domingo, 16 de julho de 2006

Não só de pão vive o homem...

Eu não imaginaria que estaria aqui 11 anos depois. No final de 1995, as lágrimas brotavam só de lembrar que tudo tinha terminado. A partir daquele momento, tinha certeza que só restariam recordações, mas eu havia decidido que deveria distanciar me deste lugar, pois as lembranças ressurgiriam, deixando-me saudoso, emocionado e triste. As paredes ainda são verdes, como se esperaria de um ambiente militar. No centro da quadra, uma enorme bandeira do Brasil encontra-se pintada em cores bem vivas. O antigo banheiro, cujo forro antigamente caía sobre nossas cabeças, agora é um grande e moderno vestiário. A prancha de educação física foi substituída por um belo palanque. Em sua frente, um pequeno gramado, com os dizeres: “TG 02-065”. Seria bom que as diferenças parassem por aí, mas as mais dolorosas eu só notaria segundos depois: o chefe da instrução não é mais o sargento Fernando, e sim o sargento Lélis, e a turma por ele instruída não contém nenhum dos camaradas que eu conheci há 11 anos...

Vestindo a antiga calça do abrigo de educação física e a camisa contendo o nome de todos os atiradores da turma de 1995, eu adentrei o tiro-de-guerra com um aperto no peito e um nó na garganta. Logo avisto o vovô, que está conversando com um dos ex-instrutores que passaram pelo nosso TG. Cumprimento-o e sigo ao lado do meu primo Gustavo, também ex-atirador, em direção às cadeiras. Após alguns minutos, a cerimônia tem início. Os atiradores executam alguns movimentos simples com armas (como nós costumávamos fazer nos velos tempos), muito bem executados, por sinal, sendo sucedidos por uma série de homenagens aos ex-instrutores aqui presentes, dentre eles o 2º. sargento Paulo Alves (hoje capitão), o 2º. sargento Enock (hoje capitão), o 2º. sargento Pianca (hoje capitão), o 1º. Sargento Cássio (hoje subtenente) e... o 1º. Sargento Fernando (hoje tenente). Terminadas as formalidades, vejo o sargento Lélis tomar o microfone em suas mãos e convidar os ex-atiradores para marcharem com a tropa. “Não acredito no que estou ouvindo!”, penso comigo mesmo. Ele repete mais uma, duas vezes. Talvez não somente eu não estivesse querendo acreditar que aquilo fosse verdade. Mas era. Meu coração dispara. Sigo então para a frente do 1º. Pelotão, juntamente com quase uma centena de ex-atiradores de todas as idades. “Tem alguém aí da turma de 1969?”, pergunta um dos ex-atiradores. “Não, eles estão todos internados!”, responde alguém. Estamos todos rindo. O sargento Lélis posiciona-se à nossa frente. “Tiro-de-guerra, sentido!”, brada, com voz de comando. Ouvimos então uma batida no tambor. “Ordinário, marche!” A fanfarra começa a tocar. Projeto então a perna à frente e bato o pé esquerdo, depois o pé direito. As mãos, com os dedos unidos, rasgam novamente o ar. Estou marchando! São pouco mais de 30 metros de marcha, mas são suficientes para despertar um sorriso largo no rosto de todos que aqui estão. Aplausos para a iniciativa! Passam-se alguns minutos e a demonstração da ordem unida começa. Detalhe: sem comando algum! As cenas que meus olhos observam são impressionantes. Durante cerca de 10 minutos os 50 atiradores marcham de um lado para o outro, de forma sincronizada. Às vezes o pelotão, na forma de retângulo, se divide em dois outros retângulos menores. Às vezes se dividem em quatro. Aos que assistem, a sensação de que os atiradores vão trombar com os outros é constante, porém indevida. A apresentação é impecável, digna de palmas. “Vocês fizeram uma apresentação 99,9%. Podem melhorar”, diz o sargento Lélis. Fazia 11 anos que não ouvia esta frase... Após alguns segundos, segue-se a demonstração de desmontagem do fuzil. Era uma das minhas especialidades! Eis que, após a cerimônia, o sargento surpreende a todos. “Algum ex-atirador quer desmontar o fuzil?”. Meu coração dispara novamente. Eu me levanto, já com a frase feita: “Desde que eu não tenha que disputar com ninguém, eu topo”, digo ao sargento. Minha frase foi intencional, pois eu sabia que o tenente Fernando, nosso chefe da instrução, havia comentado ao sargento Lélis que eu era o mais rápido na desmontagem de armamento que ele já tinha visto. Certo. Eu realmente desmontava em 12 ou 13 segundos, atingindo uma marca recorde de 10 segundos. Mas isso faz 11 anos! Nos minutos que se sucedem, o mundo parece parar. Meus ouvidos parecem ter ensurdecido. Não há nada ao meu redor. Só existimos eu e o fuzil, e por ironia do destino, nós já não somos tão íntimos como antigamente... Terminada a demonstração, sigo em direção ao sargento Lélis para agradecer-lhe a oportunidade de realizar dois sonhos que vinham me acompanhando há 11 anos. Mas algo está errado. Percebo que ex-atiradores estão em turmas. Onde está a minha turma, a de 1995? Não vejo ninguém! Sou então abatido por uma grande tristeza e decepção. “Eles vão apenas ao churrasco”, penso. No churrasco, promovido em comemoração aos 60 anos do “nosso” tiro-de-guerra, apenas 5 atiradores da nossa turma: Araújo, Crotti (eu), Honório, Nunes e Martins. Meu Deus! Onde estarão os outros 55? Será que não puderam vir ou terão dado pouca importância ao evento? Fico então lembrando que nestes 11 anos que se passaram desde que terminamos o tiro-de-guerra, nossa turma jamais se reuniu. Mais um motivo de tristeza... Enquanto isso, lá em cima do palanque, segue-se uma série de homenagens aos ex-instrutores. Solicitam ex-atiradores voluntários para entregarem uma placa em homenagem aos seus respectivos chefes de instrução. Eis que ouço o “sargento” Fernando (hoje tenente) chamar-me pelo nome. Sim, sou eu quem vai lhe entregar a placa! Caramba, que honra! E o coração volta a bater acelerado novamente... Já em nossas mesas, a carne, enfim, aparece! Carne, mandioca e pão. Não é um grande cardápio, eu sei. Mas... minha alma já está alimentada e satisfeita com todas as emoções vividas por hoje. Um sentimento divino toma conta de mim. Algo que não sei explicar, mas que eu senti apenas quando tinha 19 anos. Por um dia, 11 anos depois, eu sinto novamente a sensação de ser um atirador. Ah, como é bom sentir-se jovem novamente... Obrigado, Senhor!

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro ANTONIO E.M. CROTTI,
Permita eu lhe chamar de amigo pois sua narrativa do meu cotidiano me sensibilizou muito, me fez voltar ao passado e viajar/sonhar com momentos maravilhos, eu fui atirador do tiro de guerra da turma de 1970 e não fiquei sabendo que houve uma festa dos 60 anos do tiro de guerra se soubesse tentaria estar presente "apesar que moro em São Paulo"....nossa turma do tiro fez um encontro dos 30 anos em 2000 ai em São Joaquim da Barra foi memoravel....meu nome é Edvaldo Gomes de Sousa Júnior e gostei muito de sua narrativa.

parabéns.