quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Com medo do abandono

22h36min. O som da cadeira rompe o silêncio na cozinha. Acabo de tomar alguns mililitros de leite na minha caneca do “Superman – o retorno”, como sempre faço antes de ir dormir. As luzes da casa estão todas apagadas. Após o estrondo da caneca caindo no fundo de latão da pia da cozinha, o silêncio volta a reinar. Este silêncio diz muitas coisas; a principal delas é que o papai deve estar acordado. Isto é relativamente óbvio, já que sempre ouço o ruído de seu ronco. Paro, então, na entrada do quarto. Ouço então o papai e a mamãe conversando baixinho. A mamãe deitada de bruços, exatamente na posição que tanto prejudica sua coluna. O papai está de barriga para cima, olhando para o forro de madeira, com o punho sobre a testa. Ele está pensando em algo. Seu olhar parece distante, embora não consiga identificar para onde ele está olhando, por causa do escuro. Ao ver minha sombra desenhada na porta do quarto, impedindo a passagem da luz que vem do corredor, ele me chama. “Filho, vem cá. O papai precisa falar com você”. Eu conheço bem este tom de voz. O papai está triste. Apertando a mão dele, eu o incentivo a dizer o que ele queria. “O que foi, papai? Pode falar.” Após um longo suspiro, como se estivesse cansado ou como se estivesse precisando desabafar algo que lhe aflige, ele começa. “Filho, está acontecendo algo muito triste na nossa família. Como você sabe, o vovô Crotti e a vovó Lourdes estão muito doentes. A vovó está esclerosada, o vovô está escarrando sangue pelo nariz por causa do cigarro. Agora, mais do que nunca, os dois precisam dos filhos. Nós somos em cinco filhos, mas a maioria deles ‘tirou o c... fora do ponto. Sua tia se recusa a pagar o plano de saúde do vovô, porque acha uma sacanagem ele dar o dinheiro pra “quenga” dele. Sua outra tia disse que não vai mais fazer as compras da casa. Seu tio está com raiva do vovô Crotti, o outro tio não tem dinheiro e, mesmo que quisesse fazer alguma coisa, não teria como ajudar. Já falaram até em mandar o vovô Crotti para o asilo, caso a vovó Lourdes morra primeiro...” Por um instante, o papai pára e fica analisando minha reação. Eu sei exatamente o que ele quer ouvir, mas me limito a balançar a cabeça, em sinal de desaprovação diante dos fatos que ele narrou. O papai retoma o discurso. “Filho, seu avô nunca foi um bom pai. Eu nunca recebi sequer um abraço dele... Desde que comecei a trabalhar como engraxate, aos 10 anos, eu ajudava em casa. Todo o dinheirinho que eu ganhava sempre ia pras mãos da ‘mãe’. Quando tinha 15 anos e dei minha primeira viagem de caminhão, o ‘pai’ me disse: ‘Se quer comer aqui em casa, vai ter que dar metade do que você ganhar’. Também presenciei o ‘pai’ bater na mãe várias vezes. Sei também que o ‘pai’ tem uma amigada, pra quem ele dá toda a aposentadoria dele. Eu não acho isso certo, filho. Ele não foi um bom pai nem um bom marido pra ‘mãe’, mas não é por isso que eu vou abandonar ele no fim da vida dele. Agora ele está doente, sem forças É o momento em que ele mais precisa dos filhos. O caminhão e o carro dele estão no nome da sua tia, mas ela foi a primeira a se recusar a pagar o plano de saúde dele e, junto com seu tio, disseram que querem mandá-lo para o asilo. Eles não deviam fazer isso, porque também têm filhos e, um dia, também vão ficar velhos. Ele pode ser o que for, filho, mas é meu pai! É meu pai e eu não vou deixar que ele acabe abandonado em um asilo. Tudo o que a gente faz de bom nesta vida volta pra gente. Espero que você se lembre disso quando eu envelhecer.” Ao final de suas palavras, consigo entender o que o aflige. Não é apenas a dor iminente de perder seus pais, mas também o medo da possibilidade de também envelhecer e de precisar de mim e da minha irmã. “Papai, o senhor sempre foi um bom pai para mim. Eu vejo no senhor um exemplo de pai e de companheiro pra mamãe, embora eu saiba dos gritos que vocês trocam quase o dia inteiro... O senhor sempre gostou das coisas certas, ao ponto de ser conhecido por ‘chato’ ou ‘sistemático’. Também sei que o senhor nunca fez mal para ninguém e que é um homem bom de coração. Sempre foi um pai muito carinhoso. É muito difícil um pai e um filho que se dá tão bem como nós dois. Se o senhor não vai abandonar o vovô Crotti, que foi ruim para o senhor, o senhor acha que eu seria capaz de abandoná-lo?” “Bom, acho que não. Eu espero que não.” Levanto-me então e peço-lhe sua bênção. Após sentir seu beijo estalado no rosto, eu me retiro do quarto, repetindo a frase que ele acabara de dizer: “O que a gente faz de bom nesta vida, volta pra gente”.

Um comentário:

A Mente da Mulher disse...

Antonio,

Diga para o seu pai que nem sempre o asilo é a pior opção.Muitas vezes é a maneira que encontramos de ver nossos "mais velhos" cuidados o tempo todo, tempo que nós não temos para dar, por mais que queiramos.
Diga para o seu pai que "abandono" é o que seus tios estão fazendo agora, se eximindo de qualquer responsabilidade. Abandono é ligar o f... e esquecer ou ir viver a própria vida.
Pena, Antonio, que eu não tenho mais tempo de te visitar. Mas, visito sempre que dá. É que a gente sempre deixa para o final aquilo que mais nos dá prazer em prol das coisas que temos que fazer e não podem esperar.
Errado, um dia a gente melhora.
Beijos em você e nos seus pais.