quarta-feira, 19 de julho de 2006

Passado sempre presente

Este não é o mundo que sonhei. Após 30 anos de existência, afirmo que este mundo é muito diferente daquele que eu via quando era criança. Naquela época, eu imaginava que o mundo fosse repleto de lugares verdes, como se fosse um enorme jardim. Pensava que as árvores pudessem viver em harmonia com o homem e que não precisassem ser arrancadas. Naquele tempo, os lugares onde havia asfalto, energia elétrica, água e esgoto eram raros. Para mim, o mar não passava de um grande rio, cujas ondas se movimentavam com maior intensidade. No ambiente em que eu vivia, as pessoas se relacionavam de forma amigável e respeitosa. Eu não via maldade em nenhuma delas. Eu passava a maior parte do tempo com o papai. Tinha tempo de sobra para brincar, mas não tinha amigos para brincar comigo. Tínhamos um Fusca velho e morávamos numa casa sem forro. Esperávamos, ansiosos, por um futuro melhor. Pois bem. O futuro chegou. Boa parte do verde das matas daquela época já desapareceu. O jardim que eu imaginava não existe. Há apenas enormes florestas de pedra e cimento. Hoje a energia elétrica, água e esgoto são fartos para muitos, mas uma grande parte ainda não tem sequer o que comer. O mar está se tornando, sim, um grande rio, onde são despejadas toneladas e mais toneladas de esgoto. As pessoas se relacionam de maneira cada vez mais fria e, embora pareçam próximas por causa da internet, estão cada vez mais distantes fisicamente. Falta respeito e amizade entre elas. A falsidade predomina nos relacionamentos inter-pessoais, na maioria das vezes movidos por interesses. Há muitas pessoas maldosas, mal-intencionadas, egoístas, egocêntricas e extremamente individualistas. Embora estejam próximas de nós, nem sempre somos capazes de identificá-las... Cada um pensa apenas em si próprio e não consegue enxergar o sofrimento de seus semelhantes.
Hoje tenho pouco tempo para ficar com o papai, a mamãe, meus avós, minha família... Ainda não encontrei os amigos de minha idade que tanto procurei para brincar e jogar conversa fora. Temos um carro mais novo, mas sempre pensamos que vamos precisar vendê-lo para pagar as contas. Ao contrário do que ocorria na infância, não temos esperança em um mundo melhor. Nosso maior sonho é que o passado possa voltar algum dia. Hoje olhamos para o passado, saudosos, com o peito apertado e com um nó na garganta, entristecidos pela sensação de que éramos felizes e não sabíamos. Este, sem dúvida, não é o mundo que eu sonhei, mas é o mundo em que tenho que aprender a sonhar novamente...

Nenhum comentário: