terça-feira, 15 de agosto de 2006

A frase que sempre quis ouvir como professor

7h50min. Estou no colégio da rede pública onde leciono. A passos largos, sigo em direção a uma das salas do primeiro ano do ensino médio. Enquanto caminho, fico pensando que não vim parar aqui por acaso. Sei que foi porque Deus quis que assim o fosse, mas ainda não consegui enxergar qual a minha verdadeira missão aqui neste espaço. Tenho mencionado aqui que não me sinto um bom professor nem tampouco acho que ministro boas aulas.Sendo assim, eu imagino que o Pai trouxe-me aqui por uma razão que até o momento desconheço. Até agora... Entro na sala com um “Bom dia!”, ao qual os alunos retribuem em coro. “Nooossa, professor! Hoje o senhor está de óculos. Que feio!” Com a caderneta já aberta, eu olho por cima dos óculos, com uma expressão de quem não gostou muito do que ouviu. A aluna que fez tal “elogio” fica um tanto que intimidada com o meu olhar. “Desculpa, professor”. Então eu sorrio. Ao me ver sorrindo, ela sabe que não estou chateado e, assim, retribui ao sorriso. Outros alunos também começam a rir, achando graça no que a colega acabou de dizer. Eu não me importo. É a forma deles de mostrarem que gostam de mim. E eu sei que gostam. Já o meu sorriso é a minha forma de demonstrar meu apreço por eles. São jovens de bom coração, que aos 15 anos, aparentemente ainda não foram diretamente contaminados pela maldade do mundo que os cerca. O assunto de hoje será a classificação periódica dos elementos. Penduro a tabela em frente ao quadro e, após fazer a chamada, começo a explicar-lhes o conteúdo. Após algumas informações sobre a forma como a tabela foi elaborada e como ela foi dividida, chega o grande momento. “Agora nós vamos decorar cada um dos elementos químicos e seus símbolos”. Após um sonoro “aaaaaahhhhhhhh”, já esperado, peço para que repitam o nome de cada um dos elementos. Após isso, escrevo no quadro negro uma frase que vai ajudá-los a memorizar o nome e o símbolo de cada um dos elementos. Eles acham engraçadas as frases. Quando dou aulas assim, fico me sentindo um verdadeiro professor de cursinho pré-vestibular. Após memorizarmos umas duas ou três famílias, eu lhes conto uma piada. No final da piada, vêm as gargalhadas. Não sei se riram da piada ou da minha interpretação, ou mesmo de ambos. Já me disseram que fico muito engraçado contando piadas. Dia desses contei uma piada olhando no espelho. Notei que faço caretas muito engraçadas e compreendi, então, porque eles costumam rir tanto. “Professor, vou colocar o nome no meu filho de ‘estrôncio’”. Todos riem. Mostro então alguns elementos químicos cujos nomes são muito estranhos e que, satiricamente, poderiam ser usados como potenciais nomes de batismo de algum dos filhos deles. “O Califórnio, por exemplo, foi descoberto na Califórnia”, digo. Para minha surpresa, um dos alunos solta uma pergunta que, sem dúvida, mudará o rumo da aula. “Fessor, em que país a Química é mais avançada?” Respondo que é nos Estados Unidos e explico que não é pela falta de capacidade humana, e sim de apoio financeiro. Esclareço também que nosso país não é mais avançado porque falta investimento em pesquisa por parte das indústrias. “Tenho vários colegas que foram fazer estágio fora do país. Todos me disseram que eles (os gringos) não são tão bons como a gente pensa, e que nós não somos tão ruins como pensamos”. Neste momento, percebo que o silêncio predomina na sala. Todos estão me olhando, curiosos, atentos ao que estou dizendo. “Ah, fessor, eu sou meio burrinha”, diz uma aluna. “Não, você não é burra, não. Nenhum de vocês é. Pelo contrário: vocês são muito capazes e podem conseguir tudo o que quiserem na vida, de maneira honesta. Basta terem força de vontade e perseverança”. Começo então a contar a minha vida. “Olhem só pra mim: sou de família pobre, assim como vocês. Sempre estudei em escola pública. Estudei em escola particular com bolsa, que ganhei por ser um bom aluno. Fiz inglês também com bolsa, porque fui sorteado por ser bom aluno. Sempre fui pobre. Fui ter carteira somente aos 21 anos, pois até então eu não tinha um centavo sequer para nela colocar.” Neste momento, sinto que não tenho apenas a atenção deles, como também percebo uma espécie de admiração. Continuo contando das minhas dificuldades na graduação e na pós-graduação. Conto da falta de dinheiro, que sempre foi uma constante em minha vida, e que agora, embora não seja rico, eu me sinto um verdadeiro vencedor. “Não esperem que ninguém passe a mão na cabeça de vocês. Raras serão as pessoas que lhes oferecerão uma mão quando vocês estiverem na lama. A vida não é fácil, mas se fosse fácil não teria graça. Nada é impossível, desde que vocês tenham força de vontade e determinação para conseguir. Eu consegui.” Os alunos parecem em transe. O sinal toca. “Pessoal, a gente se vê na próxima segunda-feira! Tchau e obrigado!” Enquanto me dirijo à porta da sala, ouço um aluno dizendo para o colega. “Rapaz, eu cheguei na escola com sono. Depois de uma aula dessas a gente até anima a estudar!”. Eis a frase que eu esperei ouvir desde que comecei a dar aulas. Um entusiasmo sem precedentes toma conta de mim neste momento. Talvez eu esteja começando a entender, finalmente, a minha verdadeira missão como professor deste colégio. Olho para o céu e agradeço o sinal que Deus acabara de enviar-me para mostrar-me que estou no caminho certo.

3 comentários:

Adriene disse...

Oiiii "irmão da Hérica" haha!
Posso te chamar de Edu? é mais bonitinho! haha
Seguinte, sei perfeitamente do que vc fala nesse post...
Eu tbm estou no 1ºano do ensino médio e sei como é cansativo ficar sentado olhando pra um professor e ás vezes querendo que ele "vomite" conhecimento na nossa cabeça...
Graças a ESSE tipo de aula que vc soube tão bem dar, é que não espero mais isso deles. Claro que foi difícil! Claro que É dificil! Mas aulas como essas sempre dão uma ajuda e vc está no caminho certo como professor!

Bjo
Parabéns por isso!

cristine disse...

Oie Antonio!

Como a Adriene, eu estou no 1º EM e tem alguns professores que não se importam em passar o conhecimento de vida deles para nós.. apenas vomitam a matéria para tirarmos nota nas provas e passarmos nos vestibulares da vida.
Mas tbm há aqueles que dão muito mais do que uma aula.. ensinam a vencer as barreiras que a vida impõe.. nos ensinam a pensar e a descobrir a melhor maneira de resolver os problemas.
São por esses que vale a pena ir à escola e estudar. São esses que nos incentivam a continuar sempre em frente, sem esperar apoio de ninguém. E com certeza vc é desse tipo.

Agora, fiquei curiosa para saber quais frases vc usa para decorar a tabela.. eu só lembro da bela magrela casou com o senhor barão ratão e dos sete porquinhos.. rsrs

Antonio E. M. Crotti disse...

Oi Cristine!
Aí vão as frases:
Família 1A: Li Na Karta Roubada Cesio Franco
Família 2A: Bebi Magnésio na Casa do Sr Ba Rao
Família 3A: Bobo Alegre Ganhou do Índio Tálio
Família 4A: Comi Siri e Geléia Sen Chumbo.
Família 5A: Ninguém Pode Assim Subir Bicando (ninguém pode "pisar" nos outro pra subir na vida).
Família 6A: O Seu Severino Tem Poder (o Severino Cavalcanti, ex-presidente da Câmara).
Família 7A: Foi Clóvis Bornai que Invadiu Atenas
Família 8A: Hélio Nega Armar Krimes Xen Rancor (Hélio só mata quando está nervoso).
Logicamente não sou tão criativo como os professores de cursinho. Como você pode ver, são frases "bobinhas", mas que têm dado resultado. Espero que lhe sejam úteis.
Abração!