quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Uma segunda chance

16h57min. Acabo de girar a chave para desligar o carro. Com a mão esquerda, puxo a maçaneta interna do carro e a porta se abre. Jogo a perna esquerda; a direita vem depois. No braço direito, levo a toalha e a sunga, ambas molhadas. Alcanço um prendedor para a sunga e a penduro no varal. A toalha fica estendida logo ao seu lado. Ao olhar para frente, na cadeira de tiras de plástico forrada com um colchinil amarelo, encontro o papai. Sentado, com um olhar perdido e com as pernas cruzadas, o braço direito levantado e apoiado em cima da cabeça, ele me olha. “Filho, você quer ir lá ver o carro?” Hoje faz dois dias que meu pai sentiu-se trocado pelo futebol das tardes de sábado. Ainda assim, ele parece manter-se firme na posição de querer-me mostrar o tal carro. “Meu filho, vai com o seu pai, pelo amor de Deus! Assim ele pára de encher o saco!”, esbraveja a mamãe, de dentro do quarto onde está costurando. Conhecendo meus pais como eu os conheço, posso afirmar que os dois estavam brigando por causa do maldito carro, que sequer temos condições de comprar. Ela certamente estava me defendendo, dizendo que o papai é muito chato e que fica exigindo que eu vá ver um carro que não me interessa. Ele, em contrapartida, deve tê-la chamado de “indecente” e “enjoada”. Olho para o papai. Ele mantém os olhos fixos em mim. Em retribuição, eu lhe lanço um olhar parecido com o de sábado. Seus olhos permanecem tristes desde sábado... Olho então firme para ele e, olhando dentro dos olhos dele, digo o que ele quer e merece ouvir: “Então vamos, papai”. Ele descruza as pernas, joga o pesado tronco sobre os joelhos e se põe de pé. “Bem, abre o portão. Nós vamos lá ver o carro”, diz ele, com um vestígio de satisfação em suas palavras. 17h20min. Acabamos de retornar da “aventura”. O carro é, realmente, muito bonito, mas minha postura continua a mesma: minha prioridade é a construção de minha casa. Carros deverão ficar, pelo menos por enquanto, em segundo plano. Mas isso parece pouco importar para o papai. Enquanto me sento à mesa para ingerir o jantar, que a mamãe já deixou no prato, o papai joga a chave sobre a mesa e, enquanto tira a camisa e a pendura sobre a cadeira de madeira, diz pra mamãe, com uma voz vitoriosa: “Eu não te falei? O Dado ficou doidinho com o carro!” Às vezes precisamos dar uma segunda chance. Às vezes precisamos de uma segunda chance.

Um comentário:

Adriene disse...

Olá!
Acho que vc lembra de mim...
Eu estava no aniversário da Clara, sou a outra filha da coordenadora haha (irmã da Ana)...
Bom, eu já passei por aqui algumas vezes (sua queridíssima irmã me aconselhou a ler, hehe)
Triste isso, mas eu lia e nem comentava, porém, achei que os últimos posts mereciam um comentário...
Não preciso dizer que vc escreve extremamente bem, não é?
E se vc acha que o post abaixo é escrever bobagens, eu acho que posso desistir do MEU blog! haha, mas eu gosto dele mesmo assim...

Sobre as suas 1ªs, 2ªs e todas as chances, eu ainda acho que tudo é valido enquanto há tempo, sabe?
Acho tão bonitinho vc dizendo o valor que vc da à sua familia quando escreve, que só de faze-lo já é algo muito nobre (a outra parte da nobreza, claro, tem que ser na prática)...
Eu quero sempre dar valor aos meus pais assim como vc faz... hehe

Bjo, irmão da Hérica!! haha

Quando vc tiver um tempo, passe no meu tbm ok?
Fui