sexta-feira, 14 de julho de 2006

Crônica 4 - Quando a vida imita a arte

Já era tarde da noite. Os dois estavam se arriscando muito ao estarem juntos naquele lugar. Deviam ser breves nas palavras, mas, ao invés disso, o silêncio predominava entre os dois. Não disseram nenhuma palavra desde que entraram naquele barzinho, onde costumavam se encontrar na adolescência. Talvez as palavras fosses desnecessárias. A troca de olhares era tão intensa que um parecia saber o que o outro estava pensando. Enquanto se olhavam, seus capuccinos iam esfriando em suas mãos, mas isso era o que menos importava naquele momento. Na face de ambos não havia nenhum vestígio de sorriso. Nenhum músculo, nenhuma expressão. Estavam sérios. Aquele ambiente talvez não fosse o mais apropriado para aquela situação. Afinal, todas as lembranças dos bons tempos em que foram namorados pareciam vir à tona ao inalarem aquele cheiro forte de capuccino e ao ouvirem MPB. Tudo aquilo trazia recordações especiais. Muito, muito especiais para ambos. Eles se conheceram no colégio. Ele era de família rica, proprietária de centenas de alqueires em propriedades naquela região. Seu pai era advogado, sua mãe era estilista. Já ela era de família muito humilde. O pai cortava cana, a mãe apanhava laranjas. Mal tinham o que comer. Não fosse o uniforme e ela sequer teria roupas para ir à escola. Mas as diferenças entre eles não paravam por aí. Ele era muito vaidoso; andava sempre muito bem vestido e perfumado. Ela não tinha muita vaidade e, mesmo que a tivesse, de pouco lhe adiantaria, pois o pouco dinheiro que entrava em casa era para comprar comida. Ele falava muito bem. Já ela tinha pouca afinidade com as palavras. Falava alto e cometia muitos erros na fala. Ele a via como uma caipira desengonçada, ela o enxergava como um “filhinho de papai” desprezível e arrogante. Eram como água e vinho, como óleo e água. Quando um chegava, o outro saía. Na adolescência, quando tinham 15 anos, o destino pregou-lhes uma peça que mudaria para sempre suas vidas. A professora de Artes escolheu-os para formarem o par romântico em “Romeu e Julieta”. Ele oferecia o que Romeu mais precisava: o domínio com as palavras. Já ela era a Julieta perfeita: inocente e pura em essência, embora um pouco desajeitada. Ele era pura razão, ela era movida pela emoção. No início, ele recusou o papel, alegando que jamais se apaixonaria por alguém tão desengonçada. Ela, por sua vez, rebateu que jamais faria uma cena amorosa com uma marionete como ele. A professora interveio e lhes explicou-lhes, por meio de alguns ‘safanões’, que se tratava apenas de uma peça teatral, e que a vida não precisava imitar a arte. A contragosto, ambos ensaiaram várias e várias vezes todas as cenas, com exceção de uma: a do beijo. “Na hora a gente vê o que faz”, pensavam consigo mesmos. No dia da apresentação, o teatro da cidade estava completamente lotado. Nem a professora imaginava que a peça conseguiria reunir um número tão grande de pessoas. Os pais dele estavam lá presentes; os dela não, pois não tinham como pagar o ingresso. Um pouco tensos, sob o olhar daquelas centenas de pessoas, os dois entraram no palco. Fizeram tudo conforme haviam ensaiado. Todos estavam admirados e emocionados. Àquela altura da peça, um único comentário ecoava na mente da platéia: “Eles formam um casal perfeito!”. Os pais dele também concordavam. “Ela é de que família?”, perguntou seu pai. “Nunca a vi antes nas reuniões da alta sociedade”, respondia sua mãe. “Que história mais triste, esta do Romeu e Julieta, né? Ainda bem que é apenas teatro”, comentou a mãe. Enfim chegou o momento tão esperado: a cena do beijo. Ele tomou-a nos braços, fixou seus olhos nos dela e... seus lábios se encontraram, sob o aplauso do público. Após um breve instante, seus lábios se separaram. Olharam-se novamente... e voltaram a se beijar. Um beijo longo, muito mais longo do que poderiam prever. A paixão deles começava ali. A partir daquele momento, ela passou a vê-lo como um rapaz romântico, gentil e educado. Ele, por sua vez, admirava-se com a inocência e com a pureza da moça. Eles realmente formavam um belo casal. Pareciam que tinham sido feitos um para o outro. Certo dia, ele resolveu contar sobre o seu namoro para os seus pais, que nutriam uma grande curiosidade sobre a origem da moça. Empolgado, ele contou toda a verdade aos seus pais. Imediatamente, uma decepção enorme tomou conta de seus pais. “Meu filho, onde você está com a cabeça? Você tem que se casar com uma mulher do seu nível social! Ela é uma “pé-rapada”! Você quer nos envergonhar perante a sociedade?” Três anos se passaram. Aos 18 anos de idade, ambos ainda sustentavam o namoro às escondidas. O amor entre eles era cada vez mais forte. Contudo, o fato de namorarem escondido ainda os incomodava. Tomaram, então, uma decisão: teriam um filho! “Meus pais terão que aceitar você. Afinal, você será a mãe do neto deles.” Após quatro meses, ele deu a notícia da gravidez aos seus pais. Contudo, sua alegria foi desaparecendo diante dos olhares de reprovação de seus pais. “Meu filho! Você tem um futuro brilhante pela frente! Quer estragá-lo? O que você quer que digamos?”. “Mãe, nós queremos nos casar”. A mãe começou a chorar, desesperada. “Filho, vamos conversar sobre isso em uma outra ocasião. Sua mãe está muito abalada”, pediu-lhe o pai. Desapontado, ele saiu da sala e deixou seus pais, até então desolados. Dois dias se passaram. Ela, para surpresa dele, havia desaparecido. Não teve notícias nem fazia idéia de onde poderia estar. Preocupado, ele ia ao barzinho onde ele lhe pagava um capuccino todas as manhãs, mas nem sinal dela. Após uma semana, ela apareceu. Estava abatida, pálida. A alegria que o fizera apaixonar-se por ela havia desaparecido de seu olhar. Ele se levantou e correu em direção a ela, para abraçá-la. “Meu amor, o que aconteceu?”, perguntou, preocupado. “Não me toque!”, disse ela, empurrando-o. “Diga-me: o que aconteceu? Você sumiu durante uma semana e nem deu sinal! Estava preocupado”. Ela sentou, escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar. “Há uma semana atrás, quatro homens invadiram nosso barraco e me seqüestraram. Fui lavada a uma clínica clandestina de aborto. Nosso filho não mais existe!” Deixando-se cair sobre a cadeira, boquiaberto, ele não sabia o que dizer. Não acreditava que seus pais pudessem ter feito aquilo com eles. Era o neto deles! “A partir de hoje, quero que se afaste de mim. Sou pobre, sua família não me aceita. Quero que faça um favor a nós e a eles: me esqueça!”. Chorando, levantou-se e foi embora. Passados 16 anos, os dois estavam novamente naquela mesma mesa, tomando um capuccino cada um. Ele acabou se casando com uma moça muito rica. Não teve filhos, pois ela era estéril. Contudo, sua esterilidade não a impediu de traí-lo incontáveis vezes. Seu dinheiro era usado para sustentar os amantes. Acabaram falindo. Com a baixa nos preços da soja e do milho, seus pais também faliram. Hoje eles moram em uma casa “meia água”, de fundos, alugada. Ele trabalha em uma loja de informática, como vendedor de suprimentos. Acabou não fazendo faculdade. Sua vaidade desaparecera e ele aparentava ser mais velho do que realmente era. Ela, por sua vez, terminou o ensino médio e conseguiu uma bolsa do Pró-UNE. Graduou-se em Educação Física. Abriu sua própria academia. Não apenas mais uma academia, mas a maior da cidade. Estava bem vestida, perfumada e maquiada. Tornou-se uma mulher linda e vaidosa, porém não se casou. Não conseguiu superar as marcas do aborto. Passados 16 anos, os dois se esbarraram no centro da cidade e, sem nada dizerem, voltaram para o lugar onde viveram os melhores momentos da adolescência. Na troca de olhares, ele a olhava com admiração; ela, por sua vez, o olhava com pena. Ela puxou a cadeira e levantou-se. Abriu a bolsa e deixou uma nota de R$50,00 em cima da mesa. Desta vez o capuccino era por conta dela. Deu meia-volta e saiu por aquela mesma porta por onde ele a perdeu há 16 anos atrás. O mundo dá muitas voltas. Talvez voltem a se encontrar novamente em alguma delas, talvez daqui a 16 anos.

Um comentário:

Márcio Roberto do Prado disse...

Tonhão, salve, salve !

Rapaz, olha, essa atualização demorou, heim? Sei que é fogo arrumar tempo com sua agenda, mas leitor é assim mesmo: egoísta e exigente!!! Pooooorém, voltou em grande estilo, meu amigo! Acho que essa é a melhor crônica até agora, sobretudo o desenlace, bom mesmo. Ah, devo sumir por uns dias, coisa de no máximo uma semana e meia, pois viajo para Brasil na segunda. Mas, assim que tiver internet de novo, dou um sinal de vida. Então escreva, Tonhão! Assim vou ter bastante coisa para ler quando voltar por aqui!

Abração,

Márcio

P.S.: Eu descobri o “Narrativas” pelo link no “Rapadura Açucarada”.Quadrinhos, quadrinhos, quadrinhos…