terça-feira, 29 de agosto de 2006

Balde de água fria

Segunda-feira, 28 de agosto de 2006. Estou em uma das salas de primeiro ano do ensino médio. Trata-se de uma sala muito peculiar. Ao contrário do resto da escola, as carteiras desta sala são de braço. Os alunos, em torno de dezesseis, estão dispostos pelo fundo e pelas paredes laterais, deixando um enorme espaço vazio no meio da sala. Lá fora, do outro lado da janela, uma árvore teima em bloquear a passagem da luz do sol, fazendo com que esta sala tenha um ambiente “carregado”. O tema da aula de hoje é, ainda, a tabela periódica. Não consigo entender o porquê, mas a matéria nesta turma não progride bem. Talvez seja porque as aulas são sempre nos últimos horários, a terceira (antes do recreio, na segunda-feira) e a última (na terça-feira). Há alguns alunos na sala que demonstram ser muito astutos, que facilmente entendem o que eu quero dizer. No entanto, sinto um grande desinteresse por parte deles. Sei também (e isso tenho por experiência em outras salas) que muitos prestam atenção mais por consideração e respeito à minha pessoa do que por estarem interessados em Química. Sinceramente, não sei se isso é bom ou se é ruim. Estou no centro da sala, com a classificação periódica dos elementos em mãos. Ao contrário das outras salas, não há nesta um prego sequer na parede, de maneira que não há como pendurar a classificação periódica na parede em frente ao quadro negro. Sendo assim, tenho que ficar fazendo malabarismo, com a tabela periódica em frente ao meu corpo. Alguns alunos parecem divertir-se com as frases que bolei para memorizarem as famílias. Surpreendo-me quando vejo que todos estão me olhando, como se estivessem prestando atenção. Estou empolgado. Sinto que estou dando uma aula “legal”, que está atraindo a atenção dos alunos. Um dos alunos, que parecia estar prestando atenção, levanta o dedo, pedindo a palavra. “Fessor...”, diz ele. “Pode falar”, digo, tentando fazer com que se sinta à vontade. Afinal, as dúvidas sobre o conteúdo são muito raras, dando a impressão de que o desinteresse é geral. “... que horas são?”. Não, eu não acredito no que acabei de ouvir! Como se tivesse sido banhado com água fria, deixo a tabela encostar o chão. Respiro fundo e, sem forças, deixo-me abater. “Que horas são? Agora é hora de eu sentar-me e ficar olhando pro rosto de vocês...”, digo, extremamente desanimado. Desde que comecei a dar aulas no ensino médio, poucas vezes senti tristeza e desânimos tão grandes. Pela forma como o aluno perguntou, sinto que ele não perguntou com maldade, mas não pude resisti e tombei. E o tombo foi tão doído ao ponto de ir embora sem dar as três últimas aulas que faltavam. “Onde você vai?”, pergunta a vice-diretora. “Vou embora. Não tenho mais condições psicológicas para dar aulas hoje”. Talvez eu esteja realmente estressado ou, como diz a mãe, “prestes a cair em depressão”. Ela continua insistindo para que eu tome um anti-depressivo, mas prefiro resolver meus problemas sem precisar de medicamentos. A coluna continua doendo. Os dias vão se passando e minha saúde vai indo embora. Preciso reencontrar-me com Deus antes que seja tarde demais.

domingo, 27 de agosto de 2006

Mudança de rumo?

Quinta-feira foi um dia em que passei praticamente o tempo inteiro refletindo sobre o melhor caminho que devo seguir no que diz respeito à minha vida profissional. Percebi que há alguém lá na USP de Ribeirão, um antigo colega de pós-graduação, que está tentando “tirar-me da corrida” jogando o carro dele em cima do meu. Em outras palavras, o cara está literalmente puxando o meu tapete. Não gosto de enxergar as coisas por este ângulo, pois sempre tentei ver o lado bom das pessoas. Contudo, amigos que eu quero muito bem, e que são puros de coração, também tiveram a mesma impressão que eu. Pois bem. Não sei se estou disposto a travar uma luta por uma vaga em uma universidade pública com pessoas tão mesquinhas e falsas como aquele cara. Fico enojado só de pensar que o camarada bate nas minhas costas e sorri, como se eu fosse o melhor amigo dele... No colégio, as aulas no período noturno foram excelentes. Não, não estou me referindo à qualidade do conteúdo que transmiti, que está a galáxias do que eu teria condições de ministrar, mas não o faço justamente pela falta de tempo... O fato de não ter tempo para estudar, seja lá que assunto for, é o que mais me incomoda ultimamente. Felizmente (ou deveria dizer infelizmente?) estou aprendendo a lidar com este problema e não tenho ficado tão irritado como no ano passado, nesta mesma época do ano passado. Tive pulso firme para lidar com uma classe do 3o. ano. Curiosamente, este pulso firme não veio através de gritos com os alunos nem tampouco tem a ver com qualquer alteração de voz para com alguns alunos. Pedi para que alguns alunos mudassem de lugar e que, caso não estivessem interessados na aula, que dormissem. Foi muito bom perceber que tenho o respeito deles. O tema da aula ministrada no 1o. ano do ensino médio foi... Drogas. Embora seja um conteúdo totalmente fora da seqüência do programa, parei a aula para “trocar umas idéias com os manos”. Praticamente todos os jovens daquela sala fumam (ou fumaram) maconha e acham que não há mal nenhum nisso. Para chamar-lhes a atenção, disse que fumar maconha é a mesma coisa que exercitar um músculo, como por exemplo, o bíceps. No início, poucos quilos são suficientes para levá-lo à exaustão. No entanto, para que o músculo cresça, é necessária uma carga mais forte. Em outras palavras: a maconha é só o início, é o prato de entrada para o crack e a cocaína, drogas muito mais fortes. A maioria deles ficou prestando atenção, em silêncio. Levando-se em conta que aquela sala é uma das mais falantes do período noturno, saí satisfeito e com a sensação de ter feito a minha parte. Na última aula, em um 2o. ano, fui recebido à porta da sala com uma revista voando, que não necessariamente foi jogada com a intenção de acertar-me. Olhei para o chão e vi uma grande quantidade de papeis espalhados pelo chão. “Gente, como é que vocês conseguem ter aulas no meio de tanta sujeira? Vamos varrer o chão e deixar as carteiras organizadas para o pessoal que terá aulas no outro dia." Pedi também para que escrevessem dois papéis enormes e pregassem em vidros que estavam soltos da armação de metal do vitrô. Fiquei observando o cuidado e o capricho com que os alunos fizeram o trabalho. Eis mais um motivo para dar uma aula diferente. Ah, como eu queria ter tempo pra estudar e aprender mais...Por falar em tempo, vou dormir. Afinal, já faz um bom tempo que estou a escrever este post e já são quase 2h da matina!!!

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

O grande mistério se esclarece

O dia que agora está terminando foi marcado por duas notícias muito marcantes. Uma delas é bem triste, a outra está me tirando o sono...
Devo ter mencionado por aqui que em meados do ano passado o papai foi submetido a uma cirurgia para remoção de um câncer maligno no rim direito. Graças a Deus a cirurgia foi um sucesso e ele pôde voltar a trabalhar normalmente. As dores na região da operação, no entanto, sempre foram uma constante. Não me recordo de um dia que ele não tivesse se queixado da maldita dor. Pois bem. Hoje ele e a mamãe foram a Barretos, no retorno médico periódico. Os médicos fizeram alguns exames e diagnosticaram uma érnia na região do corte da cirurgia. Estou particularmente muito preocupado, pois temo muito que a tal érnia seja uma reincidência do mal que quase o tirou da gente. Minha apreensão ganha ainda mais razão de ser quando ele diz que vai viver só até os 57 anos. Não sei de onde o papai tirou isso, mas confesso que fico muito preocupado quando confronto os dois fatos. Espero que Deus ilumine que tudo não passe de imaginação dele e do meu também!
Contudo, para minha felicidade, a notícia que está tirando o meu sono é pra lá de boa. Hoje fui chamado pelos formandos de Química Industrial deste ano e me informaram o que eles estão "tramando" para o dia 20 de dezembro. Eu havia imaginado um churrasco, um baile ou coisa do tipo. Mas não. Neste dia será a colação de grau e eles querem que eu esteja presente. Sabem por quê? PORQUE ELES ME ESCOLHERAM PARA SER O NOME DA TURMA!!!!
Quando recebi a informação, mostrei-lhe os meus dois braços, que estavam arrepiados de tamanha felicidade. Jamais pensei que fosse tão querido por eles. O que mais me deixou feliz é o fato de que não sou professor deles este ano (embora eu muito quisesse...). Na época em que colamos grau, os colegas escolheram para homenagear aqueles professores cujas matérias lhes traziam mais dificuldade. Achei muita falsidade de meus colegas. Em outras palavras, a homenagem é completamente desinteressada, ao contrário do que ocorreu com a minha turma.
Outro fato que me deixou muito feliz foi o fato da turma de Engenharia Química ficar chateada porque eu não serei professor deles o ano que vem. "Ah, Miller, pega qualquer matéria lá pra dar pra gente. Não tem jeito?".
O mais interessante de tudo isso é que os louros que mais me deixam realizado são colhidos como pessoa e não tem nada a ver com o conhecimento do professor. Não, eu não nasci para a fama. Não quero holofotes nem tampouco palmas. O que quero, na verdade, é continuar sendo o humilde e simples Miller e ser merecedor de um anônimo, porém aconchegante, lugar no coração e na lembrança de cada um deles.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Enfim, um dia "quase" perfeito!

Apesar de cansativo, hoje foi um dia muito especial para mim. O engraçado é que só agora, às 23h47min, é que fui me dar conta disso... Durante a manhã, como de costume, tive aulas no ensino médio. Na minha primeira aula (que na verdade era o segundo horário), no primeiro ano, comecei a abordar as ligações químicas. Na segunda aula (na verdade, a terceira e última antes do intervalo), no terceiro ano, decidi, pela primeira vez desde que ingressei naquela escola, mostrar-lhes um filme. Como o assunto que estamos estudando são as reações nucleares, achei que o “Homem Aranha 2” seria uma ótima opção, principalmente porque eu também sou fã do “cabeça de teia”. Fiquei satisfeito quando eles se admiraram com a tentativa frustrada do Doutor Octo Octavius de controlar o processo de fusão nuclear. Na primeira aula após o intervalo, fiquei surpreso ao ver um aluno entregar-me uma carta. “Fessor, dá uma olhada no que uma mina escreveu pra mim”. Eis que encontro naquele papel, escrito em letras cuidadosamente desenhadas, versos de amor! Meu Deus, há quanto tempo eu não via isso! Até que enfim encontrei um jovem que, assim como eu na adolescência, gosta de escrever movido pela paixão! Sim, na verdade era ele quem havia escrito aquelas palavras. “Olha, isso aqui não foi uma menina que te entregou, não. Que história é essa de ‘você é linda’?” Seu rosto ficou vermelho e, meio sem jeito, ele disse, olhando para baixo, tímido: “Não, fessor, fui eu quem escrevi pra uma mina aí.” “Pô, você não precisa ficar com vergonha. Isso aqui ficou muito bom! Tem alguns errinhos aqui que eu vou corrigir pra você, pode ser?” Sentindo-se mais à vontade e desenhando um grande sorriso, ele balançou a cabeça, concordando com minha iniciativa. Não é preciso dizer que seus colegas de classe começaram a tirar o sarro. “Aí, fessor, o cara ta apaixonado!” “Uai, vocês nunca escreveram uma carta de amor pra uma ‘mina’?”, perguntei. “Que isso, fessor! A gente tem que aproveitar a vida! A gente ainda tá muito novo”, retrucou um deles. “Mas quem disse que se apaixonar não é aproveitar a vida? Moçada, apaixonar-se é muito bom, principalmente na adolescência. Aquele aperto no peito, aquele friozinho na barriga, aquela vontade de ficar junto... Vocês têm que aproveitar essa parte da adolescência também! A intensidade dessas sensações vai diminuindo à medida que vocês vão envelhecendo.” Dobrei a carta e coloquei-a no bolso, prometendo-lhe que corrigiria e entregaria dali há alguns minutos. Na outra aula, também em um segundo ano, tive que interromper a aula para que dois atiradores do tiro-de-guerra pudessem distribuir convites para um passeio ciclístico que irão realizar neste fim de semana. Enquanto eles estavam na sala de aula, notei como algumas meninas suspiravam quando eles chegavam perto. Fiquei com vontade de rir, pois aquela situação me pareceu muito familiar. Afinal, acontecia a mesma coisa há 11 anos atrás, quando eu era atirador. Não comigo, claro, que sempre fui um “patinho feio e tímido”, mas com os outros colegas, que eram um pouco mais “espertos”. Enquanto as alunas ficavam de um lado da sala, dando seus nomes para os atiradores escreverem nos convites, do outro lado os meninos ficavam excomungando os atiradores, chamando-os de “periquitos do governo”. Quando os atiradores foram embora, um dos alunos soltou o verbo e disse que queria sair na porrada com um deles. “Fessor, esses caras ficam se achando de farda! São muito folgados!”, dizia em voz alta, chamando a atenção das meninas, que ainda suspiravam. “Rapaz, vou te contar uma coisa. Você ainda vai ser um atirador do tiro-de-guerra. Se eu ainda estiver nesta escola e se você aparecer aqui de farda, eu juro que vou te lembrar dessas suas palavras. Aí eu quero ver o que é que você vai me dizer... Quero ver se com você vai ser diferente!”. Na última aula, alguns alunos estavam terminando um trabalho de artes. Como eles me pediram para terminar o trabalho, dirigi-me ao fundo da sala e sentei-me entre os alunos. Não me recordo agora como surgiu o assunto, mas em um determinado momento da conversa começamos a falar sobre drogas. Fiquei impressionado com a verdadeira aula que eles me proporcionaram. Na verdade, sou completamente leigo no assunto (graças a Deus, né?). Percebi que todos eles entendem TUDO de maconha, cocaína, pedras, “nóias” e coisas do tipo. Também fiquei um tanto que chocado ao saber que eles não consideram que a maconha é uma droga. Dizem que quem fuma fica apenas “de boa” e não dá trabalho pra ninguém. A cocaína é que leva ao vício, a maconha não. Passei o resto do dia pensando em uma maneira de fazê-los perceber que estão errados. Ainda vou (e preciso) dar um jeito nisso. À noite, na universidade, interrompi a explicação para contar minha vida. Embora seja professor daquela turma desde o ano passado, ainda não havia lhes contado minha vida. Fi-lo porque percebi que os alunos tinham entendido o que eu havia explicado, mas mesmo assim estavam dizendo que era difícil. “Caramba, se vocês entenderam, então não é difícil. Difícil é o que a gente não entende.” Após terminar de contar minha trajetória, senti que muitos deles se sentiram motivados ao saberem que passei por maus bocados. Alguns, inclusive, disseram que querem seguir os estudos após a graduação, o que me deixou muito satisfeito. Nas duas últimas aulas presenciei os alunos “descendo a lenha” em vários professores. Disseram que, no início, não gostavam muito da aula que eu ministrava, mas me disseram que eu sou um professor acessível, com quem eles podem conversar, e que aos poucos fui adequando a aula às expectativas deles. Fiquei muito feliz, principalmente pela confiança que depositam em mim para falarem destas coisas comigo. Ah, já ia me esquecendo: dois alunos do 4º. ano, que vão se graduar ainda esse ano, pediram-me para não agendar nada para o dia 20 de dezembro. Dizem que têm algo muito bom para mim. Se eu não estou enganado, acho que a formatura será neste dia. Tenho a impressão que eles vão me homenagear na colação de grau. Eita nóis!!! Hoje vou dormir feliz, de alma lavada. Há bastante tempo eu precisava viver um dia tão intenso como este. Obrigado, meu Pai!!!

domingo, 20 de agosto de 2006

Agradecimentos e novidade

Queria deixar aqui os meus sinceros agradecimentos aos amigos Márcio e Marcelo (do "ora bolas") e às amigas Cristine e Adriene. Estes meus amigos "virtuais" (que têm sido muito mais "reais" e presentes do que muitas pessoas com quem convivo diariamente...) deixaram comentários demonstrando apoio e desejando-me força para sair desta situação de depressão iminente. Agradeço também a todos aqueles que visitam este espaço (que já não sei mais definir o que realmente é, mas que tem me ajudado a aliviar a tensão do dia-a-dia).
Nos bons tempos em que eu tinha tempo disponível, eu havia montado um blog para disponibilizar alguns de meus passatempos prediletos. Pois bem. Como aquele blog andava meio "abandonado" (claro, eu não ando tendo tempo pra passar!!!), ontem à noite tive a idéia de disponibilizar naquele espaço algumas das minhas HQ's (historias em quadrinhos) prediletas. Obviamente, eu as baixei dos excelentes blogs que estão aí ao lado. Quem tiver curiosidade, faça uma visita!

De volta a Ribeirão Preto

Acordei na quinta-feira disposto a mudar o rumo que meu humor estava tomando. Ao contrário do que havia ocorrido na quarta-feira, voltei da universidade com a sensação de dever cumprido. Ao invés da irritação, fui acometido por um cansaço arrasador, ao ponto de precisar tirar um cochilo antes de ir para a natação. Acabei chegando atrasado (novamente...) às aulas noturnas no colégio, o que me rendeu uma advertência ‘sutil’ e educada por parte da diretora. É vergonhoso dizer isso, mas o atraso está se tornando algo cada vez mais comum em minha vida, de modo que a lista de pessoas insatisfeitas com minha dificuldade de lidar com o horário está aumentando a cada dia. Por causa do cansaço, as aulas no colégio não foram boas (pelo menos não na minha opinião), mas ainda assim tive força para manter-me de pé e “lutar” até o último minuto contra o cansaço. Na sexta-feira fui para Ribeirão Preto. Precisava tratar de alguns assuntos pendentes relacionados ao trabalho da Marcele, uma aluna de mestrado que está sob minha DESorientação... Aproveitei e revi colegas dos tempos áureos de pós-graduação. O Tomaz recepcionou-me como a um irmão. Carla (secretária), Adeguimar (auxiliar de laboratório), Giba (técnico em destilação de solventes), Diógenes (o “cara” que prepara as amostras para RMN), Sílvia Taleb (agora uma pós-doutoranda) e, claro, o professor João, que foi meu orientador durante os seis anos de pós-graduação. Fui almoçar com a Viviane, uma amiga argentina com quem convivi durante 4 anos na moradia estudantil. Estava tão abatida com os problemas de relacionamento com seu orientador que sequer reconheceu minha voz ao telefone (!!!). Ouvi-la foi uma verdadeira lição sobre como um orientador NÃO deve ser e como as decisões do mesmo podem afetar e desestruturar completamente a vida de um aluno. Pelo que entendi, o tal professor “desforra” todos os seus problemas pessoais em cima do trabalho dela, beirando à falta de educação. Lamentável. Após o almoço, fui à biblioteca xerocar um artigo científico. Fazia dois anos que eu não ia àquele lugar em que tanto estudei durante a pós-graduação. As recordações que guardo de lá são muito boas. Quando parei diante do seu Luís, com sua barba e cabelo branquíssimos, recebi um sorriso. “Oi Antônio, tudo bem?”. Nem acreditei que ele se lembrou do meu nome!!! “Oi, Eduardo. Está sumido... Tudo bem?”, diz a Cássia, com um sorriso estampado no rosto. Meu Deus, eles ainda se lembram do meu nome! A Nice, esposa do Tomaz, também me cumprimentou, embora estivesse ocupada como sempre. No primeiro andar, a dona Miriam, sempre sorridente, perguntou se eu ainda não havia me casado. Ela quase teve um “troço” de tanto rir quando eu disse que “minha namorada está me enrolando há 11 anos”. Antes de vir embora, não resisti e fui à moradia. Lá encontrei o Ricardão, um antigo amigo de graduação e de pós-graduação. É ele um dos poucos elos que ainda me ligam fisicamente àquela casa. Creio que quando ele for embora, dificilmente voltarei a pôr os pés ali novamente. As árvores do campus estavam todas secas, por causa do longo período de estiagem. A biblioteca está sendo ampliada. Foi aberta uma rua que passa próximo à moradia de pós-graduação onde me alojei. Tudo está muito diferente. Havia um ar de saudosismo no ar. Andava com o carro bem devagar, olhando cada detalhe. Respirava fundo, tentando controlar os efeitos daquele maldito nó na garganta. Ao pegar a estrada, não contive o pranto. Chorei, inconformado e incapaz de controlar o maldito tempo, que parece voar mais rápido do que nunca...

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Depressão - The beginning

Cá estou novamente, tentando escrever o que tem se passado comigo nos últimos dias. Não considero que este post seja necessariamente uma atualização. Talvez possamos considerá-lo como uma espécie de desabafo ou reflexão. Não sei como começar nem tampouco onde quero chegar. Este, sim (o Márcio pode dizer...), é um post recheado de autenticidade... Neste exato momento minha coluna dói. Acabo de dar 5 aulas noturnas no colégio da rede pública. Em uma das classes, eu dei uma “apelada” de leve. Disse que não ia gritar e os acusei de terem uma idade inferior à que seus tamanhos físicos merecem. Uns três ou quatro alunos estavam tumultuando a sala. Estressei. Ontem também acabei me irritando na biblioteca da universidade. Um estagiário, não sabendo que eu ia ao campus somente às quartas e quintas-feiras, colocou a data de entrega para a segunda-feira. Em resumo: tive que pagar R$4,00 de multa. Após respirar fundo e tentar me controlar, estendi a mão com uma nota de R$10,00, ao que a moça respondeu: “Professor Crotti, o pagamento é lá na tesouraria”. Putz!!! Respirei fundo umas 10 vezes, mas não consegui conter um “isso é um forte desestímulo para que eu não bote mais os pés aqui nesta biblioteca”. Hoje fui pedir desculpas, pois achei que ela não merecia ouvir aquilo nem tampouco era culpada pelas regras da universidade. As aulas à noite na universidade, então, nem se fala. Os próprios alunos me perguntaram se eu estava cansado. Um deles chegou a questionar o porquê do meu nervosismo. “Não estou nervoso, não. Você nunca me viu nervoso”, respondi a ele. Na universidade, surgiram três alunos de iniciação científica para serem orientados por mim. Nos dois primeiros dias, eles mostraram um grande interesse e foram pontuais também. Contudo, como eu é quem tenho que lhes ensinar, estou um bagaço!!! Para completar, uma aluna de mestrado vai qualificar... e eu sou o ORIENTADOR dela!!! Na aula de hoje à noite, cheguei 10min atrasado. Fui em direção à sala sob o olhar descontente (obviamente, com razão...) da diretora da escola. Estou até mesmo sem paciência (ou será inspiração?) para postar uma história de verdade neste blog (ou melhor, de terminar de escrevê-la). Peço aos meus amigos, que sempre passam por aqui à procura de distração, as minhas sinceras desculpas. Talvez eu esteja desanimado por causa do calor, do estresse ou porque as coisas não seguem como eu queria. Ou pode ser que eu esteja entrando em depressão por causa do efeito combinado de todas estas causas. Os sorrisos vão desaparecendo aos poucos e o brilho de viver vai sumindo de meus olhos. O que me deixa mais irritado em toda esta história é o fato de estar irritado sem motivo aparente. A mamãe diz que estou caindo em depressão, e que a minha coluna é quem está sofrendo com isso. A questão que não quer calar é: o que devo fazer???? Vou dormir. Quem sabe Deus não aparece para mim em sonho e me traz esta resposta?

terça-feira, 15 de agosto de 2006

A frase que sempre quis ouvir como professor

7h50min. Estou no colégio da rede pública onde leciono. A passos largos, sigo em direção a uma das salas do primeiro ano do ensino médio. Enquanto caminho, fico pensando que não vim parar aqui por acaso. Sei que foi porque Deus quis que assim o fosse, mas ainda não consegui enxergar qual a minha verdadeira missão aqui neste espaço. Tenho mencionado aqui que não me sinto um bom professor nem tampouco acho que ministro boas aulas.Sendo assim, eu imagino que o Pai trouxe-me aqui por uma razão que até o momento desconheço. Até agora... Entro na sala com um “Bom dia!”, ao qual os alunos retribuem em coro. “Nooossa, professor! Hoje o senhor está de óculos. Que feio!” Com a caderneta já aberta, eu olho por cima dos óculos, com uma expressão de quem não gostou muito do que ouviu. A aluna que fez tal “elogio” fica um tanto que intimidada com o meu olhar. “Desculpa, professor”. Então eu sorrio. Ao me ver sorrindo, ela sabe que não estou chateado e, assim, retribui ao sorriso. Outros alunos também começam a rir, achando graça no que a colega acabou de dizer. Eu não me importo. É a forma deles de mostrarem que gostam de mim. E eu sei que gostam. Já o meu sorriso é a minha forma de demonstrar meu apreço por eles. São jovens de bom coração, que aos 15 anos, aparentemente ainda não foram diretamente contaminados pela maldade do mundo que os cerca. O assunto de hoje será a classificação periódica dos elementos. Penduro a tabela em frente ao quadro e, após fazer a chamada, começo a explicar-lhes o conteúdo. Após algumas informações sobre a forma como a tabela foi elaborada e como ela foi dividida, chega o grande momento. “Agora nós vamos decorar cada um dos elementos químicos e seus símbolos”. Após um sonoro “aaaaaahhhhhhhh”, já esperado, peço para que repitam o nome de cada um dos elementos. Após isso, escrevo no quadro negro uma frase que vai ajudá-los a memorizar o nome e o símbolo de cada um dos elementos. Eles acham engraçadas as frases. Quando dou aulas assim, fico me sentindo um verdadeiro professor de cursinho pré-vestibular. Após memorizarmos umas duas ou três famílias, eu lhes conto uma piada. No final da piada, vêm as gargalhadas. Não sei se riram da piada ou da minha interpretação, ou mesmo de ambos. Já me disseram que fico muito engraçado contando piadas. Dia desses contei uma piada olhando no espelho. Notei que faço caretas muito engraçadas e compreendi, então, porque eles costumam rir tanto. “Professor, vou colocar o nome no meu filho de ‘estrôncio’”. Todos riem. Mostro então alguns elementos químicos cujos nomes são muito estranhos e que, satiricamente, poderiam ser usados como potenciais nomes de batismo de algum dos filhos deles. “O Califórnio, por exemplo, foi descoberto na Califórnia”, digo. Para minha surpresa, um dos alunos solta uma pergunta que, sem dúvida, mudará o rumo da aula. “Fessor, em que país a Química é mais avançada?” Respondo que é nos Estados Unidos e explico que não é pela falta de capacidade humana, e sim de apoio financeiro. Esclareço também que nosso país não é mais avançado porque falta investimento em pesquisa por parte das indústrias. “Tenho vários colegas que foram fazer estágio fora do país. Todos me disseram que eles (os gringos) não são tão bons como a gente pensa, e que nós não somos tão ruins como pensamos”. Neste momento, percebo que o silêncio predomina na sala. Todos estão me olhando, curiosos, atentos ao que estou dizendo. “Ah, fessor, eu sou meio burrinha”, diz uma aluna. “Não, você não é burra, não. Nenhum de vocês é. Pelo contrário: vocês são muito capazes e podem conseguir tudo o que quiserem na vida, de maneira honesta. Basta terem força de vontade e perseverança”. Começo então a contar a minha vida. “Olhem só pra mim: sou de família pobre, assim como vocês. Sempre estudei em escola pública. Estudei em escola particular com bolsa, que ganhei por ser um bom aluno. Fiz inglês também com bolsa, porque fui sorteado por ser bom aluno. Sempre fui pobre. Fui ter carteira somente aos 21 anos, pois até então eu não tinha um centavo sequer para nela colocar.” Neste momento, sinto que não tenho apenas a atenção deles, como também percebo uma espécie de admiração. Continuo contando das minhas dificuldades na graduação e na pós-graduação. Conto da falta de dinheiro, que sempre foi uma constante em minha vida, e que agora, embora não seja rico, eu me sinto um verdadeiro vencedor. “Não esperem que ninguém passe a mão na cabeça de vocês. Raras serão as pessoas que lhes oferecerão uma mão quando vocês estiverem na lama. A vida não é fácil, mas se fosse fácil não teria graça. Nada é impossível, desde que vocês tenham força de vontade e determinação para conseguir. Eu consegui.” Os alunos parecem em transe. O sinal toca. “Pessoal, a gente se vê na próxima segunda-feira! Tchau e obrigado!” Enquanto me dirijo à porta da sala, ouço um aluno dizendo para o colega. “Rapaz, eu cheguei na escola com sono. Depois de uma aula dessas a gente até anima a estudar!”. Eis a frase que eu esperei ouvir desde que comecei a dar aulas. Um entusiasmo sem precedentes toma conta de mim neste momento. Talvez eu esteja começando a entender, finalmente, a minha verdadeira missão como professor deste colégio. Olho para o céu e agradeço o sinal que Deus acabara de enviar-me para mostrar-me que estou no caminho certo.

domingo, 13 de agosto de 2006

40 min de uma vida monótona

Quarta-feira, 9 de agosto de 2006. O relógio do celular acusa 8h. À minha direita se apresenta a entrada para a via Anhangüera. Bato a mão na chave de seta e vou virando o volante aos poucos. Há cinco meses, desde que fui contratado pela universidade, esta cena vem se repetindo no mínimo duas vezes por semana.Estou a caminho de Franca, que fica a mais ou menos 70 km daqui. Embora esteja acostumado com o percurso, cada viagem é perigosamente única. Hoje, por exemplo, viajo sem a companhia do camarada Crevelim, que conheço desde a infância. Não há ninguém ao meu lado, mas não preciso dizer que não me sinto sozinho. Ao viajar, deixo a mamãe lá em casa, sempre cheia de preocupação comigo. Mas o que a preocupa não é a estrada, que por si só já é muito perigosa, e sim o medo de que eu durma ou cochile ao volante. Em 2000, quando viajava aos sábados para as aulas do curso de plenificação pedagógica, a mamãe chegou a pedir para o vovô Miller viajar comigo. Contudo, ao saber que eu e ele cochilamos ao mesmo tempo, eu no meu banco, ele no dele, com o pescoço dependurado, a mamãe concluiu que o melhor a fazer era pedir a Deus para que ele iluminasse meu caminho. Para tranqüilizá-la e para garantir-lhe que não vou dormir, sigo ouvindo músicas pelo tocador de mp3. Estou na Via Anhanguera, a 110 km/h. Olho para mim. Estou vestindo uma camiseta da universidade (eita, funcionário dedicado!!), calça jeans (que já não está tão apertada como antes...) e um sapatênis camurça em tonalidade clara. Ao olhar-me no espelho retrovisor interno, toda o espaço da visão do mundo que ficou para trás é ofuscada pelo meu rosto, que preenche toda a visão. Linhas de expressão estão desenhadas e distribuídas pelo rosto, principalmente na testa, que tanto se enrugou durante meus diálogos e por causa da maldita fotofobia... Se estou tão enrugado com 30 anos, fico imaginando como estarei aos 60! Aliás, será que eu viverei até 60 anos? Mas a tristeza profunda que ameaça abater-me é adiada momentaneamente pela música “fading like a flower”, da banda Roxette. Como eu sei a letra, começo a acompanhá-la. Os motoristas dos carros que passam por mim, em sentido contrário, ficam me olhando. Devem achar que sou louco ou coisa parecida. Começo a rir. À minha frente, um pouco à direita, vai se aproximando a entrada para a rodovia Fábio Talarico. É uma rodovia estadual, daquelas que o governo parece ter esquecido que existe. Buracos estão espalhados ao longo do percurso. Caminhões carvoeiros, canavieiros e os chamados “treminhões” não apenas tornam o tráfego mais lento, como também conferem um tom de aventura e perigo à viagem. Recordo-me que vários jovens foram vítimas de acidentes nesta rodovia. Um deles morreu tragicamente ao colidir na traseira de um caminhão canavieiro. Dizem que ele vinha em alta velocidade, a altas horas da noite. Voltava da casa da namorada, em São José da Bela Vista, uma cidade que fica às margens desta rodovia. Uma fatalidade. Meus dedos desenham no peito e na testa o sinal da cruz. São Cristóvão há de proteger-me, assim como tem protegido meu pai durante todos estes anos que, na condição de caminhoneiro, tem colocado sua vida em perigo para sustentar-nos. Às margens da rodovia só vejo mato. Um mato alto e amarelado por causa do longo período de estiagem. A umidade do ar está muito baixa. Há meses não chove por aqui. Por trás do mato, é possível ver o movimento dos guinchos, das colhedeiras de cana e dos treminhões. A cana-de-açúcar é a principal atividade por aqui. As lavouras de soja e de milho desapareceram da paisagem. No horizonte, uma nuvem escura de fumaça, provavelmente oriunda de alguma queimada, contrasta com o céu incrivelmente azul. Fico então pensando como os homens modificam a paisagem para suas atividades econômicas. Tudo por causa da maldita ambição por dinheiro. Será que os usineiros não enxergam que cada hectare de cana que é queimado torna vida neste planeta torna mais difícil? Estou a 110 km/h. A velocidade máxima permitida é 100 km/h. Estou em uma descida. À minha frente, há algumas centenas de metros, vejo uma fila de caminhões trafegando devagar por causa da subida. Reduzo a velocidade. Por um instante, eu me irrito. Penso que eles estão atrapalhando a minha viagem. Mas a crise de mau-humor se desfaz quando me toco que o papai também é caminhoneiro e que muitos outros motoristas devem ter pensado o mesmo dele quando ele se deparava com subidas íngremes como esta. Na verdade, se há alguém atrapalhando aqui sou eu. Aguardo, então, no final de uma fila de três caminhões. Não tenho visão para ultrapassar. Vou aguardar o melhor momento. Reduzo a velocidade. Apóio o cotovelo esquerdo no puxador da porta e apóio o queixo com a mão esquerda, enquanto a mão direita permanece na parte de cima da direção. De subido, vejo um Golf preto passar em alta velocidade por mim, causando-me susto. Lá longe, descendo em alta velocidade em sentido contrário, vejo uma camionete, que aparentemente também trafega em alta velocidade. Apesar de sua velocidade, o Golf ainda não terminou de ultrapassar os três caminhões. Camionete e Golf vão se aproximando cada vez mais. Cada vez mais... A camionete dá luz alta, mas o Golf segue seu trajeto. Como última saída para evitar a colisão, a camionete desvia para o acostamento. A manobra se dá sob os protestos do motorista da camionete, um homem de grande chapéu e com um enorme bigode branco. De fato, a manobra de ultrapassagem do motorista do Golfo foi altamente arriscada. Olho para o crucifixo que está pendurado no espelho retrovisor interno, que foi presente do Toninho, o motorista do ônibus que nos levava para a universidade nos tempos de graduação. Percebo como a vida passa diante dos nossos olhos e a gente não vê. Uma colisão como a que quase ocorreu agora pode custar a vida de uma ou mais pessoas. Como dizem, “para morrer, basta estar vivo”. Novamente a idéia de ter que viajar duas vezes por semana por esta estrada, na condição de motorista, volta a incomodar-me. Infelizmente, não tenho outras opções no momento. Preciso trabalhar. Não se trata apenas de uma realização profissional, mas de uma necessidade. Não posso desistir. Além disso, estou em uma situação que muitos outros gostariam de estar. Não posso reclamar. Eis que recrimino novamente pensamentos de revolta com o meu bom senso. E a viagem continua. Estou na altura da entrada de São José da Bela Vista, cidade em que a minha querida Débora dá aulas de Português. Sei que ela está ali neste momento, trabalhando. Meu desejo é desviar-me do caminho e ir encontrá-la, para dar-lhe um abraço apertado. Mas não posso. Tenho que ir trabalhar. Ela também precisa. Não quero incomodá-la... Passam-se alguns quilômetros e eu avisto, à minha direita, uma barraca de caldo de cana. As lembranças desta barraca fazem-me rir. Recordo-me que no início de 2004 a Débora e eu vínhamos para Franca quando o meu carro começou a jogar água pelo vidro. Ao abrir o capô, notei que a parte superior do radiador havia estourado! Tive então que passar o volante para a Débora, para que ela controlasse o carro enquanto eu empurrava o carro, de marcha-a-ré, para deixá-lo à sombra da grande árvore, ao lado da tal barraca. Enquanto ela ficou tomando um caldo de cana gelado, eu saí caminhando pela estrada, sob um sol de quase 30oC, em direção ao posto que ficava a uns 3 ou 4 km dali. Tudo isso aconteceu porque nenhum de nós dois tinha celular... Por falar em celular, onde está o meu? Remexo na bolsa que o cumpadre Cláudio deu-me de presente e consigo identificá-lo entre o grande número de coisas jogadas que ali estão. Passam-se mais alguns quilômetros e eu avisto um motel. Começo a rir novamente, embora a situação que me vem à memória devesse fazer-me chorar. No final de 2003, eu vinha para Franca com meu primo Frederico, dar aulas à noite. Estava orgulhoso do carro, pois o havia lavado e encerado. Os bancos do carro haviam sido recentemente trocados e eu estava muito orgulhoso disso. Eu vestia camisa social. Era a primeira vez na condição de docente que eu viria à universidade com o meu próprio carro. Foi justamente na frente deste motel que nós tivemos que parar o carro ao notar que uma fumaça saía pela tubulação de ar no capô. Para minha surpresa e revolta, vi que tinha esquecido de colocar a tampa do reservatório de água do radiador após tê-lo abastecido... Diante de tamanha trapalhada, que muito caro me custou, só rindo mesmo! Continuo a 110 km/h. O tráfego fica novamente lento, pois o lugar em que os guardas rodoviários costumam ficar “escondidos” está se aproximando. Resultado: todos os veículos diminuem sua velocidade. E o riso recomeça... A quem queremos enganar? Por que precisamos sempre de alguém que fique nos vigiando para que não façamos nada de errado? Neste ponto da viagem, enxergo que às vezes os adultos agem como se fossem crianças travessas, que precisam ser corrigidas por causa de suas travessuras... Após quase 40 min de percurso, a universidade aparece, altiva, diante de meus olhos. Encho o pulmão de ar. Vamos para mais um dia de trabalho. Que Deus me ilumine!!!

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Velho filho de uma jovem mãe

23h26min. Acabo de descer do ônibus 1380 da PW Tur, no qual viajo às segundas, terças e quartas-feiras. Volto para casa caminhando ao lado do Sanclei, um colega de ônibus. Cada um desce ouvindo o seu mp3 player. As palavras entre nós são escassas. Cada um parece mergulhado nos seus próprios problemas e pensando no dia de amanhã. Caminho arrastando os pés. Preciso revezar o braço que carrega a maleta, pois ela parece estar pesando mais que nos outros dias, embora esteja praticamente vazia. De fato, estou muito cansado. Na natação, não concluí mais que 500 m e, ainda assim, senti-me exausto, a ponto de sentir uma maldita fisgada nas costas... Na hidroginástica, também não demonstrei o fôlego de sempre. Parecia estar rezando para acabar logo com aquilo. As aulas na universidade foram tranqüilas, porém cansativas. Às vezes sinto que estou um pouco cansado de tantas aulas, mas sei que o problema talvez esteja comigo. Cada vez mais eu quero estar em uma universidade pública e, ironicamente, as chances disso se concretizar me parecem cada vez mais remotas. Hoje em especial eu me esforcei para dar boas aulas na universidade, mas a postura e o desinteresse de alguns alunos é desmotivante. Em um determinado momento, na última aula, eu me equivoquei em uma ordem de bascidade, mas logo corrigi. Foi o suficiente para um dos alunos do “fundão” gritar um “ô burro!”. Ironicamente, é um aluno que está de dependência, que já foi reprovado uma vez e caminha para a segunda reprovação... Com os ombros caídos e a coluna recurvada, tento seguir o ritmo do Sanclei. “É, Sanclei, não sei se hoje eu conseguiria levar a vida que eu levava nos tempos de universidade.” “É foda”, responde ele, demonstrando também estar cansado e pouco disposto a um diálogo. Aos poucos vamos vencendo a esquina e nossas casas vão se tornando cada vez mais próximas. Enfim, chegamos ao quarteirão de minha casa. Aperto-lhe a mão. “Até amanhã, Sanclei. Abraço!” Ele retribui o cumprimento e desce em direção à sua casa. Da esquina, olho para o portão de cada, onde minha querida mamãezinha me aguarda, agachada. Olho então para o céu estrelado e agradeço a Deus por tê-la colocado em minha vida. Sem ela jamais teria vencido os obstáculos que surgiram em minha vida. Uma brisa suave massageia meu rosto. Já no portão, dou um abraço apertado na mamãe. Caminhando abraçado com a minha mamãe “baixinha”, de 1,50m, eu começo a esboçar um sorriso tímido, sem deixar os dentes à mostra. “Há muitos motivos pra não desistir. A senhora é um deles”, penso comigo. Ela se encolhe, tímida, como quem não é acostumada a receber um abraço. A porta da sala se abre. Atravesso a sala, a cozinha e chego, enfim, ao meu quarto. Lá da cozinha, a mamãe grita: “Filho, o seu leite está pronto. Vem beber ele logo, senão ele vai esfriar. Tchau, dorme com Deus. Vou dormir. Amanhã tenho que levantar às 4h...”, diz ela. Ah, mamãe, se a senhora soubesse como eu gosto da senhora e a admiro...

sábado, 5 de agosto de 2006

Saudade dos tempos de semeadura

São 0h59min. Não vejo nada. O quarto está escuro, as luzes estão apagadas. Deitado no chão, de olhos abertos, estou tentando fazer algo que há muito tempo não faço: refletir sobre a vida. É triste aceitar que ao me deitar, não tenho conseguido sequer rezar, tamanho o cansaço que me abate. Às vezes tento conversar com Deus, deitado de lado, mas o sono sempre me vence... Mil pensamentos me passam pela cabeça neste momento, mas o que mais me incomoda agora é a saudade dos colegas. Às vezes adormeço ouvindo Enya e me lembro das vezes em que adormeci lá na moradia de pós-graduação da USP ouvindo este mesmo CD. Hoje, neste pequeno quarto, adormeço sozinho. Não ouço passos dos colegas andando pelos corredores da casa, provavelmente correndo para o banheiro por causa das diarréias. A luz do corredor, que os colegas sempre esqueciam acesa, e que atravessava as fissuras da porta de madeira, não mais incomodam. A brisa fria da madrugada, que sempre penetrava pelas fendas da veneziana, não mais me deixa gripado. Hoje não mais tomo os achocolatados do tipo “Todyinho” nem tampouco como as bolachinhas de nata que a vovó Maria fazia especialmente para mim. Quantas vezes, antes de dormir, eu ficava até de madrugada conversando com meus amigos de quarto – o Vanderlei, o Ricardo (Jaw Jaw), o Gláucio, o Pancinha, o Alvim... Eram risadas e mais risadas... Já se passaram quase dois anos desde que deixei a moradia estudantil. Na época, eu tinha plena convicção de que tinha deixado verdadeiros “irmãos” ali, e que jamais perderíamos o contato. Certo. Acho que me enganei novamente... Desde então, ouso dizer que os e-mails que recebi dos meus antigos companheiros e companheiras não somam 20 (talvez não ultrapassem os 10!). Estas pessoas ocuparam um lugar muito especial no meu coração, mas ao se esquecerem de mim, deixaram um vazio enorme que não apenas está sendo difícil de preencher como também dói bastante... Foi assim no tiro-de-guerra. Foi assim na universidade. E será assim, sempre.. Diferente daquela época, hoje posso dizer que minha vida tem um rumo mais ou menos definido. Muitos dos meus anseios daqueles tempos já não me incomodam mais. Por outro lado, tudo está mais sério. Há horários para tudo, e tudo tem que ser feito “para ontem”. Embora eu esteja colhendo os frutos, sinto saudade da época em que estava plantando... Preciso aprender a virar mais esta página de minha vida, tão especial e bem escrita. Mas não pensem que irei rasgá-la de meu livro... “Qualquer dia, amigos, a gente vai se encontrar...” Qualquer dia, mas não um dia qualquer; no dia em eu Deus quiser... Coloco então o fone do toca-CD no ouvido. “On my way home I remember all the good days...” Uma lágrima me escorre pela face esquerda. Já é hora de dormir.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Com medo do abandono

22h36min. O som da cadeira rompe o silêncio na cozinha. Acabo de tomar alguns mililitros de leite na minha caneca do “Superman – o retorno”, como sempre faço antes de ir dormir. As luzes da casa estão todas apagadas. Após o estrondo da caneca caindo no fundo de latão da pia da cozinha, o silêncio volta a reinar. Este silêncio diz muitas coisas; a principal delas é que o papai deve estar acordado. Isto é relativamente óbvio, já que sempre ouço o ruído de seu ronco. Paro, então, na entrada do quarto. Ouço então o papai e a mamãe conversando baixinho. A mamãe deitada de bruços, exatamente na posição que tanto prejudica sua coluna. O papai está de barriga para cima, olhando para o forro de madeira, com o punho sobre a testa. Ele está pensando em algo. Seu olhar parece distante, embora não consiga identificar para onde ele está olhando, por causa do escuro. Ao ver minha sombra desenhada na porta do quarto, impedindo a passagem da luz que vem do corredor, ele me chama. “Filho, vem cá. O papai precisa falar com você”. Eu conheço bem este tom de voz. O papai está triste. Apertando a mão dele, eu o incentivo a dizer o que ele queria. “O que foi, papai? Pode falar.” Após um longo suspiro, como se estivesse cansado ou como se estivesse precisando desabafar algo que lhe aflige, ele começa. “Filho, está acontecendo algo muito triste na nossa família. Como você sabe, o vovô Crotti e a vovó Lourdes estão muito doentes. A vovó está esclerosada, o vovô está escarrando sangue pelo nariz por causa do cigarro. Agora, mais do que nunca, os dois precisam dos filhos. Nós somos em cinco filhos, mas a maioria deles ‘tirou o c... fora do ponto. Sua tia se recusa a pagar o plano de saúde do vovô, porque acha uma sacanagem ele dar o dinheiro pra “quenga” dele. Sua outra tia disse que não vai mais fazer as compras da casa. Seu tio está com raiva do vovô Crotti, o outro tio não tem dinheiro e, mesmo que quisesse fazer alguma coisa, não teria como ajudar. Já falaram até em mandar o vovô Crotti para o asilo, caso a vovó Lourdes morra primeiro...” Por um instante, o papai pára e fica analisando minha reação. Eu sei exatamente o que ele quer ouvir, mas me limito a balançar a cabeça, em sinal de desaprovação diante dos fatos que ele narrou. O papai retoma o discurso. “Filho, seu avô nunca foi um bom pai. Eu nunca recebi sequer um abraço dele... Desde que comecei a trabalhar como engraxate, aos 10 anos, eu ajudava em casa. Todo o dinheirinho que eu ganhava sempre ia pras mãos da ‘mãe’. Quando tinha 15 anos e dei minha primeira viagem de caminhão, o ‘pai’ me disse: ‘Se quer comer aqui em casa, vai ter que dar metade do que você ganhar’. Também presenciei o ‘pai’ bater na mãe várias vezes. Sei também que o ‘pai’ tem uma amigada, pra quem ele dá toda a aposentadoria dele. Eu não acho isso certo, filho. Ele não foi um bom pai nem um bom marido pra ‘mãe’, mas não é por isso que eu vou abandonar ele no fim da vida dele. Agora ele está doente, sem forças É o momento em que ele mais precisa dos filhos. O caminhão e o carro dele estão no nome da sua tia, mas ela foi a primeira a se recusar a pagar o plano de saúde dele e, junto com seu tio, disseram que querem mandá-lo para o asilo. Eles não deviam fazer isso, porque também têm filhos e, um dia, também vão ficar velhos. Ele pode ser o que for, filho, mas é meu pai! É meu pai e eu não vou deixar que ele acabe abandonado em um asilo. Tudo o que a gente faz de bom nesta vida volta pra gente. Espero que você se lembre disso quando eu envelhecer.” Ao final de suas palavras, consigo entender o que o aflige. Não é apenas a dor iminente de perder seus pais, mas também o medo da possibilidade de também envelhecer e de precisar de mim e da minha irmã. “Papai, o senhor sempre foi um bom pai para mim. Eu vejo no senhor um exemplo de pai e de companheiro pra mamãe, embora eu saiba dos gritos que vocês trocam quase o dia inteiro... O senhor sempre gostou das coisas certas, ao ponto de ser conhecido por ‘chato’ ou ‘sistemático’. Também sei que o senhor nunca fez mal para ninguém e que é um homem bom de coração. Sempre foi um pai muito carinhoso. É muito difícil um pai e um filho que se dá tão bem como nós dois. Se o senhor não vai abandonar o vovô Crotti, que foi ruim para o senhor, o senhor acha que eu seria capaz de abandoná-lo?” “Bom, acho que não. Eu espero que não.” Levanto-me então e peço-lhe sua bênção. Após sentir seu beijo estalado no rosto, eu me retiro do quarto, repetindo a frase que ele acabara de dizer: “O que a gente faz de bom nesta vida, volta pra gente”.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Um grande tombo

Janeiro de 1987. Tenho 11 anos. Estou em frente à casa do Adriano, a quem apelidamos de “Saracura”. Ele é mais ou menos do meu tamanho, embora tenha nascido uns dois ou três anos antes de mim. O que chama a atenção no Saracura é o cabelo, cortado na forma de tijela-e-franja, e os dentes dele. Ele usa aparelho do tipo “freio de burro”. Mas o que mais admiro no Saracura é a bicicleta dele. É uma Triunfo T-47 Tigre, nas cores branco e vermelho. O banco é longo, podendo caber perfeitamente duas pessoas bem acomodadas. O peso destas pessoas pode ser aliviado pelos amortecedores traseiros. O freio (privilégio da roda traseira) é a disco, parecido com o das motos. Sempre notei o quanto ele gosta de sua Triunfo e do quanto ele se diverte saltando em cima do banco e sentindo o impacto da queda sendo devolvido pelos amortecedores. Foi justamente por isso que pedi de presente para o papai uma bicicleta igualzinha, inclusive na cor! No dia em que ganhei a minha “Triunfo”, lembro-me de ter chegado da escola e ter ouvido a mamãe dizer-me que tinha uma surpresa para mim. Ao entrar no quarto, lá estava a tão desejada bicicleta! O papai, que deve ter ficado escondido para ver minha reação, apareceu dizendo que já a tinha polido com cera Grand Prix. Como eu não sabia andar de bicicleta, o papai teve que comprá-la já devidamente equipada com as rodinhas. Contudo, eu nem me preocupava se ia aprender ou não. Eu estava preocupado mesmo era com os amortecedores dela! Entretanto, para meu desapontamento, notei que eles estavam duros. O papai explicou que estavam duros porque ainda não estavam amaciados. No auge da minha esperteza, pedi para o papai ficar pulando em cima do banco até que os amortecedores estivessem, finalmente, “amaciados”. Já no primeiro pulo que o papai dei reparei que a roda foi para um lado e o pára-lama foi para o outro. Pronto! Minha “Triunfo” estava desalinhada, provavelmente para o resto da vida! Pois bem. Neste momento, o Saracura está menosprezando a minha justamente por causa deste alinhamento. Obviamente, eu não estou gostando nada do que ele está dizendo. “Eu não troco a minha bicicleta pela sua. Não importa que é mais nova. Ela está toda desalinhada!”. Já no limite de minha paciência, monto em minha “Triunfo” e sigo em direção à rua São Paulo. Desço, então, em disparada. A rua termina em uma chácara, mas eu não pretendo ir até lá. Virarei à esquerda, em direção à rua Sergipe. Aos poucos vou notando que a bicicleta vai ganhando velocidade muito rápido, mas minha raiva me impede de pensar com lógica neste momento. “Vou virar a esquina sem brecar”, penso. Por poucos segundos eu desfruto da deliciosa sensação de sentir o vento batendo em meu rosto com força, projetando o topete para trás. Mas a sensação dura pouco e é chegada a hora de dobrar a esquina. Decido a não brecar, eu tento fazer a curva. Mas... não consigo. A bicicleta, já fora de controle, segue em direção à sarjeta. No momento em que a roda da frente encosta na sarjeta, sou projetado à frente, por cima do guidão, indo colidir com uma árvore de tamanho pequeno, ainda em formação. Caio em cima de sua copa e saio “catando cavacos”. Após deslizar pela calçada, deixando pedaços de pele espalhados pelo cimento, sinto-me mais assustado do que com raiva. O balanço da situação não é nada bom: os dois joelhos ralados e sangrando; queixo ralado; punho esquerdo ralado. Mas sabem o que está doendo mesmo? É ver minha “Triunfo” ali, tão nova, com o pára-lama dianteiro quebrado. Isto, sim, é doloroso! Não consigo conter as lágrimas...Eu quero a mamãe!!!

Uma segunda chance

16h57min. Acabo de girar a chave para desligar o carro. Com a mão esquerda, puxo a maçaneta interna do carro e a porta se abre. Jogo a perna esquerda; a direita vem depois. No braço direito, levo a toalha e a sunga, ambas molhadas. Alcanço um prendedor para a sunga e a penduro no varal. A toalha fica estendida logo ao seu lado. Ao olhar para frente, na cadeira de tiras de plástico forrada com um colchinil amarelo, encontro o papai. Sentado, com um olhar perdido e com as pernas cruzadas, o braço direito levantado e apoiado em cima da cabeça, ele me olha. “Filho, você quer ir lá ver o carro?” Hoje faz dois dias que meu pai sentiu-se trocado pelo futebol das tardes de sábado. Ainda assim, ele parece manter-se firme na posição de querer-me mostrar o tal carro. “Meu filho, vai com o seu pai, pelo amor de Deus! Assim ele pára de encher o saco!”, esbraveja a mamãe, de dentro do quarto onde está costurando. Conhecendo meus pais como eu os conheço, posso afirmar que os dois estavam brigando por causa do maldito carro, que sequer temos condições de comprar. Ela certamente estava me defendendo, dizendo que o papai é muito chato e que fica exigindo que eu vá ver um carro que não me interessa. Ele, em contrapartida, deve tê-la chamado de “indecente” e “enjoada”. Olho para o papai. Ele mantém os olhos fixos em mim. Em retribuição, eu lhe lanço um olhar parecido com o de sábado. Seus olhos permanecem tristes desde sábado... Olho então firme para ele e, olhando dentro dos olhos dele, digo o que ele quer e merece ouvir: “Então vamos, papai”. Ele descruza as pernas, joga o pesado tronco sobre os joelhos e se põe de pé. “Bem, abre o portão. Nós vamos lá ver o carro”, diz ele, com um vestígio de satisfação em suas palavras. 17h20min. Acabamos de retornar da “aventura”. O carro é, realmente, muito bonito, mas minha postura continua a mesma: minha prioridade é a construção de minha casa. Carros deverão ficar, pelo menos por enquanto, em segundo plano. Mas isso parece pouco importar para o papai. Enquanto me sento à mesa para ingerir o jantar, que a mamãe já deixou no prato, o papai joga a chave sobre a mesa e, enquanto tira a camisa e a pendura sobre a cadeira de madeira, diz pra mamãe, com uma voz vitoriosa: “Eu não te falei? O Dado ficou doidinho com o carro!” Às vezes precisamos dar uma segunda chance. Às vezes precisamos de uma segunda chance.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Procura-se um "meio-termo"

Tenho me sentido muito estranho desde o início das férias. Coincidentemente, foi neste período em que ocorreu o “travamento” da minha coluna. Desde então vi-me forçado a tornar constantes as visitas à piscina da academia. Além de nadar todos os dias, tenho sessões de hidroginástica às segundas-, quartas- e sextas-feiras. É verdade, isso tem me tomado uma parte significativa do meu tempo, mas eu já me conscientizei que se eu quiser viver bem, e poder caminhar e correr à vontade, sem sentir dores, vai ter que ser deste jeito. A minha sensação de que há algo estranho talvez venha do fato de não estar acostumado com esta situação. Aliás, estive pensando a respeito do que aconteceu entre eu e o papai no último sábado. Cheguei à conclusão que talvez eu esteja me sentindo tão egoísta por nunca ter deixado um tempo para mim. Meu tempo sempre foi dedicado aos outros. Sempre pensei em todo mundo, nos compromissos profissionais e nos outros. Notei que eu sempre me colocava em último lugar em tudo! Neste sentido, tenho a impressão que a tendência é que isso caminhe para um “meio-terno”. Nem tão “eu”, nem tão “os outros”. A grande vantagem de tudo isso é que 7 kg (isso mesmo: 7 kg!!!!) foram embora! Os 84.3 kg que me incomodavam no início das férias se reduziram a 77.4 kg. O que eu fiz? Bom, reduzi o número de pães ingeridos, estou evitando refrigerante, jantando menos e, principalmente, nadando muito! Infelizmente não tenho atualizado este blogger com tanta freqüência. Além do tempo, que ficou escasso demais diante de tanta natação (sim, uma hora por dia me faz muita, mas muita falta!!!), há também o problema de não querer escrever porcarias (como essas que eu escrevo neste momento...), que os outros não vão gostar de ler. Neste ponto, penso que o Márcio tinha realmente razão: de “diário virtual”, este blog acabou se tornando uma forma de me fazer com que pessoas (muitas das quais provavelmente nunca conhecerei pessoalmente...) se interem do que se passa em minha rotina. E é claro: ao escrever, fico pensando no que as pessoas vão achar sobre o que eu escrevi... De qualquer forma, peço desculpas àqueles amigos virtuais fiéis e pontuais, que passam por aqui todos os dias. A estes, eu prometo que encontrarei o “meio termo” que mencionei. Há inúmeras coisas a fazer: provas a serem corrigidas, um artigo para enviar, aulas para preparar para a pós-graduação... Em resumo: estou encrencado! Mesmo assim, sigo nadando... Se morrer na praia, tudo bem. Pelo menos morrerei sem dores na coluna!