domingo, 13 de agosto de 2006

40 min de uma vida monótona

Quarta-feira, 9 de agosto de 2006. O relógio do celular acusa 8h. À minha direita se apresenta a entrada para a via Anhangüera. Bato a mão na chave de seta e vou virando o volante aos poucos. Há cinco meses, desde que fui contratado pela universidade, esta cena vem se repetindo no mínimo duas vezes por semana.Estou a caminho de Franca, que fica a mais ou menos 70 km daqui. Embora esteja acostumado com o percurso, cada viagem é perigosamente única. Hoje, por exemplo, viajo sem a companhia do camarada Crevelim, que conheço desde a infância. Não há ninguém ao meu lado, mas não preciso dizer que não me sinto sozinho. Ao viajar, deixo a mamãe lá em casa, sempre cheia de preocupação comigo. Mas o que a preocupa não é a estrada, que por si só já é muito perigosa, e sim o medo de que eu durma ou cochile ao volante. Em 2000, quando viajava aos sábados para as aulas do curso de plenificação pedagógica, a mamãe chegou a pedir para o vovô Miller viajar comigo. Contudo, ao saber que eu e ele cochilamos ao mesmo tempo, eu no meu banco, ele no dele, com o pescoço dependurado, a mamãe concluiu que o melhor a fazer era pedir a Deus para que ele iluminasse meu caminho. Para tranqüilizá-la e para garantir-lhe que não vou dormir, sigo ouvindo músicas pelo tocador de mp3. Estou na Via Anhanguera, a 110 km/h. Olho para mim. Estou vestindo uma camiseta da universidade (eita, funcionário dedicado!!), calça jeans (que já não está tão apertada como antes...) e um sapatênis camurça em tonalidade clara. Ao olhar-me no espelho retrovisor interno, toda o espaço da visão do mundo que ficou para trás é ofuscada pelo meu rosto, que preenche toda a visão. Linhas de expressão estão desenhadas e distribuídas pelo rosto, principalmente na testa, que tanto se enrugou durante meus diálogos e por causa da maldita fotofobia... Se estou tão enrugado com 30 anos, fico imaginando como estarei aos 60! Aliás, será que eu viverei até 60 anos? Mas a tristeza profunda que ameaça abater-me é adiada momentaneamente pela música “fading like a flower”, da banda Roxette. Como eu sei a letra, começo a acompanhá-la. Os motoristas dos carros que passam por mim, em sentido contrário, ficam me olhando. Devem achar que sou louco ou coisa parecida. Começo a rir. À minha frente, um pouco à direita, vai se aproximando a entrada para a rodovia Fábio Talarico. É uma rodovia estadual, daquelas que o governo parece ter esquecido que existe. Buracos estão espalhados ao longo do percurso. Caminhões carvoeiros, canavieiros e os chamados “treminhões” não apenas tornam o tráfego mais lento, como também conferem um tom de aventura e perigo à viagem. Recordo-me que vários jovens foram vítimas de acidentes nesta rodovia. Um deles morreu tragicamente ao colidir na traseira de um caminhão canavieiro. Dizem que ele vinha em alta velocidade, a altas horas da noite. Voltava da casa da namorada, em São José da Bela Vista, uma cidade que fica às margens desta rodovia. Uma fatalidade. Meus dedos desenham no peito e na testa o sinal da cruz. São Cristóvão há de proteger-me, assim como tem protegido meu pai durante todos estes anos que, na condição de caminhoneiro, tem colocado sua vida em perigo para sustentar-nos. Às margens da rodovia só vejo mato. Um mato alto e amarelado por causa do longo período de estiagem. A umidade do ar está muito baixa. Há meses não chove por aqui. Por trás do mato, é possível ver o movimento dos guinchos, das colhedeiras de cana e dos treminhões. A cana-de-açúcar é a principal atividade por aqui. As lavouras de soja e de milho desapareceram da paisagem. No horizonte, uma nuvem escura de fumaça, provavelmente oriunda de alguma queimada, contrasta com o céu incrivelmente azul. Fico então pensando como os homens modificam a paisagem para suas atividades econômicas. Tudo por causa da maldita ambição por dinheiro. Será que os usineiros não enxergam que cada hectare de cana que é queimado torna vida neste planeta torna mais difícil? Estou a 110 km/h. A velocidade máxima permitida é 100 km/h. Estou em uma descida. À minha frente, há algumas centenas de metros, vejo uma fila de caminhões trafegando devagar por causa da subida. Reduzo a velocidade. Por um instante, eu me irrito. Penso que eles estão atrapalhando a minha viagem. Mas a crise de mau-humor se desfaz quando me toco que o papai também é caminhoneiro e que muitos outros motoristas devem ter pensado o mesmo dele quando ele se deparava com subidas íngremes como esta. Na verdade, se há alguém atrapalhando aqui sou eu. Aguardo, então, no final de uma fila de três caminhões. Não tenho visão para ultrapassar. Vou aguardar o melhor momento. Reduzo a velocidade. Apóio o cotovelo esquerdo no puxador da porta e apóio o queixo com a mão esquerda, enquanto a mão direita permanece na parte de cima da direção. De subido, vejo um Golf preto passar em alta velocidade por mim, causando-me susto. Lá longe, descendo em alta velocidade em sentido contrário, vejo uma camionete, que aparentemente também trafega em alta velocidade. Apesar de sua velocidade, o Golf ainda não terminou de ultrapassar os três caminhões. Camionete e Golf vão se aproximando cada vez mais. Cada vez mais... A camionete dá luz alta, mas o Golf segue seu trajeto. Como última saída para evitar a colisão, a camionete desvia para o acostamento. A manobra se dá sob os protestos do motorista da camionete, um homem de grande chapéu e com um enorme bigode branco. De fato, a manobra de ultrapassagem do motorista do Golfo foi altamente arriscada. Olho para o crucifixo que está pendurado no espelho retrovisor interno, que foi presente do Toninho, o motorista do ônibus que nos levava para a universidade nos tempos de graduação. Percebo como a vida passa diante dos nossos olhos e a gente não vê. Uma colisão como a que quase ocorreu agora pode custar a vida de uma ou mais pessoas. Como dizem, “para morrer, basta estar vivo”. Novamente a idéia de ter que viajar duas vezes por semana por esta estrada, na condição de motorista, volta a incomodar-me. Infelizmente, não tenho outras opções no momento. Preciso trabalhar. Não se trata apenas de uma realização profissional, mas de uma necessidade. Não posso desistir. Além disso, estou em uma situação que muitos outros gostariam de estar. Não posso reclamar. Eis que recrimino novamente pensamentos de revolta com o meu bom senso. E a viagem continua. Estou na altura da entrada de São José da Bela Vista, cidade em que a minha querida Débora dá aulas de Português. Sei que ela está ali neste momento, trabalhando. Meu desejo é desviar-me do caminho e ir encontrá-la, para dar-lhe um abraço apertado. Mas não posso. Tenho que ir trabalhar. Ela também precisa. Não quero incomodá-la... Passam-se alguns quilômetros e eu avisto, à minha direita, uma barraca de caldo de cana. As lembranças desta barraca fazem-me rir. Recordo-me que no início de 2004 a Débora e eu vínhamos para Franca quando o meu carro começou a jogar água pelo vidro. Ao abrir o capô, notei que a parte superior do radiador havia estourado! Tive então que passar o volante para a Débora, para que ela controlasse o carro enquanto eu empurrava o carro, de marcha-a-ré, para deixá-lo à sombra da grande árvore, ao lado da tal barraca. Enquanto ela ficou tomando um caldo de cana gelado, eu saí caminhando pela estrada, sob um sol de quase 30oC, em direção ao posto que ficava a uns 3 ou 4 km dali. Tudo isso aconteceu porque nenhum de nós dois tinha celular... Por falar em celular, onde está o meu? Remexo na bolsa que o cumpadre Cláudio deu-me de presente e consigo identificá-lo entre o grande número de coisas jogadas que ali estão. Passam-se mais alguns quilômetros e eu avisto um motel. Começo a rir novamente, embora a situação que me vem à memória devesse fazer-me chorar. No final de 2003, eu vinha para Franca com meu primo Frederico, dar aulas à noite. Estava orgulhoso do carro, pois o havia lavado e encerado. Os bancos do carro haviam sido recentemente trocados e eu estava muito orgulhoso disso. Eu vestia camisa social. Era a primeira vez na condição de docente que eu viria à universidade com o meu próprio carro. Foi justamente na frente deste motel que nós tivemos que parar o carro ao notar que uma fumaça saía pela tubulação de ar no capô. Para minha surpresa e revolta, vi que tinha esquecido de colocar a tampa do reservatório de água do radiador após tê-lo abastecido... Diante de tamanha trapalhada, que muito caro me custou, só rindo mesmo! Continuo a 110 km/h. O tráfego fica novamente lento, pois o lugar em que os guardas rodoviários costumam ficar “escondidos” está se aproximando. Resultado: todos os veículos diminuem sua velocidade. E o riso recomeça... A quem queremos enganar? Por que precisamos sempre de alguém que fique nos vigiando para que não façamos nada de errado? Neste ponto da viagem, enxergo que às vezes os adultos agem como se fossem crianças travessas, que precisam ser corrigidas por causa de suas travessuras... Após quase 40 min de percurso, a universidade aparece, altiva, diante de meus olhos. Encho o pulmão de ar. Vamos para mais um dia de trabalho. Que Deus me ilumine!!!

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