terça-feira, 22 de agosto de 2006

Enfim, um dia "quase" perfeito!

Apesar de cansativo, hoje foi um dia muito especial para mim. O engraçado é que só agora, às 23h47min, é que fui me dar conta disso... Durante a manhã, como de costume, tive aulas no ensino médio. Na minha primeira aula (que na verdade era o segundo horário), no primeiro ano, comecei a abordar as ligações químicas. Na segunda aula (na verdade, a terceira e última antes do intervalo), no terceiro ano, decidi, pela primeira vez desde que ingressei naquela escola, mostrar-lhes um filme. Como o assunto que estamos estudando são as reações nucleares, achei que o “Homem Aranha 2” seria uma ótima opção, principalmente porque eu também sou fã do “cabeça de teia”. Fiquei satisfeito quando eles se admiraram com a tentativa frustrada do Doutor Octo Octavius de controlar o processo de fusão nuclear. Na primeira aula após o intervalo, fiquei surpreso ao ver um aluno entregar-me uma carta. “Fessor, dá uma olhada no que uma mina escreveu pra mim”. Eis que encontro naquele papel, escrito em letras cuidadosamente desenhadas, versos de amor! Meu Deus, há quanto tempo eu não via isso! Até que enfim encontrei um jovem que, assim como eu na adolescência, gosta de escrever movido pela paixão! Sim, na verdade era ele quem havia escrito aquelas palavras. “Olha, isso aqui não foi uma menina que te entregou, não. Que história é essa de ‘você é linda’?” Seu rosto ficou vermelho e, meio sem jeito, ele disse, olhando para baixo, tímido: “Não, fessor, fui eu quem escrevi pra uma mina aí.” “Pô, você não precisa ficar com vergonha. Isso aqui ficou muito bom! Tem alguns errinhos aqui que eu vou corrigir pra você, pode ser?” Sentindo-se mais à vontade e desenhando um grande sorriso, ele balançou a cabeça, concordando com minha iniciativa. Não é preciso dizer que seus colegas de classe começaram a tirar o sarro. “Aí, fessor, o cara ta apaixonado!” “Uai, vocês nunca escreveram uma carta de amor pra uma ‘mina’?”, perguntei. “Que isso, fessor! A gente tem que aproveitar a vida! A gente ainda tá muito novo”, retrucou um deles. “Mas quem disse que se apaixonar não é aproveitar a vida? Moçada, apaixonar-se é muito bom, principalmente na adolescência. Aquele aperto no peito, aquele friozinho na barriga, aquela vontade de ficar junto... Vocês têm que aproveitar essa parte da adolescência também! A intensidade dessas sensações vai diminuindo à medida que vocês vão envelhecendo.” Dobrei a carta e coloquei-a no bolso, prometendo-lhe que corrigiria e entregaria dali há alguns minutos. Na outra aula, também em um segundo ano, tive que interromper a aula para que dois atiradores do tiro-de-guerra pudessem distribuir convites para um passeio ciclístico que irão realizar neste fim de semana. Enquanto eles estavam na sala de aula, notei como algumas meninas suspiravam quando eles chegavam perto. Fiquei com vontade de rir, pois aquela situação me pareceu muito familiar. Afinal, acontecia a mesma coisa há 11 anos atrás, quando eu era atirador. Não comigo, claro, que sempre fui um “patinho feio e tímido”, mas com os outros colegas, que eram um pouco mais “espertos”. Enquanto as alunas ficavam de um lado da sala, dando seus nomes para os atiradores escreverem nos convites, do outro lado os meninos ficavam excomungando os atiradores, chamando-os de “periquitos do governo”. Quando os atiradores foram embora, um dos alunos soltou o verbo e disse que queria sair na porrada com um deles. “Fessor, esses caras ficam se achando de farda! São muito folgados!”, dizia em voz alta, chamando a atenção das meninas, que ainda suspiravam. “Rapaz, vou te contar uma coisa. Você ainda vai ser um atirador do tiro-de-guerra. Se eu ainda estiver nesta escola e se você aparecer aqui de farda, eu juro que vou te lembrar dessas suas palavras. Aí eu quero ver o que é que você vai me dizer... Quero ver se com você vai ser diferente!”. Na última aula, alguns alunos estavam terminando um trabalho de artes. Como eles me pediram para terminar o trabalho, dirigi-me ao fundo da sala e sentei-me entre os alunos. Não me recordo agora como surgiu o assunto, mas em um determinado momento da conversa começamos a falar sobre drogas. Fiquei impressionado com a verdadeira aula que eles me proporcionaram. Na verdade, sou completamente leigo no assunto (graças a Deus, né?). Percebi que todos eles entendem TUDO de maconha, cocaína, pedras, “nóias” e coisas do tipo. Também fiquei um tanto que chocado ao saber que eles não consideram que a maconha é uma droga. Dizem que quem fuma fica apenas “de boa” e não dá trabalho pra ninguém. A cocaína é que leva ao vício, a maconha não. Passei o resto do dia pensando em uma maneira de fazê-los perceber que estão errados. Ainda vou (e preciso) dar um jeito nisso. À noite, na universidade, interrompi a explicação para contar minha vida. Embora seja professor daquela turma desde o ano passado, ainda não havia lhes contado minha vida. Fi-lo porque percebi que os alunos tinham entendido o que eu havia explicado, mas mesmo assim estavam dizendo que era difícil. “Caramba, se vocês entenderam, então não é difícil. Difícil é o que a gente não entende.” Após terminar de contar minha trajetória, senti que muitos deles se sentiram motivados ao saberem que passei por maus bocados. Alguns, inclusive, disseram que querem seguir os estudos após a graduação, o que me deixou muito satisfeito. Nas duas últimas aulas presenciei os alunos “descendo a lenha” em vários professores. Disseram que, no início, não gostavam muito da aula que eu ministrava, mas me disseram que eu sou um professor acessível, com quem eles podem conversar, e que aos poucos fui adequando a aula às expectativas deles. Fiquei muito feliz, principalmente pela confiança que depositam em mim para falarem destas coisas comigo. Ah, já ia me esquecendo: dois alunos do 4º. ano, que vão se graduar ainda esse ano, pediram-me para não agendar nada para o dia 20 de dezembro. Dizem que têm algo muito bom para mim. Se eu não estou enganado, acho que a formatura será neste dia. Tenho a impressão que eles vão me homenagear na colação de grau. Eita nóis!!! Hoje vou dormir feliz, de alma lavada. Há bastante tempo eu precisava viver um dia tão intenso como este. Obrigado, meu Pai!!!

3 comentários:

Ramiro disse...

Olá Antônio,

ou posso chamá-lo tão somente de Professor? rs... visto que tenho grande admiração por professores estive passando por aqui novamente e não deixei de ler o teu último post. Realmente foi um dia maravilhoso não? Uma coisa que eu gostaria de fazer é licenciatura em História, só para ter o prazer de ensinar e de ver outras pessoas aprendendo junto comigo. Parabéns Professor, que Deus esteja iluminando teus caminhos cada dia mais, e sempre estarei passando por aqui. Não ligue se às vezes meu blog fica meio abandonado, é que ainda estou me acostumando com ele, mas ele parece ser gente boa rsrs... abraços e fique com DEUS

Márcio Roberto do Prado disse...

Tonhão, salve, salve!

Em primeiro lugar, muuuuuuuuuuuuuuuuuuito obrigado, man! Eu adoro a música! Foi demais esse envio, valeu! Considerando seu gosto musical, encontrar algumas canções no seu blog vai ser muito bom mesmo. Além disso, gostaria de reafirmar o quanto é legal a proposta de disponibilizar as HQ’s. Eu, por exemplo, quando estava fora do Brasil, para não pagar (caro e em euro) por novidades e “velhidades” em matéria de comics, entrei de cabeça nos scans. Sempre tenho pelo menos 8 gigas de material no notebook para ler onde estiver. Gosto tanto que por duas vezes dei palestras aqui na UNESP a respeito de Watchmen, do bom e velho Moore, e, nesse semestre, vou mudar o programa de uma disciplina apenas para colocar quadrinhos na jogada. Bão dimais da conta!

Não menos importante, é muito bom saber que as coisas entraram um pouco nos eixos. Fico feliz pelo homem de caráter e pelo amigo, claro!

Abração e, novamente, valeu!

Márcio

Antonio E. M. Crotti disse...

Grande Ramiro!
Não se preocupe, pode chamar-me como quiser. Afinal, não deve haver formalidades entre amigos, certo?
Fico feliz que você queira ser professor. É uma profissão que requer muita doação, sem muito receber em troca. Mas o que se recebe em troca, meu amigo, não tem dinheiro no mundo que pague! Enfim, é uma profissão que vale a pena. Assim como você, sempre quis ser professor e, apesar dos apesares, não trocaria esta profissão por nenhuma outra no mundo!
Um grande abraço e obrigado pela visita! Volte sempre!