sábado, 5 de agosto de 2006

Saudade dos tempos de semeadura

São 0h59min. Não vejo nada. O quarto está escuro, as luzes estão apagadas. Deitado no chão, de olhos abertos, estou tentando fazer algo que há muito tempo não faço: refletir sobre a vida. É triste aceitar que ao me deitar, não tenho conseguido sequer rezar, tamanho o cansaço que me abate. Às vezes tento conversar com Deus, deitado de lado, mas o sono sempre me vence... Mil pensamentos me passam pela cabeça neste momento, mas o que mais me incomoda agora é a saudade dos colegas. Às vezes adormeço ouvindo Enya e me lembro das vezes em que adormeci lá na moradia de pós-graduação da USP ouvindo este mesmo CD. Hoje, neste pequeno quarto, adormeço sozinho. Não ouço passos dos colegas andando pelos corredores da casa, provavelmente correndo para o banheiro por causa das diarréias. A luz do corredor, que os colegas sempre esqueciam acesa, e que atravessava as fissuras da porta de madeira, não mais incomodam. A brisa fria da madrugada, que sempre penetrava pelas fendas da veneziana, não mais me deixa gripado. Hoje não mais tomo os achocolatados do tipo “Todyinho” nem tampouco como as bolachinhas de nata que a vovó Maria fazia especialmente para mim. Quantas vezes, antes de dormir, eu ficava até de madrugada conversando com meus amigos de quarto – o Vanderlei, o Ricardo (Jaw Jaw), o Gláucio, o Pancinha, o Alvim... Eram risadas e mais risadas... Já se passaram quase dois anos desde que deixei a moradia estudantil. Na época, eu tinha plena convicção de que tinha deixado verdadeiros “irmãos” ali, e que jamais perderíamos o contato. Certo. Acho que me enganei novamente... Desde então, ouso dizer que os e-mails que recebi dos meus antigos companheiros e companheiras não somam 20 (talvez não ultrapassem os 10!). Estas pessoas ocuparam um lugar muito especial no meu coração, mas ao se esquecerem de mim, deixaram um vazio enorme que não apenas está sendo difícil de preencher como também dói bastante... Foi assim no tiro-de-guerra. Foi assim na universidade. E será assim, sempre.. Diferente daquela época, hoje posso dizer que minha vida tem um rumo mais ou menos definido. Muitos dos meus anseios daqueles tempos já não me incomodam mais. Por outro lado, tudo está mais sério. Há horários para tudo, e tudo tem que ser feito “para ontem”. Embora eu esteja colhendo os frutos, sinto saudade da época em que estava plantando... Preciso aprender a virar mais esta página de minha vida, tão especial e bem escrita. Mas não pensem que irei rasgá-la de meu livro... “Qualquer dia, amigos, a gente vai se encontrar...” Qualquer dia, mas não um dia qualquer; no dia em eu Deus quiser... Coloco então o fone do toca-CD no ouvido. “On my way home I remember all the good days...” Uma lágrima me escorre pela face esquerda. Já é hora de dormir.

4 comentários:

Márcio Roberto do Prado disse...

Salve, Tonhão!

Finalmente estou de volta ao Brasil e instalado. Bem, na verdade, quero dizer que já tenho moradia fixa de novo e internet (o resto ainda está em andamento). Rapaz, voltar para cá está sendo tão difícil quanto foi para ir para a França. Só pepino! Bem, mas não era sobre isso que eu queria falar. Era sobre a natureza dos últimos posts.

Conforme já falamos aqui, tanto eu quanto você, o “Narrativas” assumiu seu caráter de literatura de memórias, o que permitiu explorar seu potencial ficcional a despeito da tão controversa veracidade dos fatos. É o caso, por exemplo, das histórias exemplares que, através da ficcionalização dos personagens, permitem que você passe adiante suas experiências de vida. É a recuperação de um dos mais antigos modelos do narrador como contador de histórias: transmitindo tudo aquilo que viu, ainda que não tenha visto ou, ainda, tenha visto de modo ligeiramente diferente.

Além disso, outra faceta dessa produção literária ficou evidente. Trata-se de uma faceta mais difícil de ser abordada e você mesmo falou algo nesse sentido. Ao se assumir como literatura, seu texto passa a ter um problema de forma. Isto é, passa a exigir de você a reflexão a respeito da forma a ser adotada em sua escritura. Essa preocupação apareceu no post “Procura-se um ‘meio-termo’”, em que a fundamental questão do leitor é destacada em uma passagem como: “ao escrever, fico pensando no que as pessoas vão achar sobre o que eu escrevi”. Contudo, mais significativa ainda é a passagem na qual essa preocupação com o leitor surge aliada a uma preocupação estética: “há também o problema de não querer escrever porcarias (como essas que eu escrevo neste momento...), que os outros não vão gostar de ler”. Ora, essas são questões que assombram todos aqueles que se colocam diante do desafio da folha em branco (ou tela em branco, sei lá…), afinal, a partir do momento em que sua produção passa a ser intencionalmente literária, ela traz para você a necessidade de ser pensada como obra e, assim, exigir uma forma não apenas em cada parte escrita, mas também no todo que vai além da mera soma de cada uma dessas partes.

Aqui eu vejo o principal perigo da empreitada, um perigo que atinge e normalmente vitima muitos casos de narrativas autobiográficas: ao “literarizar” demais a produção, muitos autores perdem o caráter autêntico (de novo, isso nada tem a ver com a “verdade”) de seus textos. Diante da constatação do quão interessante pode ser o que escrevem, são presa da pretensão exagerada e perdem a luz natural de seus instantâneos do cotidiano fugaz. Confesso que fiquei apreensivo com relação ao seu (e nosso!) “Narrativas”, pois o blog é uma de minhas leituras preferidas na rede, mas ao encontrar a sequência dos últimos posts, sobretudo esse, “Saudade dos tempos de semeadura”, meus temores se dissolveram. A sensibilidade com que você captou a tragicidade do Tempo que passa, através da recuperação mnemônica dos bons e velhos dias que ficam mais brilhantes conforme esse Tempo passa, deixaram-me comovido. Talvez porque eu também tenha passado por experiências semelhantes. Com certeza em função do escritor que soube como traduzi-las no post. Sabe, às vezes dói quando “I remember all the good days”. Dói, mas é bom demais. Resumindo, Tonhão: os textos tão duca, muito bons mesmo, parabéns!

Bem, era isso. Perdoe-me pela demora em escrever e fique com um abração deste seu amigo,

Márcio

Antonio E. M. Crotti disse...

Meu grande amigo Márcio!
É um grande prazer receber sua visita aqui no "Narrativas" e, através de seus comentários, saber sua opinião sobre este blog. De certa forma, o "Narrativas" está se tornando, como você disse, um espaço "literário", onde minha vida vai sendo, aos poucos, contada na forma de narrativas (ou contos, ou crônicas, sei lá como se chama o que eu escrevo...).
Felizmente (ou infelizmente, também não sei dizer), tudo o que eu escrevo aqui é a mais pura verdade (relativa, claro, pois você disse que ao se tornar texto, já não é mais verdade - que louco, isso!). Queria eu ter a imaginação do Eudes, para criar histórias como as que ele escreve sobre o tal de "Jerusalém Jones"...
Quando digo que penso no que vou escrever, minha preocupação é apenas em selecionar o assunto e em escrevê-lo da melhor maneira possível, com riqueza de detalhes e de forma que eu me sinta satisfeito com o resultado (em outas palavras, se eu consegui expressar o que eu sentia na ocasião em que o fato aconteceu). Acima de tudo, eu procuro escrever de uma forma que o leitor se sinta no meu lugar e tenha as mesmas sensações que eu tive. Meu objetivo é fazer com que o leitor se sinta "eu" e entenda como penso e como me tornei (não sei se bom,não sei se ruim...) o que sou hoje. Minha preocupação também se deve ao fato de eu não ser adepto do "oi, gente, tudo bem? Estou passando pra postar... bla bla bla"). Achar-me-ia ridículo assumindo este estilo "Bruna Surfistnha", não apenas porque não é de minha personalidade, como também acredito que o e-mail seria uma forma mais fácil e rápida de me comunicar com o número reduzido de pessoas que aparecem por aqui.
Encontrei nas "crônicas autobiográficas (somente uma delas, a última, é que não tem nada a ver comigo) porque foi a forma mais "pacífica" que achei de expressar minha mágoa com algumas pessoas que passaram por minha vida e que muito me decepcionaram. Fi-lo porque não quero encrenca com essas pessoas, embora já não signifiquem tanto para mim.
Quero, ainda, agradecer-lhe por tão sincera e crítica análise deste blog. Seus comentários em muito contribuem para que a autenticidade esteja sempre presente nas linhas que você ler aqui.
Por fim, desejo-lhe muita sorte no seu período de reinstalação. Torço para que as coisas entrem nos eixos o mais rápido possível.
Um grande abraço,
Do amigo
"Tonhão"

Adriene disse...

Antoniooo!!
Isso foi um post desanimador!
Não se pode pensar assim... Alguns amigos, sendo realmente amigos, continuam a longas distancias e sem noticias. O fato de nos sentirmos bem ao lado deles pode torna-los amigos!

Obrigada pelo comentário no meu blog, essas coisas tipo música, são todas no html, eu achei o da blogger muiiito dificil de mexer,p or isso fiz o meu na uol, mas vc é expert em inglês? haha, então consegue..

Bjooo

Luciano Momesso disse...

Tonhão, meu querido, sou teu fã, cara! Você é uma pessoa abençoada e que dissipa humildade por onde passa. Abraço.