elétrica. Como estava desempregado, quem pagava seu curso era sua tia materna. Feio, louco, desempregado, corcunda e míope, Francisco conheceu Darlene, que era irmã de um de seus companheiros de tiro-de-guerra. Era uma moça incrivelmente linda, simpática e educada. Seus olhos e seu sorriso eram lindos! Estava apaixonado. Para sua sorte, havia algo em Darlene que deixava Francisco à vontade, de forma que ele pôde expor a ela a sua forma de ver a vida. “Você é muito bem-humorado”, dizia ela. No dia em que começaram a namorar, Francisco passou a noite em claro. Não conseguia acreditar que estava namorando! Os anos se passaram. Francisco formou-se e conseguiu um emprego em uma empresa multinacional. Trocou os óculos por lentes de contato e mudou seu estilo de se vestir. Passou a nadar quase todos os dias e adquiriu um físico impecável. Muito unidos, ele e sua namorada construíram uma linda casa. “Meu filho, você é o meu orgulho!”, dizia seu pai. Certo dia, já com a data de seu casamento definida, Francisco caminhava pelas ruas do centro da cidade quando sentiu uma mão segurar-lhe pelo braço. “Oi, Francisco, tudo bem? Há quanto tempo, hein?” Era a moça loira que Francisco paquerava na infância. “Nossa, como você está diferente. Que charme! Sabia que eu nunca tinha reparado que você era tão bonito?”, disse ela, toda insinuante. “Pois eu sempre reparei em você, desde que te conheço...” “Sério?”, respondeu ela, entre suspiros. “... mas eu nunca pude perceber o quanto você é falsa e fingida”. Francisco deu-lhe as costas e saiu, com um sorriso de canto de boca.

6 comentários:

cristine disse...

Hey Antonio!

Agora sim .. uma crônica com final feliz! Gostei muito =)
Parece-me que esta tbm é uma daquelas histórias verídicas não é?

E realmente, o mundo dá muitas voltas .. por isso nunca podemos cuspir para cima, que cai direto na cara .. é o que minha mãe sempre diz ..

Sempre me senti feia. Ou melhor, não feia, mas menos do que os outros .. e isso é péssimo. Só melhorei agora, que tenho uma pessoa pra me dizer todos os dias que sou linda. (não que eu seja, mas faz um bem pra auto-estima! rs)
Sinto-me nas mesmas condições das pessoas que me cercam. Nem melhor, nem pior. E acho que está bom assim, pois ninguém é igual ao outro, cada um se destaca por suas qualidades e defeitos.

Até a próxima!

Márcio Roberto do Prado disse...

Tonhão, Tonhão, salve, salve!

Desculpas e mais de desculpas, mas andei sumido porque tenho viagem marcada para o Brasil para a semana que vem e uma tonelada de coisas para adiantar aqui… Enfim, o de sempre, sempre chato… O que não significa que eu tenha passado longe do nosso “Narrativas”, claro! Dessas quase 3200 visitas uma boa parte é minha!

Ah, meu amigo, foi com muito prazer que vi essa nova faceta do blog, com as crônicas. Não que as demais coisas não sejam tão boas quanto (o texto “As coisas sempre podem piorar” está muito engraçado! Desculpe, sei que, para quem sente a dor, nunca é engraçado, mas… Ô, azar, sô!), mas as crônicas não apenas são muito bem escritas como também recuperam algo de muito bacana do começo do “Narrativas”, aquele lado meditativo que agora está presente no “Refletindo a vida”. Enfim, momentos de uma filosofia do cotidiano que, embora simples, jamais será simplória.

E, por favor, satisfaça minha curiosidade, mon ami. Talvez você já tenha respondido isso mas, nessas crônicas, além do lado verídico, tem alguma coisa de autobiográfico? Hmmm, sinta-se à vontade para não responder, se for o caso, mas, se der, conta aí, vai… Acho que posturas e escrituras como as suas dão um sentido mais puro à idéia de ética, e isso vale, muito… A única coisa que não vale, em matéria de posturas suas, é a postura da sua coluna!!! Olha que é problema de junta, heim? Junta tudo e…

Bão, fico por aqui. Um abração fraterno do seu amigo

Márcio (que ficou feliz com a derrota da França :))

Antonio E. M. Crotti disse...
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Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Cristine!
É, esta é uma história verídica. Pode acreditar que sim. E você não faz idéia do quanto!
De coração, lamento que você tenha passado por algo parecido ao "causo" desta narrativa. Por outro lado, fico contente que o final da sua história também tenha sido feliz. Pelas usas palavras, parece que as coisas estão, enfim, no lugar onde deviam. É por isso que hoje em dia você consegue exprimir tanta vida e alegria em suas palavras.
Valeu!
Antônio

Antonio E. M. Crotti disse...

Grande Márcio, meu amigo!
Realmente você é um dos freqüentadores mais assíduos e velhos (não em idade, tá, tio?) deste blog (embora você ainda não me disse como o encontrou...). Mesmo não deixando seus comentários, eu desconfiava que você estava "espiando" o que se passava por aqui... Pra falar a verdade, eu estava pra te enviar um e-mail, pois temia que os franceses tivessem te guilhotinado por causa da perda do título...:-)
Já satisfazendo sua curiosidade, todas estas crônicas são extremamente autobiográficas, sim! Eu só troquei os nomes para que as pessoas envolvidas não fiquem ofendidas e resolvam processar-me! :-)
Quanto à minha coluna, não se preocupe. Eu sou uma "narrativa" ambulante! Meu perfil parece uma vírgula, meu andar é um ponto-e-vírgula e a minha cura é um ponto de interrogação... Preciso dar um ponto final nesta situação! :-)
Boa sorte aí, irmão!
E até a próxima! :-))
Tonhão

disse...

Olá, Antonio!
Gostei muito de "As voltas que o mundo dá". É simples,clara e envolvente!Vou mostrá-la aos meus aluno como crônicas e exemplo de vida. Obrigada pela contribuição.
Um abraço!

PS: Aceito ser sua amiga